Para evitar Ormuz, vários países resolveram alargar os seus estreitos.
cheia. de livros. e não só.
Quasimodo nasceu disforme e, talvez por isso, foi abandonado nos degraus da catedral de Notre Dame, não se sabe por quem Foi adotado por uma inteligência clerical chamada Claude (era o arquidiácono de Notre Dame) e passou grande parte da sua adolescência a trabalhar como o sineiro. O seu trabalho era assinalar o tempo de 15 em 15 minutos, de maneira a que a população soubesse sempre que horas eram. Deveria também, convocar para a oração, assinalar as avé-Marias e tocar a defuntos sempre que tal era necessário. Fazia ainda parte das suas funções a verificação contínua das estruturas de madeira, martelos, cordas, roldana e dos sinos propriamente ditos. Um dia, como é sabido, conhece a cigana Esmeralda e a sua perceção da vida muda radicalmente. A qui as fontes divergem. É inquestionável que se apaixonou por ela, mas não se sabe se foi a paixão que o levou a mudar a sua vida ou se foi directamente a influência de Esmeralda que o fez trilhar caminhos menos convencionais. A verdade é que Quasimodo mudou radicalmente e ficou obcecado por Esmeralda, fazendo tudo e mais alguma coisa para a conseguir conquistar. Já na altura era necessário dinheiro para fazer as coisas acontecerem e Quasimodo começou a usar a catedral como ferramenta para o enriquecimento e, consequentemente, como chave para o coração de Esmeralda. Fez muita coisa na catedral. A mais interessante de todas foram as corridas de gárgulas. Estas alinhavam-se na fachada e, ao toque do sino, partiam desenfreadas para fazer a volta a Paris, que na altura era pouco mais que a Ile de la Cité. A população, naturalmente, apostava forte e Quasimodo fazia a gestão desportiva das apostas, sendo que parece ter enriquecido consideravelmente, de acordo com registos encontrados na obra de recostarão depois do incêndio de 2019. Dizem até que encontraram um tesouro na catedral e que este foi a principal fonte de financeamento da reconstrução tão rápida, o que não deixa de fazer um certo sentido poético. Embora com muita sorte ao jogo, Quasimodo continuou sem sorte ao amor. Esmeralda acaba por ser morta pelo Arquidiácono (ou a mando deste) e nunca ficou com Quasimodo. Este, embora rico, deprimiu e acabou por morrer sozinho, não sem antes ter precipitado o Arquidiácono das torre mais alta até a chão mais baixo. Nas olimpíadas de 2024 tentaram recriar-se as corridas, mas tal não foi conseguido por muitas e variadas razões. Fica a fotografia de uma das partidas mas célebres, imortalizada por um qualquer discípulo talentodo de Cartier Bresson e do seu instante decisivo.
Nunca sei de devo abordar o filme pelo conteúdo da história ou pela significância dos pormenores. Irrita-me que a maioria das vezes os realizadores não se deem ao trabalho de conjugar as duas coisas contando-nos uma história constituída por pormenores, e não pormenores (com maior ou menos relevância) que poderão ou não vir a contar a dita história. Também não subscrevo que a história deve ser construida pelo espectador, porque isso cria uma cacofonia gritante e não haverá duas histórias iguais para o mesmo filme. A principal actividade que deveria orientar o cinema enquanto arte não deveria ser a capacidade de desmitificar os fantasmas do realizador, mas sim a compreensão da história que ele tem para nos contar. É interessante como esta fragmentação de histórias em pormenores, sensações, apontamentos e etc, que agora constitui a nossa realidade via redes sociais, já existe há muito tempo antes destas. A colagem dos pastiches uns em cima dos outros já existe há muito, a diferença é que agora está separado em stories, posts, etc, o que até me parece mais honesto do que pretender agrupá-las num todo coerente ( o filme) que acaba por não ser coerente. Parece preguiça... É legítimo que um artista apresente meia dúzia de borrões ou traços, mas tem que saber pintar. Dito tudo isto, continuo indeciso. Vou pela capacidade de auto-depreciação abnegada e resignada do Cillian Murphy pré Picket Blinders, ou pelo facto de dizer quatro frases no filme todo? Vou pela textura social irlandesa ou pela estupidez de todos os personagens? O filme tenta vender a ingenuidade da Kitten como uma armadura poética e surrealista contra a violência do conflito sectário e do preconceito da época. Mas há um limite ténue entre "resiliência sonhadora" e simples alheamento irritante. A textura social irlandesa dos anos 70 está lá, mas serve apenas de pano de fundo estático para uma sucessão de cenários por onde a personagem passa sem realmente ser transformada por eles. Vou pela apreciação da androgenia e sua preponderância inevitável sobre a personalidade ou vou pela sensação de que ninguém sabe o que está a fazer rno filme? A atuação do Cillian Murphy é indiscutivelmente o motor elétrico de um carro que não sai do sítio. Ele segura o filme quase por pura força de presença e linguagem corporal — Mas a performance existe para servir uma história ou serve apenas para nos distrair do facto de que a história é um desfile de episódios sem grande consequência? Vou pelos 7,2 no IMDB ou vou pelo sono que senti a ver o filme? Continuo a pensar nisto ou vou trabalhar?
