28.8.12

35 - cinderela: from fabletown with love












Toda a gente sabe que a Cinderela começou mal. Aquela história de ter sido oprimida pela madrasta e pelas irmãs era mesmo verdade. Felizmente que tudo acabou bem, uma vez que Cinderela foi resgatada a esta vida pela fada madrinha, que lhe proporcionou os meios para se tornar notada aos olhos do príncipe encantado, tendo assim encontrado o amor eterno. Bem... Isso é o que vem nos livros dos contos de fada. E toda a gente sabe que a vida não é um conto de fadas. A verdade é que nem tudo foram rosas. Nem tudo nem quase nada. Para começar, o impacto da fada madrinha na vida da Cinderela foi muito mais negativo do que toda a gente pensa. Aquela historia de só poder ter as coisas até a meia noite foi profundamente traumático para ela, pois quando finalmente se estava a começar a divertir e a cativar toda a gente a sua volta, nas festas, Cinderela tinha que desatar a fugir para não ser apanhada vestida de farrapos e cheia de ratos e abóboras a sua volta. É hoje aceite sem reservas por todas as escolas de psiquiatria e psicologia que, pior do que não ter as coisas que se deseja, e tê-las apenas mediante condições que não se controla e ter que viver com o sentimento constante de que, a qualquer momento, elas irão desaparecer e que não nos pertencem verdadeiramente. Chama-se a isto o síndroma da perda latente. E eu sei o que isto é. E não sou só eu... Para além disto, a fada madrinha foi uma péssima conselheira sentimental, ou seja, não podia ter escolhido pior marido para Cinderela. Explicando melhor: todos nos já teremos parado para pensar quão esquisita era a profusão de príncipes encantados no mundo dos contos de fadas. Caramba. Parecia que se davam pontapé numa pedra e saía debaixo dela um príncipe encantado preparadinho para dar o beijo, receber o beijo, matar o dragão po, calçar o sapato... Obviamente que o príncipe era sempre o mesmo. Sim. O príncipe que beijou a Branca de Neve, que beijou a Bela Adormecida, que matou o dragão e que esteve algum tempo transformado em sapo era sempre o mesmo. Chamava-se Encantado e era uma peça jeitosa... E que casou com elas todas, não conseguindo fazer nenhuma delas feliz. Assim sendo, e perante uma tão grande diversidade de noivas presentes, passadas e futuras, Encantado não sabia ser fiel e, no que diz respeito a Cinderela (segunda mulher, penso eu), por e simplesmente não a conseguiu fazer feliz a não ser no que ao sexo diz respeito. Mas mesmo neste aspecto, apenas nos primeiros tempos..l e alguém conhece alguma relação que se aguente duradouramente apenas com sexo ? Eu não... Recém-divorciada, Cinderela resolveu dedicar-se aos negócios abrindo, num assomo de ironia, uma sapataria. Em Fabletown, canto de nova iorque de que já falamos nestas páginas. Mas mesmo exercendo profissionalmente, mesmo indo as feiras de calçado internacional de Madrid, Roma e afins, não se sentia realizada, sendo o ponto alto da sua semana o almoço com as outras ex mulheres de Encantado, tornando-se esse almoço um momento de catarse colectiva no que diz respeito ao desopilamento do fígado. Bigby, o Lobo Mau, na altura o xerife de Fabletown, apercebeu-se não só disso mas dos inúmeros talentos ocultos que Cinderela apresentava. E contratou-a para espia de Fabletown... A lista de missões de Cinderela é enorme, podendo mesmo dizer-se que teve um papel fundamental na vitoria sobre o imperador e na reconquista das Homelands. Foi ela que, sozinha, recuperou Pinóquio das garras de Gepeto que, recordemos, era o verdadeiro cérebro por trás do imperador.  Foi a vida de agente secreta que Cinderela passou a ter que lhe permitiu ajustar contas com a sua infância e livrar-se de grande parte dos traumas que ainda tinha, bem como acertar contas com quem lhe tinha tentado arruinar a vida. A madrasta e as irmãs ? Não, claro que não. Essas eram apenas conjunturais. Encantado, o Príncipe infiel? Também não, mais que não fosse por ele se ter redimido do passado  inconsequente que teve e, antes de morrer, ter levado à letra a sua condição de herói e ter conduzido (enquanto Mayor), as Fables à vitória e à liberdade. Então com quem ajustou contas Cinderela? Com a fada madrinha, obviamente, num cenário de alguma complexidade cuja descrição não é o principal objectivo destas apressadas linhas que aqui escrevo. Abreviando, podemos dizer que a Fada Madrinha tinha plena consciência que o seu principal defeito era os seus feitiços serem de curta duração e, inteligentemente, escolheu para tiranizar um mundo daqueles tipo Gronelândia, em que a noite dura seis meses e, assim sendo, os seus feitiços também. Assim sendo, tecnicamente, teria apenas uma meia noite por ano e, se conseguisse resolver essa transição, então poderia reinar sem restrições o resto do ano. Enfim… Technicalities, como diria a Vitória. Cinderela, após uma profunda investigação na companhia de Aladino, descobriu todas as tramas da Fada Madrinha, confrontou-a e, não lhe tendo dado o verdadeiro golpe de misericórdia, deixou-a nas mão dos habitantes da planeta que ela aterrorizou. O que foi dar no mesmo, uma vez que estes não hesitaram em fazer-lhe a folha. Á fada. Á Cinderela, quem a fez foi o Aladino. Juntando as suas qualidades como espia e agente secreto à sua beleza, forma física e sentido de humor, Cinderela é para mim uma das personagens mais importantes das Fables o que pode ser perfeitamente pueril para o mundo, mas é muito importante para mim.

27.8.12

34 - servos da escuridão












Jean Christophe Grangé
Capa preta, mesmo muito muito preta. Pergunto-me se fará sentido estar a escurecer assim tanto as minhas leituras, estar a procurar uma espécie de equivalência entre a literatura e o quotidiano. Nao faria mais sentido, neste período de monstros fugir para o meio das fadas, abrigar-me no porto da literatura fantástica? Que sentido faz salgar as feridas? É para ficar mais forte? Não esta a resultar lá muito... Por outro lado, os livros tem sido bons, e este é mesmo muito bom. Começa com um par de policias gémeos na sua religiosidade. Que no entanto, como todos os gémeos, tem diferenças consideráveis, sendo que enquanto Mathieu, de um metro e noventa, famílias ricas e um rol de qualidades invejáveis, envereda pela via institucional, procurando Deus no mosteiro, Luc, mais baixo, mais pobre e muito mais retorcido, envereda logo pela busca do diabo. Torna-se, para isso, missionário nos piores sítios do planeta, passando milhões de tempo nos Balcãs, no tempo em que aquilo não estava nada bem. Mathieu nao tarda a ser arrastado pelo íman que a vida do seu amigo sempre foi para a sua, e toca a ir para o Ruanda, onde perdeu grande parte sua sanidade. Por exemplo, deixou de poder ouvir ruídos metálicos, por o fazerem recordar a maneira como os guerrilheiros tutsis aterrorizavam os hutus (ou vice versa ?), e que era arrastando as suas catanas pela rua, arranhando os passeios, avisando-os que estavam a chegar para os matar. Luc e Mathieu acabam por reencontrar-se enquanto policias, acabando os objectivos das suas vidas por convergir na luta contra o mal, ou mais concretamente, na luta contra o mal versão francesa, uma vez que acabam os dois como policias em Paris. E é aqui que tudo começa. Um dia, Mathieu recebe a noticia que Luc se tentou suicidar tipo VIrginia Wolf, entrando pela água dentro com os bolsos cheios de pedras e uma medalhinha do Arcanjo São Miguel bem fechada na sua mão. O arcanjo São Miguel, recordei eu entretanto, era o capitão mor dos exércitos celestes, e foi ele que liderou a luta na revolta de Lucifer que, recordemos todos, se rebelou contra Deus por achar que os anjos eram muito mais mereçedores do amor divino que os homens, a quem Deus elegeu como favoritos.Foi então que Deus precipitou Lúcifer vencido desde o topo dos céus as profundezas dos infernos. Digo eu que,provavelmente já apoiado no meu imaginário e nao em nenhum façto histórico, foi o rasto dessa queda que deu a Lúcifer o apelido de Estrela da Manha. Voltando a estória, como diria o Saramago, porque estória é diferente de historia, Mathieu nao aceitou de bom grado o facto de o seu melhor amigo se ter querido suicidar. Vai dai, resolveu submergir-se nos casos que Luc investigava e que eram a morte de um traficante de uma droga opiácea proveniente de uma planta que só crescia no Gabão e de uma morte muito, mas muito mais espectacular que ocorreu nos Alpes franceses. Tratava-se da mãe de uma rapariga chamada Manon que tinhasido por ela assassinada na sua infância. Eu explico melhor: Manon, a filha, tinha todos os sinais de ter sido possuída pelo diabo. Apavorada, a mãe resolve má ta-lá atirando-a para uma etar, onde ela se afogou sem ser em agua. Muitos anos depois, a mãe aparece morta, de uma maneira bastante original. Tipo multi estrato. As pernas estavam completamente deterioradas, quase só ossose tendões, enquanto que o tronco estava tipi a meio gás, completamente a ser devorado por moscas e mais bichos necrofagos, escaravelhos e tudo. A cara estava ainda completamente intacta. Para ser reconhecida, pensei eu...e tinha razão. Para abrilhantar ainda mais o cenário, o assassino tinha revestido os pulmões de Simone (era este o nome da vitima, mãe de Manon)de um líquen foto luminescente, tipo o dinossauro do meu escritório (sabes qual e?). Para além de tudo isto,o cadáver apresentava profundos sinais de satanizo, uma vez que estava de pernas abertas virado para o mosteiro e com um crucifixo enfiado invertidamente na... Vcs sabem aonde... Mathieu continuou a investigar e descobriu mais alguns crimes do género pela Europa fora e, aprofundando alindamos a investigação, descobriu que todos esses crimes aconteceram aos progenitores de crianças que tinham sido miraculosamente salvas da morte depois de morrerem em idades ainda muito tenras. Tanto Manon como as outras crianças tinham estado mortas e voltaram da morte pouco antes de chegarem a luz brilhante. No entanto parece que quem as chamou de volta para a vida nao terá sido Deus, masseira outra entidade cujo nome também começa por D e que muito gente o escrevem maiúsculas. E aqui começa a confusão. Durante essas experiências e quase morte, essas crianças teriam sido abordadas pelo diabo, que as arregimentaria e as transformaria naquilo a que no livro chamam as sem luz, contrariando de alguma forma a luz da manha de Lucifer. Seria assim selado um verdadeiro pacto com o diabo, e essas pessoas passariam o resto da vida a fazer mal, muito mal, começando por se vingar dos pais que as tinham maltratado. E vingar como? Matando-as da maneira que o diabo as tinha ensinado, tipo por camadas de decomposição variável. A combater tudo isto, teríamos duas facções da igreja católica, uma que seria o Vaticano tradicional, que tentaria travar a batalha de uma forma, chamemos-lhe assim, escolástica, e outra uma ordem de cavaleiros frades polacos, tipo templários, hospitalares e afins, que partiam mesmo para a violência... Em nome de Deus, obviamente. E entretanto inquérito aconteceu aos nossos dois heróis? Mathieu nao alinhou por nenhuma das duas equipas divinas nem, muito menos, pela diabólica. Embora se tenha apaixonado por Manon, que nesta altura do campeonato, tinha já trinta anos, podres de bons. Continuou policia, descobriu os crimes e deu a César o que era de César, a Deus o que era de Deus, e ao DIabo, o que era do Diabo. Quanto a Luc, esse teve muito mais sucesso na perseguição dos seus objectivos. Já chega. Quem quiser mais (e nao deve haver quem queira)' que leia o livro, que eu empresto

