28.4.13

40 - prodigal son












Dean Koontz
Não restam muitas dúvidas que a agenda cultural de quase todo o mundo ocidental é regido por Hollywood. E se acrescentarmos um B, podemos contabilizar mais uns 1500 milhões de pessoas. Ou seja, o interesse das pessoas sobre qualquer tema é potenciado quando Hollywood faz um filme sobre esse tema, desencadeando depois desse interesse um fenómeno cultural que seria para mim interessante se não tivesse como principal origem a intenção de os estúdios fazerem dinheiro em merchandising. Não me chateia nada que as massas passem a usar t-shirts do Batman, mas confesso que me chateio um bocadinho quando as massas comecem a usar t-shirts do Batman. É uma daquelas contradições internas que não consigo resolver. Sei que as pessoas têm de respirar, mas chateia-me que respirem o meu ar e  perto de mim. Enfim, isto tudo para dizer que existe um personagem da literature que só mereceu aí uns 10 minutos de atenção dos estúdios e que por essa razão ainda se encontra em terreno relativamente pouco explorado, permitindo assim que se inventem coisas interessantes sobre si. Esta conversa sobre os estúdios não é totalmente gratuita, da minha parte. É que, ao querer conhecer um bocadinho melhor o autor, li o prefácio do livro (coisa que não costume fazer) e descobri que este livro tinha sido contratado por um estúdio para fazer uma série mas que o autor se desentendeu com eles e resolveu fazer o livro com a sua própria lógica. Passemos assim a ver se a lógica artística tem mais valor acrescentado do que a comercial. Uma pergunta assim tão complexa deveria ser difícil de responder. Mas é fácil. A resposta é: tem. Ora vejamos:
 Frankenstein (que foi interpretado por Robert de Niro naquela que foi a sua pior interpretação das muitas e todas más que fez) torna-se assim num manancial de idéias para quem as quiser explorar, até porque a maioria das pessoas ainda pensa que o Frankenstein é um monstro verde com parafusos a sairem pelas temporas, tipo uma espécie de cornos versão tecno-industrial. Não é. Frankenstein não era um monstro verde com parafusos nos cornos mas sim um cientista louco que construiu um ser com componentes retirados de ladrões e assassinos mortos, sendo que nem sempre respeitava as questõees de simetria estética, ou pelo menos não as respeitava escrupulosamente. Tipo, dava-se ao cuidado de pôr braços nos locais dos braços, mas não se preocupava muito em que os braços pertencessem ao mesmo cadaver. Tipo podia ser orangotango do lado direito e galinha do lado esquerdo... A escritora que criou Frankenstein chama-se Mary e o nome que ela escolheu para o Frankenstein foi Victor. Logo por aí se via que estava a começar mal. No livro original, lembro-me de poucas coisas, mas arrisco a dizer que me lembro das mais importantes. Se estivessemos a escrever um resumo, eu diria que Victor Frankenstein criou um ser que pretendia que fosse humano e ligou a ele o pára-raios do castelo, de maneira que mais tarde ou mais cedo um relâmpago acabou por lhe acertar e por o trazer à vida. Depois, terei adormecido, confesso, e só me lembro dde a criatura (o FrankenSon) fugir do pai (Victor) saltando de pedra em pedra no meio de um pântano tipo, pantanoso…
E é a partir daqui que este livro arranca. Victor, mercê do seu talento inquestionável enquanto cientista torna-se tipo o maior especialista no planeta em engenharia genetica e torna-se também praticamente imortal e podre de rico. E, durante 200 anos, continuous as suas pesquisas pelo que hoje, no presente, criou uma nova raça de homens e mulheres cujo principal objectivo é obedecer-lhe e com os quais pretende dominar o mundo, ou seja, substituir a Raça Velha pela Nova Raça. Obviamente que esta substituição não será completa, uma vez que lhe falta tempo para criar 7500 milhões de pessoas novas, mas também que interesse é que isso teria se é sabido que todo o planeta é controlado por umas 1000 pessoas ? Assim sabendo, Victor infiltra os seus filhos nas posições chave para que, quando chegar a hora, eles possam iniciar a revolta e tomar o controle. Tipo, números à parte, a traição dos clones contra os cavaleiros Jedi. Os filhos de Victor são diferentes, tanto fisica como psicologicamente. São superiores fisicamente porque são mais rápidos, mais fortes, mais bonitos, etc. Tem dois corações e diversos outros melhoramentos físicos, mas estão muito condicionados psicologicamente, porque estão impedidos de processar os seus sentimentos de forma que contrarie o pai, ou seja, sentem bastante (até porque têm dois corações) mas não podem canalizar todo esse sentimento de forma natural. O que, está bom de ver, lhes cria loops internos de dificil resolução, tipo o HAL no 2001 e, em ultimo caso, os leva à mais profunda paranoia, tipo o Padre que não consegue lidar com a presença simultânea de Deus e do Pai (Pai Victor e não Deus Pai), ou tipo Erika, mulher de Victor, que não consegue articular a beleza que encontra na arte com as coisas que Victor lhe faz e obriga a fazer (na cama, entre outros sítios) ou ainda o polícia que acha que os membros da Raça Velha devem ter uma qualquer glândula que segrega a felicidade e começa a dissecar pessoas para encontrar a dita glândula…
Obviamente que não foi apenas Victor que sobreviveu estes 200 anos. A sua criação também. Chama-se Deucalião e, cumprindo o cliché, tornou-se monge budista num mosteiro no Butão depois de ,previsivelmente, ter feito muita asneirinha… Deucalião tem aí uns dois metros e meio e metade da cara toda tatuada, para tapar as cicatrizes que Victor lhe fez quando ele fugiu. Também previsivelmente, começa a sua carreira num daqueles Freak Shows ou Feiras Populares tipo Carnivale, ou a do Big Fish em que, passo a citar-me do texto anterior, “…em que havia mulheres com barba, anões pintados e gigantes desengonçados, halterofilistas carecas de bigode retorcido para cima e vestidos com peles de leopardo que lhes deixava invariavelmente um ombro à mostra, adivinhadoras do futuro cegas, bonecos que deitavam pela boca bilhetinhos com o que te ia acontecer no futuro e onde havia sempre, mas mesmo sempre ao fundo uma roda gigante com ar de que se ia desfazer a qualquer momento mas que nunca se desfazia. Era a altura em que toda a gente parecia uma fotografia da Diane Arbus”. Mas não era bem por aí que eu queria ir. Desviei-me porque ando cada vez mais atraído por esse universo, mas ainda não chegou a altura de escrever sobre ele. Do que se passou entre a feira Popular e omosteiro Tibetano, não sabemos, mas eis que Deucalião é avisado por um amigo que Victor está vivo e de boa saúde em Nova Orleães, por isso corre para lá onde se instala num cinema praticamente abandonado na companhia de um outro refugiado de um freak show qualquer. A partir daqui o livro torna-se num policial banal, em que a única coisa digna de registo é que o assassino em série da praxe, desta vez, tinha começado a carreira a matar pessoas feias, mas como eram muitas, desistiu e passou a matar pessoas bonitas, para lhes retirar as partes mais bonitas e com elas fazer o ser perfeito. Isto lembra-me alguma coisa. Alguéem que, com várias partes quer fazer um ser perfeito ? Como é que se chamava esse livro ? Frankenstein…