Em Amsterdão, a cidade onde há mais bicicletas do que pessoas e onde o fluxo de pedais parece um ecossistema próprio, era uma vez duas rodas da mesma bicicleta que, por engano, foram montadas em bicicletas diferentes. Gostavam tanto uma da outra que faziam com que as respectivas bicicletas em que estavam montadas andassem sempre atrás uma da outra, completamente à revelia do que os condutores ciclistas pretendiam, transformando o livre-arbítrio humano numa mera ilusão perante a vontade da mecânica e seu afeto. Era óbvio para toda a gente que deveriam ser apenas uma bicicleta, embora fossem de facto duas. Eram conhecidas por toda a gente como a bicicleta óbvia.
Ele comprou a bicicleta por catálogo, com guiador em carbono, quadro em titânio, mudanças ultra-leves, selim anatómico cheio de gel, pedais de plataforma em alumínio, tudo tão leve que apenas os seus bastantes quilos a mais impediam que levantasse voo quando pedalava ao longo da marginal, vestido com camisolas de lycra e calções almofadados no rabo, e de óculos de sol com lentes estranhamente amarelas e grandes.
Ela tinha uma bicicleta enorme, antiga, tradicional e pesada, mais pesada ainda porque nela montada tinha a cadeirinha onde transportava os filhos, alternadamente, avenida acima avenida abaixo, nos levas e trazes de colégios e afins, tudo tão pesado tão pesado que apenas a sua força física incrível, tão bem disfarçada no corpo magro e até mesmo algo franzino, conseguia fazer com que o conjunto se movesse a uma velocidade considerável, que nem sempre parava nos vermelhos.
Cada um à sua maneira podiam ser considerados maluquinhos das bicicletas, o "mamarracho tecnológico" de lycra obcecado pelo peso grama a grama versus a força bruta da rotina diária de um tanque com cadeirinha de bebé e quilos de compras. Quando se encontravam todos os dias na mercearia biológica, faziam jus à sua condição, e em vez de encherem chouriços em conversas de elevador ou de frente de máquina de café, falavam de trivialidades. Trivialidades ciclísticas. As conversas deram frutos e saiu delas uma combinação para andarem juntos, que foi evidentemente uma ideia péssima, porque o interesse em bicicletas não implica necessariamente afinidades nos outros aspetos menos importantes da vida. Mal chegaram ao local de encontro ambos cederam à sua natureza ciclística. Ele saiu disparado pela ciclovia fora (só consegui apanhar a pontinha da roda, na fotografia) e ela ficou a falar com uma conhecida do colégio dos filhos, que passava de bicicleta por lá.. Ele não voltou para trás e ela não parou de falar.... Nunca mais se viram.
Ativismo vs. Idealismo
Considero o ativismo uma
atividade de valor moral neutro, que é apenas tão boa quão boa for a causa que
processa. O ativismo não é uma filosofia, não é uma moral nem sequer uma forma
específica de afirmação humana. Trata-se apenas de uma ferramenta posta ao
serviço de uma causa, dependendo da validade desta para obter legitimidade
moral. O ativismo é uma pressão geralmente ensurdecedora para que o indivíduo
seja levado a seguir um determinado caminho, indo assim ao encontro de interesses de terceiros. O
ativista é alguém com tempo e energia para defender uma causa, mas apenas isso.
Não é o ser ativista que faz dele uma boa ou ou má pessoa, mas sim as causas
que ele defende. Existem, no entanto, algumas características próprias que se
podem atribuir ao ativista em si, e não ao ser humano que defende a causa. O
ativista costuma ser dotado de uma certa energia honesta, que lhe permite
avançar sem grandes reservas nos seus objetivos. Não se costuma pôr em causa por
que acredita efetivamente naquilo que defende ou que lhe dizem para defender.
