Ativismo vs. Idealismo
Considero o ativismo uma
atividade de valor moral neutro, que é apenas tão boa quão boa for a causa que
processa. O ativismo não é uma filosofia, não é uma moral nem sequer uma forma
específica de afirmação humana. Trata-se apenas de uma ferramenta posta ao
serviço de uma causa, dependendo da validade desta para obter legitimidade
moral. O ativismo é uma pressão geralmente ensurdecedora para que o indivíduo
seja levado a seguir um determinado caminho, indo assim ao encontro de interesses de terceiros. O
ativista é alguém com tempo e energia para defender uma causa, mas apenas isso.
Não é o ser ativista que faz dele uma boa ou ou má pessoa, mas sim as causas
que ele defende. Existem, no entanto, algumas características próprias que se
podem atribuir ao ativista em si, e não ao ser humano que defende a causa. O
ativista costuma ser dotado de uma certa energia honesta, que lhe permite
avançar sem grandes reservas nos seus objetivos. Não se costuma pôr em causa por
que acredita efetivamente naquilo que defende ou que lhe dizem para defender.
Não é um ser analítico nem relativiza as situações, avançando sempre a direito
em direção ao seu objetivo. Embora muita vezes seja considerado um idealista, a
verdade é que não o é. Se fosso idealista acreditava que as ideias acabam por
se impor por si e que as pessoas acabam, mais tarde ou mais cedo, por ver a
razão. É pessimista. Sabe que sem a sua ação as coisas não vão acontecer. Não
confia praticamente em ninguém, quer individualmente quer institucionalmente.
É, geralmente, uma pessoa revoltada ou privilegiada. Daquelas que já não tem
nada a perder ou que então não se interessam em ganhar.
O idealista não funciona bem
assim. É uma pessoa introspetiva, habituada a refletir e a pensar bastante nas
coisas. O materialismo passa-lhe um
bocado ao lado, pois valoriza apenas o mundo das ideias e geralmente não
consegue perceber que o materialismo pode e deve ser a recompensa de uma
ideologia do bem. Os idealistas são e sempre foram os grandes motores da
humanidade, porque se preocupam efetivamente com o caminho que esta está a
seguir. A sua agenda é global, são
magneticamente atraídos para a generalização dos conceitos, querendo sempre ir
mais e mais longe no estabelecimento dos princípios pelos quais acham que a humanidade
se deve guiar. O idealista está sempre do lado da moralidade porque de facto
acredita que está a fazer o melhor pelo mundo e acresce a essa ação o facto de
se preocupar o suficiente pela humanidade para se dar ao trabalho de a tentar
catequizar. Não há idealistas maus, porque de facto todos acham que estão a
fazer o bem e falta-lhes a humildade para sair do seu umbigo e dar-se ao
trabalho de perceber os efeitos da sua ideologia, se adotada, no comum mortal.
São moralmente neutros porque a única pessoa a quem respeitam para além deles
próprios é a Platão. Gosto de idealistas
e não gosto de ativistas. Mas quem eu prefiro mesmo são aquelas pessoas que,
mercê das suas escolhas individuais, fazem o correto e tornam o mundo num sítio
melhor sem chatear a cabeça aos outros, seja com livros seja com manifestações.
Chamo a essas pessoas, normais. Sei que só podem existir porque antes apareceu o
idealista para desenhar o horizonte e o ativista para arrombar a porta, mas vou
ficar com a ilusão que, a partir deste presente, a normalidade (na qual incluo
o bem, obviamente) das escolhas individuais será suficiente para um mundo
melhor em 90% dos casos.