7.10.26

135 - Ormuz

 


Para evitar Ormuz,  vários países  resolveram alargar os seus estreitos.

6.10.26

134 - a corrida das gárgulas

 


Quasimodo nasceu disforme e, talvez por isso, foi abandonado nos degraus da catedral de Notre Dame, não se sabe por quem Foi adotado por uma inteligência clerical chamada Claude (era o arquidiácono de Notre Dame)  e passou grande parte da sua adolescência a trabalhar como o sineiro. O seu trabalho era assinalar o tempo de 15 em 15 minutos, de maneira a que a população soubesse sempre que horas eram. Deveria também, convocar para a oração, assinalar as avé-Marias e tocar a defuntos sempre que tal era necessário. Fazia ainda parte das suas funções a verificação contínua das estruturas de madeira, martelos, cordas, roldana e dos sinos propriamente ditos. Um dia, como é sabido, conhece a cigana Esmeralda e a sua perceção da vida muda radicalmente. A qui as fontes divergem. É inquestionável que se apaixonou por ela, mas não se sabe se foi a paixão que o levou a mudar a sua vida ou se foi directamente a influência de Esmeralda que o fez trilhar caminhos menos convencionais. A verdade é que Quasimodo mudou radicalmente e ficou obcecado por Esmeralda, fazendo tudo e mais alguma coisa para a conseguir conquistar. Já na altura era necessário dinheiro para fazer as coisas acontecerem e Quasimodo começou a usar a catedral como ferramenta para o enriquecimento e, consequentemente, como chave para o coração de Esmeralda. Fez muita coisa na catedral. A mais interessante de todas foram as corridas de gárgulas. Estas alinhavam-se na fachada e, ao toque do sino, partiam desenfreadas para fazer a volta a Paris, que na altura era pouco mais que a Ile de la Cité. A população, naturalmente, apostava forte e Quasimodo fazia a gestão desportiva das apostas, sendo que parece ter enriquecido consideravelmente, de acordo com registos encontrados na obra de recostarão depois do incêndio de 2019. Dizem até que encontraram um tesouro na catedral e que este foi a principal fonte de financeamento da reconstrução tão rápida, o que não deixa de fazer um certo sentido poético. Embora com muita sorte ao jogo, Quasimodo continuou sem sorte ao amor. Esmeralda acaba por ser morta pelo Arquidiácono (ou a mando deste) e nunca ficou com Quasimodo. Este, embora rico, deprimiu e acabou por morrer sozinho, não sem antes ter precipitado o Arquidiácono das torre mais alta até a chão mais baixo. Nas olimpíadas de 2024 tentaram recriar-se as corridas, mas tal não foi conseguido por muitas e variadas razões. Fica a fotografia de uma das partidas mas célebres, imortalizada por um qualquer discípulo talentodo de Cartier Bresson e do seu instante decisivo.


133 - breakfast in Pluto

 


Nunca sei de devo abordar o filme pelo conteúdo da história ou pela significância dos pormenores. Irrita-me que a maioria das vezes os realizadores não se deem ao trabalho de conjugar as duas coisas contando-nos uma história constituída por pormenores, e não pormenores (com maior ou menos relevância) que poderão ou não vir a contar a dita história. Também não subscrevo que a história deve ser construida pelo espectador, porque isso cria uma cacofonia gritante e não haverá duas histórias iguais para o mesmo filme. A principal actividade que deveria orientar o cinema enquanto arte não deveria ser a capacidade de desmitificar os fantasmas do realizador, mas sim a compreensão da história que ele tem para nos contar. É interessante como esta fragmentação de histórias em pormenores, sensações, apontamentos e etc, que agora constitui a nossa realidade via redes sociais, já existe há muito tempo antes destas.  A colagem dos pastiches uns em cima dos outros já existe há muito, a diferença é que agora está separado em stories, posts, etc,  o que até me parece mais honesto do que pretender agrupá-las num todo coerente ( o filme) que acaba por não ser coerente. Parece preguiça... É legítimo que um artista apresente meia dúzia de borrões ou traços, mas tem que saber pintar. Dito tudo isto, continuo indeciso. Vou pela capacidade de auto-depreciação abnegada e resignada do Cillian Murphy pré Picket Blinders, ou pelo facto de dizer quatro frases no filme todo? Vou pela textura social irlandesa ou pela estupidez de todos os personagens? O filme tenta vender a ingenuidade da Kitten como uma armadura poética e surrealista contra a violência do conflito sectário e do preconceito da época. Mas há um limite ténue entre "resiliência sonhadora" e simples alheamento irritante. A textura social irlandesa dos anos 70 está lá, mas serve apenas de pano de fundo estático para uma sucessão de cenários por onde a personagem passa sem realmente ser transformada por eles. Vou pela  apreciação da androgenia e sua preponderância inevitável sobre a personalidade ou vou pela sensação de que ninguém sabe o que está a fazer rno filme? A atuação do Cillian Murphy é indiscutivelmente o motor elétrico de um carro que não sai do sítio. Ele segura o filme quase por pura força de presença e linguagem corporal —  Mas a  performance existe para servir uma história ou serve apenas para nos distrair do facto de que a história é um desfile de episódios sem grande consequência? Vou pelos 7,2 no IMDB  ou vou pelo sono que senti a ver o filme? Continuo a pensar nisto ou vou trabalhar?