Não é um ser analítico nem relativiza as situações, avançando sempre a direito
em direção ao seu objetivo. Embora muita vezes seja considerado um idealista, a
verdade é que não o é. Se fosso idealista acreditava que as ideias acabam por
se impor por si e que as pessoas acabam, mais tarde ou mais cedo, por ver a
razão. É pessimista. Sabe que sem a sua ação as coisas não vão acontecer. Não
confia praticamente em ninguém, quer individualmente quer institucionalmente.
É, geralmente, uma pessoa revoltada ou privilegiada. Daquelas que já não tem
nada a perder ou que então não se interessam em ganhar.
O idealista não funciona bem
assim. É uma pessoa introspetiva, habituada a refletir e a pensar bastante nas
coisas. O materialismo passa-lhe um
bocado ao lado, pois valoriza apenas o mundo das ideias e geralmente não
consegue perceber que o materialismo pode e deve ser a recompensa de uma
ideologia do bem. Os idealistas são e sempre foram os grandes motores da
humanidade, porque se preocupam efetivamente com o caminho que esta está a
seguir. A sua agenda é global, são
magneticamente atraídos para a generalização dos conceitos, querendo sempre ir
mais e mais longe no estabelecimento dos princípios pelos quais acham que a humanidade
se deve guiar. O idealista está sempre do lado da moralidade porque de facto
acredita que está a fazer o melhor pelo mundo e acresce a essa ação o facto de
se preocupar o suficiente pela humanidade para se dar ao trabalho de a tentar
catequizar. Não há idealistas maus, porque de facto todos acham que estão a
fazer o bem e falta-lhes a humildade para sair do seu umbigo e dar-se ao
trabalho de perceber os efeitos da sua ideologia, se adotada, no comum mortal.
São moralmente neutros porque a única pessoa a quem respeitam para além deles
próprios é a Platão. Gosto de idealistas
e não gosto de ativistas. Mas quem eu prefiro mesmo são aquelas pessoas que,
mercê das suas escolhas individuais, fazem o correto e tornam o mundo num sítio
melhor sem chatear a cabeça aos outros, seja com livros seja com manifestações.
Chamo a essas pessoas, normais. Sei que só podem existir porque antes apareceu o
idealista para desenhar o horizonte e o ativista para arrombar a porta, mas vou
ficar com a ilusão que, a partir deste presente, a normalidade (na qual incluo
o bem, obviamente) das escolhas individuais será suficiente para um mundo
melhor em 90% dos casos.
Casal novo rico vive em moradia tipo de gama onde sobressai uma estátua de sardinha de pé, no meio de uma fonte, e que deita água pela boca. Há um caminho pedonal curvo que faz com que a distância entre portão e porta triplique. Há um portão automático que se abre a partir da cozinha e plantas que parecem estar coladas na parede. Há um jantar da caricaturas em que a que me chamou mais a atenção foi uma loira bonita que não falou e a que mais me irritou foi uma outra que não parava de se rir. Alguém furou um tubo o sistema de rega op que fez com que a água da fonte deixasse de jorrar pela boca da sardinha e passasse a sair pelo buraco no tubo. Uma questão de perda de carga...Entretanto lembro-me que o casal novo rico tem um filho que não fala mas que parece algo travesso, principalmente quando coloca na cabeça as penas de chefe índio, cujo nome erudito é cocar. E, finalmente, existe também um tio, que mora numas águas furtadas e anda sempre de agbardine e a fumar um cachimbo. Farta-se de interagir com a vizinhança típica do bairro e parece algo descoordenado e trapalhão. Supostamente o papel dele é humanizar o sobrinho, aliviando-o da pressão novo-riquista dos pais. Não sei se o fez e como o fez porque a verdade é que o tio não diz uma palavra o filme todo. Ou então falou apenas nos momentos em que poderei ter adormecido. O filme é visualmente agradável e venceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1959 e o Prémio do Júri no Festival de Cannes. O que confirma a minha teoria que no passado a quantidade era tão menor que a qualidade se afirmava com muito menor necessidade de... qualidade.
