28.10.26
Cartas Amarelas
H24 - O triângulo do Porto
O Porto tem um triângulo por onde, 2 a 3 noites por semana, passam cerca de 400 pessoas. O fenómeno dura há cerca de 10 anos e terão passado por este triângulo durante este período cerca de 1.000.000 de pessoas, maioritariamente cidadãos do porto de todos os escalões etários e mais posicionados no quadrante superior em termos culturais e socioeconômicos. Chegou-me aos ouvidos recentemente que este triângulo é um portal de abdução / teleportação concebido por alguém para roubar ao Porto a sua elite cultural e transferi-la para outro local, onde estas pessoas são triadas e avaliadas. Os apenas ricos são liminarmente rejeitados e imediatamente devolvidos, com a memória algo apagada e um pouco atrasados. Aparecem a pedir um táxi para a Foz ou para Matosinhos, com uma ligeira amnésia e uma necessidade inexplicável de comprar arte contemporânea que não compreendem, compensando o vazio da rejeição. Dizem que voltam mais confusos mas este facto não tem tido grandes consequências porque aos ricos tudo se perdoa. As pessoas mais cultas ou com mais talento são instaladas à força nesse novo local através de aliciamento económico (todos gostamos de dinheiro), atribuição de habitação de alugueres controlados em zonas nobres do novo destino (os artistas / intelectuais não conseguem resistir a isto), nomeação para cargos públicos atrativos (adjuntos de secretários de estado, diretores de teatros públicos, adidos culturais, etc) e chantagens várias (todos temos esqueletos no armário), entre outras maneiras mais ou menos complicadas. A verdade é que esta aculturação forçada acaba por resultar e as pessoas raptadas acabam por não voltar ao Porto e transformam-se em vegetais, habitantes da sua nova cidade. Os vegetais chamam-se alfaces. A cidade chama-se Lisboa.
27.10.26
H23 - Cupido
22.10.26
H22 - medidor de liberdade
São conhecidas as influências francesas na independência e formação dos Estados Unidos. Talvez mais importante que a ajuda militar efetiva durante a luta pela independência tenha sido a instilação das ideias que constituem a declaração da independência americana na cabeça dos pais fundadores da união. Seja como for, se não fosse a França a história teria sido diferente e, para os americanos, provavelmente bastante pior. Políticos experientes, os franceses mantiveram uma monitorização permanente sobre o estado da democracia americana. Através da contratação de um qualquer gabinete de magia que agora não interessa, colocaram uma réplica da Estátua da Liberdade ao lado da Torre Eiffel, em Paris. Essa réplica iria crescendo à medida do desenvolvimento democrático americano, mas também diminuindo caso a coisa começasse a andar para trás. Claro que na cabeça dos franceses o máximo seria sempre a altura da Torre Eiffel, uma vez que a democracia e a liberdade da França são valores adquiridos e inquestionáveis e serão sempre referencial de comparação máximo que qualquer país poderá atingir. Esta foto foi tirada algures em 2018, e mostra já uma diminuição clara da altura a Estátua da Liberdade, coincidido com a vigência de um presidente republicano. Fui a Paris novamente no início de 2026 e não consegui encontrar a Estátua, o que quer dizer que deve ter diminuído para dimensões inéditas. Disseram-me esta semana que o governo francês estava a tentar desmobilizar a magia, provavelmente com medo que a Torre Eiffel comece a diminuir...