22.7.12

33 - a linha negra















Jean Christophe Grangé.
Eis um livro que não devemos deixar falar. Se deixarmos, mal a capa se abre levamos logo com uma enxurrada de sangue pegajosa, vermelha, omnipresente e abafadora, que não nos deixa pensar em mais nada. Se, por sorte, conseguirmos esquivarmo-nos desta onda, ou caso consigamos surfar airosamente na sua crista, não apanhando mais do que alguns salpicos deste sangue todo, então temos que nos haver com uma profusão enorme de traumas, infâncias desgraçadas, experiências traumáticas no passado, impotencias, disfuncionalidades, irracionalidades, incapacidades, enfim, todo um conjunto de sentimentos e estados de alma péssimos, que mais não fazem do que ver quão simples eu sou por dentro, por mais tortuoso que me venha sentindo ultimamente. E se, cerrando os dentes em torno da nossa presumida normalidade, espantamos para longe estava onda de sentimentos, ataca-nos uma terceira onda, de profunda indiferença e mediocridade, de total falta de objectivo e de sentido que (quase) todas as personagens deste livro nos transmitem, como se a sua única função fosse convencer o leitor que elas (as personagens) só existem para nos fazer sentir mal. Mas a vida nao e só literatura fantástica, e confesso que já andava a sentir a falta de um bom policial, daqueles cheios de sangue, mistérios e assassinos em serie. Vai dai, meti-me na boca do lobo. Como sempre. E não vai ser por medo de não escrever um texto bonito que valorize estas páginas que vou renegar aquilo que li. Porque a vida também e feita de coisas feias, e eu já ando há demasiado tempo cercado de coisas bonitas.

Jacques Reverdi foi campeão mundial de apneia, que e aquele desporto em que se desce a cem metros de profundidade sem nenhum tipo de equipamento. Correndo o risco de simplificar em demasia, neste tipo de experiências, combinando a pressão envolvente, as bolhas de azoto sempre à espera de se formar no sangue, a falta de luz e de oxigénio e o facto de se estar rodeado de peixes sem olhos, neste tipo de experiências, dizia eu, podem advir alguns traumas... Jacques vira-se assim para o assassínio de turistas estrangeiras em pleno sudoeste asiático, tipo Malásia e Tailândia. E mata-as de uma forma super original. Prende-as numa casa que previamente calafetou meticulosamente, faz-lhes bastantes furos no corpo, e tapa esses furos com mel. A medida que a casa vai ficando sem oxigénio e com o dióxido de carbono decorrente da respiração das raparigas a preencher cada vez mais a atmosfera, o esforço das raparigas  para respirar aumenta consideravelmente a pressão no interior do seu corpo e, consequententemente, no mel que  esta a servir de tampão as suas feridas. Nessa altura, Jacques derretia esse mel, o que fazia com que, de todas as feridas, causado pela pressão da respiração, saíssem jactos de sangue simultaneamente, fazendo padrões para ele, Jacqes, de uma beleza atordoadora. Esse sangue, privado de oxigénio, era... Negro.
Jacques é apanhado em flagrante logo no inicio do livro, e trancado numa prisão da Malásia, penso eu. Algures em Paris, temos Marc, ex paparazzo, ex jornalista de escândalos, actual jornalista em fase de criar uma obsessão por assassinos em série. Marc também não é um caso simples. Sempre que lhe morria alguém proximo, violentamente, caia em comas profundos que duravam semanas, e dos quais acordava sem se lembrar de nada. Aconteceu-lhe isso com o melhor amigo, suicidado e com a mulher, assassinada depois de bastante torturada.
E depois temos Jayd, egipto-argelina de um metro e oitenta e linda de morrer, que quer ser modelo. Para lhe dar profundidade intelectual, ela anda a estudar filosofia, mas esse pormenor era dispensável, uma vez que, também ela, detém um passado de meter medo ao susto. Os pais eram os dois heroinómanos e era ela que tratava, não só deles, mas dos três irmãos mais novos, vivendo sempre aterrorizada que os serviços sociais lhe viessem tirar as crianças. O que, fatalmente aconteceu, depois de os pais terem pegado fogo na sala ao lado do quarto onde ela dormia com os irmãos. Depois de ter conseguido salvar os irmãos, apenas teve tempo de ver o pai a cabeça do pai a separar-se do corpo, enquanto ardia. Os irmãos foram-lhe retirados e a ultima vez que ele viu o mais novo foi já preso. Tanto fogo não fez bem a Jayd, que continua a sentir-se queimada e seca por dentro, não conseguindo ainda hoje nenhum tipo de lubrificação sexual, o que faz com que o sexo seja para ela uma semi-tortura. Tipo, se calhar seria melhor não o fazer...
Marc obsessiona-se por Jacques e começa uma correspondência à distancia usando uma identidade externa, um misto entre passaporte roubado de uma rapariga chamada Elisabeth e uma fotografia de Jayd, que ele também roubou.
Jacques apaixona-se por Elisabeth e conta-lhe os pormenores de todos os seus crimes. Marc apaixona-se por Jacques e corre o continente asiático todo a seguir as suas pistas. Jayd apaixona-se por Marc, mas não faz nada, continuando vitima da sua aridez interior. Embora os triângulos sejam figuras geométricas com todas as características decorrentes à sua estabilidade, o facto é que nao são estáveis. Não se aguentam. O que é uma merda. O sentimento arrasa sempre com a geometria. E vai dai, o  triangulo colapsou. Jacques fugiu da prisão, voltou a Paris e descobriu que Jayd nao era Elisabeth, ao ver que a sua foto estava espalhada por toda a cidade, devido ao seu entretanto sucesso adquirido como modelo. Descobriu tambem que Elisabeth era Marc, através do livro que este tinha entretanto escrito e em que escarrapachou a historia todinha de Jacques. Compreensivelmente, este arranjou uma casa, calafetou-a meticulosamente, prendeu lá dentro Jayd e Marc, furou-os com todo o cuidado ,tapou-lhes as feridas com mel e depois... Vá. Já chega. Já escrevi demais sobre este livro...

27.5.12

32 - o circo dos sonhos


Erin Morgenstern.
Mais uma vez se cumpriu a maldição de não se poder dizer mal de um livro de capa preta. Maldição? Acho que sim porque me parece que já não sou eu a julgar o livro pela seu conteúdo mas sim a, chamemos-lhe assim, capa preta a condicionar-me, assim como se a sua própria existência, automática e obrigatoriamente despoletasse o processo do costume. Vejo o livro, saco-o, leio-o, publicito-o, suscito o interesse, compro-o … e ofereço-o. E no fim, já nem sequer sei se o que me motiva é o livro ou o processo, processo esse que é também um livro e que retrata o atractivo das coisas tortuosas. Ó e se eu sou tortuoso… Voltando ao livro, não ajuda o facto de se tratar de um livro sobre coisas irreais e mágicas, s obre desejos e vontades, porque a magia era uma coisa extremamente bem-vinda no presente e, quem escreve este livro, sempre no presente, sabe bem disso.
Por isso, até aqui se torna difícil avaliar se o que estamos a gostar é do próprio livro ou do sentimento que a magia nele contida pode, sei lá, extravasar um bocadinho que seja também para nós e resolver magicamente aquilo que, sem magia, não se consegue resolver.
Se o que estamos a gostar é da história, dos personagens e dos cenários (e que bonitos os cenários são) ou se gostamos ainda mais da sensação de estarmos a transmitir um bocadinho dessa especialidade a terceiros, com a esperança de assim mantermos nós também alguma especialidade a outros olhos…
Mas bolas, afinal li o livro ou não ? Li pois. E gostei ? Pá… não sei. Ultimamente não tenho gostado de muita coisa e, além disso, grandes partes deste livro foram lidas num clima de grande ansiedade, para não dizer outra coisa. Por outro lado, o livro é bom, bonito e talvez me permita a oportunidade de restabelecer pontes mentais. E então em que é que fico? Como é que me vou decidir?
Fazendo aquilo que cada vês sinto mais que devia fazer na vida real mas que, me tem custado a arrancar. Calando-me e deixando falar os outros. E quem falará ? Ele. Recorrerei então a uma ideia que retirei de um livro brutal que, penso eu, sou a única pessoa que lhe dá o devido valor. Chama-se Gog e está resumido algures lá para baixo.  Nesse livro, Gog fazia entrevistas imaginárias, que não aconteceram mas que deveriam ter acontecido. Imagino assim a minha entrevista imaginária a um livro chamado o Circo dos Sonhos…

