
10.9.11
29 - fables 3.1

2.9.11
28- world war z

O princípio do livro faz-me pensar se não há aqui uma metáfora qualquer. Algures na China (metáfora número 1: virá da China o fim do mundo?), numa daquelas aldeias de alguma forma relacionadas com a Barragem dos Três Diques, aparece um miúdo que foi mordido por alguma coisa que estava debaixo da albufeira (metáfora número 2: a barragem como monstro que efectivamente é) e que, abreviemos, se transformou num morto-vivo, zombie para simplificar. A partir daí foi o que toda a gente facilmente adivinhará. As contaminações são funções exponenciais, toda a gente sabe. O mundo, tal como o conhecemos ficou rapidamente, comprometido, tal como a raça humana que muito rapidamente o estava a deixar de ser. Passamos então a ser confrontados com diversas histórias que nos relatam os efeitos, causas, consequências, reacções, efeitos em todo o tipo de pessoas, instituições e países. Estas histórias estão escritas em forma de entrevista, mas daquelas entrevistas feitas como deve ser, em que o entrevistador apenas monossílaba (esta palavra pretende ser um verbo, tipo eu monossílabo, tu monossílabas, etc.) e o entrevistado leva a sério o seu papel, que é o de ter alguma coisa para dizer. Cai assim, inevitavelmente, num monólogo. De seguida, as histórias mais interessantes, mas este é um caso em que o resumo não faz justiça ao livro, porque todas as histórias são interessantes, muitas são geniais, e eu vou esquecer-me de algumas...
O início: A China como metáfora do mal.
A China, origem involuntária da epidemia, fez, nas palavras do chefe da CIA, a maior operação de encobrimento de toda a história. Ou seja, para justificar os recolheres obrigatórios, as execuções em massa, as chamadas dos reservistas para o exército, etc, inventou uma guerra com o Taiwan, já latente há bué de tempo e desatou a fazer macro-Tianamens por todo o lado. De zombies, claro.
Israel: a recompensa da paranóia.
Israel, a primeira a aperceber-se e rapidamente a entrincheirar-se no muro que já tinham, inventando o conceito de quarentena voluntária abandonaram mesmo Jerusalém. Desta vez aceitaram os palestinianos. Isto se os cães os deixassem passar.
O falhanço da inteligência: a CIA.
Na América, a CIA falhou mais uma vez a previsão do que ia acontecer, só que desta vez com razão, pois tinha sido drasticamente reduzida depois de ter sido considerada a cabra expiatória da invasão do Iraque. Quando o governo finalmente se apercebeu da ameaça, criou equipas alfa, com os soldados das operações especiais que os americanos tanto gostam de acreditar que têm, e essas equipas terão feito tamanha carnificina que os registos das suas operações ficaram secretos por 140 anos. Todo o establishment americano optou por ignorar a epidemia, numa tentativa de autpo-preservação do status ou de, pelo menos, evitar o desmoronamento da sociedade capitalista. Isso seria tão mau como, sei lá, uma epidemia de zombies…
A decimação Russa
Na Rússia, quando os soldados se começaram a aperceber qual a sua missão e qual o inimigo a abater e se revoltaram, dizendo que queria ir para casa proteger as suas famílias dos zombies, o estado maior do exército aplicou a técnica de decimação. Ou seja, por causa de se terem revoltado, um em cada dez soldados seriam mortos e esse soldado que iria morrer era escolhido pelos companheiros e por eles executado. Que ficaram, a partir desse momento, tão comprometidos que nunca mais desobedeceram, ajudando assim a alcançar a vitória militar sobre os zombies, muito tempo depois.
A Guerra improvável: nuclear
Guerra, nuclear, entre o Paquistão e, surpreendentemente, o Irão, e não a Índia. Milhões de refugiados e zombes entram pelo Irão dentro, sem que o Paquistão se interesse em trabalhar em conjunto com o governo iraniano para parar a invasão. Desesperados, os iranianos bombardeiam uma ponte na fronteira entre os dois países. O Paquistão retalia e, dada a ausência de uma máquina diplomática bem lubrificada entre os dois países, a escalada ao nuclear é rápida e inevitável.
O bater no fundo: A batalha de Yonkers
Yonkers foi o sítio em que o exército americano agrupou, para fazer face à horda de zombies. Foi a maior acumulação de erros militares de toda a história bélica da humanidade. Porque puseram s soldados no chão, quando podiam tê-los colocado nos telhados, onde os zombies nunca conseguiriam chegar. Porque estavam os soldados equipados com full-extras, tipo máscaras anti-gás e tudo, que só lhes dificultava a visão e o movimento ? E o equipamento vídeo electrónico que permitiu aos soldados ver toda a desgraça que se passou em directo, desmoralizando instantaneamente. E porque é que havia tantos tanques, aviões, helicópteros e tão poucas munições? Yonkers deveria ter sido a prova perante toda a humanidade que ainda se controlava a situação, que, por muito mal que a coisa tivesse corrido até então, agora que o todo poderoso exército americano tinha levado a a situação a sério, tudo se resolveria. Não foi, antes pelo contrário. Foi uma derrota estrondosa em que a humanidade se apercebeu que, mesmo que não tivessem sido cometidos os erros que foram, não há vitória possível contra uma horda de 2 ou 3 milhões de zombies sem medo, sem consciência, que só param quando lhes destroem o cérebro. E como dizia um dos soldados: “Bolas pá. Passamos a vida toda a apontar para o centro de gravidade e de repente passam a querer tiros certeiros numa cabeça que se está sempre a mexer. Devem pensar que é fácil, com uma armadura que não nos deixa mexer e uma máscara anti-gás que não nos deixa ver.”
A salvação vinda da África do Sul: o plano Redeker.
A África do sul tinha sempre teve a sensação que, devido à sua instabilidade rácica interna, a qualquer momento a sua sociedade poderia implodir. Nessa perspectiva, o governo branco tinha um plano que permitiria a sua sobrevivência quando isso inevitavelmente acontecesse. Esse plano previa quem deveria ser salvo e como, tendo em conta factores de QI, saúde, profissão, valências, fertilidade, e por aí fora. A raça não era uma questão, uma vez que o plano foi feito para os brancos, mas a partir do momento em que o governo da África do sul, já negro, decidiu usar o plano para tentar salvar o país dos zombies, a raça continuou a não ser uma questão na selecção. O plano dizia, abreviadamente: Nem todos podem ser salvos. Querer salvar todos só gasta os recursos existentes e é impossível. Deve ser criada uma zona de segurança, não infectada, a partir de onde a humanidade possa reagrupar. Ou seja, partir de uma posição de fraqueza, depois de bater no fundo, começar a crescer. E, ao mesmo tentar, não deixar que o resto dos humanos não contaminados estejam demasiad o perto para tentarem entrar na zona segura, mas qute também não estejam demasiado longo para que possam continuar a atrair os zombies para os lugares considerados mais convenientes. A ideia seria a humanidade Tornar-se ela a nova epidemia. Tipo: o mundo é vosso, mas nós vamos reconquistá-lo. Criar zonas de iscos humanos, com populações saudáveis que sirvam de isco aos zombies, que ao perseguirem-nas, deixavam a zona de segurança em paz.
