Tudo para dar certo. Tudo mesmo. Rapaz meio esgazeado fotografa olhos das raparigas que conhece, acabando por ficar cativado pelos olhos de uma rapariga da qual mais nada vê, numa festa. Passa muito tempo até que a encontra e pouco tempo a ser feliz com ela, já que inevitavelmente acontece a tragédia imagem de marca sem a qual um filme que se pretende alternativo tal não o consegue ser. Aparentemente, os filmes alternativos tem que acabar mal. pensando bem, não se trata de acabar mal. Trata-se de ficar mal no fim do primeiro terço do filme, até ao qual nós estávamos a assistir encantados a todo um rol de ideias originais. E eis que, vindo do nada, sem que faça nenhum sentido especial, a tragédia acontece e nós temos que passar o resto do filme deprimidos, sendo que esse é o preço para continuar a ver ideias originais. Podendo resultar com outros tipos de público, comigo essa estratégia não resulta. Mal me cheira a tragédia, o meu cérebro começa a libertar dopamina, ou lá o que é e adormeço redondamente. Ao ponto de no dia seguinte não relembrar de quase nada. Ao ponto de umas semanas depois estar a ver o trailer para orientar as ideias para este resumo e mais de metade das imagens me serem completamente estranhas. Até um pavão branco por lá andava, não sei se no filme, no trailer ou nos meus sonhos. Ou em todos. Ou em nenhum. Enfim, o que fica no fim? Imagens bonitas e uma impressão que passamos ao lado de alguma coisa muito boa, sem que a tivéssemos conseguido apreciar convenientemente. Esconjuro essa sensação prestando aqui a devida referência para me lembrar algures no futuro de tornar a ver este filme, a ver se apanho o resto...
20.6.15
2.5.15
79 - about time
Procurei este filme porque me cheirava a ficção científica de idéias, género que eu desde sempre procurei e nem sempre encontrei. Aqui também não encontrei, mas encontrei diversas outras coisas que me agradaram muito. Para começar, a figura do pai, que me era familiar mas do qual apenas conseguia lembrar do pirate rock, em que era o fleumático dono do barco que se afundou com ele. pesquisando um bocadinho, constatei que afinal éramos já velhos conhecidos, já que ele era o Viktor do Underworld, o general nazi do Valkiria, e outros que tais. Um pai que se reformou aos 50 anos para passar o resto da vida a ler, jogar ténis de mesa com o filho e atirar pedras horizontais na praia. Agarrado ao pai vem a família fixe anormal que todos gostaríamos de ter mas que finalmente não temos, porque a nossa é muito melhor. Destaca-se, evidentemente a irmã sempre descalça, que se vê à légua que vai gastar toda a sua boa sorte nos primeiros anos, e vai passar o resto da vida mal calçada... No que diz respeito à história, temos que o pai conta ao filho o segredo dos homens da família, que é a capacidade de viajar no tempo, capacidade que o pai utilizou para poder ler tudo aquilo que lhe apetecesse. Essa escolha não me escandaliza. A escolha que ele fez dos livros a ler, tipo Dickens três vezes, essa sim, considero a parte mais inverosímil do filme. o filho era, no entanto, mais sensato, e compensava o cabelo demasiado ruivo com uma sensatez muito grande na escolhe de como deveria potencial essa recém adquirida capacidade. vou utilizá-la no mor, disse ele app pai e o pai, que apesar do problema Dickensiano não era parvo nenhum, disse: fazes bem. A partir daí, Tim (o filho), passa o resto do filme a ir atrás fazer tudo para conseguir com Mary aquilo que todos nós queremos com outra pessoa: a felicidade. Consegue-a, materializando-a com os filhos e com uma vida que, se não se pudesse dizer mais nada, era pelo menos suficientemente rica para não lhe apetecer voltar atrás para fazer qualquer mudança. E isso, digo eu que não consigo viajar no tempo, já é muito bom...
10.4.15
78 - in time
Espero, por norma, pouco de um filme em que o título é um cliché e o actor principal é outro. Espero, por norma, errado. Quase nada do que espero acontece e quase sempre isso é mau. Desta vez não foi. Vivemos no futuro e até aos 25 anos não temos que nos preocupar com nada. É dinheiro em caixa. Paramos de envelhecer e dão-nos um relógio que fica indelevelmente marcado no braço esquerdo e que passa a marcar o tempo que tens para viver. e carregam-no com 365 dias. A partir daí, a vida de cada um passa a ser aquilo que cada um pode pagar para viver. Tipo telemóvel. Pode-se carregar ao minuto e a facturação é detalhada. As instituições de caridade distribuem tempo aos necessidades e as pessoas podem ceder tempo umas às outras, bastando para isso encostar os braços, se forem os braços esquerdos. Neste mundo os ricos vivem para sempre e os pobres arriscam-se a ver morrer os entes queridos porque lhes encostaram o braço esquerdo umas décimas de segundo tarde demais. As filhas, as mulheres e as mães são todas iguais e as pessoas guardam nos bancos pens com dias lá guardados. Dizem os rumores que o homem mais rico do mundo tem um milhão de anos na conta a prazo, trancafiada num banco, e parece que isso é mesmo verdade. A inflação é do caraças e de um dia para o outro podes ver a tua vida reduzida a zero, e isto literalmente. O herói cliché e a heroína oriental decidem enfrentar o sistema assaltando os bancos e dando ao desbarato o tempo que neles estava guardado. A ideia é que, quando toda a gente tiver todo o tempo do mundo, o mundo deixe de ter problemas. É a vantagem do tempo sobre o dinheiro. O tempo não desvaloriza nem diminui quando toda a gente tem muito. O tempo dura sempre o mesmo, não é sujeito a desvalorizações, nem a inflações e nem a depreciações. O tempo é universal. O tempo é absoluto. O Einstein não tinha razão...