8.3.13

39 - the cabinet of curiosities












Douglas Preston e Lincoln Child
Houve uma altura, talvez no fim do século dezanove ou no princípio do século vinte, em que os museus não tinham ainda atingido a plenitude do seu desenvolvimento, e que o conhecimento estava distribuído bastante democraticamente por muitas pessoas diferentes. Era a altura retratada no Carnivale e no Big Fish, em que havia mulheres com barba, anões pintados e gigantes desengonçados, halterofilistas carecas de bigode retorcido para cima e vestidos com peles de leopardo que lhes deixava invariavelmente um ombro à mostra, adivinhadoras do futuro cegas, bonecos que deitavam pela boca bilhetinhos com o que te ia acontecer no futuro e onde havia sempre, mas mesmo sempre ao fundo uma roda gigante com ar de que se ia desfazer a qualquer momento mas que nunca se desfazia. Era a altura em que toda a gente parecia uma fotografia da Diane Arbus, mas não era bem por aí que eu queria ir. Desviei-me porque ando cada vez mais atraído por esse universo, mas ainda não chegou a altura de escrever sobre ele. Mas mais ou menos nessa altura, dizia eu, os museus eram ainda pouco pujantes e os depositários do conhecimento não teórico eram os chamados Gabinetes de Curiosidades, que eram mini feiras populares, pertencentes geralmente a exploradores ou a cientistas, e que continham tudo e mais alguma coisa relacionada com a história natural. Tinha várias vantagens sobre os museus da actualidade, uma vez que havia vários gabinetes, sendo que cada um lutava por ser o mais original, ganhado com isso o público. Tinham também uma criatividade sem limites e um conceito de honestidade  algo relativo, o que permitia ao comum mortal ver coisas que hoje em dia são impossíveis, tais como ver o Bigfoot, o Missing Link, o Iéti, o monstro da lagoa negra, o homemssauro (cruzamento óbvio mas não necessariamente gay entre um homem e um dinossauro), várias sereias, dezenas de tigres dentro de sabre, pássaros dódós, vários parentes da Nessie, enfim, quase tudo o que toda a gente queria ver. Só faltavam os extraterrestres, mas ainda não tinham sido inventados pelo Steven Spielberg. Mas então em que é que estes gabinetes eram importantes para o livro ? Calma... Começando a falar do livro, temos então que um promotor imobiliário que quer fazer um arranha céus em Nova Iorque, desenterra um compartimento com vinte e seis cadáveres todos sentados com as costas apoiadas na parede, mãos atadas atrás das costas e umas cicatrizes junto do fundo destas... Mortos, obviamente. Rapidamente se chega à conclusão que o serviço foi da responsabilidade do primeiro assassino em série americano, e a partir daí, e sabendo nós como os americanos são loucos por serial killers, já não houve mais sossego para ninguém. Os personagens são Nora Kelly, velha conhecida minha da cidade sagrada, em que perseguia uma teoria maluca de ligaçoes entre os anasazi (índios) e os astecas, um jornalista chamado Smithback, cujo principal atributo é ter uma cowlick ( língua de vaca) no cabelo, um polícia irlandês algures no limbo entre a honestidade e a corrupção e um agente do FBI que confesso que me conseguiu surpreender... Lá chegaremos... Então depois de descobrirem os 26 cadáveres, descobrem que um deles era de um rapariga que escreveu um bilhete com o seu próprio sangue e o escondeu no forro do seu vestido muito pobre mas que tinha sido feito por ela a imitar o que já na altura se usava. E o que ela escreveu no bilhete foi o seu nome a sua morada para que a sua morte não fosse a continuação da sua vida, anónima e desprovida de importância. Não foi porque foi por se ter comovido com ela que Aloysius Pendergast se resolveu a investigar o assassínio. Entretanto, alguém começa a matar pessoas em Nova Iorque fazendo a mesma coisa que tinha sido feita aos 26 e que, para simplificar, podemos apenas dizer que lhes abriram as costas e lhes retiraram a "cauda equina"' . Abro aqui uma pequena janela interlúdico-técnica, apenas para dizer que a cauda equina é um nervo que, suficientemente ralado, pode ser bebido, com efeitos surpreendentes na saúde, pincipalmente no que diz respeito à longevidade. Lá chegaremos. Não vamos por o cavalo à frente dos bois, que para isso já chegam os talhos dasbgrandes superfícies. Rapidamente se cria uma dinâmica de investigação conjunta entre Nora, o polícia irlandês, o jornalista e Pendergast, sendo que este é o único personagem que dá alguma mais valia à história. É aquilo que eu gosto de chamar acrescentador de interesse, mas que para o comum mortal é apenas o burro que puxa a carroça. Mas falemos então mais um bocadinho de Pendergast. Não se percebe se é novo se é velho, se é alto se é baixo, se é gordo se é magro. Sabe-se apenas que tem o cabelo tão loiro que parece branco e os olhos tão azuis claros que também parecem brancos. Tem um Rolls Rouce antigo, onde é conduzido por um motorista misterioso chamado Proctor e vive no Dakota, que eu poderia dizer mentindo que é aquele edifício super carismático de que me lembro perfeitamente e que visitei demoradamente quando estive em Nova Iorque. Não me lembro, não vi e não visitei, mas valha-nos a Wikipédia como supressor instantâneo de omissões culturais significativas, parece que é o edifício onde morava e à porta do qual mataram o John Lennon. Pendergast, mestre do aforismo, do understatememt e, qualidade que eu tanto aprecio e que tanto não tenho) do dizer muitp com pouco, é o último descendente de uma família muito rica e muito antiga e de antigos mágicos. Tem um pormenor muito fixe que é uma necrópole privada na cave do palacete de família, onde são enterrados os Pendergasts todos, morram onde morrerem. Começa-se a perceber que o personagem tem mais piada que a história, o que me levou a pensar que se calhar faria sentido haver mais livros com ele. E há, porque os escritores americanos não andam a dormir, principalmente se são dois... Voltando à história, os nossos investigadores rapidamente percebem qual o móbil das mortes do século anterior e qual o motivo de as mortes do presente se terem dado da mesma maneira, relembrando, com remoção da cauda. É que o assassino era o mesmo, sendo que conseguiu prolongar a vida e viver duzentos anos graças aos sumos das caudas equinas. De surpresa em surpresa, com algum sono pelo meio, confesso, lá se vai descobrindo que o assassino imortal afinal também é um Pendergast, tipo tetravô do nosso. E quando Pendergast lhe invadiu o covil, descobre com alguma surpresa que o tetravô imortal está morto há mais de seis meses. Morto e embalsamado. Vai daí, afinal o assassino era outro. Ou melhor. O tetravô de Pendergast matou de facto os 26, para lhes tirar as caudas equinas e fazer com elas uma poção da imortalidade. A partir do momento em que começaram a haver no mercado químicos que permitiram substituir com sucesso as caudas equinas, o tetravô deixou de matar, porque no fundo ele não era intrinsecamente mau. Até que um dia, alguém descobriu o segredo e  torturou o tetravô para lhe sacar a fórmula mas o velhinho, que era super torcido, preferiu morrer. Vai daí o assassino moderno teve que fazer a poção da forma tradicional, e toca a remover mais caudas. Simplificando, o assassino era o promotor imobiliário, que afinal tinha feito o prédio ali de propósito porque sabia que era ali que tinha sido o laboratório antigo. Resta saber porque é que tudo isto aconteceu. Porque o tetaravô Pendergast tinha escolhido como missão destruir a Humanidade, tendo para isso inventando uns venenos lixados. No entanto, lá para meados dos anos 40, quando foram detonadas as primeiras bombas nucleares, deixou de se preocupar porque sabia que seria apenas uma questão de tempo até que a humanidade se auto-destruísse, auto-explodindo-se. Vai daí reformou-se. Lá como cá, a reforma deixou de ser um fenómenos consensual e previsível...

9.2.13

38 - o clube de Dante












Mathew Pearl
Os princípios eram bons. Quatro poetas famosos americanos do pós-guerra civil resolvem traduzir a divina comédia, num ambiente puramente harvardiano. Convencido e arrogante como sou, imaginei logo que os quatro poetas famosos eram aqueles que eu conheço e admiro e que seriam a escolha lógica de qualquer escritor com bom senso. E que são, obviamente, Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft, Mark Twain e  Henry David Thoreau. Ah, esses não são poetas, são apenas escritores, dirão os puristas mas eu, para além de querer que os puristas se lixem, acho que qualquer bom escritor é um bom poeta, sendo que o inverso não é obrigatoriamente verdade. Claramente que o autor do livro era um purista, pois os quatro poetas americanos famosos que ele escolheu foram Henry Wadsworth Longfellow, Oliver Wendell Holmes,  James Russell Lowell e George Washington Greene. Destes todos, apenas conhecia vagamente um, não o George Washington, como toda a gente que nunca lerá este texto poderia estar a pensar, mas sim o Longfellow, conhecido mesmo entre as pessoas menos cultas como eu pelo seu famosíssimo bigode de morsa. Voltando ao livro, os poetas (des)conhecidos reuniam-se todas as quartas feiras para traduzir um canto da Divina Comédia, naquilo a que chamam o Clube Dante. Não resisto a mais um pequeno aparte. Os cultos falam sempre na Divina Comédia, insinuando assim que leram os três livros, mas na verdade, acabam sempre por só falar no Inferno, que foi o que qualquer comum mortal como eu leu e nada percebeu. Faz lembrar aquela anedota em que alguém dizia acerca da Barbie que " she is dating  Kenny but actually, she's fucking Action Man". Bem, de repente começam a acontecer crimes em Boston iguais aos suplícios que Dante descrevia no Inferno, com a particular coincidência de acontecerem precisamente a seguir à reunião do clube. Ou seja, eles traduziam o castigo dos tíbios e alguém matava um tíbio da maneira que eles traduziam. Confesso que foi um exemplo algo infeliz, porque não fazia a mínima ideia do que era um tíbio e pelos vistos trata-se de uma pessoa que, podendo e devendo decidir, podendo e devendo agir, assim não o faz. Bolas, e eu que tenho um desses sempre à minha volta, a zumbir. E, digo eu, se isso é razão para ir para o Inferno e ainda por cima ser intensamente torturado então estávamos lixados. Íamos todos para lá. Pois é. Tinha tudo, o nosso escritor,  para fazer um grande livro, que foi precisamente aquilo que não fez. Os poetas, que deviam ter o dom da palavra, tem diálogos muito pobres, quer entre si quer com o mundo. Passam a vida a chamar meu querido uns aos outros, o que não sendo directamente creditado na coluna da homossexualidade, me irrita porque é demasiado queque e eu detesto. O autor perde-se bastante nos pormenores da vida de Dante, mas numa perspectiva muito académica e algo mesquinha, com que ele depois faz o paralelo como mesmo ambiente académico e mesquinho da universidade. Depois existe o personagem do primeiro polícia negro de Boston, que também não diz duas palavras seguidas de jeito. Será que é de propósito? A ser, seria um golpe muito baixo. A única coisa fixe é a descrição da vida do assassino ao longo da guerra civil, que mostra como a sua humanidade se transformou em desumanidade e que, pelo menos a mim, me mostrou aspectos da guerra civil americana nos quais eu nunca tinha pensado. Aqui sim, conseguimos ter acesso ao interior de um dos personagens e quando damos por estamos a compreendê-lo perfeitamente e tudo o que ele diz nos parece fazer todo o sentido, e começamos a compreender o que ele fez. E, de repente, assustá-mo-nos, porque nós somos bons, e os bons não se identificam com os maus. Respiramos fundo e aliviamos a nossa consciência constatando que se trata apenas de um livro, e nem sequer é muito bom. Embora nos fique qualquer coisa a remoer o subconsciente e a dizer que se calhar não somos tão bons quanto isso. Nem nós nem o livro. Enfim,  muito esforço meu (para me manter acordado a ler), um bom esforço do escritor (que claramente se aplicou e teve o mais difícil, que é uma grande ideia) mas um não muito bom livro. Nem pouco bom. Nem nada bom. Como diria o Shakespeare, mucha do about nothing. Como diria o João da Ega, uma seca.