1.10.26

132 - bicicletas 2

Em Amsterdão, a cidade onde há mais bicicletas do que pessoas e onde o fluxo de pedais parece um ecossistema próprio, era uma vez duas rodas da mesma bicicleta que, por engano, foram montadas em bicicletas diferentes. Gostavam tanto uma da outra que faziam com que as respectivas bicicletas  em que estavam montadas andassem sempre atrás uma da outra, completamente à revelia do que os condutores ciclistas pretendiam, transformando o livre-arbítrio humano numa mera ilusão perante a vontade da mecânica e seu afeto. Era óbvio para toda a gente que deveriam ser apenas uma bicicleta, embora fossem de facto duas. Eram conhecidas por toda a gente como a bicicleta óbvia. 

131 - bicicletas 1

 

Ele comprou a bicicleta por catálogo, com guiador em carbono, quadro em titânio, mudanças ultra-leves, selim anatómico cheio de gel, pedais de plataforma em alumínio, tudo tão leve que apenas os seus bastantes quilos a mais impediam que levantasse voo quando pedalava ao longo da marginal, vestido com camisolas de lycra e calções almofadados no rabo, e de óculos de sol com lentes estranhamente amarelas e grandes.

Ela tinha uma bicicleta enorme, antiga, tradicional e pesada, mais pesada ainda porque nela montada tinha a cadeirinha onde transportava os filhos, alternadamente, avenida acima avenida abaixo, nos levas e trazes de colégios e afins, tudo tão pesado tão pesado que apenas a sua força física incrível, tão bem disfarçada no corpo magro e até mesmo algo franzino, conseguia fazer com que o conjunto se movesse a uma velocidade considerável, que nem sempre parava nos vermelhos.

Cada um à sua maneira podiam ser considerados maluquinhos das bicicletas, o "mamarracho tecnológico" de lycra obcecado pelo peso grama a grama  versus a força bruta da rotina diária de um tanque com cadeirinha de bebé e quilos de compras. Quando se encontravam todos os dias na mercearia biológica, faziam jus à sua condição, e em vez de encherem chouriços em conversas de elevador ou de frente de máquina de café, falavam de trivialidades. Trivialidades ciclísticas. As conversas deram frutos e saiu delas uma combinação para andarem juntos, que foi evidentemente uma ideia péssima, porque o interesse em bicicletas não implica necessariamente  afinidades nos outros aspetos menos importantes da vida. Mal chegaram ao local de encontro ambos cederam à sua natureza ciclística. Ele saiu disparado pela ciclovia fora (só consegui apanhar a pontinha da roda, na fotografia) e ela ficou a falar com uma conhecida do colégio dos filhos, que passava de bicicleta por lá.. Ele não voltou para trás e ela não parou de falar.... Nunca mais  se viram.


130 - o elefante

 


Ter um elefante no meio da sala é o que acontece quando num qualquer momento, contexto, ambiente, envolvente, existe algo impossível de ignorar, algo que grita em plenos pulmões quando o que se quer é silêncio ou conversa baixa, algo que geralmente não é agradável a algumas das partes envolvidas que, por essa razão, tentam ignorar aquilo que não pode ser ignorado. Ter um elefante na sala e fingir que ele não está lá pode ser muitas coisas e ter muitas justificações, mas nunca deixará de ser estúpido. Estúpido por estúpido, é muito melhor ir ter com ele directamente e enfrentá-lo, olhos na tromba. Inevitavelmente, e apesar de todos os meus esforços para recuperar a forma, o elefante dá sempre cabo de mim e eu acabo todo partido. Teimoso, no entanto, não paro de os confrontar, porque há uma certa beleza poética no tipo que passa a vida a levar nos cornos no recreio da escola e, ainda assim, não tem medo e não desiste. Insisto portanto em desafiar a besta, que me torna a partir todo. Mas isso era dantes... e vida traz idade e a idade traz a experiência. Descobri que mesmo o elefante mais terrível não faz mal a ninguém se não lhe fizerem mal a ele. O problema do elefante no meio da sala somos nós, e nao ele. Somos nós que não sabemos lidar com ele e com o que ele evoca. Se o deixarmos sossegados, ele não nos fará mal nenhum. Assim sendo, passei a usar a ideia do Maurizio Cattelan, que vi numa exposição que ele fez em Serralves. Cobre-se o elefante com um lençol, eliminando assim o desconforto que ele pode transmitir quando descoberto. Temos é que deixar buracos para os olhos porque um elefante cego torna-se desgovernado e, quando assim, desata a fugir e leva os problemas todos da sala para o meio do mundo.Não se pode deixar de tomar muito cuidado, quando estamos a lidar com elefantes....