- Sabes ler, livro? Ou apenas deixas que te leiam ?
- Sei ler.
- O que lês? Livros ?  J
- Leio as pessoas que me estão a ler enquanto me estão a ler.
- E como fazes isso ? Tens olhos em todas as páginas ?
- Isso interessa ?
- Acho que não.
- Eu também acho que não…
(…)
- Mas então se só lês pessoas não sabes o que escrevi lá em cima.
- Sei. Bastante bem. Fui-me apercebendo de tudo enquanto me lias.
- És muito perspicaz.
- Tu é que és transparente.
- Confesso que já me disseram isso.
- E eu confesso que tive ajuda.
- De quem?
- Dos meus parentes mais próximos. Da minha família.
- Da tua família da parte do papel ou da parte da tinta ?
- Da minha família da tua parte.
- Da minha parte?
- Sim. São todos aqueles livros em que tu passaste por este processo. Todos os livros que acabaste por dar, para compartilhar com ele um mundo próprio em que tudo é permitido. Jonhatan Strange e o Sr. Norrel, A rapariga que roubava livros, a Bruxa de Oz, os Reinos do Norte, o Amuleto de Samarcanda, Josh, o cordeiro, o Bairro, o Rapaz que chutava porcos, o Rapaz Ostra, o Reino do Dragão de Ouro…
- Então esse conjunto de livros existe mesmo… Não é uma invenção minha.
- Pois não.
(…)
- Voltando a ti.
- A mim livro?
- A ti livro. Descreve-te.
- Critico-me?
- Não. Para isso estou cá eu.
- Não estás a conseguir.
- Se tu ajudares…
- Está bem. Lá vai…
(…)
- Não me considero um grande livro. Quando as pessoas acabam de me ler sentem-se algo inquietas, com medo de não terem percebido tudo, de não terem apreendido nem metade da riqueza que eu tenho. Um grande livro impõe-se e satisfaz e isso foram duas coisas que não consegui contigo. Não me impus o suficiente para te fazer abstrair do que te ia na cabeça e, tendo ainda assim conseguido captar-te a atenção, não te vi a sorrir extasiado mas sim a levantar as sobrancelhas preocupado com o facto de não estares a perceber tudo aquilo que eu te estava dizer. Convenhamos: também não está ao alcance de qualquer um.
- Pois. E eu não sou lá muito inteligente.
- Pois não…
- Se calhar o problema é teu.
- Se calhar é.
- Tenta outra vez. E desta vez fala de ti, e não de mim.
(…)
- Começo com uma aposta entre dois mágicos em que um deles aposta a própria filha e o outro aposta alguém que nem sabe ainda quem será. E logo aí se coloca uma questão interessante. Quem está a se mais honesto? O pai que hipoteca a própria filha ou o outro que deliberadamente escolher alguém para ser hipotecado ? A ideia é cada mágico instruir o seu pupilo para que ganhe o torneio de magia, que se irá desenrolar ao longo de toda a vinda, até à morte de um deles. A mágica chama-se Célia e é super intuitiva e o mágico chama-se Marco e, parece-me assim, é mais do tipo racional. Célia passa a juventude a correr o mundo de circo em circo, com o pai. Marco passa a juventude fechado num quarto, a ler. Um dia, veêm-se os dois envolvidos na ideia de criação dum circo, patrocinado por um Sr. Super carismático chamado Lefévre. Célia arranja logo maneira de nele trabalhar como ilusionista enquanto que Marco consegue tornar-se o seu assistente pessoal. O circo  tem algumas particularidades interessantes. Tem muitas tendas em vez de uma só e cada artista faz o seu espectáculo dentro da sua tenda. Tudo o que existe no circo é preto e branco, e não preto ou  branco nem mesmo cinzento. Ou seja, no Circo dos Sonhos, ao contrário da vida real, as coisas podem ser de duas maneiras diferentes e duas coisas boas não são mutuamente exclusivas. E a indeterminação e a ambiguidade estão, na sua forma de cinzento, completamente proibidas. O circo dos sonhos só funciona à noite, mas funciona a noite inteira, nã é como eu, que só saio até às quatro. É feito para aquelas pessoas que ficam sempre até ao fim, mesmo que não se perceba porquê nem a fazer o quê, mas que, mesmo quando as coisas acabam, elas… continuam. O circo dos sonhos é feita para pessoas incansáveis, mas nunca diz onde vai aparecer nem avisa quando se vai embora. Simplesmente desaparece e viaja, sempre de comboio, para um sitio que os seguidores só descobrirão quando as noticias do primeiro espectáculo ecoarem vindas da nova localização. Simplificando, o Circo dos Sonhos é o único sítio onde o amor de Célia e Marco é possível, pelo que ambos se empenham em que se torne um sítio mágico e infinito, uma vez que sentem instintivamente que fora do circo esse amor é impossível. E assim, com os contributos sucessivos e iterativos dos dois mágicos, o circo torna-se uma coisa tão rica, bonita e completa que confesso ter dúvidas do grau  de compreensão que atingi. Apenas me ficaram os pormenores, sendo que tudo o resto se mistura como num… sonho. Pormenores, ainda assim, interessantes… uma contorcionista japonesa tatuada, dois gémeos ruivos que malabaravam gatinhos super inteligentes, uma fogueira branca que foi acesa por archeiros que disparavam flechas incendiárias brancas, Marco, que tinha um feitiço que fazia com que a sua cara ficasse mais convincente do queera, o pai de Célia, Próspero, a quem um feitiço correu mal e teve que passar o resto da vida como sessenta por cento de fantasma e quarenta por cento de nada, Isobel, a leitora das cartas que sim, sim, eu também fiquei montes de tempo convencido que era Célia disfarçada, o navio feito de livros que navegava num oceano de tinta, uma refeição em que o vinho era feito de poesia engarrafada, o labirinto nas nuvens, a piscina das lágrimas, lindíssima, por muito que não concordem comigo, a árvore dos desejos, o jardim do gelo e por aí fora… Enfim. Acabo bem, Marco e Célia ficam juntos e o Circo continua. Porque é que estás a chorar ?
(…)

25.4.12

31 - abraham lincoln vampire hunter

Seth Grahame Smith
E eis-me novamente a cair vítima da praga que o Marco me rogou e que era qualquer coisa como, tu nunca deixarás de ler apenas literatura fantástica. Confesso que me começo a sentir preocupado, porque não sei já há quanto tempo não leio nada de, chamemos-lhe assim, sério, ou seja, um romance sentimental, um romance histórico, uma colectânea de poesia, um conjunto de ensaios, um livro político, e neste momento, estivesse eu no sametime e estaria a ir buscar o boneco amarelinho que, literalmente, rebola a rir. Como se, neste momento da minha vida, eu tivesse e mínimo de paciência e vontade para andar à procura do que outras pessoas acham que é importante e conveniente . Numa altura da vida em que se acha que já se tem legitimidade para que esta consista num infindável rol de momentos, na pior das hipóteses, muito agradáveis, é-me completamente inaceitável (e a qualquer pessoa da minha idade que saiba escrever) reger-me pelos padrões estético-culturais de terceiros. Se ainda fosse de segundos, ou seja, de amigos ou conhecidos cujas opiniões e gostos eu goste e respeite, ainda vá que não vá. Agora de desconhecidos… Nem pensar. Vai daí, continuo a guiar-me pelo meu nariz e pelo meu comodismo e hedonismo, ou seja, esqueçam lá isso de estar sempre a prender e a acrescentar cultura ao cérebro e toca a pensar, pelo menos um bocadinho, no prazer instantâneo. Além do mais, não estou muito preocupado com esta minha fase, porque ao menos ainda me dá para ler e escrever. Podia limitar-me a ver televisão…Vai daí, Abraham Lincoln, o caçador de vampiros... Porquê? Tenho algum interesse especial no Abraham Lincoln ? Nem por isso. E nos vampiros ? Também já não. Confesso que o Lestat ainda me interessou, mas a partir daí mais nenhum me chamou a atenção. Com O Lestat já dizia, enquanto estava a ser entrevistado, não há nada para descobrir e eles (os vampiros) andam todos a fingir. Então porquê ? Sei lá, mas lá comecei. E então comecei pela infância de Abraham, vivida no meio de uma pobreza tal que nem livros tinha, nem luz para os não ler à noite. Tinha dos irmãos, um pai algo ausente e uma mãe doente, que um dia morreu, vindo ele a descobrir bastante mais tarde que foi morta por um vampiro. No dia em que descobriu isso, jurou vingança e luta até à morte, e matou o seu primeiro vampiro, a golpes do machado com que vivia em comunhão total desde que era pequenino. Um dia conheceu um vampiro chamado Henry que lhe disse algumas coisas interessantes, depois de lhe ter dado uma traulitada na cabeça e de o ter prendido num quarto de uma casa bastante interessante, na qual se entrava por um daqueles poços antigos, com manivela, um telhadinho e um balde na ponta de uma corda. E disse-lhe então o seguinte:
Que os vampiros eram como os homens em muitos aspectos e que, consequentemente, não eram todos iguais. Não que houvesse vampiros bons e vampiros maus. Não funcionava de uma maneira assim tão bipolar. Mercê das suas próprias características, e olhando pelo prisma dos homens, não havia nem podia haver vampiros bons. Da mesma forma que será difícil que as vacas ou os porcos ou as galinhas, ou qualquer animal de que nós nos alimentemos digam que há humanos bons. Tipo, se são bons, porque é que me querem comer ? Não havia, portanto, vampiros bons, embora houvesse muitos vampiros que eram mesmo maus. Havia era também alguns vampiros que, face à sua experiência de vida, ou se calhar face à sua experiência de morte, aprendiam a valorizar a vida como algo merecedor de respeito a nível geral, sendo que a vida inteligente, dotada de sentimentos mereceria esse mesmo respeito a nível particular. Sendo os vampiros incapazes de morrer, corrompiam-se inevitavelmente em termos morais ao viver uma vida cheia de poder e isenta de limites. Dizia Henry a Abraham:
Depois de seres transformado, ficas mais forte, mais rápido, mais inteligente que todas as pessoas à tua volta. Tens sucesso em tudo  o que te propões fazer e descobres que consegues bater em todos os homens de que não gostas e que algum dia te trataram mal e que as mulheres adoram pinar contigo, E descobres ainda, tipo bónus, que lhes podes beber o sangue depois de lhes fazer isso tudo. Descobres a maneira de praticar cinco dos sete pecados capitais todos de uma vez, e raciocinas que, se nenhum Deus te impede de fazer isso, é porque ou não tem mal nenhum, ou não há Deus nenhum. E continuas, durante todo o primeiro século a fazer isso. Comer, beber, pinar, matar... Mas tudo o que é bom cansa, e o facto de não Ter limites desvaloriza os prazeres, por isso no segundo século viras-te para o intelecto, para as artes, para a ciência, para a literatura, para as viagens... E consegues aguentar-te mais um século assim, a desfrutar do prazer intelectual, e começas a pensar que aquela raça humana é mesmo capaz de produzir coisas belíssimas, e que se calhar não servem apenas para comer, beber e foder, isto pela ordem inversa, obviamente, não somos selvagens... E começas a virar-te para a filosofia. Por um lado pensas que já estás farto disto, que já não tens mais nada que te entusiasme. Por outro lado, começas a apreciar cada vez mais aquela raça que, além de se parecer tanto contigo, consegue fazer tanto em tão pouco tempo de vida. E começas a achar que se calhar eles é que são a raça superior, pois limitados como estão pela morte, não tem tempo para se corromper. E vai daí, deixas de comê-los e passa a protegê-los e descobres aqueles que dentro deles são os mais fortes e mais inteligentes e revelas-te... Percebeste ?