21.10.26
H21 - A reforma de EO
EO era um burro que foi biografado cinematograficamente por um realizador polaco chamado Jerzy Skolimowski. Atuava num circo ao lado de uma rapariga chamada Kasandra, uma jovem artista que demonstrava por ele um afeto e carinho genuínos. Um dia são descobertos por ativistas dos direitos dos animais e EO foi despedido para acabar com a exploração a que estaria sujeito, sendo assim separado da única pessoa que alguma vez lhe deu amor. Começa assim uma viagem pela Europa, passando por diversas experiências,. Trabalha no apoio a crianças num centro hipoterapéutico, torna-se acidentalmente a mascote de um clube de futebol que é depois atacado pelos casuals do clube da aldeia rival, torna-se companheiro de um motorista de TIR que acaba assassinado numa estação de serviço, e acaba hóspede de uma condessa italiana e seu respetivo padre de estimação, algures em Itália, penso eu. Num desfecho tragicómico e melancólico do filme, EO é transportado num camião junto com um rebanho de vacas e é conduzido para o interior de um matadouro industrial. Tudo levava a crer que a história ia acabar mal. Mas aqui a natureza relembrou-nos que os burros são inteligentes e que os homens são burros. EO convenceu os funcionários que era um burro de competição, vencedor de várias corridas no mercado ilegal de corridas Inter animais da Europa de leste. Os empregados do matadouro viram nisto uma oportunidade de ganhar dinheiro e levaram EO ao aeroporto, com o objetivo de voarem para a Roménia para participar nos mundiais clandestinos de velocidade equina. A partir daí foi fácil. EO despistou-os facilmente e apanhou um outro avião qualquer, fugindo assim para sítio incógnito onde poderia finalmente gozar uma reforma feliz. Encontrei-o algum tempo depois, na Ilha de Maio, em Cabo Verde, onde era o único burro da Ilha. estava bronzeado e feliz.
15.10.26
H20 - Nessie
Na mitologia gaélica ancestral — , as águas escuras e profundas do Lago Ness eram tidas como a casa de um Kelpie ou Each-Uisge, um demónio aquático metamorfo. A tradição oral das Highlands dizia que esses espíritos das águas eram atraídos ou hipnotizados pelo tom vibrante da gaita de foles (Highland Bagpipe). Os gaiteiros de clãs locais tocavam junto à margem do lago para acalmar a fera e garantir uma travessia segura para as embarcações de pesca ou de transporte.
Escócia, 2011.
13.10.26
H19 - Pégaso
Pégaso, nascido do sangue da Medusa quando esta foi decapitada por Perseu nunca se conformou em ser apenas um escravo de Belerefonte, que o domesticou com umas redes de ouro fornecidas pela deusa Atena. O seu sonho era fazer parte da carruagem de Sélene, o veículo celestial que percorre o céu noturno para iluminar o mundo enquanto a humanidade dorme. Pégaso tinha um coração de ouro e adorava a ideia de poder ajudar a transmitir algo de bom ao mundo. Tivesse nascido mais tarde e o seu sonho ser uma das renas do pai Natal, tarefa consideravelmente mais fácil, porque nada na mitologia grega o é. Todos os dias Selene, depois da sua irmã Eos e do seu irmão Hélios terminarem o su percurso diurno e mergulharem no oceano ocidental, banhava-se nas águas do oceano , destia as suas roupas reluzentes (há quem diga que eram transparentes) e acoplava os seu cavalos à carruagem. Ascendia ao céu a partir do oriente, guiando a carruagem até ao ponto mais alto do firmamento, derramando a sua luz e governando as fases da Lua. Depois de Belerofonte ter concluído todas as façanhas impostas pelo rei Lóbates, quando já se conheciam bem, Pégaso confidenciou o seu desejo e Belerfonte, agradecido por todo o serviço de Pégaso, resolveu ajudá-lo e levou-o a um sítio onde sabia que a lua ia passar. Chegados lá, disse a Pégaso para comer a lua, que assim fez, colocando o mundo completamente às escuras durante 3 noites. Selene procurou desesperadamente pelo seu astro prateado, julgando que o irmão Hélios lho tinha escondido num ataque de humor negro. Quando Selene finalmente encontrou Pégaso e Blerofonte no cimo do monte, viu o cavalo deitado de costas, com a barriga redonda, a emitir um brilho suave e prateado pelos poros. Apreciando o coração nobre do cavalo alado e percebendo que seria muito mais prático engatá-lo à carruagem do que esperar que ele digerisse a Lua), Selene aceitou-o imediatamente como a sua montada de honra, despedindo sem justacausa os dois anteriores. A partir dessa noite, as fases da lua passaram a ser reguladas pela digestão de Pégaso. Quando Pégaso tinha uma digestão mais difícil, a Lua minguava até desaparecer por completo; quando finalmente conseguia relaxar após uma boa corrida pelo firmamento, a Lua cheia brilhava em todo o seu esplendor prateado. com o su brilho mais suave, porque passou a ser filtrado pela bondade do coração do cavalo alado. Não há maneira de obter a confirmação oficial, mas penso que terá resultado e Pégaso gnhou asas e passou a fazer parte do carro de Seléne. Foi mau para as crianças do mundo, que perderam assim alguém que iria acelerar consideravelmente a distribuição de prendas no Natal.