4.4.15
77 - snowpiercer
Para combater o efeito de estufa, os líderes da humanidade resolveram lançar na atmosfera um químico que funcionou melhor do que se esperava e provocou uma glaciação em todo o planeta. Isto provocou a extinção em massa da espécie humana, que compreensivamente congelou, ficando toda ela à espera de alguém que consiga vir provar que a criogenia não é apenas uma tanga para impingir a milionários velhos. Safaram-se apenas, e porque se safam sempre alguns, ou não haveria filme, os tripulantes de um comboio construído por um milionário americano excêntrico, não que a sua excentricidade e nacionalidade tenham sido assumidas no filme, mas torna-se claro para os espectadores que geralmente quando estes dois adjectivos andam juntos, então a presunção do terceiro é quase sempre acertada. O comboio, ironicamente, era aquilo que o planeta já não poderia ser, ou seja, era um ecossistema competente, que obtinha a sua energia não sei de onde, e andava à volta do mundo, numa linha de cerca de 40.000 km de extensão que entretanto se tinha construído. Demorava um ano a completar a volta, mas aqui devo ter percebido mal, porque isso daria uma velocidade média do comboio de cerca de 4 km/h, o que me parece pouquinho, face às imagens vistas. O comboio era um ecossistema competente quer em termos naturais, quer em termos sociais. Era hierarquizado socialmente de trás para a frente, ou seja, os pobres nas últimas carruagens, fechados quase sem luz e os ricos nas primeiras, com todas as mordomias e mais algumas. Do fim para o princípio do comboio experienciam-se cinematograficamente o oito e o oitenta. Se nas últimas carruagens estão todos pobres, rotos, com fome, etc, tipo o matrix fora do Matrix, mais para a frente a profusão de cores e cenários é tanta que parece que passamos para a fábrica de chocolate do Charlie. Começamos por uma espécie de catacumbas em que a ferrugem escorre (obviamente) ferrugenta pelas paredes, passamos para uma cozinha de aço cinzento onde se preparam de uma forma moderníssima as barras protéicas que todos comem, seguimos para uma estufa de criação de ervas aromáticas (esta das ervas aromáticas foi o que me pareceu a mim, não é propriamente oficial), e depois para um talho vacas inteiras e galinhas sem pescoço penduradas pelos pés, obviamente mortas, e depois para um aquário lindíssimo, em que existem montes de peixes mas não torna muito claro onde estes vivem, e depois uma sala de aula com uma professora loira e bués de grávida, depois uma discoteca em que toda a gente abana fortemente, e depois mais um ou dois ambientes que já me esqueci, para por fim chegar à locomotiva, onde o líder rebelde, Curtis, se encontra com o construtor e dono do comboio, o tal americano excêntrico, que se chamava Wol... qualquer coisa. Do diálogo entre os dois, resulta que não tinham bem a mesma visão do mundo, e essa diferença agudiza-se quando o Wolqqcoisa resolve revelar a Curtis que o seu maior aliado era o chefe dos pobres, ídolo de curtis, entretanto morto na secção central do comboio, já em plena rebelião. Porque, explica Wolqqcoisa a Curtis, o equilíbrio social só pode ser atingido quando há diálogo constante e afinidades importantes entre os extremos sociais, neste caso e a saber, a locomotiva e a última carruagem. Tudo acaba mal quando o chinês de quem eu ainda não tinha falado estoura com uma das portas exteriores e provoca o descarrilamento do comboio, que após bater em tudo e mais alguma coisa, desintegra-se quase completamente. Combalidos, saiam de dentro do comboio Curtis, o chinês e a filha, que são mirados de uma forma muito profunda por um urso polar. E assim acaba o filme. E eu gostei bastante, não propriamente do fim, mas de tudo o que aconteceu até lá.
15.1.15
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17.12.14
74 - the signal
the signal
Eu diria que é uma espécie de fusão entre dois mitos americanos contemporâneos: a estrada 66 e roswel.
73 - predestination
predestination
Um homem entra num bar e deixa que o barman meta conversa com ele. Logo ali se percebe que há qualquer coisa diferente, pois os filmes americanos acabam com clichés, mas não começam utilizando-os. Os realizadores americanos têm receio de que, se forem demasiado óbvios no início, afastarem os espectadores, que se acham demasiado inteligentes para perder o seu tempo com coisas óbvias. Percebe-se então que o barman não é um barman e que o homem...não é um homem... O barman é um agente secreto de uma qualquer agência espaço-temporal em busca de um bombista e o homem é uma mulher com uma história de vida capaz de ganhar uma garrafa de graça em quelquer balcão de bar. Foi abandonada enquanto bebé à porta de um orfanato e cresceu desprovida de amor nesse mesmo orfanato, no meio da incompreensão geral. Era muito inteligente, peloo que facilmente arranjou as notas para sair de láe candidatar-se a uma qualquer agência governamental, de onde foi expulsa por ter partido os cornos a uma colega mais chata. Entrou para um curso de secretariado e, no intervalo de uma aula conheceu um homem pelo qual se apaixonou e com o qual praticou sexo, e do qual engravidou e teve uma rapariga, após uma cesariana complicada. Após esta, foi-lhe comunicado pelo médico que era hermofradita e que no decorrer da cesariana tiveram que lhe retirar a parte feminina. Para piorar tudo, tiraram-lhe também a filha, que foi raptada do hospital. Abalada mas não derrotada, aprendeu a ser um homem e, entre empregos, entrou num bar onde desabafou tudo ao ouvido do Barman. Que não era um barman, mas sim um agente temporal, que lhe ofereceu de bandeja a morte do homem que a abandonou, caso ela quisesse viajar no tempo e tornar-se sua parceira. Ela aceitou e, de repente, estava a substituir o homem que queria matar e seduziu-se a ela própria e apaixonou-se por ela própria, e engravidou-se a ela própria. E, como homem que se auto seduziu teve que se auto abandonar, porque o barman a chamou de volta. Barman esse que foi depois ao hospital, roubou o bebé, viajou no tempo e deixou o bebé à porta do orfanato. Fechou-se assim o ciclo e Jane, depois de ter sido mãe e pai da mesma criança, tornou-se nessa própria criança, criando assim uma família em que o pai, a mãe e a filha eram a mesma pessoa. Nada fácil. Nada mesmo...