O Big Brother
A casa dos famosos tipo big brother, em que apenas os ricos podiam entrar e de onde, de dentro da protecção que a casa lhes garantia, poderiam ver o mundo a acabar, provavelmente entre gargalhadas e em directo para toda a gente ver, na televisão. Como sempre acontece com os ricos quando exageram na sua omnipotência, correu mal. A casa tinha sido pensada até ao último pormenor para resistir aos zombies, mas quem veio não foram os zombies, mas sim pessoas normais que, depois de ver a casa na televisão, correram a invadi-la à procura de protecção. Acabaram, como é lógico, todos mortos e a casa a arder. Em directo.
O cemitério dos barcos
Alang, na India, sempre foi o maior centro de desmantelamento mundial de navios. Grandes navios. A ideia era fazer os navios em fim de vida navegarem até lá para depois os encalhar a umas dezenas de metros da costa. Aí encalhados, esperavam que fosse a sua vez de serem desmantelados, sendo que esse desmantelamento eram feito manualmente, por centenas de operários que todos os dia iam em dezenas de botes desde a praia até aos navios, para os desmontarem gradualmente, peça por peça. Cada navio demorava assim meses e meses a ser desmontado, ficando sob a forma de carcaça esburacada a flutuar até ao seu derradeiro fim. Quando os zombies atacaram, a população dirigiu-se para o mar com o objectivo de, a nado ou nos botes, alcançarem os grandes navios onde estariam a salvas, podendo mesmo até sair dali caso alguns dos navios ainda funcionassem. Tipo Titanic, mas em sentido contrário. Tal como no Titanic, os botes também não chegavam para todos, o que efz com que a humanidade, no seu bom e no seu mau, demonstrasse naquela situação a sua verdadeira natureza. Se por um lado houve montes de pescadores e possuidores de barcos que depois de deixar as suas famílias em segurança voltavam à praia para fazerem todas as mais viagens que conseguissem para salvar mais pessoas, houve também aqueles que aproveitaram a posse dos barcos para lucrar, ou exigindo dinheiro, ou só admitindo mulheres jovens, ou só brancos, ou só mestiços, e por aí fora, ficando os rejeitados sem outra alternativa que não fosse nadar. O que também era complicado porque muitos dos nadadores estavam já contaminados e morriam debaixo de água, ressuscitando como zombies aquáticos. Que depois, literalmente, puxavam os tornozelos dos outros nadadores, infectando-os, afogando-os, para estes depois reanimarem num ciclo vicioso infindável. E a maior prova que a humanidade é incontornável aconteceu quando o dono de um dos botes (estamos na Índia, convém relembrar) disse que não admitia Intocáveis no barco dele. E, os intocáveis que estavam na fila, resignadamente, abandonaram-na e entregaram-se à morte. E ao resto…
O síndroma de Recusa Assintomático
Foi uma resposta natural do organismo humano à tragédia que se abateu sobre a humanidade com a invasão dos Zombies. Confrontadas com as mortes, as ressurreições infectadas, o fim da sua família, dos seus conhecidos, dos seus empregos, das suas cidades, enfim, de todo os seu modo de vida, as pessoas por e simplesmente desistiam iam para a cama e não acordavam no dia seguinte. Para combater esta doença, para fazer as pessoas acreditarem que alguma coisa estava a ser feita pelo governo, pelo exército, pelas outras pessoas para combater esta calamidade, um realizador de cinema resolveu começar a fazer filmes que inspirassem alguma esperança no coração das pessoas. Após ter pedido apoio ao governo e este ter sido recusado, começou a fazer documentários manuais e artesanais pelo país fora, sendo que o primeiro foi os últimos dias de um colégio interno em que os trezentos alunos que lá moravam resolveram combater até ao fim e conseguiram aguentar mais de dez mil zombies durante mais de quatro meses. O êxito deste filme foi tal que rapidamente outros se seguiram, sempre de situações de resistência heróica por parte da humanidade e de vitória conseguida e esperança renovada. E este efeito de esperança renovada deu os seus frutos, pois que cada filme que saía, mais pessoas iam vê-los e a taxa de SRA começou a diminuir, primeiro caiu dez por cento, depois vinte e por aí fora. O governo finalmente percebeu o potencial desta cura para a depressão e o realizador continuou o seu trabalho, passando dos documentários heróicos mas verdadeiros para a propaganda quase goebbeliana, tipo a documentar as novas armas anti-zombie que os iam derreter a todos (aos zombies) mas que na realidade eram projectos que já estavam cancelados na altura do filme. Mas o que foi facto é que a taxa do síndroma continuou a cair até que, como doença, passou a inexistente. O que constitui um grande contributo para a vitória final, na guerra…
Enfim… Muitas mais histórias valeria a pena referir, mas não faz grande sentido estar a reescrever o livro em parágrafos mais curtos, até porque, perante a qualidade dos textos, não há lugar nenhum para as minhas piadinhas habituais e para eu tirar conclusões muito profundas. Porque neste livro está lá tudo, muito mas muito mais do que eu conseguiria acrescentar. O livro é brutal…
23.4.11
27 - os mágicos
17.9.10
26 - o nome da rosa

9.9.10
25 - the stupidest angel

9.5.10
24 - the graveyard book

Neil Gaiman.