9.10.26
H18 - a última fatia
Vitor Emanuel teve um sonho em que viu na unificação de Itália o preenchimento da peça que faltava no seu próprio enigma pessoal. Era a última peça de um puzzle por completar., o último queijinho do Trivial Pursuit, a fatia que faltava para tornar a Itália na pizza suprema da europa e do mundo.Como era supersticioso e tinha algum poder, resolveu ser a peça que unificou o país. Em Nápoles, a capital do Reino das Duas Sicílias, governado pela dinastia dos Bourbons, e onde a população sentia um enorme alheamento e ressentimento em relação ao processo de unificação, fizeram--lhe uma estátua colocada na rua de forma a celebrar esse sonhos. Os intelectuais dizem que erigir monumentos ao rei nas grandes praças de cidades do Sul era uma estratégia deliberada de consolidação do poder central e de imposição dos símbolos da nova Itália unificada. Eu acho que os napolitanos fizeram a estátua neste enquadramento porque não concebiam a ideia de uma pizza incompleta.
(Nápoles, 2018)
7.10.26
6.10.26
H16 - a corrida das gárgulas
Quasimodo nasceu disforme e, talvez por isso, foi abandonado nos degraus da catedral de Notre Dame, não se sabe por quem Foi adotado por uma inteligência clerical chamada Claude (era o arquidiácono de Notre Dame) e passou grande parte da sua adolescência a trabalhar como o sineiro. O seu trabalho era assinalar o tempo de 15 em 15 minutos, de maneira a que a população soubesse sempre que horas eram. Deveria também, convocar para a oração, assinalar as avé-Marias e tocar a defuntos sempre que tal era necessário. Fazia ainda parte das suas funções a verificação contínua das estruturas de madeira, martelos, cordas, roldana e dos sinos propriamente ditos. Um dia, como é sabido, conhece a cigana Esmeralda e a sua perceção da vida muda radicalmente. A qui as fontes divergem. É inquestionável que se apaixonou por ela, mas não se sabe se foi a paixão que o levou a mudar a sua vida ou se foi directamente a influência de Esmeralda que o fez trilhar caminhos menos convencionais. A verdade é que Quasimodo mudou radicalmente e ficou obcecado por Esmeralda, fazendo tudo e mais alguma coisa para a conseguir conquistar. Já na altura era necessário dinheiro para fazer as coisas acontecerem e Quasimodo começou a usar a catedral como ferramenta para o enriquecimento e, consequentemente, como chave para o coração de Esmeralda. Fez muita coisa na catedral. A mais interessante de todas foram as corridas de gárgulas. Estas alinhavam-se na fachada e, ao toque do sino, partiam desenfreadas para fazer a volta a Paris, que na altura era pouco mais que a Ile de la Cité. A população, naturalmente, apostava forte e Quasimodo fazia a gestão desportiva das apostas, sendo que parece ter enriquecido consideravelmente, de acordo com registos encontrados na obra de recostarão depois do incêndio de 2019. Dizem até que encontraram um tesouro na catedral e que este foi a principal fonte de financeamento da reconstrução tão rápida, o que não deixa de fazer um certo sentido poético. Embora com muita sorte ao jogo, Quasimodo continuou sem sorte ao amor. Esmeralda acaba por ser morta pelo Arquidiácono (ou a mando deste) e nunca ficou com Quasimodo. Este, embora rico, deprimiu e acabou por morrer sozinho, não sem antes ter precipitado o Arquidiácono das torre mais alta até a chão mais baixo. Nas olimpíadas de 2024 tentaram recriar-se as corridas, mas tal não foi conseguido por muitas e variadas razões. Fica a fotografia de uma das partidas mas célebres, imortalizada por um qualquer discípulo talentodo de Cartier Bresson e do seu instante decisivo.
