Esta série, como é que posso dizer isto de uma forma honesta, incomodou-me. As personagens incomodaram-me. Olhava para elas e não gostava de que elas estavam a fazer, a sentir, a dizer, a transmitir. Não por falta de qualidade da série propriamente dita, mas exatamente por causa das personagens, das quais não gostei enquanto... pessoas. E logo aí a série consegue uma coisa que já não sentia há muito tempo, que foi esquecer que é uma série e ficar verdadeiramente ligado às pessoas que estavam a viver aquelas vidas na minha televisão. O princípio mais importante do telespectador, ou do assistente é a suspensão da descrença. Seja qual for o enredo, sabemos que é uma história e não sentimos as coisas que se estão a passar organicamente porque sabemos que não existem. Estes trocaram-me as voltas e conseguiram que me irritasse com o que estava a ver, com as personalidades das personagens. Detestei-os a quase todos, embora com o passar dos episódios alguns se fossem redimindo ligeiramente. A mulher quase autista que não dizia uma frase consequente e só se preocupava com pormenores domésticos insignificantes mas que ainda assim tinha um qualquer encanto no olhar que fazia com que fizesse sentido a tenção que lhe devotavam. O filho também semi autista (mas este provavelmente a sério) que atirava pedras à casa e usava um colete verde irritante e que não fazia mais nada a série toda. O apresentador do tempo, inútil por definição (como ele próprio admitia) que era aquela americano insuportável que fala aos arranques, que só diz coisas óbvias, que seduz a mulher do amigo com quem faz amizade, que anda de bicicleta horizontal e de t-shirt cor de rosa, que tem um corpo escanzelado e que está sempre a sorrir numa cara cheia de rugas com um cabelo bastante ridículo. A polícia negra que é positivista pornográfica, ou seja, que usa a pornografia na sua vida sexual, que nos diz isso, e passa o resto dos episódios a dizer meias frases que em nada contribuem para a realização do seu trabalho, que seria a resolução do crime. E a personagem pricipal, vinda do starnger things, grande e gordo, sempre desconfortável, sempre à procura de algo que o justifique, que não paga os impostos, abandona uma carreira em troca de ser um tradutor gestual coreográfico, com uma bonomia insuportável perante todas as asneiras que diz e as coisas que não faz. Que se realiza no affaire que a mulher tem com o metereologista a quem apoia e incentiva no exercício da infidelidade, sempre sorrindo estupidamente como se isso fosse mesmo bom. Que acha natural que lhe façam um seguro de vida e lhe paguem as propinas do filho que afinal não é seu. E sempre com um sorriso insuportável de vaca estúpida, como se fosse tudo normal e nós é que não. Porra, a mediocridade do personagem era tanta que conseguiu mexer comigo. E lá está o mérito... porque era real, porque há gente assim e porque eu não tive que suspender a descrença para absorver aquela mediocridade toda... Porra... irritou-me mesmo... nunca detestei tanto uma série tão boa... preferia mesmo não ter visto.