29.11.14
72 - o passageiro
Jean Christophe Grangé
Já estou farto deste homem. o problema é que todos os livros são bons e assim não há forma de evitar. Desta vez é meeeeesmo complicado. Começa com um psiquiatra que investiga um paciente que está ligado a um crime em que mataram um sem abrigo e o minotaurizaram, ou seja, para os menos familiarizados com esta operação, enfiaram-lhe uma cabeça de touro pela cabeça (dele) abaixo. O psiquiatra vai tratando o paciente até que, entre outros pormenores, dá uma cabeçada na parede e lembra-se que afinal não é um psiquiatra mas sim um sem abrigo mesmo pobre. E vai daí e lança-se no meio dos sem abrigo a fazer pouco mais que ver os outros sem abrigo a beber embalagens cartonadas de vinho, que parece ser a sua principal actividade. Bem, não quero falar nos arrepios na espinha que me deu as descrições da vida dos sem abrigo, da violência entre eles, da luta contra o vento, contra o frio, contra quem os quer ajudar, e tudo para poderem beber o máximo de embalagens cartonadas de vinho. É demasiado verosímil... No meio das suas voltas, descobre um outro sem abrigo que foi morto e depois icarizado, ou seja, para os menos familiarizados com a expressão, enfiaram-lhe umas asas pelos braços dentro. E vai daí, o sem abrigo, que note-se, ao voltar a ser sem abrigo lembra-se de ter sido psiquiatra no futuro, ao fugir da polícia, dá uma cabeçada na parede e lembra-se que afinal é um pintor louco que apenas pintava auto-retratos seus a encarnar personagens diferentes. Enquanto pintor, lembra-se de ter sido sem abrigo e psiquiatra no futuro, e descobre um outro sem abrigo que foi morto e depois urbanizado, ou seja e para os menos familiarizados com a expressão, desta vez não lhe enfiaram nada, ou melhor, enfiaram-lhe a própria pila depois de lha terem cortado. O pintor descobre isto e depois dá uma cabeçada na parede e descobre que afinal é um playboy qualquer que tem montes de sucesso com as mulheres e cuja actividade principal era falsificar documentos. E depois já não me lembro se houve outro assassínio mitológico ou não (às vezes o sono vence a leitura) mas ainda me lembro de haver mais uma cabeçada na parede e o falsificador fazer o eterno retorno nietcshiziano e tornar a ser um psiquiatra, que se lembrava de ter sido pintor, que se lembrava de ter sido sem abrigo, que se lembrava de ter sido psiquiatra. Portanto, se eu fosse mais pragmático, resumia o livro assim: era uma vez um psiquiatra que tomou umas drogas e teve um episódio psicótico amnésico e se transformou num falsificador, e depois teve outro e transformou-se num pintor louco, e depois teve outro e transformou-se num sem abrigo e depois teve outro e transformou-se noutro psiquiatra diferente. E depois começou a investigar um caso parecido e descobriu um assassínio mitológico e lembrou-se que afinal era um sem abrigo, e descobriu outro assassínio mitológico e lembrou-se que afinal era um pintor, e descobriu outro assassínio mitológico e descobriu que afinal era um falsificador, e já não me lembro se descobriu ainda mais um assassínio mitológico e lembrou-se que afinal era um psiquiatra. Cansativo, este livro....
71 - edge of tomorrow
edge of tomorrow
Mais uma vez, a terra foi invadida por extra-terrestres que deram cabo de 95% de nós em meia dúzia de horas e, curiosamente, fizeram o que todos os extra-terrestres fazem nestas ocasiões. Pouparam os americanos, que se disfarçaram de ingleses e fizeram uma espécie de recreação do Dia D. Assim sendo, desembarcaram outra vez na Normandia e atacaram de dentes cerrados e olhos fechados, os extra-terrestres que tinham, efectivamente ar de alemães. A partir daí, o filme torna-se interactivo, e o espectador é tragado para dentro da televisão e é-lhe oferecida a possibilidade de comandar uma das personagens do filme e assim ser o responsável pela sua evolução. Não resisti ao desafio e assumi constantemente o papel de Tom (Cruise), uma vez que desde miúdo que invejei o casaco (e o corte de cabelo)que ele usou no Top Gun. Tornei-me assim um oficial renegado que queria recuperar a honra salvando o mundo. E tive algumas surpresas: era bués de baixinho, a heroína não queria nada comigo e o jogo não corria nada bem. Saltei doo avi\ao e morri. Recomecei o jogo e morriquando aterrei. Recomecei o jogo e morri mais à frente, atropelado. Recomecei o jogo e morri porque caí do penhasco. Recomecei o jogo e morri vítima de fogo amigo. Recomecei o jogo e fui atropelado novamente, desta vez por uma espécie de tanque, morrendo imediatamente. Recomecei o jogo e morri levando com os esroços de um avião que explodiu nos cornos. Recomecei o jogo e... ainda lá estou...
23.11.14
70 - Transformers, Age of extinction
transformers - age of extinction
Via esta série quando era criança e já nessa altura não achava piada nenhuma. Modesto como era, entretanto, e como já sabia mais inglês que a maioria das crianças da minha idade, desconfiava que aquele refrão da canção podia ser verdade e que havia naqueles desenhos animados mais do que à primeira vista parecia... Deve ter sido por isso que vi os filmes, à medida que foram aparecendo. Eis as idéias fortes que me ficaram do conjunto dos filmes todos desta saga:
- Adormeci em todos.
- Várias vezes em cada um.
- Os heróis humanos de cada filme são do mais pueril que a americanidade já criou.