Esta série, como é que posso dizer isto de uma forma honesta, incomodou-me. As personagens incomodaram-me. Olhava para elas e não gostava de que elas estavam a fazer, a sentir, a dizer, a transmitir. Não por falta de qualidade da série propriamente dita, mas exatamente por causa das personagens, das quais não gostei enquanto... pessoas. E logo aí a série consegue uma coisa que já não sentia há muito tempo, que foi esquecer que é uma série e ficar verdadeiramente ligado às pessoas que estavam a viver aquelas vidas na minha televisão. O princípio mais importante do telespectador, ou do assistente é a suspensão da descrença. Seja qual for o enredo, sabemos que é uma história e não sentimos as coisas que se estão a passar organicamente porque sabemos que não existem. Estes trocaram-me as voltas e conseguiram que me irritasse com o que estava a ver, com as personalidades das personagens. Detestei-os a quase todos, embora com o passar dos episódios alguns se fossem redimindo ligeiramente. A mulher quase autista que não dizia uma frase consequente e só se preocupava com pormenores domésticos insignificantes mas que ainda assim tinha um qualquer encanto no olhar que fazia com que fizesse sentido a tenção que lhe devotavam. O filho também semi autista (mas este provavelmente a sério) que atirava pedras à casa e usava um colete verde irritante e que não fazia mais nada a série toda. O apresentador do tempo, inútil por definição (como ele próprio admitia) que era aquela americano insuportável que fala aos arranques, que só diz coisas óbvias, que seduz a mulher do amigo com quem faz amizade, que anda de bicicleta horizontal e de t-shirt cor de rosa, que tem um corpo escanzelado e que está sempre a sorrir numa cara cheia de rugas com um cabelo bastante ridículo. A polícia negra que é positivista pornográfica, ou seja, que usa a pornografia na sua vida sexual, que nos diz isso, e passa o resto dos episódios a dizer meias frases que em nada contribuem para a realização do seu trabalho, que seria a resolução do crime. E a personagem pricipal, vinda do starnger things, grande e gordo, sempre desconfortável, sempre à procura de algo que o justifique, que não paga os impostos, abandona uma carreira em troca de ser um tradutor gestual coreográfico, com uma bonomia insuportável perante todas as asneiras que diz e as coisas que não faz. Que se realiza no affaire que a mulher tem com o metereologista a quem apoia e incentiva no exercício da infidelidade, sempre sorrindo estupidamente como se isso fosse mesmo bom. Que acha natural que lhe façam um seguro de vida e lhe paguem as propinas do filho que afinal não é seu. E sempre com um sorriso insuportável de vaca estúpida, como se fosse tudo normal e nós é que não. Porra, a mediocridade do personagem era tanta que conseguiu mexer comigo. E lá está o mérito... porque era real, porque há gente assim e porque eu não tive que suspender a descrença para absorver aquela mediocridade toda... Porra... irritou-me mesmo... nunca detestei tanto uma série tão boa... preferia mesmo não ter visto.
Era uma vez um arquiteto cansado por uma longa carreira de projetos que nunca tinham saído do papel onde eles os desenhara. Como todos os arquitetos era vaidoso e não conseguia dissociar o seu bem estar pessoal com o sucesso profissional ou, neste caso, a falta dele. Dedicou muito tempo a tentar perceber porque o seus projetos não eram nunca escolhidos e chegou à conclusão que a culpa não era sua. O sucesso dos projetos eram inevitavelmente ditado pelas opiniões de pessoas cujo principal objetivo era dizer mal, e tentar manter o seu status quo, evitando a ascensão de outros, ainda que talentosos. Depois de muito pensar concluiu que o sucesso estava à distância da aniquilação da sua individualidade. Concebeu assim um edifício que de seu nada tinha que não fosse a ideia. Ideia que era fazer com que cada pessoa que contemplasse o edifício visse aquilo de que mais gostava no mundo, ou seja, que se visse a si próprio. Ao longe, o edifício era invisível. De perto, devolvia a imagem de quem o contemplava, suscitando imediatamente aprovação e admiração. E assim aconteceu. O arquiteto finalmente teve sucesso, mostrando ao mundo aquilo que o mundo queria ver. Foi uma ideia arrojada que, no entanto, apenas pode ser usada uma vez. O que lançou o arquiteto numa depressão ainda mais profunda porque pior que nunca ter tido sucesso é ter uma vez e nunca mais lhe sentir o sabor. A anulação do "eu" em favor do agrado imediato do público trouxe uma satisfação efémera. Ao conceber a obra definitiva baseada nesse truque conceptual, o arquiteto esgotou a sua fórmula e fiquei exposto à dor de ter alcançado o aplauso sem ter revelado nada da sua verdadeira essência. Ainda hoje pensa se valeu ou não a pena. Vaidoso como é, sabe que não...
