Era uma vez uma cidade que queria
ficar para a história. Destituídos de qualquer motivação política, não tendo
nenhuma agenda que não fosse criar uma referencia incontornável para a terra
onde nasceram, onde viviam e que amavam, resolveram adoptar uma visão clássica
e construir uma estátua que toda a gente conhecesse e que fosse sinónimo de
tudo. Um colosso. Tipo o de Rodes. Escolheram um modelo e fecharam-no num
quarto e destruíram todas as suas fotografias para que o efeito surpresa
aquando da inauguração fosse total. Começaram então a construção. A estátua ia
ter 85 metros de altura, uma vez que essa era a altura acima do metro que toda
a gente tem que era considerada a ideal. Começaram por fazer a cabeça, porque
intuíram acertadamente que ia ser um processo muito demorado e, como tal, havia
que aproveitar a beleza actual do modelo. Dispenso a relato dos pormenores
técnicos... Materiais, localização, cor, tamanho do cabelo, a orientação para
que estaria virada, a roupa que teria vestida… Tudo isso foi discutido a
exaustão. E tudo contribuiu para que o processo se fosse arrastando pelos anos.
Inevitavelmente, o entusiasmo foi diminuindo e a cidade foi esquecendo o seu
objectivo. Um dia, quando essa noticia já não espantava nem indignava ninguém,
foi finalmente anunciado o cancelamento da obra. Tinham feito apenas a
cabeça... Mas, inesperadamente, quando retiraram os andaimes e os tapumes,
descobriram que aquela cabeça de 15 metros de altura, com umas feições
perfeitas e que espreitava entre os prédios que a rodeavam, era uma referencia
incontornável para toda a gente que por perto passava. Era como se se tivesse a
cidade a olhar para si. Valia a pena ir de propósito olhar a cara da cidade nos
olhos, e era mesmo bonita. As pessoas passaram a ir olhar a cara da cidade
todos os dias, as pessoas queriam casar-se com a cidade por testemunha, todos
os fotógrafos usavam a cara da cidade como modelo para tudo... A cidade ficou
mundialmente conhecida como a cidade que tinha uma cara. E quando todo este
sucesso permitiu que houvesse dinheiro para acabar a estátua, a população em
peso foi unânime em dizer que não queriam que se construísse o resto do corpo.
Cidades com estátuas havia muitas. Cidade com cabeça, havia apenas uma. E uma
bonita cabeça. A cabeça ainda existe e está exposta na praça principal da
cidade. Está cansada e, por isso, deitou-se.