18.4.09

22 - jpod



Douglas Coupland.
Tenho uma teoria que um livro com capa preta é sempre bom, ou pelo menos se não estiver saturado com imagens, fotografias ou letras pouco discretas. Não me tenho dado mal com esta teoria. A partir de agora vou estendê-la aos livros de capa branca. Também resulta, seja com aqueles policiais da colecção Noites Brancas, seja com o que me apareceu agora à frente, chamado jpod, escrito por um escritor chamado Douglas Coupland. Que me provoca uma sensação bastante confusa. Porque tenho muita dificuldade em confessar-me abertamente adepto (não gosto de fãs) de um escritor de anti-heróis, de personagens que fazem tudo o que podem para sair dos cânones sociais existentes. É confuso: existe um escritor que passa a vida a escrever sobre personagens claramente não alinhadas com a sociedade, mas que depois lhes banaliza a vida e quer demarcar-se ainda mais dessa sociedade dizendo: ei… ok que vocês não são lá muito normais, mas eu sou mais anormal ainda, porque consigo escrever livros inteiros sobre a seca que a vossa vida é. Tipo: caricatura gajos meios lixados da cabeça que por sua vez caricaturam a sociedade e os seus tipo normais. Até me parece bem, malhar nos geeks, nerds, artistas, intelectuais e afins, porque no fundo até sabemos que eles têm o que nós, normais, não temos. Nósnormais. Gosto. Vou passar a utilizar este termo… Concretizemos. Jpod é um escritório de programadores de jogos de consola em que o único requisito é fazer o que se quer ao mesmo tempo que se trabalha. Tipo um Google só com dementes. Existem 4 ou 5 pessoas cujo principal objectivo é terem nomes esquisitos com motivo para o ser e serem capazes de diálogos geniais. Detesto fazer resumos propriamente ditos dos livros, mas não resisto a uma enumeração barra citação:
Ethan, nome normal, pai eterno figurante de papéis sem falas em filmes obscuros, campeão de danças de salão e que ultimamente anda a fazer sexo com uma antiga colega de liceu dele. Mãe plantadora barra dealer de marijuana, com contactos a vários elementos do submundo, que hora seduz, ora cobra ora mata. Irmão promotor imobiliário com ligações ao submundo, nomeadamente à importação ilegal. De chineses. Ethan está sempre disponível para a família, fazendo sempre um ar de enfado enquanto esconde a namorada do pai, enterra o namorado da mãe ou esconde e depois dá banho a 20 imigrantes ilegais chineses do irmão. É o maior lançador de desafios inverosímeis aos colegas de trabalhos, tipo escreverem uma carta ao Ronald MacDonald a convencerem-no a pinar com eles…
Mark Mau, Bree e Caithlin. Nomes normais para pessoas menos normais. Na mesma onda…
Cowboy do Cancro. Não sei porque se chama assim. É viciado em sexo anónimo. Isto não tem nada a ver com o nome. Nem com o resto.
Fulano de Tal. É o meu preferido. Fulano nasceu no meio de uma comunidade lesbo-hippie, sendo a sua mãe a principal orientadora barra fundadora da dita comunidade. Cresceu almejando a normalidade, bebeu coca-cola aos 15 anos e comeu carne pela primeira vez à volta desta altura, também. Foi tamanho o trauma que fulano só sonhava ser uma pessoa normal. Ao atingir a maioridade, mudou o nome para Fulano de Tal e passou a só fazer as coisas que a maioria das pessoas fazem. Todos os seus actos e gostos são escolhidos estatisticamente de maneira a serem iguais ao que a maioria das pessoas faz e gosta.
Todos juntos, envolvendo-se saudavelmente com a sociedade envolvente, vão interagindo com naturalidade com, entre outros, Kam Fom, gangster chinês omnipresente, com ideias super claras e um raciocínio extremamente bem articulado, igualmente fanático por danças de salão, e cujo principal defeito é não ter sentido de humor. Nenhum. Este tipo de escrita confunde-me, pois não é preciso ser muito esperto para ver quão vazia ela é em termos de conteúdo. Mas diverte-me, porque é certeira na caracterização das situações que descreve. O problema é que as situações descritas não são importantes, nem sérias, nem produtivas, nem nada que se pareça. Mas são divertidas e fazem puxar pela cabeça e são tremendamente originais. Dá a sensação que o Douglas Coupland é uma reflex digital super rápida e com uma resolução monstruosa, que disseca na perfeição tudo aquilo m que põe a objectiva, conseguindo fotografias bonitas e super nítidas. Mas nunca aponta a máquina para nada de sério, limitando-se a fazer fotos instantâneas e puramente hedonistas. Ele escreve sobre nada para se divertir o que, tenhamos paciência, não é lá muito bom. Mas consegue também divertir-nos a nós, que o lemos e isso, tenhamos paciência, é bastante bom. A mim, faz-me sentir que sou das poucas pessoas do mundo que consigo perceber as suas imagens, que consigo compreender as suas descrições e faz-me sentir que compartilho a sua linguagem, ironia e inteligência. Faz-me sentir, enfim, inteligente. Quem não gosta de se sentir assim ? Melhor só sentires-te apaixonado...