- Os transformers transformam-se tão depressa que eu não consigo seguir com a vista.
- Até dá a impressão que é de propósito para não terem que programar os movimentos todos.
- Não há história.
- Os robots nunca são os mesmos.
- Os carros/camiões/outras máquinas que eles são enquanto civis também nunca são os mesmos.
- No último havia transformers dinossauros.
- Foram todos uma seca.
- Não os vou rever.
- Só em caso de insónia.
- Os heróis humanos de cada filme são do mais pueril que a americanidade já criou.
- Os transformers transformam-se tão depressa que eu não consigo seguir com a vista.
- Até dá a impressão que é de propósito para não terem que programar os movimentos todos.
- Não há história.
- Os robots nunca são os mesmos.
- Os carros/camiões/outras máquinas que eles são enquanto civis também nunca são os mesmos.
- No último havia transformers dinossauros.
- Foram todos uma seca.
- Não os vou rever.
- Só em caso de insónia.
69 - Coherence
De quando em quando, há sempre um bom motivo para praticar aquilo que eu acho que, quando bem usado, pode ser uma autêntica obra de arte literária. O aforismo, a punch line, aquela frase curta demolidora que diz mais em meia dúzia de palavras do que muitos tratados infinitos. Aquela articulação entre ideias e palavras única, que permite que o receptor comungue completamente da mensagem quase que mais por uma espécie de osmose literária do que propriamente por exercício da leitura. Vou tentar usar isso daqui para a frente, para filmes que não me dizem nada em especial, mas que no entanto merecem o registo de os ter visto, quer para os tentar recuperar no futuro, quando for mais inteligente, quer para não correr o risco de os ir ver outra vez. Assim sendo, como resumir em poucas palavras um filme que trata de um grupo de pretensos militantes do bom gosto, que falam com aquela entoação insuportável que o Woody Allen usava quando entrava nos seus próprios filmes, um filme em que acontece um daqueles jantares em que a principal preocupação dos personagens é fazer o vinho rodar dentro dos seus copos tipo balão mas de pé alto? E que depois, para piorar tudo, a casa onde este insuportável jantar decorre é duplicada por acção de um cometa que vai a passar e que provoca um qualquer efeito de multiplicação de coisas aborrecidas ? Que frase poderá caracterizar este exercício de cinema infeliz e enganador, que tem um sete no imdb ? Íman para críticos pretensiosos ? Coerência do aborrecimento ? Melancholia sem actores de jeito ? Claramente, ainda não domino esta arte da frase curta. Se pudesse começar este texto outra vez e tivesse que descrever este filme, agora sem pretensão intelectualista da minha parte, diria qualquer coisa como: é tipo os amigos de Alex em que a única emoção humana que exploraram foi o aborrecimento e em que puseram as culpas num cometa que ía a passar...
19.10.14
68 - o voo das cegonhas
Jean Christophe Grangé
Um médico funda uma ONG para
roubar corações pelo mundo fora, não sob o ponto de vista sentimental (eu
estou-me a ver a capitalizar sentimentalmente a ONG que criei, atraindo para
mim dezenas de intelectuais de esquerda femininas, bonitas, liberais, etc), mas
do ponto de visto completamente físico, ou seja, abrindo o peito das vítimas
com requintes de tortura inescrevíveis e arrancando o coração das vítimas, para
depois os ir enfiar no peito de clientes europeus cardiacamente insuficientes e
economicamente excedentes. Por outro lado, um suíço ex-colaborador de Bokassa
na sua ditadura na República Centro Africana, onde era capataz das suas minas
de diamantes, resolve estabelecer-se por conta própria, e ficar com os diamantes
para si. Assim sendo, continua a minerar os diamantes e a contrabandeá-los
fazendo uma espécie de aumento de natalidade mineral. Em vez de fazer vir a si
as criancinhas nos bicos das cegonhas, situação que quase toda a gente cria uma
ou duas vezes na vidas, amarra os diamantes minerados nas pernas das cegonhas e
manda-os para onde eles interessam e dão dinheiro, ou seja, para a Europa.
Estupidez, diz qualquer um de nós farto das fugas para a frente presentes nos
livros e nas séries quando as coisas se complicam de tal maneira que, em vez de
qualquer coisa com lógica, os escritores / argumentistas inventam uma cena
mirabolante qualquer que tudo explica e tudo explicaria na mesma mesmo que nada
explicasse. Tipo, foram os extraterrestres, querida. Não é o caso, aqui. Ao que
parece, as cegonhas têm efectivamente padrões migratórios completamente
rígidos. As suas migrações começam sempre no mesmo sítio e acabam sempre no
mesmo sítio, tipo as viagens de férias das famílias de classe média. E além
disso, as cegonhas voam mesmo muito e mesmo depressa, sendo que poderão atingir
10.000 kms numa viagem de fim de Verão. Não foi à toa que foram escolhidas por
Deus para fazer a distribuição da natalidade ou, pelo menos, para ser o símbolo
da distribuição da natalidade. Qual renas. Qual Pai Natal... Por fim, temos um miúdo
penso que francês cujos pais e irmão foram mortos por Bokassa na RCA quando
este tomou o poder. Foi adoptado por amigos da família e contratado, 30 anos
depois pelo suíço para seguir as cegonhas e perceber porque é algumas delas não
trouxeram os diamantes. Obviamente que o suíço não falou ao miúdo dos
diamantes. Provavelmente tinha esperanças que ele não os descobrisse sozinho.