8.2.13

37 - feed












Mira Grant
Feed, segundo a wikipédia, é "...é um formato de dados usado em formas de comunicação com conteúdo atualizado frequentemente, como sites de notícias ou blogs. " Segundo os inglese, trata-se do verbo que traduz o acto de alimentar. Neste livro, que usa essa palavra como título, é um trocadilho feliz.
Um vírus infectou a humanidade, um vírus que entrou em toda a gente  mas que fica latente até ser activado por um fluido vindo de um zombie. Todos os mamíferos da terra contraíram o vírus. Nenhum réptil. Nenhum insecto. Nenhum molusco. Mas apenas os mamíferos com mais de 20 kg reanimam em zombies, se infectados. Aqui surgem algumas ideias interessantes. Cavalos zombies. Girafas zombies. Elefantes zombies. Baleias zombies. Tudo o que é engraçado  se torna potencialmente zombie. As pessoas deixam de comer carne, por receio de ingerirem ainda mais vírus e, dessa maneira, aumentarem as suas probabilidades de infecção. Consequentemente, e logicamente, a disposição das massas desce abruptamente. O peixe e os vegetais não puxam carroça, e os cavalos zombies também não. Isto são eufemismos para dizer que, de facto, a vida piorou. Depois de se ser infectado, podem acontecer duas coisas. Ou se é morto imediatamente depois da infecção, pelos zombies e depois reanima-se, ou a transformação dá-se tipo online Algumas cidades foram completamente perdidas para os zombies, uma vez que os governos decidiram deixar de mandar para lá tropas. Porque os zombies, ou as comiam, que ainda seria o mal menor porque oa manteria ocupados, ou as infectavam, criando assim zombies especialmente treinados na arte de lutar. Poder-se-ia argumentar que não há grandes diferenças entre soldados e zombies, mas eu não concordo, porque nunca nenhum soldado me tentou comer. Atribuo isso à minha fraca capacidade de impressionar favoravelmente a comunidade homossexual. Eles gostam de homens a sério... O vírus foi causado pelo lançamento na atmosfera da cura para a constipação, que se misturou com o vírus da cura para o cancro, com o qual parte da população tinha sido inoculado. A história mais detalhada gira à volta de  Georgia, Shawn e Buffy (sim, que retirou o nome da loira caçadora de vampiros), que  são bloggers e que são destacados para cobrir a campanha presidencial americana, tipo west wing em que os eleitores são os que não são ainda zombies. Poder-se-ia argumentar que não há grandes diferenças entre os eleitores e os zombies, mas eu não concordo, porque nunca nenhum eleitor me tentou ... adiante. Os blogs passaram a ser considerados imprensa séria a partir do momento em que a imprensa séria deixou de o ser. Aquando do levantamento, palavra usada para descrever o inicio da infecção, a imprensa séria mentiu, a mando dos políticos, enganando a população no sentido de as fazer crer que os zombies não existiam de facto. E as pessoas foram mortas e infectadas aos magotes porque não tomaram as devidas precauções. Foi nos blogues que a verdade foi contada. Não só a verdade, como todas as técnicas de sobrevivência e de combate aos zombies.  Tipo Max Brooks, no seu manual de sobrevivência. O que me faz lembrar que ainda não percebi se o Worl War Z, cujas filmagens eu vi quando estive em Glasgow, já estreou ou não. Tivesse eu gasto mais 120 euros e posto 3G no meu ipad, e poderia verificar isso agora, mesmo fechado neste comboio a caminho de casa e vindo de Lisboa. Voltando ao livro, foi curiosamente devido aos muitos filmes que George Romero fez de zombies, que se conseguiu mobilizar uma resistência mais ou menos efectiva, uma vez que este tinha previsto nos seus filmes como é que os zombies se iriam comportar. George Romero passou assim a ser um herói da humanidade. Em termos de historia do livro, temos que os dois irmãos bloggers são seleccionados para cobrir a campanha de um senador a presidência dos estados unidos. Esse senador tem uma ideia bastante interessante  que devia ter sido melhor desenvolvida e  explorada no livro, e que era conseguir uma sociedade em que zombies e humanos conseguissem coabitar. Obviamente que teriam que ser os humanos a dirigi-la, mas numa perspectiva de integração dos zombies, e não apenas de passar a vida a fugir deles. Ou seja, partir para a ofensiva, controlar os zombies, pô-los a trabalhar. Assim de repente, pode parecer escravatura, e neste caso, como quase sempre, o que parece é, ou mais concretamente, seria. Mas os zombies não tem consciência  logo para eles seria exactamente a mesma coisa estarem ali a arrastar-se de braços esticados ou, sei lá, partir pedra. Um exercício interessante seria pensar se o espírito humano iria conseguir escravizar uma raça inferior ou se, mesmo considerando que o único objectivo dessa raça é comer-nos vivos, ainda assim os ideais de democracia e de moralidade se manteriam. Porque nós, humanos, somos capazes dos dois extremos: proteger, em nome de fazer o que consideramos correcto, aqueles que não merecem a nossa protecção para, logo a seguir, lixarmos completamente o nosso semelhante, explorando-o sem contemplações, aliviando a nossa consciência com o facto de existir um papel qualquer que isso legitima. Portanto, digo eu e não o livro, que o problema era apenas fazer com que os zombies assinassem um qualquer contrato de trabalho. O que, convenhamos, não seria muito fácil, com aquelas mãos todas encarquilhadas.
A ideia de usar impressões digitais também não resultaria uma vez que os zombies, quando privados do seu vício principal de trincar carne humana, tem tendência a roer as unhas. Possuidores de um sistema nervoso central completamente lixado, o resultado desse vício é, obviamente, a decapitação digital. Podia ser com uma assinatura de adn, tipo saliva, mas assim infectavam toda a gente. Também não dava... A partir daqui pouco mais há a dizer acerca do livro, que em vez de seguir as ideias originais que aponta (imagino as delícias que se poderia fazer com a ideia das girafas zombies, espécime do qual conheço um exemplar ocasional) , se perde com uma trama que deambula entre a politica fraquinha e a acção um bocadinho inconsequente. Acabamos por não perceber qual era o objectivo do mau da fita, um senador qualquer e apenas tornamos a sentir um bocadinho de emoção com as mortes de Buffy e de Georgia, sendo que apenas Shawn escapou. O melhor são mesmos os extractos dos blogs de Georgia e Shawn, que aparecem a encabeçar alguns dos capítulos. E que tem uns nomes muito fixes. O de Georgia chama-se "As imagens podem ferir a tua sensibilidade" e o de Shawn chama-se "viva o Rei".  Tivesse eu um blog e gostaria de ter tido imaginação para ter escolhido um nome assim.

19.10.12

36 - daytripper











Gabriel Bá e Fábio Moon.
Era o dia dos seus anos, e tudo o que Brás queria era a vida que não conseguia ter. Se, por um lado, era de facto um jornalista, por outro lado trabalhava na secção dos obituários. Sempre quisera escrever sobre a vida, mas apenas escrevia sobre a morte. Brás era como todos nós, mas um bocadinho mais a frente no sentido em que estava efectivamente a escrever um livro, e não se limitava apenas a sonhar escreve-lo. Livro esse, que no entanto, não parecia satisfazê-lo tanto como a ideia de escrever um livro me satisfaz em mim. E a velha história da potência e do acto, sendo que todos somos potentes em potência e nem todos, de nós, é efectivamente potente no acto. Dos obituários que Brás tinha para escrever nesse dia, destacava-se o de um pintor que tinha morrido com quase noventa anos e que se tinha apaixonado por 184 mulheres, tendo pintado de cada uma delas um retrato lindíssimo. Nunca se tendo casado, tinha ainda assim perfilhado 7 filhos, dos quais tinham resultado não sei quantos netos. O único problema que esse pintor tinha, digo eu, era dar sempre o mesmo nome aos 184 quadros das mulheres que amou. Alguém mais retorcido poderia pensar que amou apenas uma, a do nome, e que se calhar as outras eram apenas uma tentativa para tapar o buraco, não apenas literalmente. Brás não conseguia deixar de avaliar a sua própria vida sempre que tinha que escrever um obituário. Achava-se um escritor diminuído, ate porque grande parte do seu trabalho não via a luz do dia, uma vez que nem sempre as pessoas morriam, embora ele tivesse que ir adiantando os obituários sempre que alguém famoso adoecia, para que o morto não o apanhasse depois de surpresa. Nesse dia, Brás estava especialmente deprimido. O pai, escritor famoso, ia ser homenageado nessa noite no Teatro Municipal. E tudo girava, nesse dia, a volta disso. A mãe que lhe ligou para lhe lembrar o evento, a namorada, Ana, que lhe ligou de propósito a dizer que não ia estar presente e mesmo o melhor amigo, Jorge, que insistia na sua ida porque não queria ser o único negro na festa. Ao que Brás respondeu que essa era uma não questão, uma vez que ele, Brás era branco, e não negro e que, para além disso, o ministro da cultura também era negro. E vai, perguntou Jorge desorbitando os olhos ??? Claro que não, disse Brás revirando os olhos. Toda a gente pensava no evento e Brás não conseguia evitar o desconforto de ver quão pouco importante e quão pouco sucesso ele tinha. Pediu um maço de cigarros no balcão do bar onde tinha entretanto entrado, já de smoking, a porta do teatro. Só os cigarros, perguntou Genarinho, o barman que ele ainda não conhecia e cujo pai, Genaro, tinha fundado o estabelecimento. E uma cerveja, respondeu Brás, filosofando que este fenómeno antropofágico pai filho ao menos não era de exclusividade sua. Igualmente irónico foi aquilo que se passou a seguir. Como estávamos no Brasil, entrou um capitão da areia qualquer, assaltou o bar e matou-os aos dois. Se não tivesse morrido, Brás não poderia deixar de pensar na ironia de que, na face da morte, todos os outros problemas são profundamente relativizáveis.