(Paris, 2015)
133 - breakfast in Pluto
Nunca sei de devo abordar o filme pelo conteúdo da história ou pela significância dos pormenores. Irrita-me que a maioria das vezes os realizadores não se deem ao trabalho de conjugar as duas coisas contando-nos uma história constituída por pormenores, e não pormenores (com maior ou menos relevância) que poderão ou não vir a contar a dita história. Também não subscrevo que a história deve ser construida pelo espectador, porque isso cria uma cacofonia gritante e não haverá duas histórias iguais para o mesmo filme. A principal actividade que deveria orientar o cinema enquanto arte não deveria ser a capacidade de desmitificar os fantasmas do realizador, mas sim a compreensão da história que ele tem para nos contar. É interessante como esta fragmentação de histórias em pormenores, sensações, apontamentos e etc, que agora constitui a nossa realidade via redes sociais, já existe há muito tempo antes destas. A colagem dos pastiches uns em cima dos outros já existe há muito, a diferença é que agora está separado em stories, posts, etc, o que até me parece mais honesto do que pretender agrupá-las num todo coerente ( o filme) que acaba por não ser coerente. Parece preguiça... É legítimo que um artista apresente meia dúzia de borrões ou traços, mas tem que saber pintar. Dito tudo isto, continuo indeciso. Vou pela capacidade de auto-depreciação abnegada e resignada do Cillian Murphy pré Picket Blinders, ou pelo facto de dizer quatro frases no filme todo? Vou pela textura social irlandesa ou pela estupidez de todos os personagens? O filme tenta vender a ingenuidade da Kitten como uma armadura poética e surrealista contra a violência do conflito sectário e do preconceito da época. Mas há um limite ténue entre "resiliência sonhadora" e simples alheamento irritante. A textura social irlandesa dos anos 70 está lá, mas serve apenas de pano de fundo estático para uma sucessão de cenários por onde a personagem passa sem realmente ser transformada por eles. Vou pela apreciação da androgenia e sua preponderância inevitável sobre a personalidade ou vou pela sensação de que ninguém sabe o que está a fazer rno filme? A atuação do Cillian Murphy é indiscutivelmente o motor elétrico de um carro que não sai do sítio. Ele segura o filme quase por pura força de presença e linguagem corporal — Mas a performance existe para servir uma história ou serve apenas para nos distrair do facto de que a história é um desfile de episódios sem grande consequência? Vou pelos 7,2 no IMDB ou vou pelo sono que senti a ver o filme? Continuo a pensar nisto ou vou trabalhar?
1.10.26
H15 - bicicletas 2
Em Amsterdão, a cidade onde há mais bicicletas do que pessoas e onde o fluxo de pedais parece um ecossistema próprio, era uma vez duas rodas da mesma bicicleta que, por engano, foram montadas em bicicletas diferentes. Gostavam tanto uma da outra que faziam com que as respectivas bicicletas em que estavam montadas andassem sempre atrás uma da outra, completamente à revelia do que os condutores ciclistas pretendiam, transformando o livre-arbítrio humano numa mera ilusão perante a vontade da mecânica e seu afeto. Era óbvio para toda a gente que deveriam ser apenas uma bicicleta, embora fossem de facto duas. Eram conhecidas por toda a gente como a bicicleta óbvia.