Estou dividido. Se tivesse que me decidir sobre escrever ou não um resumo para este livro, tinha algumas dificuldades. Embora possa não parecer porque este texto está aqui. Mas tenho dúvidas. Para mim um livro tem que ser uma coisa completa, uma experiência total. Tenho que o ler, perceber e depois gostar. Ou não. Neste caso, começamos por ter uma ideia genial, que é um bebé que consegue fugir ao destino de toda a sua família, que é o de ser assassinado por um assassino bué de cool, e foge para o cemitério, onde é apadrinhado pelos mortos que lá vivem. Mas, e como o cemitério tinha sido considerado reserva natural, desde há já muito tempo que não enterravam lá ninguém, pelo que os mortos que acolheram o bebé eram, chamemos-lhe assim, velhos. Antigos. É nos pormenores que se vêem as diferenças... Os pormenores geniais continuam. Como os mortos não sabem o nome do bebé, decidem baptizá-lo (até porque estão em solo sagrado) e decidem chamar-lhe Bod, diminutivo de Nobody, tradução de Ninguém, ironia grande, uma vez que o bebé era o único que era Alguém no meio de todos aqueles mortos. Começa bem, dizia eu, mas rapidamente Bod cai numa vida sem grande sentido, limitando-se a ser um vivo a assombrar os mortos, que neste caso até são seus amigos. Poder-se-ia dizer várias coisas. Que o vivo assombrar morto é uma contradição propositada.. Que a vida do vivo no meio dos mortos é forçosamente falha de sentido. E muitas alegorias mais... Mas o que é facto é que, neste ponto, o livro se torna algo aborrecido. As aventuras de Bod parecem um bocadinho forçadas, descontextualizadas e sem nenhum tipo de objectivo final que não o mostrar o que pode um rapaz vivo no meio dos mortos fazer. Embora seja seguindo estes momentos que nós o vamos conhecendo, a ele, ao seu tutor, Silas, à sua tutora substituta, Miss Lupescu, à sua amiga humana Scarlett, e aos mortos do cemitério, cada um deles com a sua particularidade, todos interessantes, sendo que a minha preferida é Liza, uma bruxa de olhos cinzentos, enterrada sem lápide, que é o maior castigo que se pode dar a um morto, ficar no anonimato para toda a vida. Bod, sensível para lá do humanamente possível, rapidamente se apercebeu disto e fez a sua primeira incursão no mundo real apenas para lhe arranjar a lápide. O que criou mais uma, como diria Heisenberg, impossibilidade quântica, porque por causa disto Liza apaixonou-se por Bod, o que a fez, novamente, morrer de amor. Isto é uma interpretação pessoal. E a vida continuou e a morte também. Bod visita as tumbas secretas do cemitério, encontra uns seres super esquisitos chamados ghouls, necrófagos que adoptam o nome do primeiro morto que comeram e vivem numa cidade só deles. Curiosos os nomes, que vão desde o arcebispo da Cantuária, do trigésimo terceiro presidente dos Estados Unidos, o duque de Westmisnster e o famoso escritor Victor Hugo. Quando estava quase a ser comido, é salvo pelo cão de Deus, um lobisomem enorme tipo new moon com a particularidade de ser antes uma lobimulher, mais concretamente, a Miss Lupescu, sua tutora substituta. Enfim, aventuras algo pueris, que me fizeram adormecer várias vezes, se calhar porque devo andar a atravessar uma fase muito adulta. Até que, um dia, Bod sentiu um ambiente diferente em todo o cemitério. Os mortos andavam mais ... vivos que habitualmente. Era o dia da Danse Macabre, que ao contrário do que o nome indica e embora seja efectivamente uma dança, não é puto macabra, antes é muito bonita. Nesse dia, os mortos acordam cedinho, vestem as suas melhores roupas e saem em cortejo do cemitério, até à cidade. Aí chegados, cada morto pega respeitosamente na mão de um vivo e convida-o para dançar, convite esse que é aceite e que dá origem a um festival de dança entre mortos e vivos, uma espécie de confirmação que somos todos iguais, com a diferença de os mortos já terem sido o que foram e não sofrerem mudanças durante a sua morte, enquanto que os vivos ainda não foram tudo aquilo que podem ser, indo passar o resto da sua vida a mudar, até morrer. A dança é sempre a mesma, a única coisa que muda é de que lado se estás. Mas a dança, em si, é incontornável. Não falei ainda de Silas, o guardião de Bod e, para mim, a personagem mais interessante do livro. Não falei eu nem falou o autor, que se limita a mostrá-lo impassível, vestido de preto , sempre de noite e a dizer coisas sempre acertadas. É pena. Gostaríamos de o conhecer melhor. Não falei ainda de Jack, o assassino. Que não era só um, eram de facto uma sociedade secreta de Jacks que tentavam contrariar uma profecia de que um rapaz haveria de nascer que seria capaz de andar na fronteira entre os mortos e os vivos. E, pelo vistos, isso poria em causa a tal sociedade secreta dos Jacks, embora não se perceba bem porquê. Provavelmente não será importante. Existem os maus, e eles são os Jacks. Existem os bons, que se chamam a Guarda de Honra e que destruíram os Jacks desde há muito tempo para cá, e da qual fazem parte Silas, Miss Lupescu e uma múmia com asas, se é que não me enganei na tradução. Se calhar enganei-me mesmo. Nunca vi em lado nenhum uma múmia com asas. Mas por acaso até acho original. E muito fixe.
Enfim. Algumas conclusões: As ideias de base são óptimas e o livro está cheio daqueles pormenores que eu gosto muito. É um livro aberto, que nos permite pensar e inventar coisas novas com base nesta base tão boa que ele nos dá. Mas também me parece um livro apressado, em que se vislumbram esboços de ideias e de sentimentos que não conseguimos agarrar bem, por serem tão ... rápidos. Tão leves. Identificamo-nos e gostamos muito de Bod, das suas angústias e dos seus problemas, mas quando o queremos ajudar e dar-lhe conforto parece que ele não nos dá confiança para tal e nos quer manter a uma certa distância. Mais uma vez porque as coisas não estão suficientemente desenvolvidas. É um livro à pressa, que quando nos esticamos para o agarrar (e porque ele merece sem dúvida ser agarrado) ele nos foge, entre os dedos, seja porque é demasiado fino, seja porque é pouco denso. O que são sinónimos, mas não deixam de ser verdades. E, digo eu, Silas deve ser um vampiro. Parece-me...
25.4.10
23 - cordeiro