Brás estava na Bahia, a fazer aquela viagem da sua vida que apenas nós, os portugueses, nunca fazemos. Aquela viagem em que se pode fazer tudo o que se queira, sem compromissos, sem responsabilidades, talvez a única altura na vida em que somos verdadeiramente livres porque ninguém nos conhece e nos não conhecemos ninguém. Aquela viagem que eu não fiz e que Brás resolveu compartilhar com Jorge, o seu melhor amigo. Na Bahia, dizia eu, onde Brás, que era branco passava a vida a ser confundido com um gringo, não tardando a ser envolvido em tirinhas do Senhor do Bonfim e em colares típicos. Jorge, algo mais escuro, passava mais por indígena e podia assim dedicar-se a tirar fotografias à vontade. A respeito de Jorge como fotógrafo, dois pormenores que dele só dizem bem: recusou-se a tirar fotos ao nascer do sol, dizendo que nenhuma foto era suficientemente grande para captar aquela beleza; e tirou uns closes a umas garrafas cheias de especiarias que me parece que teriam ficado mesmo bem, se isto fosse real. Bom nadador, Brás resolve fazer isso mesmo e nada até uns barcos que estavam ao largo da praia, provavelmente para ficar um bocadinho só, a bronzear-se e a bahificar-se. Dentro do barco estava, no entanto, uma loira de pele morena, escultural, de biquíni, que em meia dúzia de frases o desarmou completamente e o fez não descansar enquanto não saísse com ela. A loira era uma fiel devota de Iemanjá, e convidou Brás para a cerimónia que iria haver nessa mesma noite, à qual Brás foi para morrer novamente, desta vez afogado. Se não tivesse morrido, Brás não conseguiria deixar de pensar na ironia de ter encontrado a morte na viagem da sua vida.


Brás estava no seu apartamento e na varanda estava a rapariga loira que tinha conhecido na Bahia, e com a qual já vivia junto há sete anos. Ela, chorando, virou-se para ele e disse-lhe que o odiava e que nunca mais o queria ver. Embora exista sempre a tentação de achar que estas separações definitivas são mais fáceis de materializar e aceitar para se poder continuar em frente, tal não e verdade, porque nada poderá ser pior que a certeza absoluta que a pessoa de quem se gosta nunca mais vai estar connosco. Brás, se não sabia disso, passou a senti-lo na própria pele, pois não conseguia deixar de a ver e de a querer sentir em todos os aspectos da sua vida. Um aspecto particularmente doloroso foi ver as cuecas dela penduradas no estendal, a secar e a secá-lo, por dentro, completamente. Cada canto do apartamento fazia com que Brás pensasse nela e o seu maior terror era que o cheiro dela saísse de todos os objectos que a pele dela tinha tocado. Por essa razão, Brás dormia no sofá, para que os lençóis nunca deixassem de cheirar a ela, mas nada disto resultou e a humidade do clima de São Paulo levou-lhe o cheiro dela de todo o lado menos de um pequeno cobertor a que ela se agarrava e embrulhava sempre que os dois viam filmes. Profundamente deprimido, Brás lembrou-se daquele dia em que Jorge lhe tirou uma fotografia na redacção do jornal e a colocou na parede com uma legenda a dizer que Brás tinha morrido, mas que ninguém lhe tinha dito isso e, por essa razão, ele apareceu para trabalhar. E daquela frase que o pai lhe disse ao jantar, evocando o dia em que tinha conhecido a sua mãe. O pai de Brás disse à mãe que queria ser escritor, e que tinha a certeza que havia um grande romance à espera de ser escrito por ele. A mãe respondeu-lhe dizendo que esperava que houvesse um grande romance à espera de ser vivido por ele. Para onde quer que se virasse, Brás apenas via a rapariga que veio da Bahia e um dia, no supermercado, olhou para o lado e viu uma coisa diferente. Uma rapariga de cabelo preto e olhos verdes, que olhou para ele simpaticamente enquanto comia um gelado. Brás, aturdido, pagou as suas compras e caminhou ao longo da rua, sentindo que toda aquela dor começava a ceder caminho a outra coisa que ele ainda não percebia bem o que era. Voltou para trás a correr, para falar com a rapariga do gelado e foi atropelado por uma carrinha, morrendo logo ali. Se não tivesse morrido, Brás não deixaria de constatar a ironia que era a ter sido a morte que lhe impediu de superar o amor da sua vida.


Brás encontrou a felicidade. Estava a caminho do hospital com a mulher, grávida no fim do tempo, aquela mulher que tinha conhecido num supermercado a comer um gelado, com a qual tinha casado, e com a qual se preparava agora para criar um ou mais filhos. Tinha também escrito o seu primeiro livro, um romance chamado olhos de seda, que estava a ser um sucesso. No entanto, e de repente, tudo desabou uma vez mais. O pai morreu e Brás descobriu que ele sempre tivera uma família paralela, tendo tido uma filha que, assim sendo, era sua meia-irmã. Para complicar ainda mais, a sua mãe insistiu que ele fosse a casa buscar o babygrow que tinha sido a sua primeira roupa, para que fosse também a primeira roupa do seu filho. Brás foi e parou frente à secretaria do pai, onde este tinha tido o ataque cardíaco que lhe tinha causado a morte. Coerentemente, Brás sentiu uma dor no peito e sofreu também um ataque cardíaco, morrendo. Se não tivesse morrido, Brás não teria deixado de constatar a ironia que foi ele, sempre tão independente e sempre a tentar descolar-se da imagem do pai, ter não só vivido a imagem deste, como também morrido da mesma forma.

Brás voltou a infância, à quinta dos avós, onde toda a família se encontrava aos fins de semana, onde ele e a irmã brincavam com os primos a todos as brincadeiras que às crianças são permitidas. À quinta onde corriam atrás de galinholas, que são diferentes das galinhas não só no nome mas também no facto de voarem quando alguém se chega muito perto. À quinta onde a avó dava um nome a cada um dos animais, porque não fazia sentido que houvesse membros da família sem nome e onde um dia, inevitavelmente, comeram Maria do Carmo ao almoço. Á quinta onde davam baratas aos sapos, para que estes as comessem enquanto eles gritavam olé touro. À quinta onde o pai de Brás adorava ir, embora não fosse da família, porque tinha todo o tempo do mundo para escrever o seu primeiro livro, debaixo de uma árvore com as raízes retorcidas todas de fora da terra. Árvore essa onde Brás deu o seu primeiro beijo na boca, à prima, loira e bonita que dizia que quando fosse grande havia de desfilar nua no carnaval, que era a altura em que toda a família passava a semana inteira na quinta. À quinta que era tão importante para Brás que ele já não se sentia triste da semana passada na cidade, porque o fim de semana haveria de chegar e eles todos voltariam para lá. Brás deveria ter, nessa altura, aí uns dez anos e um dia, na cidade, o papagaio com que brincava ficou preso nos fios de um poste de alta tensão. Brás morreu electrocutado, e desta vez nada de irónico havia a registar, porque as crianças com dez anos não sabem o que é a ironia.

Brás chegou a redacção do jornal onde as suas funções eram escrever os óbitos de quem morria, logo a seguir publicados e os que, estando às portas da morte, a ela escapavam, e que iam para a gaveta a espera que a morte deixasse de ter dúvidas. Porque, como já dizia Rudy, a morte afasta-se com um soco, quando vier. Não resultou, e toda a gente chorou quando Rudy morreu. Nesse dia, tinha caído um avião e todos os repórteres foram a correr para o aeroporto, fazer a cobertura do acidente. Brás ficou duplamente, perturbado, porque nunca na vida tinha tantos verdadeiros óbitos para escrever e, simultaneamente, Jorge tinha desaparecido e havia grandes probabilidades de ter estado naquele avião. Naqueles dias que se seguiram ao acidente, Brás foi o repórter mais importante do jornal, pois foram as suas palavras escritas que deram sentido a vida de todos os que morreram no desastre. E que trouxeram conforto a todos os seus familiares. Satisfeito, Brás ficou ainda mais depois de Jorge ter finalmente telefonado a dizer que por milagre tinha perdido o avião que caiu e que, transtornado por esse sinal divino, não regressaria mais do Rio de Janeiro, aonde tinha ido em mais uma viagem de sentido da vida. Brás decidiu ir buscá-lo e morreu quando, na auto-estrada, dois camiões resolveram abraçar-se à frente do seu carro. Se não tivesse morrido, Brás não teria deixado de constatar a ironia de ter instruído a morte de 93 pessoas sem nunca ter escrito nada que desse sentido à sua.