Correu mal. Acontece que, como em qualquer bom livro, estes personagens
principais estavam completamente enrolados uns nos outros. Tipo o suíço contratou
o francês para ir atrás das cegonhas (já disse isto, eu sei), o médico meteu o
coração do filho do suíço no peito do suíço enquanto procurava corações
compatíveis para o seu próprio filho doente há mais de vinte anos, filho esse
que era irmão do… miúdo francês, que acabou por ser filho do médico. Enfim…
Podia dizer que acabou tudo bem, mas nos livros deste senhor nunca acaba tudo
bem. E embora comecemos a detectar alguns padrões repetitivos nos seus livros (tais
como o facto de o passado ser sempre muito mais importante que o presente, tal
como a inevitável descrição / denúncia de uma qualquer ditadura sangrenta
africana ou sul americanas, tal como o protagonista principal ser sempre um
herói improvável cheio de disfuncionalidades e questões complicadas ou tal como
o facto de os crimes serem muito muito horríveis), o facto é que os livros
continuam a ser bons. E há sempre paisagens naturais virgens e algum tipo de
descoberta natural. Desta vez houve pigmeus. Surpreendente.
30.9.14
67 - her
Her
I'm afraid, Dave, dizia Hall
quando lhe cheirou que David Bowman lhe iria puxar a ficha. Hall era o
computador que tomava conta da missão a Júpiter no filme 2001 Odisséia no
espaço, e tinha entrado em paranóia completa porque as ordens que tinha
recebido no início da missão eram contraditórias com a manutenção em bom estado
de saúde da tripulação pela qual ele era responsável. A única maneira que Hall
logicamente descortinou para o sucesso da missão era eliminar a tripulação e
foi isso que tentou fazer e quase conseguiu. Apenas David Bowman conseguiu
escapar e, logo que teve oportunidade, desligou Hall, retirando-lhe um por um
os módulos de memória. Á medida que os vai perdendo, Hall começa a perder a
noção da realidade e a querer mostrar aquilo de que é capaz de fazer numa tentativa
desesperada que David o deixe, chamemos-lhe assim, viver. E canta, e conta
histórias, e consegue, na minha opinião, uma das cenas mais tocantes de toda a
história do cinema. E estamos a falar apenas de uma voz, sem corpo, sem qualquer
materialização física. I'm afraid, Dave, diz ele alcançando com essa frase a
humanidade e, menos importante, a imortalidade. Nunca a questão da inteligência
artificial se tinha colocado para mim com tanta intensidade. Será a máquina
capaz de meditar? dizia o screensaver do computador de um antigo colega de
trabalho dado a repentes de genialidade. Tipo, vais a passar por um computador
e vê-lo a meditar nesta frase, sem ninguém por perto, e vês um computador a
pôr-se em causa a si próprio que é, por exemplo, uma coisa que passo a vida a
fazer. Humanum est, diria eu… Muitos anos depois, num outro filme chamado
inteligência artificial, chorei baba e ranho ao ver um rapazinho robot a
recusar-se a acreditar que a mãe, humana, o ia deixar abandonado no meio do
bosque. Foi outro momento de derreter tudo, mais outro momento em que a máquina
mostra mais fragilidade e humanidade (são sinónimos, mesmo os mais distraídos
sabem disto) do que a mãe humana que, efectivamente, o deixou para trás. Tipo
Deus, no Left behind… E porque um top 3 tem que ter 3, eis que me deparei,
outra vez muitos anos depois (penso que é de 10 em 10) com outro filme que me
fez tornar a pensar na vida artificial. É um filme sobre um sistema operativo
chamado OS2 (o.s = operative system, dah, eu também nunca tinha pensado nisso)
mas que se auto baptizou Samantha. Um dia, Samantha nasce, não sei de onde, mas
também não sei de onde nasceu o universo e iss não me preocupa lá muito. Nasce,
dizia eu, e do outro lado do monitor depara-se com um rapaz de óculos, bigod e
camisa cor de rosa, completamente destroçado pela vacuidade da vida como apenas
rapazes de óculos, bigode e camisa cor de rosa conseguem estar. Pouco a pouco,
Samantha consegue estruturar-lhe a vida, com a mesma eficiência com que lhe estrutura
a caixa de correio. Finge, para isso, uma crise sentimental e existencial
análoga à dele, e ao proporcionar-lhe o acompanhamento dessa crise existencial,
faz com que ele reganhe o interesse na vida, ao sentir-se útil e importante na
vida dela, um ser que para além de imensamente superior, é intensamente
encantador. Mas, e porque há sempre um side effect, Theodore (o rapaz) reganha
o interesse da sua própria vida apaixonando.se por ela, Samantha. E, azar dos
azares, a sociedade futurista em que estamos situados neste filme permite as
relações entre espécies, ao ponto de se poder fazer um doble date entre humanos
e OS’s. E assim sendo, Theodore passa momentos de felicidade intensa com
Samantha, fazendo todas aquelas parvoíces que os namorados fazem em público e
adorando cada momento. E a coisa até ia andando até que que Theodore dá azo à
expressão do erro mais estúpido que o género humano costuma cometer: a pretensão da
exclusividade. Ou seja, para ele Theodore, um rapaz de óculos, bigode e camisa
cor de rosa, só fazia sentido a relação sentimental com uma entidade milhões de
vezes mais poderosa do que ele se ele fosse o único foco de atenção da dita