Outro livro de capa branca. Outro livro brutal. A teoria confirma-se. Comecei algo equivocado, pois com esta mania de ler as coisas só até meio ( e isto aplica-se também aos títulos dos livros), pensava que o livro era escrito por uma ovelha que fazia parte do rebanho de Jesus. O que até fazia sentido, porque o meu cérebro logo me convenceu que Jesus tinha sido pastor. Não tinha. Embora ninguém saiba bem, o mais provável é que tenha sido carpinteiro. Bem, não foi a ovelha que escreveu o livro. Ovelha era ele, Jesus, mais concretamente, cordeiro. De Deus. E eu sabia disso; foram muitos anos de catequese. Quem escreveu o livro foi Levi, o melhor amigo de Jesus, que o acompanhou na sua infância. Mas, antes de se avançar mais, temos que esclarecer a questão dos nomes, que para mim é fundamental e uma das melhores coisas do livro. O Levi chama-se Biff, Jesus, que era Joshua em hebreu, é Josh e Maria Madalena, a melhor amiga dos dois é Maggie. Para mim esta questão dos nomes é importantíssima. Vou confessar um segredo meu que será provavelmente uma blasfémia. Não gosto do nome Jesus. Nunca gostei. Desde novo que sempre me senti desconfortável ao ouvi-lo e o facto é que todos os Jesus que conheço, são maus, sendo o exemplo fácil de verificar olhando para o momento actual do futebol português. O único Jesus bom era o Cristo mas, com ambos os nomes maus, sempre tive dificuldade de me identificar completamente com ele. Vai daí, pensar nele como Josh foi como ter experimentado uma espécie de ressurgimento litúrgico, foi uma verdadeira experiência religiosa, pois consegui finalmente encará-lo como aquilo que ele foi, ou seja, um dos melhores gajos que já apareceu na Terra. E com um nome super fixe. Temos então que Jesus achou que a sua história estava mal contada e mandou Raziel, um anjo loiro, lindíssimo e burríssimo (provavelmente a origem do mito da falta da inteligência das loiras), ressuscitar Biff cerca de dois mil anos depois de este ter morrido, o que dá, grosso modo, ontem ou anteontem. Deus terá pensado, e bem digo eu, que o biografo mais fiável que o seu filho poderia ter era o melhor amigo de infância, e esta dupla adjectivação não foi despropositada. Haverá alguém coisa que ter, no mesmo substantivo, os dois adjectivos juntos? Melhor – Amigo – De Infância. O que se pode desejar mais ? Eu, por exemplo, tenho um melhor amigo (que é uma amiga) e adorava que ela fosse minha amiga de infância (o que não é muito simples, porque ela é algo mais nova do que eu). A parte da infância resulta bem porque ela é um bocadinho infantil. Voltando ao livro, e porque estes textos não são apenas uma forma de escrever entrelinhas, vamos lá escrever algumas linhas. Josh e Biff têm uma infância normal, que se passou entre o acordar da consciência religiosa de Josh, despertada durante as brincadeiras bíblicas em que Josh era sempre algum dos patriarcas israelitas, Biff o opressor e os irmão mais novos de ambos a carne para canhão dos milagres que iam sendo tentados. Foi nesta altura que Josh foi treinando as suas capacidades, quer ressuscitando lagartos mastigados, quer imprimindo a sua cara no pão religioso que os judeus comem na Páscoa, circuncidando a estátua de Apolo, da qual saiu cerca de 90 cm de prepúcio ou ressuscitando algumas pessoas, situação que não corria lá muito bem porque Josh não tinha ainda os poderes bem treinados e as pessoas morriam logo a seguir, algo convenhamos, aum bocadinho anticlimático. Foi também nesta altura que ambos conheceram Maggie e que o amor triangular nasceu. Biff adorava Maggie. Maggie adorava Josh. Josh adorava os dois e também o resto do mundo. Um dia, todos estes amores se tornaram insuportáveis e Josh resolveu viajar pelo mundo para tentar descobrir se ele era ou não efectivamente o Messias, e o que deveria fazer caso efectivamente o fosse. Decidiu assim procurar uns homens que o foram visitar quando ele nasceu e que o anunciaram ao mundo como o seu salvador. Do mundo. Eram três reis. Magos. Vai daí, Josh e Biff decidem ir procurá-los, sendo que Josh não teve coragem de se despedir de Maggie, e Biff não teve coragem para dizer a Maggie que era ele e foi mais uma vez a mulher que teve a serenidade e a sabedoria de saber o que fazer, com quem fazer e o que dizer para que todos ficassem felizes numa situação de infelicidade, que é o que acontece quando pessoas que gostam umas das outras têm que se separar. Foram assim, Josh e Biff, em busca do primeiro rei mago, Baltazar, penso eu, e que era um mago imortal que tinha feito um pacto com um demónio e que vivia num castelo com oito concubinas, todas chinesas, com nomes intermináveis e bastante ... sexuais. Na viagem, Josh quis aprender o que era o sexo, pelo que Biff teve que o fazer com várias prostitutas para depois contar a Josh como era. Parece que não se conseguiu explicar bem à primeira. Nem à Segunda. Nem à terceira. Nem à Quarta. Foi, por isso tentando e continuando a tentar com as oito concubinas chinesas de cujo nome só me consigo recordar de duas. Joy e Su. Diminutivo de Susana, obviamente. Baltazar não tinha nada que ensinar. Era apenas um velho devasso, daqueles que fazem festinhas nas costas, e que descobriu o amor apenas antes de morrer, o que é, na minha opinião, uma forma algo hipócrita de redenção. O amor era por Josh. Ao menos isso. Da China, seguiram para a índia, em busca de Gaspar (acho eu) que era um monge budista num mosteiro tibetano, completamente ascético. No caminho para o mosteiro, Josh bateu com a cabeça numa tabuleta de uma estalagem e sangrou, tendo que fazer uma ligadura com o manto que trazia. A suas feições passaram para o pano, tendo assim sido criado o santo sudário, que Josh deu a um comerciante romano da Ligúria. No mosteiro, Josh conseguiu ser completamente zen, conseguiu a iluminação, o nirvana e, quanto a mim, foi nesse momento que assumiu verdadeiramente o seu messianismo. Pois ao atingir a iluminação, a paz interior, de tudo isso abdicou por forma a dedicar-se à humanidade. Foi um momento importante. E bonito. Tipo o objectivo final do budismo tibetano encontrou e conjugou-se em total harmonia com a pedra basilar do cristianismo. Dá que pensar... Outra coisa que Josh e Biff encontraram foi o Iéti, o abominável homem das neves ou, nas palavras de Biff, “o que acontece quando um homem pina uma ovelha”. O iéti, embora bonito e poético, morreu, lançando uma grande tristeza no coração de Josh e fazendo com que ele chegasse à conclusão de que o seu tempo como monge tibetano tinha acabado. Vai daí, segue ainda mais para a India e descobre Belchior (acho eu), o irmão gémeo de Gaspar (acho eu). Aqui dá a sensação que o autor já estava farto de reis magos e resolveu despachar o último dizendo que era igual ao outro. Está bem. Sigamos. Para Israel, novamente, onde Josh assume o seu papel de Messias, se entende com o primo João e faz todas as coisas que nós já sabíamos e que o faz acabar crucificado. Aqui penso que há alguma desonestidade intelectual do autor. O Josh que fomos conhecendo ao longo de 500 páginas, um Josh bondoso, inteligente, lúcido, crítico e, acima de tudo, profundamente humano, não se iria deixar crucificar apenas para que a religião católica pudesse chantagear os seus seguidores para todo o sempre. O Josh que nós conhecemos nunca permitiria que, em seu nome, se instituísse uma religião baseada na culpa. Tipo: ele fez tudo por vós e vocês crucificaram-no, p or isso, agora e para todo o sempre, bora lá enriquecer o Vaticano. O Josh que nós conhecemos ao longo das quinhentas páginas iria mandar às urtigas esta história da culpa e iria viver feliz para sempre ao lado da mulher que sempre amou, Maggie, eventualmente permitindo que Biff a ... compartilhasse de vez em quando, porque a felicidade pode ser a mais do que dois. O Josh que nós conhecemos neste livro iria Ter muitos filhinhos, e eventualmente até lembrar-se das suas experiências orientais e adoptar uma chinesinha de tranças. Não se deixaria matar. Por isso, e como toda a gente sabe o resto da história, avanço rapidamente para o fim. Depois da crucificação, Biff mata Judas e mata-se depois, porque não conseguia viver sem Josh. É ressuscitado dois mil anos depois e escreve o evangelho mais bonito de todos. Que é este livro. E que é bom. Muito bom. Daqueles que ainda sabe melhor se a leitura for partilhada. E simultânea.