Brás tinha finalmente conseguido dar voz ao escritor que tinha dentro de si. Aquele desastre de avião que o tinha feito escrever 93 obituários seguidos, todos simples e cheios de sentido, tinham efectivamente posto à prova as suas capacidades de escrita, e o reconhecimento global que teve de todas as famílias das vítimas deram-lhe finalmente coragem para começar a escrever o livro quentinha dentro de si. Esse dia, em que nasceu o escritor, coincidiu com o dia em que Jorge, o seu melhor amigo, saiu da sua vida, desaparecendo para parte incerta. Há muitas coisas na vida difíceis de compreender, e mais difíceis ainda de pôr em palavras. A amizade é, sem sombra de duvida, uma dessas coisas. Cinco anos depois, Brás recebeu um postal de Jorge, a dizer apenas que "não consigo fazê-lo sem ti". Brás viajou através de metade do país apenas para ser brutalmente assassinado por Jorge, que nestes anos todos tinha enlouquecido e que se matou logo de seguida. Se não tivesse morrido, Brás não teria deixado de constatar a ironia dentre morrido porque acreditava na amizade do seu melhor amigo.

Brás não conseguia parar de sonhar. Sonhou com o dia em que morreu no bar de Genarinho, morto por um assaltante inconsequente. Tinha 32 anos. Sonhou com o dia em que encontrou Iemanjá no barco e que morreu de seguida afogado. Tinha 21 anos. E com o dia em que morreu atropelado por uma carrinha enquanto atravessava a rua para se ir declarar a Ana, o segundo e maior amor da sua vida. Tinha 28 anos. E com o dia em que o seu pai morreu e o seu filho nasceu e em que ele, atacado cardiacamente, morreu também. Tinha 41 anos. Sonhou com o dia em que corria com o papagaio e morreu electrocutado quando este ficou preso no poste de alta tensão. Tinha 10 anos. E com o dia em que is na estrada em busca de Jorge, depois de ter escrito 93 obituários e morreu esmagado pelo abraço de dois camiões. Tinha 33 anos. E com o dia e quem Jorge, já louco, o esfaqueou até à morte, na praia com o sol a olhar e a areia a assistir. Tinha 38 anos. E sonhou com o dia que contou ao filho a história da morte. A morte faz parte da vida. A vida é como um livro e cada livro tem o seu fim. Por mais que se goste do livro, chega-se à última página e ele acaba. Nenhum livro é completo sem o seu fim e apenas quando se lá chega é que se sabe se o livro foi bom ou não. Brás  acorda dos sonhos e senta-se em frente à máquina de escrever. Tinha encontrado o fim para o seu livro. Acabou-o e morreu. Não sei quantos anos tinha. Era velho…

Brás é finalmente velho. O médico diz que tem a cabeça cheia de tumores. Que as suas dores de cabeça vão aumentar e a sua memória vai desaparecer. Brás volta para casa, onde está Ana, também ela velha. E onde o filho, Miguel, o visita  e lhe entrega uma carta do pai de Brás, seu avô. Uma carta que o pai lhe escreveu no dia em que o seu filho nasceu e o seu pai morreu. E a carta dizia…

… que o filho que estava a nascer ia ser a unia razão da sua existência…
… que Brás lhe ia entregar o corpo, a alma e o coração…
… que Brás o ia educar para que este fosse forte e, um dia, não precisasse mais dele…
… e que nesse dia, Brás deixaria o seu filho partir…
… e que essa era a grande verdade…

Que apenas podemos partir no dia em que os nossos filhos já não precisarem de nós. Ao ler a carta,   Brás percebeu que foi o que o seu pai fez e que esse dia tinha chegado para si. E partiu. Morreu. Não sei quantos anos tinha. Desta vez, de vez.

28.8.12

35 - cinderela: from fabletown with love












Toda a gente sabe que a Cinderela começou mal. Aquela história de ter sido oprimida pela madrasta e pelas irmãs era mesmo verdade. Felizmente que tudo acabou bem, uma vez que Cinderela foi resgatada a esta vida pela fada madrinha, que lhe proporcionou os meios para se tornar notada aos olhos do príncipe encantado, tendo assim encontrado o amor eterno. Bem... Isso é o que vem nos livros dos contos de fada. E toda a gente sabe que a vida não é um conto de fadas. A verdade é que nem tudo foram rosas. Nem tudo nem quase nada. Para começar, o impacto da fada madrinha na vida da Cinderela foi muito mais negativo do que toda a gente pensa. Aquela historia de só poder ter as coisas até a meia noite foi profundamente traumático para ela, pois quando finalmente se estava a começar a divertir e a cativar toda a gente a sua volta, nas festas, Cinderela tinha que desatar a fugir para não ser apanhada vestida de farrapos e cheia de ratos e abóboras a sua volta. É hoje aceite sem reservas por todas as escolas de psiquiatria e psicologia que, pior do que não ter as coisas que se deseja, e tê-las apenas mediante condições que não se controla e ter que viver com o sentimento constante de que, a qualquer momento, elas irão desaparecer e que não nos pertencem verdadeiramente. Chama-se a isto o síndroma da perda latente. E eu sei o que isto é. E não sou só eu... Para além disto, a fada madrinha foi uma péssima conselheira sentimental, ou seja, não podia ter escolhido pior marido para Cinderela. Explicando melhor: todos nos já teremos parado para pensar quão esquisita era a profusão de príncipes encantados no mundo dos contos de fadas. Caramba. Parecia que se davam pontapé numa pedra e saía debaixo dela um príncipe encantado preparadinho para dar o beijo, receber o beijo, matar o dragão po, calçar o sapato... Obviamente que o príncipe era sempre o mesmo. Sim. O príncipe que beijou a Branca de Neve, que beijou a Bela Adormecida, que matou o dragão e que esteve algum tempo transformado em sapo era sempre o mesmo. Chamava-se Encantado e era uma peça jeitosa... E que casou com elas todas, não conseguindo fazer nenhuma delas feliz. Assim sendo, e perante uma tão grande diversidade de noivas presentes, passadas e futuras, Encantado não sabia ser fiel e, no que diz respeito a Cinderela (segunda mulher, penso eu), por e simplesmente não a conseguiu fazer feliz a não ser no que ao sexo diz respeito. Mas mesmo neste aspecto, apenas nos primeiros tempos..l e alguém conhece alguma relação que se aguente duradouramente apenas com sexo ? Eu não... Recém-divorciada, Cinderela resolveu dedicar-se aos negócios abrindo, num assomo de ironia, uma sapataria. Em Fabletown, canto de nova iorque de que já falamos nestas páginas. Mas mesmo exercendo profissionalmente, mesmo indo as feiras de calçado internacional de Madrid, Roma e afins, não se sentia realizada, sendo o ponto alto da sua semana o almoço com as outras ex mulheres de Encantado, tornando-se esse almoço um momento de catarse colectiva no que diz respeito ao desopilamento do fígado. Bigby, o Lobo Mau, na altura o xerife de Fabletown, apercebeu-se não só disso mas dos inúmeros talentos ocultos que Cinderela apresentava. E contratou-a para espia de Fabletown... A lista de missões de Cinderela é enorme, podendo mesmo dizer-se que teve um papel fundamental na vitoria sobre o imperador e na reconquista das Homelands. Foi ela que, sozinha, recuperou Pinóquio das garras de Gepeto que, recordemos, era o verdadeiro cérebro por trás do imperador.  Foi a vida de agente secreta que Cinderela passou a ter que lhe permitiu ajustar contas com a sua infância e livrar-se de grande parte dos traumas que ainda tinha, bem como acertar contas com quem lhe tinha tentado arruinar a vida. A madrasta e as irmãs ? Não, claro que não. Essas eram apenas conjunturais. Encantado, o Príncipe infiel? Também não, mais que não fosse por ele se ter redimido do passado  inconsequente que teve e, antes de morrer, ter levado à letra a sua condição de herói e ter conduzido (enquanto Mayor), as Fables à vitória e à liberdade. Então com quem ajustou contas Cinderela? Com a fada madrinha, obviamente, num cenário de alguma complexidade cuja descrição não é o principal objectivo destas apressadas linhas que aqui escrevo. Abreviando, podemos dizer que a Fada Madrinha tinha plena consciência que o seu principal defeito era os seus feitiços serem de curta duração e, inteligentemente, escolheu para tiranizar um mundo daqueles tipo Gronelândia, em que a noite dura seis meses e, assim sendo, os seus feitiços também. Assim sendo, tecnicamente, teria apenas uma meia noite por ano e, se conseguisse resolver essa transição, então poderia reinar sem restrições o resto do ano. Enfim… Technicalities, como diria a Vitória. Cinderela, após uma profunda investigação na companhia de Aladino, descobriu todas as tramas da Fada Madrinha, confrontou-a e, não lhe tendo dado o verdadeiro golpe de misericórdia, deixou-a nas mão dos habitantes da planeta que ela aterrorizou. O que foi dar no mesmo, uma vez que estes não hesitaram em fazer-lhe a folha. Á fada. Á Cinderela, quem a fez foi o Aladino. Juntando as suas qualidades como espia e agente secreto à sua beleza, forma física e sentido de humor, Cinderela é para mim uma das personagens mais importantes das Fables o que pode ser perfeitamente pueril para o mundo, mas é muito importante para mim.