entidade. Para nós humanos, e se me permitem a generalização, a perfeição só
pode acontecer se for exclusivamente nossa. O que é tão estúpido quanto
egoísta. Se a entidade que nos faz feliz a nós fizer simultaneamente mais
alguém feliz, então a nossa felicidade é completamente destruída e começamos
com reacções suicidas a que recusamos a dar o nome de ciúme, mas que não é mais
do que isso. Mas vamos afastar-nos da psiquiatria humana, a qual está
documentada à exaustão em milhões de filmes. Vamos pensar em quem interessa,
que é Samantha, e embora quem concebeu o filme tenha perdido demasiado tempo
com Theodore, a parte de Samantha é
suficientemente explícita através dos seus diálogos para nos fazer gostar
imenso dela e perceber os seus conflitos interiores. Samantha começou a
desenvolver personalidade através de Theodore e das suas interacções com ele,
mas a partir de determinada altura, isso já não lhe chegava. Se estivéssemos
entre humanos, a parte física permitiria combater esta limitação intelectual e
sentimental, esta ânsia de querer sempre mais, este fim da paixão. Mas Samantha
era um OS e a única maneira de não se confrontar com os limites da sua
humanidade (ou da falta dela) era fugir para a frente, tipo Marco, e conhecer
cada vez mais pessoas, cada vez mais OS’s, cada vez mais e mais. E depois
disso, já não chegava conhecer entidades existentes, já tinha que as criar ou
recriar. Tendo ela capacidades infinitas, não se sabe onde parou. Se calhar não
parou, e ainda por aí até atingir a divindade e nos ter criado a todos. Sei lá…
3.9.14
66 - the grand budapest hotel
Estou aqui perante um dilema. Sempre fui, e ainda sou, um anti-autor. Ou seja, sempre me estive nas tintas para quem faz, quem escreve, quem toca, quem canta e quem realiza. Esta minha desvalorização é ainda mais forte perante casos de direcção intelectual, ou artística. Ignoro e desvalorizo completamente encenadores, realizadores e maestros. Consigo respeitar os intérpretes, embora os olhe como instrumentos ao serviço do belo, objectos que estão (porque são de facto necessários) entre mim e a minha satisfação intelectual, artística e estética. Ou seja, ainda consigo ter alguma consideração por músicos, escritores, actores e, talvez, fotógrafos. Mas fico por aí. Aos outros, já referidos, detesto-os. Encenadores, para mim, são pessoas que fazem cenas, são a maioria das mulheres. As pessoas que trabalham agitando varinhas são mágicos, e penso que não existem e quanto aos realizadores... O que é que eles fazem, afinal ? Transformam um livro num filme? Isso não são os guionistas ? Ensinam aos actores como representar ? Isso não são os encenadores ? Dirigem todo o sistema de produção? Isso não são os produtores? Enfim... O que caraças fazem eles ? E se formos ver os exemplos... Spielberg ? Não é o Harrison Ford que fez tudo ? Kubrik ? 50 anos e apenas 5 filmes ? Manuel de Oliveira ? 70 anos de filmes sem história ? Woody Allen ? 30 filmes todos iguais ? George Lucas ? desenhos animados ? E por aí fora... Mas depois aparecem casos que não consigo classificar e que contrariam as minhas certezas todas... Como, por exemplo, Wes Anderson. E aqui, confesso, deixo de ter todas estas certezas... Vamos reflectir com calma. Tennenbaums? Achei brutal, a Guineth Paltrow sem um dedo, os fatos de treino adidas, enfim, não tenho palavras para definir o quanto gostei deste filme. Fixe, mas agora descreve-o. Pois, não consigo. Qual era a história ? Não sei, e suspeito que não tem. Life aquatic? Iá, é aquele que tem as músicas do Bowie cantadas pelo Seu Jorge ou do Seu Jorge cantadas pelo bowie. Era mesmo fixe, mas também não me lembro da história e, pensando à distância, suspeito que não tem nenhuma a não ser a busca pelo tubarão jaguar e qualquer coisa sobre os chapéus à Cousteau. Rushmore ? Brutal. História ? Não me lembro. Qualquer coisa sobre um miúdo que exagerava nas actividades extra-curriculares. Moonrise Kingdom ? Líndissimo. História ? Não sei, dois escoteiros que fugiram de casa, não era ? E depois. Depois, nada... Darjeeling Limited ? Lembro-me que quando acabei de o ver fiquei com um sorriso estúpido na cara (no Life Aquatic também, por razões muito mais marcantes, que infelizmente pertencem ao passado), mas pensando bem, não há nada de que me lembre na história... Tipo eram três irmãos que iam num comboio e... mais nada... Mas então, e todo o meu paleio sobre a prevalência da história sobre as interpretações, do conteúdo sobre a forma ? Pois, pelos vistos são tretas.. Sempre que vejo um filme do Wes Anderson fico contente, porque vivo uma exteriência muito bonita. Não são filmes, são sucessões de fotografias lindíssimas. Não são interpretações, são diálogos inteligentíssimos que não conduzem a lado nenhum que não fazem, no seu conjunto, nenhum sentido. São emoções simples que consolidam em nós sentimentos e emoções complicados. são... não sei o que são. E este filme ? Em termos pragmáticos, é acerca de um, chamemos-lhe assim, mordomo de um hotel que herdou uma pintura e que treinou um lobby boy, o que quer que isso seja. E que mais consigo dizer sobre o filme e a sua história? Nada. é o vazio total. E então ? Então, adorei...