25.9.26

129 - Dogville

 


Um dia fui a uma despedida de solteiro masculina. Era um grupo grande em que as pessoas se conheciam em grupos mais pequenos de duas ou três pessoas, mas cada participante tinha muitas pessoas desconhecidas. Começou por um jantar de confraternização em que, gradualmente, os diversos participantes começaram a interagir uns com os outro ganhando conforto e familiaridade naturalmente propiciada pela comida, bebida e ambiente. Todos concordavam com o que todos diziam todos se estava a divertir imenso. Após o jantar, e eventualmente depois da uma ida a um bar, toda a comitiva se dirigiu para um estabelecimento de strip tease cheio de prostitutas. A maioria das pessoas entrou com algum receio, mas a verdade é que a familiaridade adquirida no jantar fez com que tudo parecesse natural e corresse bem, e a todos pareceu natural disfrutar do ambiente de uma forma natural e inocente, até porque a pessoa mais visada era o noivo, que de facto foi recebendo a atenção das prostitutas. Não tardou que o conceito de naturalidade evoluísse ao sabor do ambiente, passando quase todas as pessoas a achar que também podiam interagir com as prostitutas, começando por conversas auscultatórias sociais (muito engraçadas) e evoluindo para toques, abraços e conversas mais picantes. Não tardou muito a que as conversas passassem a acção e a tentativa de ação, sendo que a maioria das pessoas acabou por se envolver com as prostitutas havendo mesmo alguns episódios de sexo oral mais ou menos explícitos, uns consentidos e outros negados. Passado algum tempo, não muito, foi decidido sair daquele local e toda a gente se reuniu no exterior, retomando as conversas que tinham antes de entrar no local. A normalidade voltou e toda a gente se despediu amigavelmente e deu por terminado aquele, chamemos-lhe assim, evento social.Os paralelos com o filme não são diretos nem evidentes, nem têm que ser porque este texto é um registo pessoal e não tem que ser coerente a rigoroso em absoluto. Mas a verdade é que me lembrei da despedida de solteiro durante o filme. Numa comunidade tradicional, desenhada a giz no chão, pessoas normais acolhem de uma forma hospitaleira uma mulher que, vem-se a saber depois, era perseguida pela polícia. Toda a gente gosta dela e integram-na na normalidade das suas vidas. Agradecida, a mulher oferece-se para ajudar as pessoas e estabelecem um horário rotativo de ajuda. Rapidamente cada uma das pessoas sente a necessidade de exigir cada vez mais da mulher, chegando-se a uma situação de escravatura prática. Física, principalmente, mas também moral, porque cada um à sua maneira começa a oprimi-la, humilhá-la e tratá~la cada vez pior. Os homens fizeram o que costumam fazer que fi aproveitar todo e qualquer pretexto para obter sexo forçado com ela e as mulheres também fizeram o que costumam fazer, respeitando ao despeito que sentiam pelas ações dos maridos com humilhações ainda maiores à culpada daquilo tudo. Em profundo desespero, a mulher tenta fugir, e´apanhada, dá-se uma espécie de julgamnto público e ela expõe tudo o que sente. A sociedade, chamemos-lhe assim, reflete e chega à conclusão que se calhar estavam a exagerar. Gradualmente vão diminuindo as exigências e voltando à normalidade do início, tratando-a como um ser humano e acabando com as explorações. Não sei onde é que o realizador queria chegar com este filme, atá porque é um realizador complicado, muito descrente da espécie humana e longe da normalidade, seja lá o que esta for. Mas a mim, fez-me pensar que a sociedade facilmente parte da legitimidade da normalidade que vive para situações em que cada individuo tenta explorar o elo mais fraco com que se depara, fazendo isso enquanto pode e consegue criando assim uma nova normalidade que legitima as suas ações. Mas como ninguém é totalmente mau, acabam (geralmente por algum acontecimento vindo do exterior) por se aperceber do mal que estão a fazer e oscilam novamente para a normalidade inicial. Há sempre indivíduos que resistem a este fenómeno de massas, não por serem melhores que os outros mas talvez porque são naturalmente divergentes dos fenómenos em massa. No filme o divergente era Tom, o único homem que gostava de Grace e, como tal, a respeitou. Na despedida de solteiro fui eu, que quando era novo achava ridículo e degradante partilhar intimidade com pessoas que não a queriam.

24.9.26

128 - Carnage



Homemade doubledate, ou talvez swing verbal. Não sabia que era do Polansky...

23.9.26

127 - ativismo x idealismo

Ativismo vs. Idealismo

Considero o ativismo uma atividade de valor moral neutro, que é apenas tão boa quão boa for a causa que processa. O ativismo não é uma filosofia, não é uma moral nem sequer uma forma específica de afirmação humana. Trata-se apenas de uma ferramenta posta ao serviço de uma causa, dependendo da validade desta para obter legitimidade moral. O ativismo é uma pressão geralmente ensurdecedora para que o indivíduo seja levado a seguir um determinado caminho, indo assim ao  encontro de interesses de terceiros. O ativista é alguém com tempo e energia para defender uma causa, mas apenas isso. Não é o ser ativista que faz dele uma boa ou ou má pessoa, mas sim as causas que ele defende. Existem, no entanto, algumas características próprias que se podem atribuir ao ativista em si, e não ao ser humano que defende a causa. O ativista costuma ser dotado de uma certa energia honesta, que lhe permite avançar sem grandes reservas nos seus objetivos. Não se costuma pôr em causa por que acredita efetivamente naquilo que defende ou que lhe dizem para defender. Não é um ser analítico nem relativiza as situações, avançando sempre a direito em direção ao seu objetivo. Embora muita vezes seja considerado um idealista, a verdade é que não o é. Se fosso idealista acreditava que as ideias acabam por se impor por si e que as pessoas acabam, mais tarde ou mais cedo, por ver a razão. É pessimista. Sabe que sem a sua ação as coisas não vão acontecer. Não confia praticamente em ninguém, quer individualmente quer institucionalmente. É, geralmente, uma pessoa revoltada ou privilegiada. Daquelas que já não tem nada a perder ou que então não se interessam em ganhar.