27.8.12

34 - servos da escuridão












Jean Christophe Grangé
Capa preta, mesmo muito muito preta. Pergunto-me se fará sentido estar a escurecer assim tanto as minhas leituras, estar a procurar uma espécie de equivalência entre a literatura e o quotidiano. Nao faria mais sentido, neste período de monstros fugir para o meio das fadas, abrigar-me no porto da literatura fantástica? Que sentido faz salgar as feridas? É para ficar mais forte? Não esta a resultar lá muito... Por outro lado, os livros tem sido bons, e este é mesmo muito bom. Começa com um par de policias gémeos na sua religiosidade. Que no entanto, como todos os gémeos, tem diferenças consideráveis, sendo que enquanto Mathieu, de um metro e noventa, famílias ricas e um rol de qualidades invejáveis, envereda pela via institucional, procurando Deus no mosteiro, Luc, mais baixo, mais pobre e muito mais retorcido, envereda logo pela busca do diabo. Torna-se, para isso, missionário nos piores sítios do planeta, passando milhões de tempo nos Balcãs, no tempo em que aquilo não estava nada bem. Mathieu nao tarda a ser arrastado pelo íman que a vida do seu amigo sempre foi para a sua, e toca a ir para o Ruanda, onde perdeu grande parte sua sanidade. Por exemplo, deixou de poder ouvir ruídos metálicos, por o fazerem recordar a maneira como os guerrilheiros tutsis aterrorizavam os hutus (ou vice versa ?), e que era arrastando as suas catanas pela rua, arranhando os passeios, avisando-os que estavam a chegar para os matar. Luc e Mathieu acabam por reencontrar-se enquanto policias, acabando os objectivos das suas vidas por convergir na luta contra o mal, ou mais concretamente, na luta contra o mal versão francesa, uma vez que acabam os dois como policias em Paris. E é aqui que tudo começa. Um dia, Mathieu recebe a noticia que Luc se tentou suicidar tipo VIrginia Wolf, entrando pela água dentro com os bolsos cheios de pedras e uma medalhinha do Arcanjo São Miguel bem fechada na sua mão. O arcanjo São Miguel, recordei eu entretanto, era o capitão mor dos exércitos celestes, e foi ele que liderou a luta na revolta de Lucifer que, recordemos todos, se rebelou contra Deus por achar que os anjos eram muito mais mereçedores do amor divino que os homens, a quem Deus elegeu como favoritos.Foi então que Deus precipitou Lúcifer vencido desde o topo dos céus as profundezas dos infernos. Digo eu que,provavelmente já apoiado no meu imaginário e nao em nenhum façto histórico, foi o rasto dessa queda que deu a Lúcifer o apelido de Estrela da Manha. Voltando a estória, como diria o Saramago, porque estória é diferente de historia, Mathieu nao aceitou de bom grado o facto de o seu melhor amigo se ter querido suicidar. Vai dai, resolveu submergir-se nos casos que Luc investigava e que eram a morte de um traficante de uma droga opiácea proveniente de uma planta que só crescia no Gabão e de uma morte muito, mas muito mais espectacular que ocorreu nos Alpes franceses. Tratava-se da mãe de uma rapariga chamada Manon que tinhasido por ela assassinada na sua infância. Eu explico melhor: Manon, a filha, tinha todos os sinais de ter sido possuída pelo diabo. Apavorada, a mãe resolve má ta-lá atirando-a para uma etar, onde ela se afogou sem ser em agua. Muitos anos depois, a mãe aparece morta, de uma maneira bastante original. Tipo multi estrato. As pernas estavam completamente deterioradas, quase só ossose tendões, enquanto que o tronco estava tipi a meio gás, completamente a ser devorado por moscas e mais bichos necrofagos, escaravelhos e tudo. A cara estava ainda completamente intacta. Para ser reconhecida, pensei eu...e tinha razão. Para abrilhantar ainda mais o cenário, o assassino tinha revestido os pulmões de Simone (era este o nome da vitima, mãe de Manon)de um líquen foto luminescente, tipo o dinossauro do meu escritório (sabes qual e?). Para além de tudo isto,o cadáver apresentava profundos sinais de satanizo, uma vez que estava de pernas abertas virado para o mosteiro e com um crucifixo enfiado invertidamente na... Vcs sabem aonde... Mathieu continuou a investigar e descobriu mais alguns crimes do género pela Europa fora e, aprofundando alindamos a investigação, descobriu que todos esses crimes aconteceram aos progenitores de crianças que tinham sido miraculosamente salvas da morte depois de morrerem em idades ainda muito tenras. Tanto Manon como as outras crianças tinham estado mortas e voltaram da morte pouco antes de chegarem a luz brilhante. No entanto parece que quem as chamou de volta para a vida nao terá sido Deus, masseira outra entidade cujo nome também começa por D e que muito gente o escrevem maiúsculas. E aqui começa a confusão. Durante essas experiências e quase morte, essas crianças teriam sido abordadas pelo diabo, que as arregimentaria e as transformaria naquilo a que no livro chamam as sem luz, contrariando de alguma forma a luz da manha de Lucifer. Seria assim selado um verdadeiro pacto com o diabo, e essas pessoas passariam o resto da vida a fazer mal, muito mal, começando por se vingar dos pais que as tinham maltratado. E vingar como? Matando-as da maneira que o diabo as tinha ensinado, tipo por camadas de decomposição variável. A combater tudo isto, teríamos duas facções da igreja católica, uma que seria o Vaticano tradicional, que tentaria travar a batalha de uma forma, chamemos-lhe assim, escolástica, e outra uma ordem de cavaleiros frades polacos, tipo templários, hospitalares e afins, que partiam mesmo para a violência... Em nome de Deus, obviamente. E entretanto inquérito aconteceu aos nossos dois heróis? Mathieu nao alinhou por nenhuma das duas equipas divinas nem, muito menos, pela diabólica. Embora se tenha apaixonado por Manon, que nesta altura do campeonato, tinha já trinta anos, podres de bons. Continuou policia, descobriu os crimes e deu a César o que era de César, a Deus o que era de Deus, e ao DIabo, o que era do Diabo. Quanto a Luc, esse teve muito mais sucesso na perseguição dos seus objectivos. Já chega. Quem quiser mais (e nao deve haver quem queira)' que leia o livro, que eu empresto

22.7.12

33 - a linha negra















Jean Christophe Grangé.
Eis um livro que não devemos deixar falar. Se deixarmos, mal a capa se abre levamos logo com uma enxurrada de sangue pegajosa, vermelha, omnipresente e abafadora, que não nos deixa pensar em mais nada. Se, por sorte, conseguirmos esquivarmo-nos desta onda, ou caso consigamos surfar airosamente na sua crista, não apanhando mais do que alguns salpicos deste sangue todo, então temos que nos haver com uma profusão enorme de traumas, infâncias desgraçadas, experiências traumáticas no passado, impotencias, disfuncionalidades, irracionalidades, incapacidades, enfim, todo um conjunto de sentimentos e estados de alma péssimos, que mais não fazem do que ver quão simples eu sou por dentro, por mais tortuoso que me venha sentindo ultimamente. E se, cerrando os dentes em torno da nossa presumida normalidade, espantamos para longe estava onda de sentimentos, ataca-nos uma terceira onda, de profunda indiferença e mediocridade, de total falta de objectivo e de sentido que (quase) todas as personagens deste livro nos transmitem, como se a sua única função fosse convencer o leitor que elas (as personagens) só existem para nos fazer sentir mal. Mas a vida nao e só literatura fantástica, e confesso que já andava a sentir a falta de um bom policial, daqueles cheios de sangue, mistérios e assassinos em serie. Vai dai, meti-me na boca do lobo. Como sempre. E não vai ser por medo de não escrever um texto bonito que valorize estas páginas que vou renegar aquilo que li. Porque a vida também e feita de coisas feias, e eu já ando há demasiado tempo cercado de coisas bonitas.