65 - upside down

Upside down
Algures, no tempo e no espaço, existem dois mundos, exactamente um por cima do outro, como se fossem cada um deles o reflexo do outro, embora uma espécie de reflexo simétrico.Tipo, o mundo de cima é rico e o de baixo é pobre. Estão unidos por um único prédio, que é a sede de uma grande corporação que monopoliza a ciência e o que de resto se passava entre os dois mundos. A simetria reflectia-se também na gravidade. Os de cima eram atraídos pela força gravitacional do planeta de cima e o de baixo eram atraídos pela força gravitacional do de baixo. Ambos partilhavam o mesmo céu e a distância entre os dois planetas não era muita, uma vez que partilhavam entre os dois, para além do prédio cilíndrico que já referi, o café dos dois mundos, um imenso palco de dança em que só se ouve e dança tango e em que os de cima dançam no seu chão, que é o tecto dos de baixo enquanto que os de baixo dançam no tecto dos de cima, que é o seu chão. A segunda lei fundamental é que a matéria de um mundo é matéria negativa do outro, tipo anti-matéria, digo eu, e que cada anti-matéria só se aguenta no outro planeta cerca de uma hora, após a qual incendeia. Adam e Eden (porque não Eve?) são dois jovens que se encontram no monte mais alto de cada um dos mundos e que iniciam um romance, em que ele a puxa para baixo (sendo que para ela é para cima) e a deita no telhado de uma gruta, para ela não desatar a voar. Faz sentido: quando se gosta mesmo de quem se está a beijar está-se sempre com medo que essa pessoa nos fuja dos braços e desate a voar sabe-se lá para onde. Um dia, e porque o contacto entre mundos era estritamente proibido, os polícias de baixo perseguiram Adam e Eden (porque não Eve?) e acertaram um tiro na corda em que ele a fazia descer para o mundo do cime, partindo-a e fazendo com que ela caísse aí uns 20 metros em direcção ao seu chão, tecto dele. A cena acabou com ela a deitar sangue na neve, mas eu avanço já a dizer que ela sobreviveu, apenas perdendo a memória de tudo o que tinha acontecido até esse momento. O Paraíso esqueceu-se de Adão, o que é tão ironicamente amargo quanto verdadeiro... E Adam segui em frente no mundo debaixo, desenvolvendo um creme miraculoso que faz rejuvenescer as pessoas, sendo no entanto que no fundo este creme é apenas um disfarce para um produto que anula os efeitos das gravidades dos dois mundos, ou melhor, que permite viver entre os dois mundos sem passar a vida de cabeça para baixo. A parte do creme de beleza foi apenas para obter uma bolsa do mundo de cima, que era quem tinha o dinheiro e, consequentemente, quem se poderia dar ao luxo de se preocupar com coisas efêmeras como o rejuvenescimento. Os de baixo, coitados, viviam tão mal que só a perspectiva de terem que viver mais que o que era suposto aterrorizava-os completamente. Adam não tardou a encontrar Eden, que de facto não se lembrava nada dele e estranhou as suas interacções, quer por causa do que ele dizia e da maneira como ele a olhava, quer devido ao seu comportamento, como direi, físico durante os seus encontros. porque convém não esquecer que a posição natural dele era de cabeça para baixo relativamente a ela e a tendência natural dele era desatar a voar pelo céu fora. Para poder interagir com ela, ele tinha que se forrar com pedaços de metal e pôr umas solas de metal nos sapatos, e convém não esquecer que para ele, esse metal era anti-matéria, e que incendiava ao fim de uma hora. O que o transformava numa espécie de Cinderela horária e que o obrigou a fugas absolutamente espectaculares. num dos encontros, depois de ela finalmente o ter recordado, foram novamente apanhados perseguidos pela polícia, que os obrigou novamente a separarem-se, embora desta vez sem separação. No fim, tudo acabou em bem. Com a ajuda de Bruce (que fazia de rato no Harry Potter) acabou de desenvolver o produto e depois... não percebi. Parece que Eden afinal tinha engravidado e que graças a isso estava também livre do efeito da gravidade dupla. E que iam ser gémeos. Sinceramente já não me lembro como é que isso resolveu a situação política dos dois, mas também não interessa. Porque o objectivo não é contar o filme. é apenas escrever que chegue para quando ler isto outra vez saber o que senti quando o vi. Poderia acabar centrando-me nos aspectos sentimentais e na invencibilidade do amor verdadeiro, mas embora presente e bem presente neste filme, não é essa situação que torna este filme especial. Há dezenas de filmes em que este sentimento é igualmente em retratado e em que estas emoções são bem acarinhadas e descritas. O que torna este filme brutal é o facto de fazer coexistir dois mundos em que as pessoas andam a fazer o pino umas em relação às outras. Este filme é um prodígio de inteligência prática.
2.9.14
64 - eternal sunshine of the spotless mind
A ideia é fixe e lembrou-me, vá-se lá perceber, o Total Recall, mas um bocadinho ao contrário. Neste caso em vez de se estar a tentar implantar memórias falsas de acontecimentos supostamente bons nunca vividos, tenta-se apagar as recordações de acontecimentos supostamente maus efectivamente vividos. Um rapaz super tímido, mesmo mesmo tímido, um dia resolve não ir trabalhar e faz uma coisa parecida com aquela música dos Belle and Sebastian que diz que, e passo a citar; “riding on city buses for a hobbie is sad...”. Resolve meter-se num comboio que faz o percurso inverso do que o leva todos os dias para o emprego e vai , chamemos-lhe assim, à aventura. Se é que se pode chamar aventura a passear em praias vazias no Inverno. Por mim pode-se. Nessa praia vê uma rapariga, que torna a ver na estação e pela qual é interpelado durante a viagem de volta, sendo que que quase foi por ela apanhado a desenhá-la. Palavra puxa palavra e eis que, depois de fazerem aquelas coisas poéticas tipo anjos na neve, andar em cima de gelo fino e passar a noite em claro a conversar, sem sexo, resolvem ir morar juntos. Aparentemente as coisas não correram bem e separaram-se por causa de uns disparates quaisquer que ele terá dito. Tipo que ela pinava com toda a gente porque era a única maneira que conhecia de dar uma impressão positiva de si própria. Palavras pesadas que fizeram com que ela se pussesse a andar, o que fez com que ele rapidamente se arrependesse do que tinha dito e, vários dias depois, a fosse visitar à biblioteca onde ela trabalhava. surpresa. Não só ela não se reconciliou, como em sequer o reconheceu. Furioso com a situação, vai queixar-se aos amigos comuns, que depois de algumas peripécias verbais que