Nunca li nada do Valter Hugo Mãe. Ouvi-o falar a vivo duas vezes e na televisão outras duas. Gostei muito. Coloquei-o numa prateleira com o Gonçalo M. Tavares e com o Afonso Cruz- Uma prateleira de escritores que produziam livros muito bons e eram discretos e que de alguma forma se tinham afastado dos temas tradicionais portugueses, que não consigo sistematizar exatamente quais são mas sinto a nuvem e o clima de depressão e tragédia que eles projetam. Estava assim com grandes expectativas relativamente a este livro, principalmente depois de o ouvir na televisão a abordar com a jornalista dos olhos assustadores questões relativas ao excesso de informação vs. falta de conhecimento, da desumanização que isto provoca, da falta de um substrato de cultura que todos deveríamos ter e quase nenhum de nós tem. Expectativas que aumentaram ainda mais quando o livro me chegou às mãos embalado em plástico. Certo que é anti-ecológico, mas dava a sensação que o livro iria era tão bom que não se podia correr o risco de as boas ideias caírem do livro aquando do seu manuseio. Embalado de um otimismo pouco característico no início de um calhamaço de 500 páginas, mergulhei sem reservas na leitura, não demorando muito para as reservas que não tinha aparecerem à desfilada.. Não vou resumir o livro, não só porque não é este o objetivo como também corria o risco de o resumir em 5 linhas. Mas confesso que fiquei muito desiludido. O livro é uma espécie de Cidade e as Serras mas sem nenhum do sentido de humor que o Eça tinha.. Fala da vida de um barão, dentro de um solar em que, literalmente, nada se passava. Nada mesmo. Depois chega a baronesa, já casada, e nada acontece. Nada. Nem mesmo sexo. Mergulhamos à exaustão no interior das cabeças dos personagens secundários mas isso não traz grande interesse, pois por serem secundárias nada acrescentam à história que as suas disfuncionalidades rurais. E se calhar o problema é esse, o de estarmos à espera de uma história, que como já disse acima é praticamente inexistente e resumível em 5 linhas. Passo a demonstrar:
Em Nápoles, no bairro espanhol, existe a parede Gray, não por ser cinzenta mas porque tinha as mesmas características que o quadro de Dorian. Hoje, já não tem nada...
Era uma vez uma cidade que queria
ficar para a história. Destituídos de qualquer motivação política, não tendo
nenhuma agenda que não fosse criar uma referencia incontornável para a terra
onde nasceram, onde viviam e que amavam, resolveram adoptar uma visão clássica
e construir uma estátua que toda a gente conhecesse e que fosse sinónimo de
tudo. Um colosso. Tipo o de Rodes. Escolheram um modelo e fecharam-no num
quarto e destruíram todas as suas fotografias para que o efeito surpresa
aquando da inauguração fosse total. Começaram então a construção. A estátua ia
ter 85 metros de altura, uma vez que essa era a altura acima do metro que toda
a gente tem que era considerada a ideal. Começaram por fazer a cabeça, porque
intuíram acertadamente que ia ser um processo muito demorado e, como tal, havia
que aproveitar a beleza actual do modelo. Dispenso a relato dos pormenores
técnicos... Materiais, localização, cor, tamanho do cabelo, a orientação para
que estaria virada, a roupa que teria vestida… Tudo isso foi discutido a
exaustão. E tudo contribuiu para que o processo se fosse arrastando pelos anos.
Inevitavelmente, o entusiasmo foi diminuindo e a cidade foi esquecendo o seu
objectivo. Um dia, quando essa noticia já não espantava nem indignava ninguém,
foi finalmente anunciado o cancelamento da obra. Tinham feito apenas a
cabeça... Mas, inesperadamente, quando retiraram os andaimes e os tapumes,
descobriram que aquela cabeça de 15 metros de altura, com umas feições
perfeitas e que espreitava entre os prédios que a rodeavam, era uma referencia
incontornável para toda a gente que por perto passava. Era como se se tivesse a
cidade a olhar para si. Valia a pena ir de propósito olhar a cara da cidade nos
olhos, e era mesmo bonita. As pessoas passaram a ir olhar a cara da cidade
todos os dias, as pessoas queriam casar-se com a cidade por testemunha, todos
os fotógrafos usavam a cara da cidade como modelo para tudo... A cidade ficou
mundialmente conhecida como a cidade que tinha uma cara. E quando todo este
sucesso permitiu que houvesse dinheiro para acabar a estátua, a população em
peso foi unânime em dizer que não queriam que se construísse o resto do corpo.
Cidades com estátuas havia muitas. Cidade com cabeça, havia apenas uma. E uma
bonita cabeça. A cabeça ainda existe e está exposta na praça principal da
cidade. Está cansada e, por isso, deitou-se.