Jacques Reverdi foi campeão mundial de apneia, que e aquele desporto em que se desce a cem metros de profundidade sem nenhum tipo de equipamento. Correndo o risco de simplificar em demasia, neste tipo de experiências, combinando a pressão envolvente, as bolhas de azoto sempre à espera de se formar no sangue, a falta de luz e de oxigénio e o facto de se estar rodeado de peixes sem olhos, neste tipo de experiências, dizia eu, podem advir alguns traumas... Jacques vira-se assim para o assassínio de turistas estrangeiras em pleno sudoeste asiático, tipo Malásia e Tailândia. E mata-as de uma forma super original. Prende-as numa casa que previamente calafetou meticulosamente, faz-lhes bastantes furos no corpo, e tapa esses furos com mel. A medida que a casa vai ficando sem oxigénio e com o dióxido de carbono decorrente da respiração das raparigas a preencher cada vez mais a atmosfera, o esforço das raparigas  para respirar aumenta consideravelmente a pressão no interior do seu corpo e, consequententemente, no mel que  esta a servir de tampão as suas feridas. Nessa altura, Jacques derretia esse mel, o que fazia com que, de todas as feridas, causado pela pressão da respiração, saíssem jactos de sangue simultaneamente, fazendo padrões para ele, Jacqes, de uma beleza atordoadora. Esse sangue, privado de oxigénio, era... Negro.
Jacques é apanhado em flagrante logo no inicio do livro, e trancado numa prisão da Malásia, penso eu. Algures em Paris, temos Marc, ex paparazzo, ex jornalista de escândalos, actual jornalista em fase de criar uma obsessão por assassinos em série. Marc também não é um caso simples. Sempre que lhe morria alguém proximo, violentamente, caia em comas profundos que duravam semanas, e dos quais acordava sem se lembrar de nada. Aconteceu-lhe isso com o melhor amigo, suicidado e com a mulher, assassinada depois de bastante torturada.
E depois temos Jayd, egipto-argelina de um metro e oitenta e linda de morrer, que quer ser modelo. Para lhe dar profundidade intelectual, ela anda a estudar filosofia, mas esse pormenor era dispensável, uma vez que, também ela, detém um passado de meter medo ao susto. Os pais eram os dois heroinómanos e era ela que tratava, não só deles, mas dos três irmãos mais novos, vivendo sempre aterrorizada que os serviços sociais lhe viessem tirar as crianças. O que, fatalmente aconteceu, depois de os pais terem pegado fogo na sala ao lado do quarto onde ela dormia com os irmãos. Depois de ter conseguido salvar os irmãos, apenas teve tempo de ver o pai a cabeça do pai a separar-se do corpo, enquanto ardia. Os irmãos foram-lhe retirados e a ultima vez que ele viu o mais novo foi já preso. Tanto fogo não fez bem a Jayd, que continua a sentir-se queimada e seca por dentro, não conseguindo ainda hoje nenhum tipo de lubrificação sexual, o que faz com que o sexo seja para ela uma semi-tortura. Tipo, se calhar seria melhor não o fazer...
Marc obsessiona-se por Jacques e começa uma correspondência à distancia usando uma identidade externa, um misto entre passaporte roubado de uma rapariga chamada Elisabeth e uma fotografia de Jayd, que ele também roubou.
Jacques apaixona-se por Elisabeth e conta-lhe os pormenores de todos os seus crimes. Marc apaixona-se por Jacques e corre o continente asiático todo a seguir as suas pistas. Jayd apaixona-se por Marc, mas não faz nada, continuando vitima da sua aridez interior. Embora os triângulos sejam figuras geométricas com todas as características decorrentes à sua estabilidade, o facto é que nao são estáveis. Não se aguentam. O que é uma merda. O sentimento arrasa sempre com a geometria. E vai dai, o  triangulo colapsou. Jacques fugiu da prisão, voltou a Paris e descobriu que Jayd nao era Elisabeth, ao ver que a sua foto estava espalhada por toda a cidade, devido ao seu entretanto sucesso adquirido como modelo. Descobriu tambem que Elisabeth era Marc, através do livro que este tinha entretanto escrito e em que escarrapachou a historia todinha de Jacques. Compreensivelmente, este arranjou uma casa, calafetou-a meticulosamente, prendeu lá dentro Jayd e Marc, furou-os com todo o cuidado ,tapou-lhes as feridas com mel e depois... Vá. Já chega. Já escrevi demais sobre este livro...

27.5.12

32 - o circo dos sonhos


Erin Morgenstern.
Mais uma vez se cumpriu a maldição de não se poder dizer mal de um livro de capa preta. Maldição? Acho que sim porque me parece que já não sou eu a julgar o livro pela seu conteúdo mas sim a, chamemos-lhe assim, capa preta a condicionar-me, assim como se a sua própria existência, automática e obrigatoriamente despoletasse o processo do costume. Vejo o livro, saco-o, leio-o, publicito-o, suscito o interesse, compro-o … e ofereço-o. E no fim, já nem sequer sei se o que me motiva é o livro ou o processo, processo esse que é também um livro e que retrata o atractivo das coisas tortuosas. Ó e se eu sou tortuoso… Voltando ao livro, não ajuda o facto de se tratar de um livro sobre coisas irreais e mágicas, s obre desejos e vontades, porque a magia era uma coisa extremamente bem-vinda no presente e, quem escreve este livro, sempre no presente, sabe bem disso.
Por isso, até aqui se torna difícil avaliar se o que estamos a gostar é do próprio livro ou do sentimento que a magia nele contida pode, sei lá, extravasar um bocadinho que seja também para nós e resolver magicamente aquilo que, sem magia, não se consegue resolver.
Se o que estamos a gostar é da história, dos personagens e dos cenários (e que bonitos os cenários são) ou se gostamos ainda mais da sensação de estarmos a transmitir um bocadinho dessa especialidade a terceiros, com a esperança de assim mantermos nós também alguma especialidade a outros olhos…
Mas bolas, afinal li o livro ou não ? Li pois. E gostei ? Pá… não sei. Ultimamente não tenho gostado de muita coisa e, além disso, grandes partes deste livro foram lidas num clima de grande ansiedade, para não dizer outra coisa. Por outro lado, o livro é bom, bonito e talvez me permita a oportunidade de restabelecer pontes mentais. E então em que é que fico? Como é que me vou decidir?
Fazendo aquilo que cada vês sinto mais que devia fazer na vida real mas que, me tem custado a arrancar. Calando-me e deixando falar os outros. E quem falará ? Ele. Recorrerei então a uma ideia que retirei de um livro brutal que, penso eu, sou a única pessoa que lhe dá o devido valor. Chama-se Gog e está resumido algures lá para baixo.  Nesse livro, Gog fazia entrevistas imaginárias, que não aconteceram mas que deveriam ter acontecido. Imagino assim a minha entrevista imaginária a um livro chamado o Circo dos Sonhos…

- Sabes ler, livro? Ou apenas deixas que te leiam ?
- Sei ler.
- O que lês? Livros ?  J
- Leio as pessoas que me estão a ler enquanto me estão a ler.
- E como fazes isso ? Tens olhos em todas as páginas ?
- Isso interessa ?
- Acho que não.
- Eu também acho que não…
(…)
- Mas então se só lês pessoas não sabes o que escrevi lá em cima.
- Sei. Bastante bem. Fui-me apercebendo de tudo enquanto me lias.
- És muito perspicaz.
- Tu é que és transparente.
- Confesso que já me disseram isso.
- E eu confesso que tive ajuda.
- De quem?
- Dos meus parentes mais próximos. Da minha família.
- Da tua família da parte do papel ou da parte da tinta ?
- Da minha família da tua parte.
- Da minha parte?
- Sim. São todos aqueles livros em que tu passaste por este processo. Todos os livros que acabaste por dar, para compartilhar com ele um mundo próprio em que tudo é permitido. Jonhatan Strange e o Sr. Norrel, A rapariga que roubava livros, a Bruxa de Oz, os Reinos do Norte, o Amuleto de Samarcanda, Josh, o cordeiro, o Bairro, o Rapaz que chutava porcos, o Rapaz Ostra, o Reino do Dragão de Ouro…
- Então esse conjunto de livros existe mesmo… Não é uma invenção minha.
- Pois não.
(…)
- Voltando a ti.
- A mim livro?
- A ti livro. Descreve-te.
- Critico-me?
- Não. Para isso estou cá eu.
- Não estás a conseguir.
- Se tu ajudares…
- Está bem. Lá vai…
(…)
- Não me considero um grande livro. Quando as pessoas acabam de me ler sentem-se algo inquietas, com medo de não terem percebido tudo, de não terem apreendido nem metade da riqueza que eu tenho. Um grande livro impõe-se e satisfaz e isso foram duas coisas que não consegui contigo. Não me impus o suficiente para te fazer abstrair do que te ia na cabeça e, tendo ainda assim conseguido captar-te a atenção, não te vi a sorrir extasiado mas sim a levantar as sobrancelhas preocupado com o facto de não estares a perceber tudo aquilo que eu te estava dizer. Convenhamos: também não está ao alcance de qualquer um.
- Pois. E eu não sou lá muito inteligente.
- Pois não…
- Se calhar o problema é teu.
- Se calhar é.
- Tenta outra vez. E desta vez fala de ti, e não de mim.
(…)
- Começo com uma aposta entre dois mágicos em que um deles aposta a própria filha e o outro aposta alguém que nem sabe ainda quem será. E logo aí se coloca uma questão interessante. Quem está a se mais honesto? O pai que hipoteca a própria filha ou o outro que deliberadamente escolher alguém para ser hipotecado ? A ideia é cada mágico instruir o seu pupilo para que ganhe o torneio de magia, que se irá desenrolar ao longo de toda a vinda, até à morte de um deles. A mágica chama-se Célia e é super intuitiva e o mágico chama-se Marco e, parece-me assim, é mais do tipo racional. Célia passa a juventude a correr o mundo de circo em circo, com o pai. Marco passa a juventude fechado num quarto, a ler. Um dia, veêm-se os dois envolvidos na ideia de criação dum circo, patrocinado por um Sr. Super carismático chamado Lefévre. Célia arranja logo maneira de nele trabalhar como ilusionista enquanto que Marco consegue tornar-se o seu assistente pessoal. O circo  tem algumas particularidades interessantes. Tem muitas tendas em vez de uma só e cada artista faz o seu espectáculo dentro da sua tenda. Tudo o que existe no circo é preto e branco, e não preto ou  branco nem mesmo cinzento. Ou seja, no Circo dos Sonhos, ao contrário da vida real, as coisas podem ser de duas maneiras diferentes e duas coisas boas não são mutuamente exclusivas. E a indeterminação e a ambiguidade estão, na sua forma de cinzento, completamente proibidas. O circo dos sonhos só funciona à noite, mas funciona a noite inteira, nã é como eu, que só saio até às quatro. É feito para aquelas pessoas que ficam sempre até ao fim, mesmo que não se perceba porquê nem a fazer o quê, mas que, mesmo quando as coisas acabam, elas… continuam. O circo dos sonhos é feita para pessoas incansáveis, mas nunca diz onde vai aparecer nem avisa quando se vai embora. Simplesmente desaparece e viaja, sempre de comboio, para um sitio que os seguidores só descobrirão quando as noticias do primeiro espectáculo ecoarem vindas da nova localização. Simplificando, o Circo dos Sonhos é o único sítio onde o amor de Célia e Marco é possível, pelo que ambos se empenham em que se torne um sítio mágico e infinito, uma vez que sentem instintivamente que fora do circo esse amor é impossível. E assim, com os contributos sucessivos e iterativos dos dois mágicos, o circo torna-se uma coisa tão rica, bonita e completa que confesso ter dúvidas do grau  de compreensão que atingi. Apenas me ficaram os pormenores, sendo que tudo o resto se mistura como num… sonho. Pormenores, ainda assim, interessantes… uma contorcionista japonesa tatuada, dois gémeos ruivos que malabaravam gatinhos super inteligentes, uma fogueira branca que foi acesa por archeiros que disparavam flechas incendiárias brancas, Marco, que tinha um feitiço que fazia com que a sua cara ficasse mais convincente do queera, o pai de Célia, Próspero, a quem um feitiço correu mal e teve que passar o resto da vida como sessenta por cento de fantasma e quarenta por cento de nada, Isobel, a leitora das cartas que sim, sim, eu também fiquei montes de tempo convencido que era Célia disfarçada, o navio feito de livros que navegava num oceano de tinta, uma refeição em que o vinho era feito de poesia engarrafada, o labirinto nas nuvens, a piscina das lágrimas, lindíssima, por muito que não concordem comigo, a árvore dos desejos, o jardim do gelo e por aí fora… Enfim. Acabo bem, Marco e Célia ficam juntos e o Circo continua. Porque é que estás a chorar ?
(…)

