Nunca li nada do Valter Hugo Mãe. Ouvi-o falar a vivo duas vezes e na televisão outras duas. Gostei muito. Coloquei-o numa prateleira com o Gonçalo M. Tavares e com o Afonso Cruz- Uma prateleira de escritores que produziam livros muito bons e eram discretos e que de alguma forma se tinham afastado dos temas tradicionais portugueses, que não consigo sistematizar exatamente quais são mas sinto a nuvem e o clima de depressão e tragédia que eles projetam. Estava assim com grandes expectativas relativamente a este livro, principalmente depois de o ouvir na televisão a abordar com a jornalista dos olhos assustadores questões relativas ao excesso de informação vs. falta de conhecimento, da desumanização que isto provoca, da falta de um substrato de cultura que todos deveríamos ter e quase nenhum de nós tem. Expectativas que aumentaram ainda mais quando o livro me chegou às mãos embalado em plástico. Certo que é anti-ecológico, mas dava a sensação que o livro iria era tão bom que não se podia correr o risco de as boas ideias caírem do livro aquando do seu manuseio. Embalado de um otimismo pouco característico no início de um calhamaço de 500 páginas, mergulhei sem reservas na leitura, não demorando muito para as reservas que não tinha aparecerem à desfilada.. Não vou resumir o livro, não só porque não é este o objetivo como também corria o risco de o resumir em 5 linhas. Mas confesso que fiquei muito desiludido. O livro é uma espécie de Cidade e as Serras mas sem nenhum do sentido de humor que o Eça tinha.. Fala da vida de um barão, dentro de um solar em que, literalmente, nada se passava. Nada mesmo. Depois chega a baronesa, já casada, e nada acontece. Nada. Nem mesmo sexo. Mergulhamos à exaustão no interior das cabeças dos personagens secundários mas isso não traz grande interesse, pois por serem secundárias nada acrescentam à história que as suas disfuncionalidades rurais. E se calhar o problema é esse, o de estarmos à espera de uma história, que como já disse acima é praticamente inexistente e resumível em 5 linhas. Passo a demonstrar:
- Agiulfo, o barão, fica mais inteligente quando a cota altimétrica a que se encontra aumenta e mais estúpido quando diminui;
- Um dia casa-se a não faz nada com a mulher, que disputa territorialmente esse nada com uma criada que se considera a verdadeira dona de tudo;
- Um dia Agiulfo desce demais e morre. Deixa um cofre fechado que a baronesa, cujo nome não sabemos, não consegue abrir e assim aceder às riquezas supostamente existente.
- A criada carece de sexo, existe uma revolucionária lésbica, uma mulher com algo entre as pernas, dois gémeos assassinos e mais alguns personagens ainda mais secundários.
- A criada salva tudo mediante uma espécie de coletivização da propriedade e venda do seu imobilizado. Algures é violada e não desgosta.