18.4.09
22 - jpod

Tenho uma teoria que um livro com capa preta é sempre bom, ou pelo menos se não estiver saturado com imagens, fotografias ou letras pouco discretas. Não me tenho dado mal com esta teoria. A partir de agora vou estendê-la aos livros de capa branca. Também resulta, seja com aqueles policiais da colecção Noites Brancas, seja com o que me apareceu agora à frente, chamado jpod, escrito por um escritor chamado Douglas Coupland. Que me provoca uma sensação bastante confusa. Porque tenho muita dificuldade em confessar-me abertamente adepto (não gosto de fãs) de um escritor de anti-heróis, de personagens que fazem tudo o que podem para sair dos cânones sociais existentes. É confuso: existe um escritor que passa a vida a escrever sobre personagens claramente não alinhadas com a sociedade, mas que depois lhes banaliza a vida e quer demarcar-se ainda mais dessa sociedade dizendo: ei… ok que vocês não são lá muito normais, mas eu sou mais anormal ainda, porque consigo escrever livros inteiros sobre a seca que a vossa vida é. Tipo: caricatura gajos meios lixados da cabeça que por sua vez caricaturam a sociedade e os seus tipo normais. Até me parece bem, malhar nos geeks, nerds, artistas, intelectuais e afins, porque no fundo até sabemos que eles têm o que nós, normais, não temos. Nósnormais. Gosto. Vou passar a utilizar este termo… Concretizemos. Jpod é um escritório de programadores de jogos de consola em que o único requisito é fazer o que se quer ao mesmo tempo que se trabalha. Tipo um Google só com dementes. Existem 4 ou 5 pessoas cujo principal objectivo é terem nomes esquisitos com motivo para o ser e serem capazes de diálogos geniais. Detesto fazer resumos propriamente ditos dos livros, mas não resisto a uma enumeração barra citação:
Ethan, nome normal, pai eterno figurante de papéis sem falas em filmes obscuros, campeão de danças de salão e que ultimamente anda a fazer sexo com uma antiga colega de liceu dele. Mãe plantadora barra dealer de marijuana, com contactos a vários elementos do submundo, que hora seduz, ora cobra ora mata. Irmão promotor imobiliário com ligações ao submundo, nomeadamente à importação ilegal. De chineses. Ethan está sempre disponível para a família, fazendo sempre um ar de enfado enquanto esconde a namorada do pai, enterra o namorado da mãe ou esconde e depois dá banho a 20 imigrantes ilegais chineses do irmão. É o maior lançador de desafios inverosímeis aos colegas de trabalhos, tipo escreverem uma carta ao Ronald MacDonald a convencerem-no a pinar com eles…
Mark Mau, Bree e Caithlin. Nomes normais para pessoas menos normais. Na mesma onda…
Cowboy do Cancro. Não sei porque se chama assim. É viciado em sexo anónimo. Isto não tem nada a ver com o nome. Nem com o resto.
Fulano de Tal. É o meu preferido. Fulano nasceu no meio de uma comunidade lesbo-hippie, sendo a sua mãe a principal orientadora barra fundadora da dita comunidade. Cresceu almejando a normalidade, bebeu coca-cola aos 15 anos e comeu carne pela primeira vez à volta desta altura, também. Foi tamanho o trauma que fulano só sonhava ser uma pessoa normal. Ao atingir a maioridade, mudou o nome para Fulano de Tal e passou a só fazer as coisas que a maioria das pessoas fazem. Todos os seus actos e gostos são escolhidos estatisticamente de maneira a serem iguais ao que a maioria das pessoas faz e gosta.
Todos juntos, envolvendo-se saudavelmente com a sociedade envolvente, vão interagindo com naturalidade com, entre outros, Kam Fom, gangster chinês omnipresente, com ideias super claras e um raciocínio extremamente bem articulado, igualmente fanático por danças de salão, e cujo principal defeito é não ter sentido de humor. Nenhum. Este tipo de escrita confunde-me, pois não é preciso ser muito esperto para ver quão vazia ela é em termos de conteúdo. Mas diverte-me, porque é certeira na caracterização das situações que descreve. O problema é que as situações descritas não são importantes, nem sérias, nem produtivas, nem nada que se pareça. Mas são divertidas e fazem puxar pela cabeça e são tremendamente originais. Dá a sensação que o Douglas Coupland é uma reflex digital super rápida e com uma resolução monstruosa, que disseca na perfeição tudo aquilo m que põe a objectiva, conseguindo fotografias bonitas e super nítidas. Mas nunca aponta a máquina para nada de sério, limitando-se a fazer fotos instantâneas e puramente hedonistas. Ele escreve sobre nada para se divertir o que, tenhamos paciência, não é lá muito bom. Mas consegue também divertir-nos a nós, que o lemos e isso, tenhamos paciência, é bastante bom. A mim, faz-me sentir que sou das poucas pessoas do mundo que consigo perceber as suas imagens, que consigo compreender as suas descrições e faz-me sentir que compartilho a sua linguagem, ironia e inteligência. Faz-me sentir, enfim, inteligente. Quem não gosta de se sentir assim ? Melhor só sentires-te apaixonado...
19.1.09
21 - A rapariga das laranjas

29.12.08
20 - O afinador de pianos

Era uma vez um afinador de pianos que morava em Londres. Super talentoso mas pouco sociável, talvez mesmo um pouco infantil. Foi o que me pareceu a avaliar pela mulher, loira autoritária e por pequenos pormenores da sua rotina, tipo enganar-se no caminho para casa, ou atrasar-se duas horas para chegar a casa e depois mentir à mulher dando desculpas pueris diferentes das coisas pueris que esteve a fazer. Claramente um artesão dotado mas meio aparvalhado, vindo mesmo a calhar o facto de ser inglês. Um dia, recebe uma carta do exército a convocá-lo para uma reunião com um coronel que rápida e eficazmente lhe diz o que a Rainha dele pretende. Na Birmânia existe um Major Médico com umas ideias muito sui generis sobre como efectuar a colonização, ideias que por muito que horrorizem o exército, apresentam resultados muito bons, conseguindo que o império vá crescendo sem ter que se disparar muitos tiros. Um exemplo do tipo de pessoa que o Major Médico era: um dia comandava um pelotão de reconhecimento pelo meio da selva birmanesa quando este começou a ser atacado. Impassível, enquanto os seus soldados se atiravam para o chão, o Major Médico tirou uma espécie de flauta do bolso e começou a tocar umas notas esquisitíssimas. Os tiros continuaram a cair à sua volta e ele continuou a tocar até que os tiros diminuíram e pararam. Desta vez contra o silêncio, o médico continuou a tocar até que se começou a ouvir, vindo do meio das árvores, uma flauta a tocar as mesmas notas…. A expedição prosseguiu até ao seu destino sem mais problemas e ainda com música extra… O Major tinha pedido ao exército um piano de cauda Erard para o forte que tinha construído no meio das montanhas birmanesas e esse piano, de entrega difícil e contrariada, se calhar por essa razão, desafinara. Sendo o major um inglês de gema (apesar de por esta altura já andar vestido com sais birmanesas), recusava-se obviamente a tocar num piano desafinado. Vai daí, tratou de exigir um afinador de Erards, sendo essa a razão pela qual Edgar (o afinador) acabou por ter aquela conversa com o coronel e lhe disse, com um simples aceno de cabeça, que sim, que ia até à Birmânia afinar o Erard. E foi, numa daquelas viagens que toda a gente sabe que mudam a vida de quem a faz. Não imaginava ele é que ia mudar a sua definição. De vida. Vou parar com a descrição da história. A ideia destes textos não é fazer resumos, mas sim falar sobre ideias interessantes que os livros apresentam, ou então sobre sentimentos que suscitam ou então sobre qualquer coisa que valha a pena que não seja contar o fim de história em meia dúzia de palavras. Mas é aí que se me depara um problema. Não me lembro de grandes sentimentos nem pensamentos nem nada do género que o livro me tenha provocado. Lá ao longe, ainda ví as névoas de umas paisagens distantse no meio do montanhas inacessíveis que escondiam algo de diferente e de único, mas essas imagens rapidamente desapareceram e, para dizer a verdade, penso que as tirei retirado de um outro livro, chamado Horizonte Perdido, de um escritor chamado James Hilton que nele descreveu Shangri-La, o paraíso perdido… Assim sendo, acabei por não perceber como é que um livro com uma ideia tão boa e original acabou por me deixar meio morno e sem grandes emoções. Após pensar um bocadinho, penso que sei porquê. Porque é um livro super inglês, metódico, conciso, rigoroso, competente e bom. Apenas não acende grandes chamas em nós. Talvez na lareira,,, Não. Até porque o livro é bom e, curiosamente, tem aquilo a que se chama boa imprensa. Toda a gente diz que gostou muito. E gostei. Muito é que não.