25.4.12

31 - abraham lincoln vampire hunter

Seth Grahame Smith
E eis-me novamente a cair vítima da praga que o Marco me rogou e que era qualquer coisa como, tu nunca deixarás de ler apenas literatura fantástica. Confesso que me começo a sentir preocupado, porque não sei já há quanto tempo não leio nada de, chamemos-lhe assim, sério, ou seja, um romance sentimental, um romance histórico, uma colectânea de poesia, um conjunto de ensaios, um livro político, e neste momento, estivesse eu no sametime e estaria a ir buscar o boneco amarelinho que, literalmente, rebola a rir. Como se, neste momento da minha vida, eu tivesse e mínimo de paciência e vontade para andar à procura do que outras pessoas acham que é importante e conveniente . Numa altura da vida em que se acha que já se tem legitimidade para que esta consista num infindável rol de momentos, na pior das hipóteses, muito agradáveis, é-me completamente inaceitável (e a qualquer pessoa da minha idade que saiba escrever) reger-me pelos padrões estético-culturais de terceiros. Se ainda fosse de segundos, ou seja, de amigos ou conhecidos cujas opiniões e gostos eu goste e respeite, ainda vá que não vá. Agora de desconhecidos… Nem pensar. Vai daí, continuo a guiar-me pelo meu nariz e pelo meu comodismo e hedonismo, ou seja, esqueçam lá isso de estar sempre a prender e a acrescentar cultura ao cérebro e toca a pensar, pelo menos um bocadinho, no prazer instantâneo. Além do mais, não estou muito preocupado com esta minha fase, porque ao menos ainda me dá para ler e escrever. Podia limitar-me a ver televisão…Vai daí, Abraham Lincoln, o caçador de vampiros... Porquê? Tenho algum interesse especial no Abraham Lincoln ? Nem por isso. E nos vampiros ? Também já não. Confesso que o Lestat ainda me interessou, mas a partir daí mais nenhum me chamou a atenção. Com O Lestat já dizia, enquanto estava a ser entrevistado, não há nada para descobrir e eles (os vampiros) andam todos a fingir. Então porquê ? Sei lá, mas lá comecei. E então comecei pela infância de Abraham, vivida no meio de uma pobreza tal que nem livros tinha, nem luz para os não ler à noite. Tinha dos irmãos, um pai algo ausente e uma mãe doente, que um dia morreu, vindo ele a descobrir bastante mais tarde que foi morta por um vampiro. No dia em que descobriu isso, jurou vingança e luta até à morte, e matou o seu primeiro vampiro, a golpes do machado com que vivia em comunhão total desde que era pequenino. Um dia conheceu um vampiro chamado Henry que lhe disse algumas coisas interessantes, depois de lhe ter dado uma traulitada na cabeça e de o ter prendido num quarto de uma casa bastante interessante, na qual se entrava por um daqueles poços antigos, com manivela, um telhadinho e um balde na ponta de uma corda. E disse-lhe então o seguinte:
Que os vampiros eram como os homens em muitos aspectos e que, consequentemente, não eram todos iguais. Não que houvesse vampiros bons e vampiros maus. Não funcionava de uma maneira assim tão bipolar. Mercê das suas próprias características, e olhando pelo prisma dos homens, não havia nem podia haver vampiros bons. Da mesma forma que será difícil que as vacas ou os porcos ou as galinhas, ou qualquer animal de que nós nos alimentemos digam que há humanos bons. Tipo, se são bons, porque é que me querem comer ? Não havia, portanto, vampiros bons, embora houvesse muitos vampiros que eram mesmo maus. Havia era também alguns vampiros que, face à sua experiência de vida, ou se calhar face à sua experiência de morte, aprendiam a valorizar a vida como algo merecedor de respeito a nível geral, sendo que a vida inteligente, dotada de sentimentos mereceria esse mesmo respeito a nível particular. Sendo os vampiros incapazes de morrer, corrompiam-se inevitavelmente em termos morais ao viver uma vida cheia de poder e isenta de limites. Dizia Henry a Abraham:
Depois de seres transformado, ficas mais forte, mais rápido, mais inteligente que todas as pessoas à tua volta. Tens sucesso em tudo  o que te propões fazer e descobres que consegues bater em todos os homens de que não gostas e que algum dia te trataram mal e que as mulheres adoram pinar contigo, E descobres ainda, tipo bónus, que lhes podes beber o sangue depois de lhes fazer isso tudo. Descobres a maneira de praticar cinco dos sete pecados capitais todos de uma vez, e raciocinas que, se nenhum Deus te impede de fazer isso, é porque ou não tem mal nenhum, ou não há Deus nenhum. E continuas, durante todo o primeiro século a fazer isso. Comer, beber, pinar, matar... Mas tudo o que é bom cansa, e o facto de não Ter limites desvaloriza os prazeres, por isso no segundo século viras-te para o intelecto, para as artes, para a ciência, para a literatura, para as viagens... E consegues aguentar-te mais um século assim, a desfrutar do prazer intelectual, e começas a pensar que aquela raça humana é mesmo capaz de produzir coisas belíssimas, e que se calhar não servem apenas para comer, beber e foder, isto pela ordem inversa, obviamente, não somos selvagens... E começas a virar-te para a filosofia. Por um lado pensas que já estás farto disto, que já não tens mais nada que te entusiasme. Por outro lado, começas a apreciar cada vez mais aquela raça que, além de se parecer tanto contigo, consegue fazer tanto em tão pouco tempo de vida. E começas a achar que se calhar eles é que são a raça superior, pois limitados como estão pela morte, não tem tempo para se corromper. E vai daí, deixas de comê-los e passa a protegê-los e descobres aqueles que dentro deles são os mais fortes e mais inteligentes e revelas-te... Percebeste ?

Abraham percebeu e a partir desse dia, passou a matar todos os vampiros que Henry lhe dizia, tornado-se assim num caçador de vampiros profissional, com um casaco comprido preto cheio de truques dentro, tipo Inspector Gadget. Paralelamente Abraham não descurou a sua carreira política e, mais pormenor menos pormenor, chegou a presidente dos Estados Unidos. E mal lá chegou, estourou-lhe nas mãos a Secessão dos Estados do Sul. E esta é a parte mais fixe do livro. O sul era o paraíso dos vampiros, na América. E porquê ? Porque era o sítio onde lhes era mais fácil de se alimentarem . E porquê ? Porque era o único sítio onde se podia fazer desaparecer o número de pessoas que se quisessem sem levantar questões.. E porquê ? Por causa da escravatura... Em termos d emundo ocidental, os vampiros estiveram instalados durante centenas de anos na Europa, tendo sido de lá expulsos depois da Revolução Francesa, em que o povo passou a ser quem mais ordenava e em que deixou de se encarar como uma inevitabilidade alguém comer os nossos camponeses todos. Ao ser conferida a todos os cidadãos uma individualidade distinta, deixou de ser possível à vampiragem comer o que queria impunemente e, para além disso, passou a haver uma perseguição específica aos vampiros, tendo sido estes o principal alimento das Guilhotinas de Robespierre. Vai daí que estes fugiram todos para a América, onde passaram a ser os maiores apoiantes da escravatura e os principais instigadores da secessão dos Estados do Sul, que iria levar logo a seguir à Guerra Civil Americana. Apesar da luta encarniçada e desesperada dos vampiros, Abraham venceu a Guerra Civil e erradicou a escravatura, fazendo com que, entre muitas outras consequências, os vampiros fugissem dos agora Estados Unidos, novamente para a Europa, onde o início de alguns totalitarismos racistas ofereciam bons prenúncios quanto à possibilidade de vir a haver novamente comida com abundância. Mas isso é já outra história. Abraham não teve muito tempo para saborear a sua vitória. Primeiro mataram-lhe o filho mais velho e depois, como toda a gente sabe, John Wilkes Booth, um vampiro actor, matou-o em pleno teatro. No fim, Abraham, que durante toda a sua vida tinha proibido a Henry que lhes ressuscitasse os vários filhos, não pode fazer nada quando Henry o ressuscitou a ele, dizendo que há pessoas que são demasiado interessantes para morrer...