O idealista não funciona bem assim. É uma pessoa introspetiva, habituada a refletir e a pensar bastante nas coisas.  O materialismo passa-lhe um bocado ao lado, pois valoriza apenas o mundo das ideias e geralmente não consegue perceber que o materialismo pode e deve ser a recompensa de uma ideologia do bem. Os idealistas são e sempre foram os grandes motores da humanidade, porque se preocupam efetivamente com o caminho que esta está a seguir.  A sua agenda é global, são magneticamente atraídos para a generalização dos conceitos, querendo sempre ir mais e mais longe no estabelecimento dos princípios pelos quais acham que a humanidade se deve guiar. O idealista está sempre do lado da moralidade porque de facto acredita que está a fazer o melhor pelo mundo e acresce a essa ação o facto de se preocupar o suficiente pela humanidade para se dar ao trabalho de a tentar catequizar. Não há idealistas maus, porque de facto todos acham que estão a fazer o bem e falta-lhes a humildade para sair do seu umbigo e dar-se ao trabalho de perceber os efeitos da sua ideologia, se adotada, no comum mortal. São moralmente neutros porque a única pessoa a quem respeitam para além deles próprios é a Platão.  Gosto de idealistas e não gosto de ativistas. Mas quem eu prefiro mesmo são aquelas pessoas que, mercê das suas escolhas individuais, fazem o correto e tornam o mundo num sítio melhor sem chatear a cabeça aos outros, seja com livros seja com manifestações. Chamo a essas pessoas, normais. Sei que só podem existir porque antes apareceu o idealista para desenhar o horizonte e o ativista para arrombar a porta, mas vou ficar com a ilusão que, a partir deste presente, a normalidade (na qual incluo o bem, obviamente) das escolhas individuais será suficiente para um mundo melhor em 90% dos casos.


126 - o meu tio

 


Casal novo rico vive em moradia tipo de gama onde sobressai uma estátua de sardinha de pé, no meio de uma fonte, e que deita água pela boca. Há um caminho pedonal curvo que faz com que a distância entre portão e porta triplique. Há um portão automático que se abre a partir da cozinha e plantas que parecem estar coladas na parede. Há um jantar da caricaturas em que a que me chamou mais a atenção foi uma loira bonita que não falou e a que mais me irritou foi uma outra que não parava de se rir. Alguém furou um tubo o sistema de rega op que fez com que a água da fonte deixasse de jorrar pela boca da sardinha e passasse a sair pelo buraco no tubo. Uma questão de perda de carga...Entretanto lembro-me que o casal novo rico tem um filho que não fala mas que parece algo travesso, principalmente quando coloca na cabeça as penas de chefe índio, cujo nome erudito é cocar. E, finalmente, existe também um tio, que mora numas águas furtadas e anda sempre de agbardine e a fumar um cachimbo. Farta-se de interagir com a vizinhança típica do bairro e parece algo descoordenado e trapalhão. Supostamente o papel dele é humanizar o sobrinho, aliviando-o da pressão novo-riquista dos pais. Não sei se o fez e como o fez porque a verdade é que o tio não diz uma palavra o filme todo. Ou então falou apenas nos momentos em que poderei ter adormecido. O filme é visualmente agradável e venceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1959 e o Prémio do Júri no Festival de Cannes. O que confirma a minha teoria que no passado a quantidade era tão menor que a qualidade se afirmava com muito menor necessidade de... qualidade.

22.9.26

125 - data center

 


Existe uma empresa registada em Portugal mas com origem desconhecida cujo core business é aquilo a que se pode chamar data center, uma vez que armazena informação numa localização centralizada. Ou, mais concretamente, a empresa endia espaço de armazenamento físico com interface de visualização aumentada, tendo usado a expressão mais comum de data center para melhor percepção por parte dos clientes. Foi fundada em meados do século 21 e foi comprando edifícios abandonados pelo país fora, edifícios esses que foram ligeiramente melhorados e que depois eram alugados a quem assim o quisesse fazer. A particularidade desses edifícios era que, através de uma tecnologia específica ( com base num qualquer software ), permitia aos seus locatários ver na perfeição aquilo que estava neles armazenado. As vantagens eram óbvias. Para além de um controlo direto (bastava visitar o sítio para ver o que lá estava dentro) permitia ao proprietário ter acesso sentimental direto às suas coleções. Era extremamente recompensador passar anonimamente por um armazém cheio de coisas nossas e ver diretamente o que lá estava dentro. Um dia aconteceu uma inevitabilidade informática que foi serem hackeados e ficarem com o seu software à mercê dos piratas.O pirata que crackou o software, no entanto, era uma pessoa original, no sentido em que tinha uma certa sensibilidade estética que se sobrepunha ao jeito para o negócio ( vender o que hackeava à concorrência direta do hackeado). Tinha também uma filosofia visual explícita, que acreditava que a opacidade é uma ilusão capitalista e o segredo uma forma de acumulação egoísta.  Resolveu fazer um assim criar um virus que fizesse com que o conteúdo dos edifícios ficasse visível para toda a gente que para ele olhasse. E que ficasse visível para sempre. Chamou-lhe vitrina e também não o comercializou. Os resultados foram bastante diversificados, mas a verdade é que muitos dos proprietários também gostaram da idéia e deixaram que os edifícios permanecessem com o seu conteúdo. No caso da foto, era um famoso colecionador extraterrestre que colecionava gigantes ultra românticos, provenientes do seu planeta. O impacto nas cidades foi grande, embora não generalizado. Muita gente preferiu esvaziar os seus edifícios para não partilhar os seus conteúdos. Os que ficaram deram origem a uma nova forma de arte, chamada grafitti.