Abraham percebeu e a partir desse dia, passou a matar todos os vampiros que Henry lhe dizia, tornado-se assim num caçador de vampiros profissional, com um casaco comprido preto cheio de truques dentro, tipo Inspector Gadget. Paralelamente Abraham não descurou a sua carreira política e, mais pormenor menos pormenor, chegou a presidente dos Estados Unidos. E mal lá chegou, estourou-lhe nas mãos a Secessão dos Estados do Sul. E esta é a parte mais fixe do livro. O sul era o paraíso dos vampiros, na América. E porquê ? Porque era o sítio onde lhes era mais fácil de se alimentarem . E porquê ? Porque era o único sítio onde se podia fazer desaparecer o número de pessoas que se quisessem sem levantar questões.. E porquê ? Por causa da escravatura... Em termos d emundo ocidental, os vampiros estiveram instalados durante centenas de anos na Europa, tendo sido de lá expulsos depois da Revolução Francesa, em que o povo passou a ser quem mais ordenava e em que deixou de se encarar como uma inevitabilidade alguém comer os nossos camponeses todos. Ao ser conferida a todos os cidadãos uma individualidade distinta, deixou de ser possível à vampiragem comer o que queria impunemente e, para além disso, passou a haver uma perseguição específica aos vampiros, tendo sido estes o principal alimento das Guilhotinas de Robespierre. Vai daí que estes fugiram todos para a América, onde passaram a ser os maiores apoiantes da escravatura e os principais instigadores da secessão dos Estados do Sul, que iria levar logo a seguir à Guerra Civil Americana. Apesar da luta encarniçada e desesperada dos vampiros, Abraham venceu a Guerra Civil e erradicou a escravatura, fazendo com que, entre muitas outras consequências, os vampiros fugissem dos agora Estados Unidos, novamente para a Europa, onde o início de alguns totalitarismos racistas ofereciam bons prenúncios quanto à possibilidade de vir a haver novamente comida com abundância. Mas isso é já outra história. Abraham não teve muito tempo para saborear a sua vitória. Primeiro mataram-lhe o filho mais velho e depois, como toda a gente sabe, John Wilkes Booth, um vampiro actor, matou-o em pleno teatro. No fim, Abraham, que durante toda a sua vida tinha proibido a Henry que lhes ressuscitasse os vários filhos, não pode fazer nada quando Henry o ressuscitou a ele, dizendo que há pessoas que são demasiado interessantes para morrer...

1.12.11

30 - hunger games




Suzanne Collins

A necessidade de variar surgiu do facto de desde Agosto estar a ler o mesmo livro, mais volume menos volume. Convenhamos que quase seis meses a ler o que se passa nos Sete Reinos, com visitas ocasionais às Cidades Livres e andando atrás dos Dothrakis é, digamos assim, cansativo… Mais a muralha, e o para lá dela, e as tricas Borgianas de toda aquela gente, e a fixação pelas maçãs, e pelo “florescimento” das raparigas, e a expressão break the fast… Precisava mesmo de desenjoar. Até mesmo os clássicos cansam. É pelo menos esta a minha experiência da leitura da Bíblia e da Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura. Da Verbo, claro. Vai daí, vi uma referência de uma triologia juvenil chamada The Hunger Games e que parecia estar bem cotada.
Trata-se do monólogo interior de uma rapariga chamada Katniss que vive no Distrito 12, o último do “país” que outrora se chamou Estados Unidos da América. Não sabemos como foi que este colapsou, mas o facto é que os 50 estados passaram a 12 distritos e que esses 12 distritos fizeram aquilo que os estados nunca fizeram. Revoltaram-se contra a capital, que se chama “Capitol” e, talvez por serem poucos, perderam. Daí resultou uma ordem social inteiramente nova, que tinha pelo menos a vantagem de ser ordenada. Tipo: o Distrito 1 faz têxteis, o Distrito 2 não sei o quê, do 3 até ao 10 também não me lembro, o Distrito 11 trata da agricultura e o Distrito 12 da mineração de carvão. Tinha também diversos inconvenientes, geralmente comuns a todas as democracias demasiado musculadas, dos quais se destacavam dois mais importantes. O primeiro inconveniente era que quanto maior o número do Distrito menos comida este tinha, pelo que a partir do 3 e do 4 já andava tudo com fome. O segundo inconveniente era muito mais do que isso. Chamava-se Os Jogos da Fome, e é deles que o livro trata.
Os jogos da Fome são uma mistura de Big Brother, Survival e Highlander, sendo que tudo é televisionado, é uma luta pela sobrevivência e no fim there can be only one. Cada distrito, numa expiação eterna da sua rebeldia, tem que fornecer duas crianças, um rapaz e uma rapariga entre os 12 e os 16 anos para os jogos. A partir dos 12 anos, todas as crianças passam a fazer parte do sorteio, tendo um papelzinho com o seu nome por cada ano que passam dos 12. A não ser que tenham fome, ou que as suas famílias tenham fome. Se for este o caso, cada criança tem direito a comida extra para si e para os seus na razão directa do número de papéis extra que coloca no caldeirão. Katniss tinha para aí uns doze papéis, e isso porque tinha que sustentar a mãe e sustentar e proteger Primm, a sua irmã mais nova. Que atingiu 12 anos este ano, pelo que tinha um papelzinho no sorteio deste ano. Só um. Chegou. Foi escolhida e Katniss nem hesitou em voluntariar-se para proteger a irmã, situação que a tornou especial logo à partida. O outro sorteado foi Peeta, um rapaz que tinha sido simpático para Katniss no passado e que, mesmo sem querer, se tornou o marco na viragem que ela fez para conseguir fugir da miséria. Isto através de um processo de introspecção muito intenso que não vale a pena descrever aqui. É mesmo melhor ler.
E lá foram os dois, para os Jogos da Fome, onde tiveram que enfrentar mais outros dez e onde valia tudo até arrancar olhos. O livro aqui não perde tempo, é sempre a abrir e as mortes não esperam muitas páginas para irem acontecendo. Até porque é essa a ideia dos jogos, uma vez que as audiências não se podem aborrecer e, relembremos, tudo é visto em directo por toda a gente. Assim, praticamente ao ritmo de um por dia. Morria um tributo. Por dia não. Por noite, porque a maneira como eram anunciadas as mortes era com um tiro de canhão e com a projecção no céu nocturno da cara do morto. Bonito.
O fim é previsível. Katniss e o namorado iludem os Gamemakers, aproveitam-se do Truman Show e vencem o jogo, não sem que antes Katniss tivesse que enfrentar a morte simbólica da irmã na morte real de Rue, a miúda de 12 anos que teve o azar de ser escolhida no draft e a quem Katniss instintivamente se aliou. Para vencer o jogo Katniss usou uma estratégia Brig Brotheriana e envolveu-se sentimentalmente com Peeta, de maneira a suscitar a empatia da audiência e dos patrocinadores, situação algo ambígua e de difícil gestão porque para Peeta esse envolvimento seria, aparentemente, real. O que me parece que vai criar problemas sentimentais nos próximos dois livros, porque embora eu me tenha esquecido de o referir, Katniss tinha um “melhor amigo” no Distrito, que se chamava Gale e que aposto que não terá gostado lá muito do que viu.
Este livro não perde tempo e vai directo ao assunto, o que é sem dúvida uma qualidade, dado que o transforma numa coisa bastante genuína. O que mostra é o que vale, e isso é sempre uma qualidade. Nem empastela o que é bom nem esconde o que é mau. E a prova disso é que tem apenas dois capítulos e é sempre a abrir. E isso é bom.