9.12.08
19 - A sombra do vento

Comecei a ler porque andava desde há algum tempo à procura de um romance de grande fôlego, em que se contasse verdadeiramente uma história com princípio meio e fim. Em que houvessem personagens, emoções, acontecimentos marcantes, em que se passassem coisas. Paralelamente, várias pessoas me disseram que era um bom livro, por isso, na busca de uma espécie de reencontro com os romances de 500 páginas, lá fui eu, e comecei a ler um best-sellers. Não que isso me chateie por aí além... Muitos dos livros que eu mais gostei de ler, note-se que não disse os melhores livros que li, eram best-sellers. Gostei de ler os livros de Michael Crichton, do Dan Brown,do Harry Potter, do James Bond, do Saramago, do Sherlock Holmes, e por aí fora... Vai daí pensei que estaria a começar um livro que teria, ao mesmo tempo a leveza e o interesse de um best-seller e qualquer coisa mais, cujo cheiro eu sentia de uma forma muito ténue. Até porque o meu nariz costuma acertar nestas coisas... E logo ao princípio constatei isso... O livro começa com um pai e um filho viúvos que ainda mantém o hábito de falar com a mãe morta no meio da sua tristeza profunda. Mas é uma tristeza com uma coisa boa, é uma tristeza compartilhada, vivida a dois pelos dois. Ambos sabem o que perderam, do quanto gostam de quem perderam e que só se têm um ao outro, por isso não vale a pena negarem-se nem complicarem. Um dia, o pai leva o filho a um sítio chamado o cemitério dos livros perdidos, onde cada pessoa pode, entre um labirinto tipo biblioteca secreta do nome da rosa, escolher o livro que definirá o resto da sua vida. Para mim já não era preciso mais nada. O livro estava ganho logo ali nas primeiras páginas, o que me provocou logo uma desilusão resignada. Quando uma boa ideia desse calibre aparece logo nas primeiras páginas, é certinho que o resto do livro é sempre a descer. E foi o caso. Mas, mesmo assim, foi bom na mesma...Continuando e sistematizando, podia-se dizer que é um livro sobre um livro, sobre o livro da vida do filho de um livreiro, uma vez que tudo o que se passa na história (até o titulo desta) é motivado por um livro, mas não estaríamos a ser muito factuais. Porque o que move o personagem principal (Daniel) não é o livro em si, mas sim o escritor que o escreveu. Será então um livro sobre um escritor (Julian)? Também não, porque o escritor desapareceu, e embora a sua busca por parte de Daniel seja de facto o que o livro conta, no fundo o que nos é principalmente contado é a história das pessoas que viviam à sua volta. E é ao lermos sobre a vida de todas estas pessoas que nos é dado um vislumbre da Espanha pré guerra civil, do estado repressivo, das confusões ideológicas, da inconstância do poder. Por isso, por serem apenas vislumbres, também não podemos chamar a este livro um romance de época nem muito menos um romance histórico. Assim sendo, a única coisa que podemos dizer é que é um livro sobre pessoas e, pensando bem, essa é a definição de romance por definição (a repetição de definição foi intencional; não me enrolei no raciocínio). E que pessoas? De Daniel, rapaz sem nenhuma característica especial que se limita a perseguir o livro da sua vida, do pai de Daniel, livreiro simultaneamente amargurado com a vida mas doce com o filho e com o mundo, de Clara, rapariga cega que adora ler (que lhe leiam), que foi a primeira fixação de Daniel e cujo desempenho sexual perturbador ainda hoje consigo vislumbrar, do tio de Clara, que só falava com palavras esdrúxulas, do inspector da polícia de cujo nome no quiero acordar-me J , de Fermin, homeless recuperado, viril como um miúra mas saco de pancada da polícia, cujos diálogos, erudição e sensatez sentimental valem só por si o livro, de Miquel de Moliner, discípulo precoce de Freud, analista implacável e infalível do género humano (ele, não Freud), poço de sentimentos puros e meu personagem preferido do livro e de Julian, o escritor. Julian Carax, que escrevia livros que não se conseguia parar de ler mas que ninguém comprava, que toda a gente à sua volta adorava e não conseguia deixar de adorar, mas que nunca gostou de si próprio. Que todas as mulheres (a mãe, Nuria, Penélope) amavam mas que nenhuma conseguiu ser feliz com o seu amor. E que, acima de tudo, escreveu um livro que provocou uma confusão tão grande no romance que nem mesmo leitores esclarecidos como eu, conseguem depois dizer coisa com coisa quando o tentam resumir. Duas certezas. Uma: gostei muito. Duas: não é uma comédia...
10.10.08
18 - Gog

Giovanni Papini
Sempre achei que o mais dificil quando se escreve um livro á ter a idéia. Acho a idéia tão importante que acho que deveria passar a chamar-lhe "A Idéia". Não é dificil escrever bem. Quer dizer, se calhar até é dificil, mas há muita gente que sabe escrever bem, e a maioria das pessoas que não sabe é por pura preguiça. Não é transcendente saber alinhavar umas palavras pela ordem correcta ao longo de uma frase, até porque não está escrito em lado nenhum que escrever bem implica complicar muito. Pelo contrário. Eu, adepto confesso da frase curta, acho que na simplicidade está muito do mérito de uma boa escrita. De qualquer forma, e no que diz respeito aos livros, a boa escrita pouco ou nada interessa. Os franceses do século 19 escreviam super bem e não saiu um livro de jeito de toda a sua produção (pelo menos do Balzac, Baudelaire,Proust, Flaubert, Stendhal e Victor Hugo). O Kafka era competente a escrever mas o que é facto é que não se aproveita nenhum dos seus livros, que são, convenhamos, uma seca. Bem, poderão não ser todos, se calhar é pretensão minha generalizar, uma vez que não os li a todos. Só li O Processo, O Covil, A metamorfose, A grande Muralha da China e O castelo. O Milan Kundera escreve bem e até conseguimos de facto retirar algum prazer da sua leitura, mas todos os seus livros são iguais e hoje, alguns anos depois de os ter lido, confundo-os todos e não me lembro de nenhum. Convém mais uma vez não generalizar, uma vez que só li A brincadeira, A insustentável leveza do ser, O livro dos amores risíveis, A valsa do adeus, A vida não é aqui e A imortalidade. O António Lobo Antunes escreve tão bem que parece, quando lemos os seus livros, que estamos a ouvir uma voz tão doce que pertence a uma pessoa que expira rebuçados, mas depois de os ler, ou ainda a meio da leitura, já não nos lembramos de nada do que está para trás. Mas não quero generalizar: só li o Auto dos danados, A ordem natural das coisas, os Cus de Judas, o Tratado das paixões da alma, A morte de Carlos Gardel, a Memória de elefante. Enfim. poderia continuar com os russos, mas esquece lá isso. Ou então com os americanos, aquele tridente adormecedor completamente desprovido de idéias interessantes, constituido por William Faulkner, John Steinbeck e Ernest Hemingway, curiosamente, todos prémio Nobel, penso eu. É chato e culturalmente incorrecto dizer mal do Hemingway, principalmente porque não li os livros dele todos. Só li o Paris é uma festa, o Velho e o mar, Por quem os sinos dobram, As neves do kilimanjaro, O adeus às armas e o Jardim do Éden . Mas não. A idéia é falar deste livro espantoso, cheio de boas idéais chamado Gog. Então é assim. Gog é um milionário aborrecido que tem um iman interno que atrai excêntricos e, quando esse iman não funciona, então é ele próprio que se propõe fazer as coisas mais incríveis. Enumeremos então o que o livro nos conta, de memória e sem ordem.