18.9.26

124 - dtf st. louis

 

Esta série, como é que posso dizer isto de uma forma honesta, incomodou-me. As personagens incomodaram-me. Olhava para elas e não gostava de que elas estavam a fazer, a sentir, a dizer, a transmitir. Não por falta de qualidade da série propriamente dita, mas exatamente por causa das personagens, das quais não gostei enquanto... pessoas. E logo aí a série consegue uma coisa que já não sentia há muito tempo, que foi esquecer que é uma série e ficar verdadeiramente ligado às pessoas que estavam a viver aquelas vidas na minha televisão. O princípio mais importante do telespectador, ou do assistente é a suspensão da descrença. Seja qual for o enredo, sabemos que é uma história e não sentimos as coisas que se estão a passar organicamente porque sabemos que não existem. Estes trocaram-me as voltas e conseguiram que me irritasse com o que estava a ver, com as personalidades das personagens. Detestei-os a quase todos, embora com o passar dos episódios alguns se fossem redimindo ligeiramente. A mulher quase autista que não dizia uma frase consequente e só se preocupava com pormenores domésticos insignificantes mas que ainda assim tinha um qualquer encanto no olhar que fazia com que fizesse sentido a tenção que lhe devotavam. O filho também semi autista (mas este provavelmente a sério) que atirava pedras à casa e usava um colete verde irritante e que não fazia mais nada a série toda. O apresentador do tempo, inútil por definição (como ele próprio admitia) que era aquela americano insuportável que fala aos arranques, que só diz coisas óbvias, que seduz a mulher do amigo com quem faz amizade, que anda de bicicleta horizontal e de t-shirt cor de rosa, que tem um corpo escanzelado e que está sempre a sorrir numa cara cheia de rugas com um cabelo bastante ridículo. A polícia negra que é positivista pornográfica, ou seja, que usa a pornografia na sua vida sexual, que nos diz isso, e passa o resto dos episódios a dizer meias frases que em nada contribuem para a realização do seu trabalho, que seria a resolução do crime. E a personagem pricipal, vinda do starnger things, grande e gordo, sempre desconfortável, sempre à procura de algo que o justifique, que não paga os impostos, abandona uma carreira em troca de ser  um tradutor gestual coreográfico, com uma bonomia insuportável perante todas as asneiras que diz e as coisas que não faz. Que se realiza no affaire que a mulher tem com o metereologista a quem apoia e incentiva  no exercício da infidelidade, sempre sorrindo estupidamente como se isso fosse mesmo  bom. Que acha natural que lhe façam um seguro de vida e lhe paguem as propinas do filho que afinal não é seu. E sempre com um sorriso insuportável de vaca estúpida, como se fosse tudo normal e nós é que não. Porra, a mediocridade do personagem era tanta que conseguiu mexer comigo. E lá está o mérito... porque era real, porque há gente assim e porque eu não tive que suspender a descrença para absorver aquela mediocridade toda... Porra... irritou-me mesmo... nunca detestei tanto uma série tão boa... preferia mesmo não ter visto.