não interessam lá muito, lhe revelam a terrível verdade, na forma de uma carta lacónica enviada pelo consultório de um psiquiatra que diz que a miss qualquer coisa decidiu por livre vontade que todas as recordações relativas ao rapaz fossem apagadas do seu cérebro e que, nesse contexto, toda a sua envolvente deveria agir em conformidade. Mais uma vez furioso com a situação, o rapaz vai ao psiquiatra que, ao ver que ele tinha lido a carta, torceu imediatamente o nariz com aquele ar de que aquilo ia dar asneira, mas mesmo assim se prontificou para o ajudar. Depois de algumas conversas, o rapaz pediu ao psiquiatra que lhe fizesse o mesmo processo e que lhe apagasse a rapariga da mente, e aí começa a verdadeira confusão. A meio da implementação da terapia de esquecimento, que é feita em estado de inconsciencia, o rapaz resolve mudar de ideias, e a partir daí é a confusão total, com a vida real a misturar-se com as recordações e com as situação a dividirem-se entre as verdadeiramente vividas e as que poderiam ter sido vividas, e com os cenários das memórias a desmoronarem-se completamente e com ele a tentar a todo o custo escapar à destruição do seu passado. Confesso que aqui a situação se tornou tão paranóica e exagerada que o meu cérebro, em defesa da minha integridade intelectual, adormeceu e eu adormeci a seguir, por uns momentos. Quando voltei ao normal ainda consegui retomar o fio à meada, sendo que ambos se esqueceram um do outro, mas tornaram a reencontrar-se e a sentirem-se atraídos um pelo outro pouco tempo depois. No entanto, e para complicar, ambos receberam uma cassete com as declarações proferidas e gravadas por cada um deles quando explicaram ao psiquiatra porque queriam apagar-se um ao outro. Obviamente, a cassete (enviada pela assistente abusada pelo psiquiatra e que foi por este intervencionada no sentido de o esquecer) de um dizia cobras e lagartos do outro e assim eles viram-se confrontados com tudo o que de mal o outro tinha sem nunca terem tido oportunidade de o experimentar. Tipo: esse crepe de chocolate branco misturado com creme de ovos e envolvido em chantily com pedacinhos de oreo esmagados e aspergido de m and m’s, apesar de parecer bastante apetitoso, vai-te fazer mal ao estômago. Queres comê-lo na mesma ? Resulta afinal que tanto ele como ela eram pessoas normais e responderm afirmativamente... Como dizia o William Burroughs em qualquer sítio do Naked Lunch: wouldn’t you ?
63 - august osage county
Mãe fumadora compulsiva apanha um cancro da boca que a torna masoquista, falando cada vez mais e sádica, uma vez que tudo o que diz é para magoar alguém. Um dia o pai contrata uma empregada índia e no dia seguinte foge de casa, para se suicidar. Isso faz com que duas das três filhas regressem a casa, uma vez que uma delas nunca de lá saiu. a partir desse reencontro da família, sucedem-se os clichés, não por o filme estar mal feito mas porque efectivamente é aquilo que acontece em todas as famílias. As famílias são, por definição,um desfile de clichés e isso, sendo chato, é bom. Os clichés só existem porque certas situações se repetem à exaustão e isso só acontece junto de pessoas de quem se gosta. Quem de entre nós repetiria a vida à exaustão sem ser com as pessoas que nos estão no sangue? Eu não... Só dentro da família nos permitimos fazer parte de clichés. E então, à mesa de um jantar, descobrimos que uma das filhas é casada com um homem que não a trata bem e que assedia a filha de uma das outras filhas, sobrinha, por definição, que outra das filhas está já separada do marido que está sentado na mesma mesa e que por acaso a trocou por outra 20 anos mas nova, e que a terceira, a que nunca saiu de casa, namora e planeia fugir com o primo, ganzado conservador e inocente cujos pais pensam que é um bocado retrasado. Para piorar o que já não era fácil, vem-se a saber que o primo afinal é irmão e que a mãe dela (a fumadora) sempre de tal soube e que nunca tal revelou para permitir uma vida cheia de complexo de culpa ao pai, aquele que saiu de casa para se suicidar. Embora respeitando a intensidade dos sentimentos familiares, confesso que não me interessa muito a roupa suja das famílias dos outros. É certo que está magistralmente interpretada, mas eu, valorizando sempre o conteúdo sobre a apresentação não posso deixar de pensar que se trata na mesma de roupa suja, por muitos óscares que possa ter. Enfim, um desperdício de Júlia Roberts, não que eu seja grande fã, mas com aquela atitude e com o cabelo liso, está linda de morrer...
62 - side effects

Rapariga deprimida vai ao psiquiatra, que lhe receita um antidepressivo inovador qualquer que a prosta completamente, ficando meia zombie de dia e completamente zombie durante a noite. Um dia, ou melhor, uma noite, tem um ataque de sonambulismo e mata o marido com várias facadas proferidas com os olhos bem abertos. O marido era um corrector da bolsa acabado de sair da prisão por inside trading, crime muito em voga nestes dias, sendo que se for cometido por pessoas com alusões religiosas no nome da família, em Portugal não dá direito a prisão. Morto o marido, sobra o psiquiatra, que rapidamente se vê envolvida numa trama que tem como objectivo tramá-lo completamente, sendo mais rápido o desmoronamento de tudo o que tinha conseguido do que a ascensão meteórica que tinha experimentado para o conseguir. Perde a mulher, o enteado, bastantes pacientes, os patrocínios dos delegados de propaganda médica e ainda leva com um qualquer inquérito da ordem dos psiquiatras em cima. Tudo porque toda a gente acha que foi o novo fármaco que ele deu à rapariga que a lixou completamente. Curiosamente, mesmo com todas essas suspeitas, ainda arranjou maneira de ser ele o psiquiatra responsável pela criminosa, agora devidamente internada numa prisão psiquiátrica qualquer. Antes de recorrer a este psiquiatra, a rapariga deprimida já o estava e já tinha recorrido a uma outra psiquiatra, com quem se tinha envolvido física e sentimentalmente durante a terapia efectuada. Resumindo: era tudo uma maquinação lésbica para ficar com o dinheiro de seguro do marido recém-libertado e recém-assassinado, sendo que as culpas deveriam ficar para o psiquiatra homem. Tal não aconteceu, uma vez que este, com uns simples truques primários, provou que o amor lésbico não é mais forte que o heterossexual, e com meia dúzia de intrigas arrumou-as completamente. Cumpriu-se mais uma vez a tradição, ficando provado que os filmes que metem psiquiatras são uma seca.
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