10.9.11

29 - fables 3.1



No dia 1 de Agosto (e eu sempre tive uma relação peculiar a três comigo, com as minhas leituras e com este mês), ou melhor, na noite 1 de Agosto, numa daquelas noites em que preferia estar noutro sítio, a fazer ou a não fazer outras coisas com outras pessoas, a sentir que o Verão é efectivamente diferente do resto do ano e que essa diferença não se esgota a ficar deitado na varanda até adormecer, deitei-me na varanda e, se calhar adormeci. Ou se calhar não, mas a experiência por que passei poderia bem ser um sonho, porque nessa primeira noite, a Bela e o Monstro estavam a contar as dificuldades do seu casamento à Branca de Neve, e o Principe Encantado estava a pinar ferozmente uma empregada de café, e o Lobo Mau estava a investigar o rapto da a namorada do Jack (o do pé de feijão). Condensado, seria assim. Na segunda noite, um dos três porquinhos estava na sofá do Lobo Mau a queixar-se que queria viver na cidade, e a Bela Adormecida esta a lutar esgrima com o Barba Azul,, e o Principe Encantado estava a almoçar com a Branca de Neve, sua primeira mulher, e estava a cravar-lhe dinheiro, e o Lobo Mau acusou o Barba Azul de ter matado a irmã da Branca de Neve. E na terceira noite o Barba Azul estava a tentar matar o Jack (o do pé de feijão) por achar que este tinha matado a irmã da Branca de Neve, e a irmã da Branca de Neve tinha prometido casar com o Barba Azul, e que era por isso que ele estava fodido, e o Lobo Mau e a Branca de Neve também sabiam isso E na quarta noite havia uma festa em que o King Cole, presidente da câmara, recordou a toda a gente que todos eles vinham do mesmo sítio, e que foram de lá expulsos pelo Adversário, e que por isso é que tinham vindo todos para Nova Iorque, e o Pinóquio confidenciou que estava farto de estar há mais de trezentos anos aprisionado no corpo de uma criança de 10, e que queria sexualizar, e que não conseguia, e que se estava a passar, e o Lobo Mau descobriu que a irmã da Branca de Neve afinal não tinha morrido. E na quinta noite o Príncipe Encantado tinha leiloado o seu título na internet. E na sexta noite havia uma quinta cheia de não humanos super famosos, e levaram um dos três porquinhos de volta para lá, e a quinta estava dominada pelos porcos, e que aquele dos três porquinhos que passava a vida a fugir da quinta para a cidade se chamava Collin, e que, nessa noite, a cabeça dele apareceu espetada numa estaca, tipo Deus das Moscas. E na sétima noite descobri que foram os três Ursos da Cachinhos de Ouro que mataram o Collin, e que foi a Cachinhos de Ouro que os mandou fazer isso, e que foram descobertas por Reynard, a raposa, e que havia um grupo de animais rebeldes que queriam fazer uma revolução, e que entre esses animais estava o Balu , a Cobra Cã e o Shere Khan , e ainda a a Baguera, todos do Livro da Selva e todos estranhamente unidos. E na oitava noite, os animais da quinta estavam todos a fazer de conta que eram porcos e revoltaram-se, e a Branca da Neve teve que fugir para a floresta, e o Shere Khan foi atrás dela, e ela matou-o com quatro tiros no focinho, e depois entrou numa gruta onde estava e Ferreiro Weyland a fazer armas para os animais revoltosos, acorrentado com um feitiço que não lhe permitia usar as ferramentas que tinha para quebrar a própria corrente. E na nona noite, a Branca de Neve tinha sido apanhada pelos revoltosos e foi julgada pelos porcos do Orwel e aprisionada junto ao Ferreiro Weyland, e prepara-se a batalha final, sendo que entre os revoltosos consegui ver, para além dos já mencionados, o Coelho Branco da Alice, o Gato das Botas, a Morsa dos Beatles, o Chicken Little, o Gato de Chesire (o da Alice), a Lebre e a Tartaruga, um monte de liliputianos e ia jurar mesmo que vi o Ursinho Pooh e o Piglet, mas pode ter sido uma alucinação, e entre os leais à Branca de Neve só reconheci o Rei Leão, e apesar da desproporção, Branca de Neve ganhou a batalha recorrendo a quatro gigantes e um dragão, numa espécie de antevisão aos quatro casamento e um funeral, funeral que poderia bem ser o dela, uma vez que a Cachinhos de Ouro lhe acertou com uma bala entre na cabeça, a mais de duzentos metros e usando, obviamente, uma espingarda com mira telescópica. E na décima noite o Principe Encantado, o Barba Azul, e o Rapaz Azul (esta repetição não foi um descuido) chegaram à quinta e tomaram conta da situação, e o Príncipe Encantado foi o juiz dos julgamentos dos revoltosos, e os porquinhos que sobraram foram condenados à morte por um carrasco que não era talhante e que demorou mais de dez golpes a cortar-lhes a cabeça, danificando assim as costeletas do cachaço, e tudo acabou bem, passando a irmã da Branca de Neve a tomar contada Quinta. E na décima primeira noite fiquei a saber a história do Jack, o dos Feijões, que ganhou o saco da morte num jogo de cartas, e quando contei doze, um jornalista descobriu Fabletown, e a Bela Adormecida picou o dedo dentro da Tiffany´s, adormecendo toda a gente lá dentro. E na décima segunda noite, o Barba Azul matou o jornalista que ameaçava denunciar Fabletown, isto mesmo depois do o Lobo Mau ter já conseguido que o jornalista não fosse revelar nada. E na décima terceira noite o príncipe encantado já não conseguiu acordar a Bela Adormecida, provavelmente porque já não a amava e o feitiço só funciona quando a bela é beijada por um príncipe que a ama e, assim sendo, continuou a dormir até ser acordada pelo príncipe que dantes era um sapo e que confessou timidamente que sempre tivera um fraco pela Bela, adormecida. E na décima quarta noite o Barba Azul e o Principe Encantado batem-se em duelo na academia de esgrima, e o Barba Azul e a Cachinhos de Ouro pinam um com o outro, sendo que o Barba Azul lhe dava guarida em troca de, e passo a citar, “um broche ocasional” e ainda o Barba Azul envenena o Lobo Mau e a Branca de Neve. E na décima quinta noite o Lobo Mau e a Branca de Neve vão acampar para o meio do monte e são perseguidos pela Cachinhos de Ouro, que continua a querer matar a Branca, parecendo querer que todos nós cheguemos à conclusão que já não se trata de política mas sim de psicapatia. E na décima sexta noite o Lobo Mau confessa o seu amor à Branca de Neve de uma maneira bastante original, que é dizer-lhe que só fuma tanto para não Ter de a cheirar, porque se a cheirar só lhe apetece comê-la, e isto, digo eu, faz todo o sentido mas eu prefiro não fumar e cheirar, e o Príncipe Encantado mata o Barba Azul num duelo desta vez a sério, aproveitando para lhe ficar com a sua vasta fortuna, e o Lobo Mau revela que conseguiu deitar abaixo a casa dos porquinhos porque o seu pai é o Vento do Norte. E na décima sétima noite a Cachinhos de Ouro enche o Lobo Mau de balas, muitas mesmo, mas de chumbo e não de prata, o que foi um erro e a Branca de Neve enfia um machado na cabeça da Cachinhos de Ouro várias vezes, mas esta custa muito a morrer porque o poder das fábulas é directamente proporcional à sua popularidade entre os humanos e toda a gente adora a Cachinhos de Ouro, o que faz dela extremamente poderosa e dificílima de matar, mas não ao ponto de escapar a 12 machadadas na cabeça, seguida da queda de um precipício e de um atropelamento por um TIR desembestado, e depois o Lobo Mau e a Branca de Neve voltam a Fabletown e a Branca de Neve descobre que está grávida. E na décima oitava noite não acontece nada, e na décima nona noite o Príncipe Encantado quer candidatar-se a mayor de Fabletown e o Lobo Mau reivindica a paternidade da gravidez da Branca de Neve, pois ainda que enfeitiçado, nunca poderia deixar de responder ao apelo da natureza e, vinda directamente da Homeland (leia-se a Terra Natal das Fábulas), aparece a Capuchinho Vermelho. E na vigésima noite o Lobo Mau revela as suas desconfianças sobre a Capuchinho Vermelho à Branca de Neve, e a Capuchinho Vermelho passa-se dos carretos quando descobre que o xerife de Fabletown que a vai interrogar é o Lobo que lhe comeu a avó (e, já agora, que tentou comer os porquinhos, os cabritinhos e por aí fora, ou seja, sempre o mesmo, como seria lógico e de esperar), tudo isto enquanto o Príncipe Encantado angaria assinaturas para tentar chegar a mayor. E na vigésima primeira noite três soldados de madeira parecidíssimos com os agentes do Matrix chegam a Fabletown e espancam o Jack do Pé de Feijão. E na vigésima segunda noite descobrimos que Fabletown optimiza os seus recursos de uma maneira bastante eficiente, pois além do o Lobo Mau ser sempre o mesmo para a Capuchinho, os 3 porquinhos e os cabritinhos, descobrimos também que o Príncipe Encantado foi também sempre o mesmo para a Branca de Neve, a Bela Adormecida e para aCinderela, tendo casado com as três por esta ordem que acabei de escrever, e que a Cinderela é actualmente dona de uma cadeia de sapatarias ( o que faz bastante sentido, digo eu), mas que também é uma das agentes secretas do Lobo Mau que por sua vez, relembremos, é o xerife de Fabletown. E na vigésima terceira noite os soldados de madeira assaltam uma loja de armas, e a Capuchinho Vermelho faz as pazes com o Boy Blue (personagem que ainda não expliquei porque não conhecia, mas que pode ser consultada aqui ) acabando na cama com ele, a pinar, obviamente, jogada errada porque graças ao sexo experimentado ele descobriu que ela não era a Capuchinho Vermelha original, mas sim uma feiticeira vinda das Homelands para, em conjunto com os soldados de madeira, invadir Fabletown, tudo isto enquanto o Príncipe Encantado continua com a sua campanha eleitoral para ser mayor e convida a Bela e o Monstro para serem, respectivamente, mayor interina e xerife em substituição, como sabem e também respectivamente, da Branca de Neve e do Lobo Mau, isto apenas se ganhar as eleições, obviamente. E na vigésima quarta noite a Capuchinho Vermelha falsa (a tal feiticeira que se chama Baba Yaga ) e os soldadinhos de madeira, torturam bastante o Boy Blue e o Lobo Mau descobre quem eles são, e a Branca de Neve proclama o estado de emergência em Fabletown, momentos antes de os soldadinhos de madeira invadirem a assembleia e exigirem a submissão total de Fabletown e, surpreendentemente, a devolução do Pinóquio. E na vigésima quinta noite a Branca de Neve entrincheira Fabletown e reúne as forças leais das Fabels, enquanto que a Capuchinho Vermelho (falsa) faz o mesmo com as tropas leais ao império, que tem a curiosidade de serem completamente formadas por soldadinhos de madeira, e tudo parece indicar que a Guerra vai começar. E na vigésima sexta noite a Guerra escala, começando a correr mal para as Fables sendo que algumas destas começam a morrer, com particular destaque para o Pinóquio, que vê a sua cabeça cortada por um dos soldadinhos de madeira. E na vigésima sétima noite a batalha acaba porque o Lobo Mau regressa e acaba com os soldados de madeira enquanto que a Capuchinho Vermelho (falsa) é derrotada pela feiticeira mais poderosa de todas, que deve o seu poder ao facto de ninguém saber bem quem ela é, ainda que se desconfie que é a bruxa do bosque da casinha de chocolate que queria comer aHansell e Grettel, e depois de se terem enterrado os mortos, as águas da Branca de Neve rebentam. E na vigésima oitava e vigésima nona noites, num flashback elucidativo descobre-se que o Lobo Mau foi um agente secreto americano aquando da segunda guerra mundial e que destrui o Frankenstein, que os nazis tinham, chamemos-lhe assim, reactivado e que pretendiam usar como arma secreta. E na trigésima noite o Príncipe Encantado ganha as eleições para mayor de Fabletown e nascem os bebés da Branca de Neve e do Lobo Mau, que são sete e são também, e compreensivelmente, uma mistura entre humano e lupino, num gradiente perfeito, tendo ainda a particularidade de … voarem. E foi assim que se passou o meu mês de Agosto, e ao pensar que efectivamente eu queria que as minhas noites não fossem apenas mais do mesmo, tenho que reconhecer que foram efectivamente originais. Uma fábula por dia, durante 30 dias, a caminho das 1001 noites, como a Sherazade…