16.9.26

123 - Zona Industrial



Na zona industrial do Porto existe uma fábrica que nunca o foi. Aliás, fábrica é palavra que já ali não se conjuga: o tecido produtivo de outrora deu lugar a uma paisagem monótona de campos de padel, stands de automóveis reluzentes e armazéns de bugigangas. Mas aquele edifício em particular sempre pertenceu a outra categoria. Era, na verdade, a tampa de um gigantesco complexo subterrâneo e o portal de entrada para uma conquista silenciosa que os chineses queriam fazer sobre o Porto. Todas as noites, o telhado recortado acendia-se em padrões geométricos impecáveis. A partir do céu, a grelha de luz servia de farol para vagas de para-quedistas chineses que desciam em grupos de cinquenta. Traziam os seus chapéus cónicos característicos — que do chão pareciam pequenas chaminés alinhadas na escuridão — e aterravam com precisão milimétrica antes de se esgueirarem para as galerias subterrâneas. O plano era de uma ambição imperial: colonizar comercialmente o Porto, desmantelar o tecido industrial clássico, convertê-lo em retalhos sintéticos de qualidade média-baixa e, a partir dessa praia de desembarque na Zona Industrial, alastrar social e economicamente até à Foz e à Ribeira. O que os estrategistas de Pequim não previram foi a geopolítica de bairro. Quando as populações de Ramalde, do Viso e de Francos perceberam o movimento, não pegaram em armas; usaram táticas de desgaste social. Invadiram os estabelecimentos em massa. Compravam tudo o que havia nas prateleiras e, quando não compravam, instalavam-se. Passavam lá as tardes em amena cavaqueira, entre o cheiro a plástico novo e o som dos canais de notícias. Enquanto os comandantes tentavam traçar mapas táticos nas catacumbas do edifício, a D. Lurdes do Viso aparecia à superfície, retendo a vanguarda das forças de invasão durante três horas seguidas. Perguntava o preço de cada novelo de lã, pedia desconto em dois conjuntos de recipientes herméticos e explicava, com detalhe obsessivo, o segredo das suas rabanadas de vinho tinto. A estocada final não veio da diplomacia, mas do parque de estacionamento. No dia em que os primeiros arrumadores de carros tomaram posições à porta do complexo, exigindo moedas com uma autoridade ancestral, a estrutura de comando ruiu. Exaustos, privados de silêncio e incapazes de combater a hospitalidade sufocante do Norte, os invasores cederam à aculturação.Hoje, a fábrica continua lá, com o seu telhado escuro e as suas chaminés imóveis contra o céu noturno. Já ninguém salta de paraquedas. Mas a operação deixou uma herança irrepetível: deu origem a uma comunidade única no planeta, perfeitamente adaptada ao ecossistema Invicta. O gunês.

10.9.26

122 - Compactacao

 


A compactação é uma operação essencial à humanidade mas a qual não se da a devida importância. O que quer que seja que se queira construir necessita de uma base de assentamento estável e resistente, ou seja, compactada. Tendemos a valorizar o edifício, a ponte , o que se constrói acima do dolo, mas a verdade e que sem um bom solo de fundação nada se mantem de pé. Nem todos os solos são iguais. Os solos coesivos, tipo argilas e siltes colocam alguns desafios a sua compactação devido à reduzida permeabilidade, plasticidade e forte retenção de água. Como a água custa a sair dos poros da argila, a aplicação rápida de cargas gera pressões neutras (pressão da água nos poros) elevadas. Se o solo for compactado demasiado depressa com excesso de água, pode ocorrer rutura por corte em vez de adensamento. Por outro lado, as ações mecânicas sobre a argila tendem a fazer com que esta se desagregue torrões grandes e rijos. Se o equipamento de compactação não quebrar estes blocos durante a passagem, criam-se vazios internos permanentes no aterro. Argilas com elevado índice de plasticidade  tendem a absorver água e expandir no inverno, e a secar e retrair  no verão, abrindo fendas Se a compactação não for feita com a energia e humidade adequadas, a estrutura final ficará instável perante ciclos climáticos. A compactação a grande escala faz-se recorrendo a cilindros compactadores, mas não é assim tão simples. A utilização de cilindros de piso liso, mais tradicionais, pode selar ou polir a superfície da camada compactada, criando uma película impermeável e lisa que  impede a aderência e a ligação estrutural com a camada seguinte de aterro. provocando planos de fraqueza. Para resolver este problema, deverão ser utilizados os chamados cilindros pé-de-carneiro, em que o tambor aço possui dezenas de saliências metálicas (patas ou "pés") distribuídas uniformemente, cujo formato se assemelha  aos cascos de carneiro. Atuam por pressão localizada e amassamento (kneading action). Os pé penetram na camada de solo, compactando o aterro de baixo para cima. Ao penetrar no solo, ajuda a quebrar socos/mottes de terra e a homogeneizar a humidade da camada terraplenada. É comum que nos países em vias de desenvolvimento, geralmente economicamente mais carenciados, se use uma solução variante, mantendo os pés de carneiro mas esquecendo todo o equipamento e tecnologia restante. Tal foi o caso nesta autoestrada na Argélia, feita por chineses. O resultado, embora claramente muito mais sustentável, não costuma ser o desejado...



3.9.26

120 - o arquiteto

 

Era uma vez um arquiteto cansado por uma longa carreira de projetos que nunca tinham saído do papel onde eles os desenhara. Como todos os  arquitetos era vaidoso e não conseguia dissociar o seu bem estar pessoal com o sucesso profissional ou, neste caso, a falta dele. Dedicou muito tempo a tentar perceber porque o seus projetos não eram nunca escolhidos e chegou à conclusão que a culpa não era sua. O sucesso dos projetos eram inevitavelmente ditado pelas opiniões de pessoas cujo principal objetivo era dizer mal, e tentar manter o seu status quo, evitando a ascensão de outros, ainda que talentosos. Depois de muito pensar concluiu que o sucesso estava à distância da aniquilação da sua individualidade. Concebeu assim um edifício que de seu nada tinha que não fosse a ideia. Ideia que era fazer com que cada pessoa que contemplasse o edifício visse aquilo de que mais gostava no mundo, ou seja, que se visse a si próprio. Ao longe, o edifício era invisível. De perto, devolvia a imagem de quem o contemplava, suscitando imediatamente aprovação e admiração. E assim aconteceu. O arquiteto finalmente teve sucesso, mostrando ao mundo aquilo que o mundo queria ver. Foi uma ideia arrojada que, no entanto, apenas pode ser usada uma vez. O que lançou o arquiteto numa depressão ainda mais profunda porque pior que nunca ter tido sucesso é ter uma vez e nunca mais lhe sentir o sabor. A anulação do "eu" em favor do agrado imediato do público trouxe uma satisfação efémera. Ao conceber a obra definitiva baseada nesse truque conceptual, o arquiteto esgotou a sua fórmula e fiquei exposto à dor de ter alcançado o aplauso sem ter revelado nada da sua verdadeira essência. Ainda hoje pensa se valeu ou não a pena. Vaidoso como é, sabe que não...