Para começar, há todo o conjunto de conversas com Henry Ford, Ghandi, Einstein, Freud, H G Wells, George Bernard Shaw, Edison, o Conde de Saint Germain, Lénine e alguns outros. Não serão propriamente conversas, uma vez que Gog, super inteligente, se limita a deixá-los discorrer sobre o que lhes vai na alma e no corpo. Não são também entrevistas, porque Gog não se dá ao trabalho de lhes fazer perguntas. Ele sabe que com os génios, a única maneira de interagir é deixá-los falar livremente, não correndo o risco, nem de se lhes fazer perguntas idiotas e insuficientes sobre a matéria que eles dominam, nem fazendo perguntas idiotas sobre coisas que a eles não lhes interessam nada e que, consequentemente, nada de importante teriam a dizer. E depois há a própria atitude de Gog perante os génios. Ele espera genuinamente que os outros tenham alguma coisa para lhe ensinar, mas mantém uma atitude cáptica e desapaixonada, prevendo à priori que nada de muito novo vai sair dali. Ás vezes engana-se, mas às vezes não.
Outra vez, fala-nos da colecção de sábios que fez, sábios multi disciplinares, multi rácicos e multi, chamemos-lhe assim, religiosos. Obviamente que constata que, ao dar-lhes uns minutos de atenção para que façam as suas habilidades, eles não são nem muito hábeis nem lá muito honestos. Constata aquilo que eu lhe poderia ter dito. Os sábios, feiticeiros, sacerdotes e etc das tribos são apenas aqueles que inventaram um pretexto para não terem, nem que caçar, nem arrumar a caverna.
Noutra ocasião, descreve-nos a ilha em que estava estipulado pela lei que a população nunca poderia ultrapassar os 770 habitantes, número que ultrapassado poria em causa o equilíbrio ecológico. Assim sendo, todos os anos num determinado dia, se fazia o balanço e se matava os que excediam esse número, sendo os excedentes escolhidos por critérios que não se poderia considerar isentos de lógica.
Entre os inúmeros excêntricos (ou não) que recebia, podia-se contar o historiador que escrevia a história do presente para o passado, pois só analisando as consequências que os actos tiveram no presente se poderia julgar correctamente da sua pertinência quando foram cometidos no passado.
Ou o médium que convocava, não os mortos, por considerar que estes não poderiam trazer nada de novo ao presente, mas os vivos, pois esses é que poderiam contribuir com algo de útil. Um aparte. Este médium fez Gog tomar consciência da sua profunda solidão, dado que não havia ninguém entre os vivos que ele quisesse invocar. Assim, mesmo sendo o médium competente e aparentemente honesto, não tinha nenhuma serventia para Gog, que o mandou imediatamente embora e, penso eu, que sem dinheiro para o táxi.
Ou o representante da FOM, friends of mankind, que advogava que o aumento contínuo da humanidade na terra é contrário à própria humanidade. A solução passaria por, segundo a FOM,eliminar aqueles que não faziam falta, tais como os inúteis, os criminosos e os velhos, que já viveram bastante.
Voltando às colecções, Gog coleccionava anões, gigantes, sósias, gémeos, todos "objectos" que tinham uma qualquer qualidade intrínseca que os tornasse diferentes e originais no meio da humanidade. Embora seja evidente que faria muito mais sentido uma colecção de super modelas, não consigo deixar de achar piada a uma colecção de gigantes, metidos numa qualquer sala de pé direito triplo ou mesmo quádruplo. E, na sala seguinte, de pé direito zer virgula cinco, a colecção de anões, que não consigo imaginar de outra maneira que não resmungões. Mas isto sou eu... Gos não fazia juízos de valor...
E depois o capítulo das convicções pessoais que Gog tinha. Que as pessoas deveriam todas usar máscaras, e que havia quatro razões para isto. A razão higiénica (confesso que não apanhei bem esta), a razão estética (esta será evidente), a razão moral e a razão educativa. Não vou comentar...
Ou então a convicção de que um dos piores vícios da humanidade era comer em sociedade. Sendo a alimentação um instinto perfeitamente individual (são raros os exemplos em que espécies se alimentam em conjunto, tirando talvez os leões e as hienas, que são dois maus exemplos) Gog sugeria que todas as casa tivessem micro compartimentos onde as pessoas poderiam tomar as refeições educadamente sozinhas. Tipo casas de banho. E embora os mais sensíveis se possam repugnar com esta comparação, ela é perfeitamente lógica. Ambas as acções envolvem troca de alimentos entre o interior e o exterior do corpo humano, mudando apenas a extremidade em que a acção se passa e o sentido em que a acção decorre. Não quero ser fundamentalista, mas pelo menos no que diz respeito à fruta, assino por baixo tudo o que ele diz...
Enfim, dado serem inúmeros es exemplos de idéias, chamemos-lhe assim, originais, fico-me por aqui. Agora digo e repito. Num único livro, Giovanni Papini desfila mais idéias (e mais originais) que todos os prémios Nobel juntos.