2.9.11

28- world war z



Max Brooks
O princípio do livro faz-me pensar se não há aqui uma metáfora qualquer. Algures na China (metáfora número 1: virá da China o fim do mundo?), numa daquelas aldeias de alguma forma relacionadas com a Barragem dos Três Diques, aparece um miúdo que foi mordido por alguma coisa que estava debaixo da albufeira (metáfora número 2: a barragem como monstro que efectivamente é) e que, abreviemos, se transformou num morto-vivo, zombie para simplificar. A partir daí foi o que toda a gente facilmente adivinhará. As contaminações são funções exponenciais, toda a gente sabe. O mundo, tal como o conhecemos ficou rapidamente, comprometido, tal como a raça humana que muito rapidamente o estava a deixar de ser. Passamos então a ser confrontados com diversas histórias que nos relatam os efeitos, causas, consequências, reacções, efeitos em todo o tipo de pessoas, instituições e países. Estas histórias estão escritas em forma de entrevista, mas daquelas entrevistas feitas como deve ser, em que o entrevistador apenas monossílaba (esta palavra pretende ser um verbo, tipo eu monossílabo, tu monossílabas, etc.) e o entrevistado leva a sério o seu papel, que é o de ter alguma coisa para dizer. Cai assim, inevitavelmente, num monólogo. De seguida, as histórias mais interessantes, mas este é um caso em que o resumo não faz justiça ao livro, porque todas as histórias são interessantes, muitas são geniais, e eu vou esquecer-me de algumas...
O início: A China como metáfora do mal.
A China, origem involuntária da epidemia, fez, nas palavras do chefe da CIA, a maior operação de encobrimento de toda a história. Ou seja, para justificar os recolheres obrigatórios, as execuções em massa, as chamadas dos reservistas para o exército, etc, inventou uma guerra com o Taiwan, já latente há bué de tempo e desatou a fazer macro-Tianamens por todo o lado. De zombies, claro.
Israel: a recompensa da paranóia.
Israel, a primeira a aperceber-se e rapidamente a entrincheirar-se no muro que já tinham, inventando o conceito de quarentena voluntária abandonaram mesmo Jerusalém. Desta vez aceitaram os palestinianos. Isto se os cães os deixassem passar.
O falhanço da inteligência: a CIA.
Na América, a CIA falhou mais uma vez a previsão do que ia acontecer, só que desta vez com razão, pois tinha sido drasticamente reduzida depois de ter sido considerada a cabra expiatória da invasão do Iraque. Quando o governo finalmente se apercebeu da ameaça, criou equipas alfa, com os soldados das operações especiais que os americanos tanto gostam de acreditar que têm, e essas equipas terão feito tamanha carnificina que os registos das suas operações ficaram secretos por 140 anos. Todo o establishment americano optou por ignorar a epidemia, numa tentativa de autpo-preservação do status ou de, pelo menos, evitar o desmoronamento da sociedade capitalista. Isso seria tão mau como, sei lá, uma epidemia de zombies…
A decimação Russa
Na Rússia, quando os soldados se começaram a aperceber qual a sua missão e qual o inimigo a abater e se revoltaram, dizendo que queria ir para casa proteger as suas famílias dos zombies, o estado maior do exército aplicou a técnica de decimação. Ou seja, por causa de se terem revoltado, um em cada dez soldados seriam mortos e esse soldado que iria morrer era escolhido pelos companheiros e por eles executado. Que ficaram, a partir desse momento, tão comprometidos que nunca mais desobedeceram, ajudando assim a alcançar a vitória militar sobre os zombies, muito tempo depois.
A Guerra improvável: nuclear
Guerra, nuclear, entre o Paquistão e, surpreendentemente, o Irão, e não a Índia. Milhões de refugiados e zombes entram pelo Irão dentro, sem que o Paquistão se interesse em trabalhar em conjunto com o governo iraniano para parar a invasão. Desesperados, os iranianos bombardeiam uma ponte na fronteira entre os dois países. O Paquistão retalia e, dada a ausência de uma máquina diplomática bem lubrificada entre os dois países, a escalada ao nuclear é rápida e inevitável.
O bater no fundo: A batalha de Yonkers
Yonkers foi o sítio em que o exército americano agrupou, para fazer face à horda de zombies. Foi a maior acumulação de erros militares de toda a história bélica da humanidade. Porque puseram s soldados no chão, quando podiam tê-los colocado nos telhados, onde os zombies nunca conseguiriam chegar. Porque estavam os soldados equipados com full-extras, tipo máscaras anti-gás e tudo, que só lhes dificultava a visão e o movimento ? E o equipamento vídeo electrónico que permitiu aos soldados ver toda a desgraça que se passou em directo, desmoralizando instantaneamente. E porque é que havia tantos tanques, aviões, helicópteros e tão poucas munições? Yonkers deveria ter sido a prova perante toda a humanidade que ainda se controlava a situação, que, por muito mal que a coisa tivesse corrido até então, agora que o todo poderoso exército americano tinha levado a a situação a sério, tudo se resolveria. Não foi, antes pelo contrário. Foi uma derrota estrondosa em que a humanidade se apercebeu que, mesmo que não tivessem sido cometidos os erros que foram, não há vitória possível contra uma horda de 2 ou 3 milhões de zombies sem medo, sem consciência, que só param quando lhes destroem o cérebro. E como dizia um dos soldados: “Bolas pá. Passamos a vida toda a apontar para o centro de gravidade e de repente passam a querer tiros certeiros numa cabeça que se está sempre a mexer. Devem pensar que é fácil, com uma armadura que não nos deixa mexer e uma máscara anti-gás que não nos deixa ver.”
A salvação vinda da África do Sul: o plano Redeker.
A África do sul tinha sempre teve a sensação que, devido à sua instabilidade rácica interna, a qualquer momento a sua sociedade poderia implodir. Nessa perspectiva, o governo branco tinha um plano que permitiria a sua sobrevivência quando isso inevitavelmente acontecesse. Esse plano previa quem deveria ser salvo e como, tendo em conta factores de QI, saúde, profissão, valências, fertilidade, e por aí fora. A raça não era uma questão, uma vez que o plano foi feito para os brancos, mas a partir do momento em que o governo da África do sul, já negro, decidiu usar o plano para tentar salvar o país dos zombies, a raça continuou a não ser uma questão na selecção. O plano dizia, abreviadamente: Nem todos podem ser salvos. Querer salvar todos só gasta os recursos existentes e é impossível. Deve ser criada uma zona de segurança, não infectada, a partir de onde a humanidade possa reagrupar. Ou seja, partir de uma posição de fraqueza, depois de bater no fundo, começar a crescer. E, ao mesmo tentar, não deixar que o resto dos humanos não contaminados estejam demasiad o perto para tentarem entrar na zona segura, mas qute também não estejam demasiado longo para que possam continuar a atrair os zombies para os lugares considerados mais convenientes. A ideia seria a humanidade Tornar-se ela a nova epidemia. Tipo: o mundo é vosso, mas nós vamos reconquistá-lo. Criar zonas de iscos humanos, com populações saudáveis que sirvam de isco aos zombies, que ao perseguirem-nas, deixavam a zona de segurança em paz.
O Big Brother
A casa dos famosos tipo big brother, em que apenas os ricos podiam entrar e de onde, de dentro da protecção que a casa lhes garantia, poderiam ver o mundo a acabar, provavelmente entre gargalhadas e em directo para toda a gente ver, na televisão. Como sempre acontece com os ricos quando exageram na sua omnipotência, correu mal. A casa tinha sido pensada até ao último pormenor para resistir aos zombies, mas quem veio não foram os zombies, mas sim pessoas normais que, depois de ver a casa na televisão, correram a invadi-la à procura de protecção. Acabaram, como é lógico, todos mortos e a casa a arder. Em directo.
O cemitério dos barcos
Alang, na India, sempre foi o maior centro de desmantelamento mundial de navios. Grandes navios. A ideia era fazer os navios em fim de vida navegarem até lá para depois os encalhar a umas dezenas de metros da costa. Aí encalhados, esperavam que fosse a sua vez de serem desmantelados, sendo que esse desmantelamento eram feito manualmente, por centenas de operários que todos os dia iam em dezenas de botes desde a praia até aos navios, para os desmontarem gradualmente, peça por peça. Cada navio demorava assim meses e meses a ser desmontado, ficando sob a forma de carcaça esburacada a flutuar até ao seu derradeiro fim. Quando os zombies atacaram, a população dirigiu-se para o mar com o objectivo de, a nado ou nos botes, alcançarem os grandes navios onde estariam a salvas, podendo mesmo até sair dali caso alguns dos navios ainda funcionassem. Tipo Titanic, mas em sentido contrário. Tal como no Titanic, os botes também não chegavam para todos, o que efz com que a humanidade, no seu bom e no seu mau, demonstrasse naquela situação a sua verdadeira natureza. Se por um lado houve montes de pescadores e possuidores de barcos que depois de deixar as suas famílias em segurança voltavam à praia para fazerem todas as mais viagens que conseguissem para salvar mais pessoas, houve também aqueles que aproveitaram a posse dos barcos para lucrar, ou exigindo dinheiro, ou só admitindo mulheres jovens, ou só brancos, ou só mestiços, e por aí fora, ficando os rejeitados sem outra alternativa que não fosse nadar. O que também era complicado porque muitos dos nadadores estavam já contaminados e morriam debaixo de água, ressuscitando como zombies aquáticos. Que depois, literalmente, puxavam os tornozelos dos outros nadadores, infectando-os, afogando-os, para estes depois reanimarem num ciclo vicioso infindável. E a maior prova que a humanidade é incontornável aconteceu quando o dono de um dos botes (estamos na Índia, convém relembrar) disse que não admitia Intocáveis no barco dele. E, os intocáveis que estavam na fila, resignadamente, abandonaram-na e entregaram-se à morte. E ao resto…
O síndroma de Recusa Assintomático
Foi uma resposta natural do organismo humano à tragédia que se abateu sobre a humanidade com a invasão dos Zombies. Confrontadas com as mortes, as ressurreições infectadas, o fim da sua família, dos seus conhecidos, dos seus empregos, das suas cidades, enfim, de todo os seu modo de vida, as pessoas por e simplesmente desistiam iam para a cama e não acordavam no dia seguinte. Para combater esta doença, para fazer as pessoas acreditarem que alguma coisa estava a ser feita pelo governo, pelo exército, pelas outras pessoas para combater esta calamidade, um realizador de cinema resolveu começar a fazer filmes que inspirassem alguma esperança no coração das pessoas. Após ter pedido apoio ao governo e este ter sido recusado, começou a fazer documentários manuais e artesanais pelo país fora, sendo que o primeiro foi os últimos dias de um colégio interno em que os trezentos alunos que lá moravam resolveram combater até ao fim e conseguiram aguentar mais de dez mil zombies durante mais de quatro meses. O êxito deste filme foi tal que rapidamente outros se seguiram, sempre de situações de resistência heróica por parte da humanidade e de vitória conseguida e esperança renovada. E este efeito de esperança renovada deu os seus frutos, pois que cada filme que saía, mais pessoas iam vê-los e a taxa de SRA começou a diminuir, primeiro caiu dez por cento, depois vinte e por aí fora. O governo finalmente percebeu o potencial desta cura para a depressão e o realizador continuou o seu trabalho, passando dos documentários heróicos mas verdadeiros para a propaganda quase goebbeliana, tipo a documentar as novas armas anti-zombie que os iam derreter a todos (aos zombies) mas que na realidade eram projectos que já estavam cancelados na altura do filme. Mas o que foi facto é que a taxa do síndroma continuou a cair até que, como doença, passou a inexistente. O que constitui um grande contributo para a vitória final, na guerra…