2.9.26

119 - O século dos imbecis

 

Nunca li nada do Valter Hugo Mãe. Ouvi-o falar a vivo duas vezes e na televisão outras duas. Gostei muito. Coloquei-o numa prateleira com  o Gonçalo M. Tavares e com o Afonso Cruz- Uma prateleira de escritores que produziam livros muito bons e eram discretos e que de alguma forma se tinham afastado dos temas tradicionais portugueses, que não consigo sistematizar exatamente quais são mas sinto a nuvem e o clima de depressão e tragédia que eles projetam. Estava assim com grandes expectativas relativamente a este livro, principalmente depois de o ouvir na televisão a abordar com a jornalista dos olhos assustadores questões relativas ao excesso de informação vs. falta de conhecimento, da desumanização que isto provoca, da falta de um substrato de cultura que todos deveríamos ter e quase nenhum de nós tem. Expectativas que aumentaram ainda mais quando o livro me chegou às mãos embalado em plástico. Certo que é anti-ecológico, mas dava a sensação que o livro iria era tão bom que não se podia correr o risco de as boas ideias caírem do livro aquando do seu manuseio. Embalado de um otimismo pouco característico no início de um calhamaço de 500 páginas, mergulhei sem reservas na leitura, não demorando muito para as reservas que não tinha aparecerem à desfilada.. Não vou resumir o livro, não só porque não é este o objetivo como também corria o risco de o resumir em 5 linhas. Mas confesso que fiquei muito desiludido. O livro é uma espécie de Cidade e as Serras mas sem nenhum do sentido de humor que o Eça tinha.. Fala da vida de um barão, dentro de um solar em que, literalmente, nada se passava. Nada mesmo. Depois chega a baronesa, já casada, e nada acontece. Nada. Nem mesmo sexo. Mergulhamos à exaustão no interior das cabeças dos personagens secundários mas isso não traz grande interesse, pois por serem secundárias nada acrescentam à história que as suas disfuncionalidades rurais. E se calhar o problema é esse, o de estarmos à espera de uma história, que como já disse acima é praticamente inexistente e resumível em 5 linhas. Passo a demonstrar:

  • Agiulfo, o barão, fica mais inteligente quando a cota altimétrica a que se encontra aumenta e mais estúpido quando diminui;
  • Um dia casa-se a não faz nada com a mulher, que disputa territorialmente esse nada com uma criada que se considera a verdadeira dona de tudo;
  • Um dia Agiulfo desce demais e morre. Deixa um cofre fechado que a baronesa, cujo nome não sabemos, não consegue abrir e assim aceder às riquezas supostamente existente.
  • A criada carece de sexo, existe uma revolucionária lésbica, uma mulher com algo entre as pernas, dois gémeos assassinos e mais alguns personagens ainda mais secundários.
  • A criada salva tudo mediante uma espécie de coletivização da propriedade e venda do seu imobilizado. Algures é violada e não desgosta.
Estou consciente de que o resumo é fraco, mas provavelmente porque o livro também é. Não ponho em causa a qualidade da escrita, embora navegue numa linguagem ruralizada de que não gosto muito. O  que me custa é a ausência de história. Porque para mim, um livro é a necessidade de alguém contar uma história que tem na cabeça. O resto vem por acréscimo. É por isso que não escrevo livros, porque não etnho histórias para contar. É por isso que escoo a minha necessidade de escrever aqui, onde ninguém lê porque ninguém sabe que existe. Agora se és um escritor com provas dadas, com talento e ainda por cima com as ideias no sítio, tens que fazer melhor do que isto. Não vou  desistir do Valter Hugo, mas fiquei com a sensação que comecei com o pé errado.

1.9.26

118 - Dorian Gray

 

Em Nápoles, no bairro espanhol, existe a parede Gray, não por ser cinzenta mas porque tinha as mesmas características que o quadro de Dorian. Hoje, já não tem nada...


28.8.26

117 - o cão de Tróia

 