2.9.08
17 - Fever pitch

A primeira é que é um livro que fala sobre futebol sob o ponto de vista sentimental, que é, a par do campo, o sítio onde o futebol se joga. Á flor da relva e junto ao peito. Sem intelectualizações idiotas sobre coisas que são sentidas e apreendidas directamente com os sentidos. Mas conferindo ao assunto a importância que ele realmente tem, pois o maior erro dos intelectuais das praças é acharem um futebol uma coisa primária, esquecendo-se que é de 3 cores primárias que todas as outras são feitas. É bom ter uma paixão. É bom sofrer incondicionalmente por algo que não é justificável de forma alguma. É bom sentir em conjunto com mais milhares de pessoas as mesmas emoções no mesmo instante. Quão diferente isso é de Fátima? Ou de ouvir o hafsol num concerto dos Sigur Rós? É bom termos a certeza de que nunca estaremos sozinhos, que aos domingos à noite, de inverno, quando todas as famílias gozam juntos os últimos momentos do fim de semana, nós também não estaremos sozinhos, porque haverá sempre alguém que terá algo para nos dizer, alguém de gravata e bom aspecto que se dá ao trabalho de falar de um assunto que gostamos e que percebemos, alguém cujo nome será qualqer coisa como domingo desportivo. É bom saber que há coisas em que somos efectivamente inteligentes, em que somos mesmo mais inteligentes que todos os outros que mandam em nós no resto do tempo, porque o futebol é como o sexo, quanto mais baixo estás na hierarquia material mais e melhor o fazes. E melhor o comentas… O futebol poderia perfeitamente ser aproveitado como linguagem oficial dos povos, aquilo que o esperanto nunca foi e que o inglês também não quer ser. Os diplomatas seriam ex-internacionais das respectivas selecções, conjugando simultaneamente conhecimento técnico da matéria do qual são embaixadores e esperiência profissional. Nunca mais haveria um almoço político aborrecido, com um protocolo intragável. Os representantes de cada país já se conheceriam, já teriam jgado uns contra os outros, já saberiam quais as manhas de cada um. Seria também bastante mais justo, uma vez que são sempre os países mais pobres que têm os melhores jogadores. Alguém imagina numa negociação de dívidas externas qualquer ex-jogador americano ou suíço levar a melhor sobre o Zico ou sobre o Sócrates?
A segunda caracteristica é uma espécie de melancolia masculino-juvenil que ele consegue transmitir na maneira como escreve. Antes que prolifere o mal entendido, explico-me. Ao ler os pensamentos dele sobre o dia a dia, sobre a maneira como, sábado ou domingo depois de almoço, a chover, se punha a caminho para ir ver os jogos, recordo-me invariavelmente…de mim. E sinto saudades, porque as sensações de ser filho único, de ter como principal interlocutor a mim próprio, de passar tardes sozinhos no estádio, de preferir os jogos “pequenos”, em que tinha quase a certeza que o porto ia ganhar, de sentir medo dos gunas, de sofrer sozinho (nunca fui muito de exteriozar emoções), enfim, todas essas coisas que o livro descreve metodicamente, entram-me directamente no sangue, sem passar pelo cérebro. Há diferenças, evidentemente… Eu nunca virei as costas quando a minha equipa ia marcar um penalti. A minha cor é o azul, e nunca, nunca o vermelho. Por outro lado, também não me consigo lembrar dos resultados de uns anos para os outros. Por favor... eu tenho vida para além do jogo, mas sei o que este jogo pode representar para a vida.
A terceira é a parte técnica propriamente dita, que é aquela menos verbalizada e comentada. Faz-me muita confusão como é que se pode viver e discutir um assunto até à exaustão e não se falar das coisas que realmente ineressam, tais como a forma de passar, de chutar, de cabecear, de desmarcar e, também importante, de marcar. golos. Como é que se consegue falar tanto de futebol em Portugal e não se falar nestes aspectos fundamentais. Este livro deveria ser de leitura, análise e plágio obrigatório por todos os jornalistas desportivos que escrevem sobre futebol. Pergunta pertinente: o jornalismo desportivo é passível de curso superior? Gostei muito da parte em que se descreve o mais importante golo da carreira de um qualquer ponta de lança ineficaz em todo o resto da sua carreira. Por muito ineficaz que tenha sido, por muito mal que jogasse, por poucos golos que marcasse, conseguiu marcar a vida de um jovem (e se calhar de quantos mais) de tal forma que hoje a sua história é contada em livro. Reflectindo: quantos de nós já conseguiram marcar de forma tão expressiva a vida de tanta gente ? Quantos de nós estão ou estarão imortalizados em livro ? Eu, não sei bem porquê, confesso que não estou. É esta a magia do futebol, se entendermos como magia os fenómenos inexplicáveis que, de alguma forma, nos encantam. É esta a magia deste livro, que nos faz apreender tão facilmente todas as emoções relacionadas com este fenómeno. Mas não a todos... Só aos desportivamente esclarecidos.
13.6.08
16 - A morte melancólica do rapaz ostra

Tim Burton.
Era uma vez um palito que se apaixonou por uma fósfora. Tinham tudo em comum, digo eu. Eram os dois altos, magros, bonitos e sentiam um grande prazer em gostar de alguém. Tanto gostaram um do outro que a situação ficou, chamemos-lhe assim, fogosa. Tão fogosa que incendiaram. Os dois. Arderam num instante. Era uma vez uma rapariga esbugalhada. Esbugalhada? Sim, sempre a olhar esbugalhada para toda a gente. Olhava para o céu, olhava para o chão, e se tivesses sorte, olhava para ti até mais não. Era tão boa a esbugalhar que resolveu entrar num concurso que facilmente venceu. Mas nesse dia cansou-se, tirou os olhos fora e pô-los a descansar. Onde? Junto ao mar. Era uma vez uma rapariga que tinha muitos olhos. Quase dez. O seu maior medo era Ter de usar óculos, pelas razões evidentes. Era bonita, ela, mas tinha um senão. Quando começava a chorar, molhava até mais não. Era uma vez um rapaz chamado nódoa e era um super herói. Não voava. Não saltava. Apenas sujava. E por tanto sujar, bastante sofria. Por causa da conta da lavandaria. Era uma vez um casal que se casou junto ao mar e pouco depois, estavam a pinar. Nasceu-lhes um filho com cabeça de ostra. Que em todo o lado, estava sempre à mostra. Um dia o pai, para se sentir paradisíaco, usou-o como afrodisíaco. Comeu-lhe a cabeça, após hesitar. O resto do corpo, enterrou junto ao mar. Chorando jurou, nunca o esquecer, mas bastou a maré alta, para tudo varrer. Era uma vez uma rapariga, a rapariga vudu, que tinha alfinetes coloridos espetados "par-tout". Era muito carinhosa, estava sempre a amar, mas quanto mais amava, mais os alfinetes, se acabavam por enterrar. Era uma vez uma rapariga que tinha os cabelos fofos como penas, uma pele suave como flanela e um corpo branco como algodão. Transformou-se num edredão. Era uma vez um rapaz que era super tóxico. Respirava escapes, chaminés e afins. Um dia respirou ar puro e pararam-lhe os rins. Morreu e foi para o céu, chegou lá em nono. Mas no caminho para cima, fez um buraco no ozono. Era uma vez um rapaz, com cabeça de queijo, e por causa disso, nunca teve um beijo. Mas como era pragmático, nunca sofria. Pior seria, se em vez do queijo todo, tivesse apenas uma fatia. Era uma vez uma rapariga, que gostava de cheirar cola. Cheirava, cheirava e nunca parava. O chato era que ficava, com o lenço colado na cara, sempre que se assoava. Mente perversa? Eu? Há pior... Para ler muito. Duas vezes não chega...