Enfim… Muitas mais histórias valeria a pena referir, mas não faz grande sentido estar a reescrever o livro em parágrafos mais curtos, até porque, perante a qualidade dos textos, não há lugar nenhum para as minhas piadinhas habituais e para eu tirar conclusões muito profundas. Porque neste livro está lá tudo, muito mas muito mais do que eu conseguiria acrescentar. O livro é brutal…

23.4.11

27 - os mágicos



Lev Grossman
Começa bem, com um adolescente sobredotado chamado Quentin, super sorumbático, alto e magro, mas com os ombros descaídos, como se se estivesse sempre a abraçar para se proteger de um qualquer golpe vindo dos céus e que, logicamente, atingiria primeira as pessoas mais altas. Quentin tem como amigos outros dois adolescentes sobredotados, um rapaz e uma rapariga. Como em qualquer outro triângulo, também neste as arestas estavam todas ligadas de alguma forma, com Quentin apaixonado por Júlia, que por sua vez namorava com James, Mesmo entre os sobredotados, o panorama das emoções é surpreendentemente previsível. Quentin divide a sua vida entre dois mundos. O real, onde se move embaraçado sentido-se um figurante de segunda linha e um outro, mágico, tirado de uma série de livros que leu na infância, um mundo chamado Fillory mas que é chapadinho (ao ponto do plágio, digo eu) de Narnia. Estes livros contam a história de cinco crianças inglesas que se refugiam no campo para fugir da primeira guerra mundial, onde está o seu pai. Dirão os puristas que logo aqui há diferenças consideráveis, visto que em Narnia são apenas quatro crianças inglesas que se refugiam no campo para fugir da Segunda guerra mundial, onde está o seu pai. E, enquanto a Narnia se acedia por um roupeiro, a Fillory é por um relógio, daqueles tipo Big Ben, mas em miniatura...Super diferente. Percebe-se no entanto facilmente o encanto que Fillory suscita em Quentin. Em Fillory, existe um eclipse todos os dias ao meio dia (que é quando os eclipses se vêem melhor) e as estações, principalmente a Primavera, podem durar mais de cem anos. Em Fillory, mares de um verde pálido acabam em praias pequenas feitas de conchas partidas e as árvores secas não têm vergonha de se recortar contra o céu, arranhando-o Em Fillory, as coisas contam de uma maneira que não acontece no mundo real, e consegue sentir-se as emoções adequadas ao que quer que seja que nos está a acontecer. A felicidade é uma condição concreta a alcançável e vem quando é chamada. Melhor ainda, nunca sequer te chega a deixar. Fillory é brutal. Mas chega de Fillory. Detesto sítios felizes.

Quentin tem dezassete anos e está em vias de entrar para a faculdade, Princeton, mais concretamente, mas um dia desorienta-se e dá por si em Brakebills, a Faculdade dos Mágicos, onde depois de Ter sido examinado (e este exame é muito fixe, porque os examinandos tem que descrever um sítio que não conhecem e que não existe numa língua inventada por eles naquele momento, que no entanto tem que ser suficientemente madura para lhes permitir criar ali mesmo o sistema judicial do tal lugar inventado) poderão seguir uma carreira de mágicos. Quentin, a quem a sua vida quotidiana parecia um papel secundária de um filme de má qualidade, perante a oferta de uma vida como mágico, fez o que qualquer um de nós faria: aceitou. Brakebills não é Hogwarths, embora as semelhanças sejam mais que muitas, não tão plagiantes, desta vez.. Digamos que Brakebills está para Hogwarths como a Faculdade está para o liceu. Em Brakebills fuma-se, bebe-se, segrega-se os outros, anda-se à pancada e faz-se sexo, nem sempre de uma forma heterossexual. Quentin lá se integra e de alguma forma perde o entusiasmo e a inocência com que aceitou a vida de mágico provavelmente, digo eu, porque emparelhou com Elliot, o Oscar Wilde lá da zona e também porque todas as noites se alcoolizava com alguma intensidade. Ainda não falei de Alice, uma espécie de Hermione (lá estou eu), mas, como direi... papável... Várias coisas interessantes acontecem em Brakebills, e esta á a parte mais fixe do livro. Um dia, durante uma aula interminável, um ser de outro mundo toma conta da aula e prolonga-a por mais de dois dias, fazendo que toda a gente desmaie de caimbras quando finalmente se vai embora, depois de comer a única estudante que o tentou parar. Outro dia, todos os alunos finalistas tiveram que subir para o telhado e despir-se, deixando que o sol do fim da tarde lhes brilhasse na pele. Para, logo a seguir, serem transformados em gansos e voarem até ao pólo sul, onde existe uma filial de Brakebills onde eles iriam receber a parte mais difícil da sua educação enquanto mágicos. Ou o facto de, numa tentativa de prolongar a Primavera e o Verão, os responsáveis do colégio terem baralhado o calendário de tal maneira que, em Brakebills, o tempo andar sempre dois ou três meses atrasado. Ou o exame final, em que cada aluno pode escolher o tema, em que Alice decidiu aprisionar um fotão e Quentin decidiu ir à lua, quase o conseguindo. Ou, depois da festa de formação, quando o director levou os finalistas para o único sítio da escola onde os feitiços protectores não funcionavam e, depois de os embebedar, lhes meteu um demónio dentro das costas, para as guardar e depois lhes tatuou uma estrela em cima. Enfim... tudo o que é bom acaba e Quentin, Alice e os outros passam instantaneamente a viver em Manhatan, onde se dedicam ao mais completo hedonismo sem sentido, com excepção de Alice, que continua a estudar. Quentin, entretanto, cede aos encantos de um trio, com Janet e com o Oscar Wilde, sendo apanhado por Alice, com quem namorava, logo a seguir ao trissexo. Alice, tal como eu e mais alguém, não gostava de trios, e reagiu muito mal a esta traição, acabando depois por fazer sexo com um punk de crista verde que também era mágico. Como se pode ver, o período pós Brakebills foi uma autentica estupidez literária, por isso o autor resolveu fugir para a frente e, depois de terem descoberto um botão mágico, eis que vão todos para Fillory, que afinal existe. E é aqui que começam os disparates. De repente, vindos do nada e sem sentido nenhum, aparecem coelhos gigantes e furões a tentar matá-los a todos, árvores com relógios, fontes e praças e edifícios esquisitos dos quais não percebi a descrição, o papel e a lógica, mais animais assassinos, centauros que pinam com cavalos, viagens de barco, um cavalo que satisfaz os desejos... E Quentin e Alice e os outros lá no meio, numa missão que não percebemos qual é mas que, em rigor da coerência, eles também não. Entre as várias vezes que fui adormecendo e acordando nesta parte (e poderá ser um bocadinho por isso que a coisa não resultou lá muito lógica para mim) fixei apenas o seguinte: o mau era Martin Chatwin, o mais velho dos cinco irmãos. A boa era Jane Chatwin, que tentava combater o irmão. O objectivo dos dois era ficar em Fillory. E, no que a mim me diz respeito, palavra que não percebo porquê.