Ao contrário do que todas as teorias da conspiração dizem, a primeira nave extraterrestre que aterrou na terra não foi em Rosswel mas sim em Bilbao, no país basco. Construída junto ao rio, em titânio, sem portas aparentes  e com uma aranha gigante a guardá-la, era completamente inexpugnável. Tornou-se fundamental para a comunidade internacional conseguir a comunicação com os tripulantes da nave ou, melhor ainda, conseguir o acesso ao seu interior. Fizeram-se todos os testes convencionais para o conseguir, mas sempre sem sucesso. Repetiram todos os testes de luzes dos encontros imediatos do 3º grau, tocaram a réplica do disco de ouro que foi na Voyager, construíram um tanque gigantesco onde se colocaram baleias a cantar, passaram num écran gigante todos os algarismos do número Pi, reproduziram-se vídeos de Michael Jackson, Elvis Presley , David Bowie, bem como discursos de Donald Trump, Elon Musk, do líder da Coreia do norte, do André Ventura, entre muitos outras personagens com maiores ou menores probabilidades de serem extraterrestres.... Passaram  o ET, o Arrival, os Encontros Imediatos do 3º grau, e o Contacto. Preparavam-se para passar a série V, o Independence Day, a Guerra dos Mundos, o Sinais e o Dia em que a Terra parou, mas um general de quatro estrelas teve o bom senso de desligar os cabos a tempo de evitar a transmissão — se a nave estivesse a aprender a nossa linguagem, dar-lhe ideias de destruição em massa. Tudo isto sem resultados. A solução veio de onde menos se esperava. Um artista americano, casado com um atriz de filmes para adultos que, pensando bem, poderia perfeitamente ser extraterrestre, idealizou um cavalo de Tróia ao contrário. Criou um cão gigante e, em vez de o encher de humanos por dentro, cobriu-o com mais de 38.000 flores naturais por fora. E a obra ficou tão bonita que os extraterrestres se renderam à sua beleza e instantaneamente abriram as portas e deixaram que os humanos tivessem ao acesso ao interior da nave. Desde esse momento, estudiosos terrestres e público em geral tentam perceber o significado de todas as instalações existentes na nave. Até hoje ninguém conseguiu.

27.8.26

116 - o instante decisivo

 


Havia um fotógrafo na Hungria que acumulava várias características ao mesmo tempo.

- Era fá incondicional do instante decisivo, aquela forma de materializar em imagem aquilo que uns instantes antes ainda não existiu e uns segundos depois já aconteceu e nunca mais se repetirá.
- Era licenciado em Alquimia e especializado no chamado toque de Midas, mas ainda não tinha conseguido passar além do bronze.
- Adorava cães, que considerava serem a  a única criatura sobre a terra capaz de expressar uma alegria sem sombra de dúvida.

Um dia, passeava no parque e viu uma rapariga a brincar com o cão, atirando-lhe um bola que ele apanhava e lhe entregava de volta. Esperou por aquele momento em que  os músculos do cão se retorceram numa tensão graciosa, a mandíbula escancarada a milímetros de prender a bola, os olhos brilhando com a mais pura, crua e absoluta felicidade que o universo podia conter. A rapariga, ainda de braço estendido, sorria com o sobrolho franzido de expectativa e também feliz como que se estava a passar. Sem hesitar um segundo, o fotógrafo transformou-os em bronze e, tranquilamente, escolheu o melhor ângulo para imortalizar aquele momento de felicidade pura e genuína. E depois foi-se embora, porque não sabia reverter o processo...

24.8.26

115 - my lovely head

 


Era uma vez uma cidade que queria ficar para a história. Destituídos de qualquer motivação política, não tendo nenhuma agenda que não fosse criar uma referencia incontornável para a terra onde nasceram, onde viviam e que amavam, resolveram adoptar uma visão clássica e construir uma estátua que toda a gente conhecesse e que fosse sinónimo de tudo. Um colosso. Tipo o de Rodes. Escolheram um modelo e fecharam-no num quarto e destruíram todas as suas fotografias para que o efeito surpresa aquando da inauguração fosse total. Começaram então a construção. A estátua ia ter 85 metros de altura, uma vez que essa era a altura acima do metro que toda a gente tem que era considerada a ideal. Começaram por fazer a cabeça, porque intuíram acertadamente que ia ser um processo muito demorado e, como tal, havia que aproveitar a beleza actual do modelo. Dispenso a relato dos pormenores técnicos... Materiais, localização, cor, tamanho do cabelo, a orientação para que estaria virada, a roupa que teria vestida… Tudo isso foi discutido a exaustão. E tudo contribuiu para que o processo se fosse arrastando pelos anos. Inevitavelmente, o entusiasmo foi diminuindo e a cidade foi esquecendo o seu objectivo. Um dia, quando essa noticia já não espantava nem indignava ninguém, foi finalmente anunciado o cancelamento da obra. Tinham feito apenas a cabeça... Mas, inesperadamente, quando retiraram os andaimes e os tapumes, descobriram que aquela cabeça de 15 metros de altura, com umas feições perfeitas e que espreitava entre os prédios que a rodeavam, era uma referencia incontornável para toda a gente que por perto passava. Era como se se tivesse a cidade a olhar para si. Valia a pena ir de propósito olhar a cara da cidade nos olhos, e era mesmo bonita. As pessoas passaram a ir olhar a cara da cidade todos os dias, as pessoas queriam casar-se com a cidade por testemunha, todos os fotógrafos usavam a cara da cidade como modelo para tudo... A cidade ficou mundialmente conhecida como a cidade que tinha uma cara. E quando todo este sucesso permitiu que houvesse dinheiro para acabar a estátua, a população em peso foi unânime em dizer que não queriam que se construísse o resto do corpo. Cidades com estátuas havia muitas. Cidade com cabeça, havia apenas uma. E uma bonita cabeça. A cabeça ainda existe e está exposta na praça principal da cidade. Está cansada e, por isso, deitou-se.