17.9.10

26 - o nome da rosa


Umberto Eco.
Guilherme era um frade franciscano com especial tendência para resolver mistérios e contrariar a inquisição, isto numa altura em que esta queimava até mais não. Essa tendência para contrariar a ortodoxia dominante surgiu-lhe quando, curiosamente, era membro dela própria, ou seja, quando era um dos mais destacados inquisidores que existiam, conhecido mesmo pela justiça e acuidade das suas sentenças. Inevitavelmente a dissensão entre Guilherme e o seu empregador começou quando este viu os seus rácios serem analisados à luz de critérios, digamos assim, de produtividade. Guilherme não queimava pessoas suficientes. Depois de várias discussões, e quando já não estava muito longe de ser ele próprio enviado para a fogueira, Guilherme sabiamente desistiu e foi, literalmente, pregar para outra freguesia. Regressou às profundezas da sua ordem e alheou-se da interpretação terrena dada à justiça divina. O problema é que Guilherme constituía a reserva intelectual da ordem Franciscana, e não tardou a ser chamado para outras situações delicadas e espinhosas, situações essas em que, alguém mais atento, facilmente veria o fumo das fogueiras lá ao fundo e sentiria ainda mais facilmente o cheiro a queimado. Ou, melhor dizendo, a esturro… Guilherme foi assim chamado para constituir uma equipa de representação da Ordem Franciscana numa questão que muita tinta iria fazer correr (este pormenor da tinta iria revelar-se bastante importante). A questão era bastante actual na altura e continuou a sê-lo sazonalmente ao longo da História e era sobre a legitimidade de a igreja católica possuir riqueza ou não. De um lado, os franciscanos diziam que Cristo era pobre e que, quanto mais não fosse por coerência, a igreja por ele fundada também o devia ser. Assim sendo, e dado que a igreja era presentemente (naquela altura) rica, deveria despojar-se dessas riquezas e voltar às suas origens e valores primordiais até porque estes estavam bastante longe das preocupações actuais da igreja. Diga-se em abono da verdade que esta ideia era partilhada por uma infinidade de seitas cristãs, umas mais violentas que outras, das quais a mais famosa foram os Cátaros. Bem, sobre estes ainda mais tinta iria correr, e não nos esqueçamos de quanto a tinta vai ser importante nesta história…Do outro lado da contenda, estavam os dominicanos, ricos e bem instalados na hierarquia religiosa, provavelmente bastante próximos do papa. Os dominicanos acreditavam que sendo Cristo filho de Deus, a única maneira de o honrar é honrando a sua igreja, e honrar a sua igreja significa, não só o culto e a fé, mas também o tributo e o dízimo. Quem senão o representante de Cristo e de Deus na terra tem legitimidade para Ter poder ? E riqueza ? Já que terá sempre que haver riqueza e sua posse, então que esta esteja na igreja, onde se encontram os mais justos de entre os homens. Enfim... Discutível... Isto era também o que achava Guilherme, que para além de franciscano, ou se calhar apesar de franciscano, não era curto nem na inteligência nem naquela qualidade tantas vezes mais importante que a inteligência pura, e que se chama bom senso.
O encontro entre franciscanos e dominicanos teve lugar numa abadia perdida nos Alpes italianos (confirmar isto), no cimo de uma montanha no sopé da qual existiam meia dúzia de aldeias em que a miséria humana não seria exactamente extrema mas que não andaria assim tão longe. Tipo, os aldeões comiam os restos que a Santa Igreja mandava pelo precipício abaixo. Um dia, o que foi pelo precipício abaixo foi um dos frades, e o Frade Superior (é muito mais fixe Madre Superiora) pediu a Guilherme que descobrisse como diabo (no verdadeiro sentido da palavra) ele lá foi parar. Guilherme adorou o desafio e, acompanhado de Adso, desatou a abrir os armários de todos os monges da Abadia. Inevitavelmente, teria que sair um de lá de dentro. Berengário, bué de paneleiro, que tinha pelo menos o hábito de parecer bué de paneleiro e de se comportar paneleirimamente o que quer dizer que não seria por causa do pecado da falsidade que iria para o inferno. Iria, provavelmente, por causa do pecado da sodomia, mas isso se calhar nem pecado é, já. Nos armários dos outros monges só havia esqueletos, pelo que podemos considerar não haver pecados carnais envolvidos, dado que os esqueletos não costumam ter lá muita. Carne. Bem, mas do outros pecados não havia falta. Cobiça, ganância, avareza, pá… parecia o seven. Inevitavelmente, com tantos pecados, a justiça divina havia de se abater sobre aquele pessoal e vai daí, passaram a morrer, numa espécie de padrão apocalíptico que seguia a ordem das trombetas. Um afogado na banheira, outro virado ao contrário no meio de uma bacia de sangue de porco, outro com um castiçal encastrado nos cornos e todos com a língua preta, mesmo Berengário, que à priori a poderia ter branca. No meio disto tudo, e enquanto a inquisição não chegava, Adso comeu uma pobre que andava a ser comida pelo mestre despenseiro em troca de comida (triste, mais um pecado) e Guilherme descobriu que havia uma biblioteca secreta dentro da biblioteca normal, cheia de livros raros e proibidos pelo Índex. Como se perdeu lá dentro, não pode evitar que a inquisição entretanto chegasse e queimasse dois ou três por terem sido considerados bodes, não em termos de representação satânica, mas sim em termos de expiadores doa assassínios ocorridos. Já não me lembro bem, mas terá sido daí que saltaram umas fagulhas que incendiaram a biblioteca toda, qual Alexandria parte dois. E, sem biblioteca, Guilherme foi-se embora triste. E quem matou a malta? Pá, foi um livro de Aristóteles chamado comédia (fui verificar, nunca existiu), que Jorge, o bibliotecário cego de Babel (isto é uma piada minha, só para mim, para já) envenenou e que a malta, ao desfolhar lambendo o dedo, ia ingerindo o dito. O veneno. Vai daí, alucinava e cada um deles morria da maneira mais original de que se conseguia lembrar. E, pior do que isso, ficava com a língua preta, mesmo Berengário que … enfim, já falamos disto… O livro acaba, ou devia acabar (já o li para aí há vinte anos) com Guilherme e Adsoa caminharem monte a num fade-out Oliveiriano, discutindo a vacuidade do género humano . Vamos considerar que foi assim que acabou.

9.9.10

25 - the stupidest angel


Christopher Moore.
Raziel, o anjo menos inteligente do paraíso, volta à terra encarregue de realizar um milagre de Natal a uma criança. A criança é Josh (Raziel ? Josh ? Isto lembra-me algo), e ia a caminho de casa preocupado com o que lhe iria acontecer por ser tão tarde e ele ter ficado a tarde toda a jogar playstation com o amigo judeu e, consequentemente, ir chegar a casa tão tarde. Não bastava já essa preocupação, eis que no meio de um pinhal, ele vê a cabeça do Pai Natal a ser cortada por uma pá que estava na mão de Lena, ex-mulher do Pai Natal em causa, que mais não era que o empreiteiro bué de mau da cidade, convenientemente vestido e que se reparava para a matar (a Lena) porela estar a roubar os seus pinheiros. Josh fica aterrorizado e pensa que isto é um castigo divino por estar a ir tarde para casa e aqui começa a confusão teológica. Josh acha que Deus está a castigá-lo por estar a chegar tarde a casa e, por isso, faz com que o Pai Natal seja morto só para ele não ter presentes. Quando Raziel chega à sua beira e se apresenta como um anjo e lhe pergunta qual o desejo que quer ver ser satisfeito, Josh não hesita e pede-lhe para ressuscitar o Pai Natal que tinha acabado de ser assassinado. Raziel torce o nariz, pois não lhe agrada muito ressuscitar um símbolo pagão que rouba todos os loiros do Natal ao Menino Jesus. E ele, Raziel, era loiro, mais um motivo para ficar chateado e mais ainda para esta associação tão estúpida que acabei de fazer e que nem todos entenderão. Vai daí, e também por ser algo preguiçoso, não se deu ao trabalho de localizar o sítio onde o Pai Natal estava enterrado, por isso limitou-se a fazer uma ressurreição a uma escala maior, lançando o, chamemos-lhe assim, feitiço, ao longo de uma área bastante considerável que, azar e falta de observação, apanhava o cemitério da cidade…Vai daí, ressuscitou não só o Pai Natal falso mas também um monte de outros mortos que, em diferentes estados de decomposição, se levantaram a gritar que queriam comer os cérebros dos vivos e, a seguir, ir ao Ikea. A sério. Não estava cheio de sono quando li isto, não é um delírio meu. Os zombies queriam mesmo ir ao Ikea. Vai daí, dirigiram-se à capela onde estava a decorrer a festa de Natal da cidade. Dentro da capela estava Lena, ainda algo em choque por ter morto o Pai Natal, perdão, o ex-marido e Tuck, um piloto de helicóptero cujo trabalho era descobrir plantações de marijuana a partir do ar e que, porque a queria seduzir, muito amavelmente ajudou Lena a enterrar o ex-marido e a livrar-se de todas as provas. Isto logo a seguir a tê-la apanhado em flagrante pós-assassínio. Tuck, além deste pragmatismo despreocupado tinha ainda como característica ter como animal de estimação e melhor amigo Roberto, um morcego gigante que usava óculos Ray Ban de aviador e falava com sotaque espanhol. Vá… Filipino. A profissão de Tuck interferia com a de Theo que era o único polícia da cidade. Isto deixa de parecer contraditório quando nos apercebemos que Theo tem um campo de marijuana, daqueles que podem ser detectados se algum helicóptero lhes passar por cima. A razão de Theo ter um campo de marijuana é para ter dinheiro para comprar a prenda de Natal para a mulher. A prenda é uma daquelas espadas japonesas tipo Kill Bill, com o aço dobrado e martelado 500 vezes. A mulher é Molly, antiga actriz de cinema que protagonizou uma série de filmes da Kendra, uma espécie de Xena, a princesa Guerreira. A Molly é muito fixe.. Como vive nos limites da paranóia / esquizofrenia (confundo sempre estes dois) tem que andar sempre medicada. Mas como precisava de dinheiro para comprar a prenda para o marido, deixou de tomar a medicação. A prenda era um cachimbo de água esquisitíssimo, em cristal, para ele dar as suas passas feliz. O marido é Theo, o polícia. Já falamos dele há bocadinho. E quando Molly deixa de tomar a medicação, começa a sobrepor os mundos, o de Kendra, onde há mutantes, piratas assassinos e afins, e a realidade, passando esta a ser, digamos assim, algo irreal. Além disso, passa também a ouvir vozes. Mas como é uma mulher inteligente, ouve apenas uma voz, a que chama, o Narrador, e com quem passa a discutir todas as suas decisões quotidianas. Último pormenor relativamente aos efeitos que a não medicação causa em Molly. Esquece-se de se vestir…
Então os zombies, dizia eu, resolveram atacar a igreja. A luta não teve muito que se lhe diga. Depois de um cerco não muito prolongado, Molly despachou os zombies todos com a sua espada nova. Todos não. Theo tomou para si o privilégio de rematar o Pai Natal, levando Raziel ao desespero por pensar que tinha que fazer tudo outra vez. Não tinha. Enfim… Não é grande história, mas os personagens são todos muito fixes. Se não chega os que já descrevi, temos ainda o puto judaico amigo de Josh, com a sua apologia da Hannukah, temos Gabe, o biólogo que, desiludido por ter sido deixado pela mulher, passa a andar com eléctrodos nos testículos que lhe dão electrochoques nos momentos de excitação sexual, tentando com esta prática obter uma reacção anti-sexual pavloviana, temos Skinner, o cão de Gabe, cuja única preocupação é que a vida do seu dono, a quem chama Food Guy, corra bem para que os seus hábitos alimentares não sejam interrompidos e que fica mesmo muito triste quando lhe chamam cãozinho mau, temos Mavis a dona do café da zona, tarada sexual com dificuldades em consumar a sua tara (não temos nós todos ?) que meteu drogas no bolo de frutas do Natal, a ver se animava um bocadinho aquilo, temos Ben, o corredor dos 100 metros com musculatura e forma física perfeita e testículos minúsculos, provocados por uma vida de esteróides, que transformou a corrida da sua vida na corrida da sua morte…. Enfim. Não sendo nenhuma obra prima, é sem dúvida uma boa prima do mestre de obras.