19.1.09

21 - A rapariga das laranjas



Jostein Gaarder.
Li este livro por tua causa, porque as preferências partilham-se ainda que dificilmente coincidam. Custou-me muito começar. Um pai que descobriu uma doença terminal quando o único filho tinha quatro anos e que usou as últimas semanas de vida para escrever uma carta a esse mesmo filho. Uma carta em que se sentia na obrigação de lhe contar tudo aquilo que sentiu e que iria sentir nos anos que o filho viveu e nos que iria viver. Já imaginaste teres, neste momento, que dizer à pessoa de quem mais gostas no mundo, e o primeiro filho é sempre essa pessoa, tudo aquilo que algum dia sentirás por ele. Aqui há uns tempos tinha decidido abrir uma conta de mail para o João, em que lhe escreveria coisas ao longo do tempo e que lhe daria quando ele tivesse, sei lá, dezoito anos. Seria a minha maneira de fazer com que ele me conhecesse intimamente durante os anos em que eu mais dele gostei e que, curiosamente, são os anos em que eles não se apercebem disso. São nesses primeiros anos em que nós deitamos amor pelos olhos e eles quase não olham para nós. Curiosamente também, desde o dia em que soube da história deste livro, nunca mais lá escrevi nada. A angústia do pai acertou-me tão em cheio que senti um arrepio gelado de que nunca mais me esquecerei. Ainda assim, num fim de semana de maior carência, resolvi começar a ler o livro e fiquei imediatamente surpreendido pelo tom com que o pai escrevia, leve, saudável e divertido. Contava ao filho como tinha encontrada as primeiras vezes uma rapariga que andava sempre carregada com um saco de laranjas, facto para o qual ele arranjava novas teorias todos os dias. Desde ela ser a brigada anti-escorbuto de uma expedição polar até ser a nutricionista responsável por um colégio de criancinhas. E contava ainda todas as tentativas que fez para a encontrar, e como a encontrou, e como ela novamente estava carregada com um saco de laranjas, e como ele novamente não conseguiu dizer nada que não fossem disparates, e como ele novamente o surpreendia com respostas encantadoras de tão incompreensíveis. E como ela lhe disse que se esperasse por ela seis meses poderiam ver-se todos os dias nos seis meses a seguir, e como ele aceitou, e como ela lhe escreveu um postal, e como ele quebrou o acordo e foi atrás dela para Sevilha, onde passaram dois dias juntos, dois dias esses que lhe foram depois descontados nos seis meses seguintes. E contou finalmente o que todos nós já tínhamos percebido, que a rapariga das laranjas era a mãe dele, do filho, mulher do pai que lhe estava a escrever a carta. E o filho, já bastante abalado por estar a conhecer intimamente um pai que não conhecia e não teria mais oportunidade de conhecer, alegrou-se porque estava também a conhecer intimamente a mãe que já conhecia e que teria ainda muitas oportunidades para melhor conhecer. E o livro já tinha passado de metade e eu ainda estava sentimentalmente intacto, mas não tinha grandes dúvidas de que isso iria acabar. E acabou, acabou quando o pai dizia ao filho que amanhã o iria levar ao infantário e que seria a última vez que isso iria acontecer, porque a seguir iria para o hospital ser internado. E piorou ainda mais quando o pai não conseguia dormir à noite e ia para a varanda olhar para as estrelas por não ter coragem de olhar para o filho e de repente o filho aparece na varanda e ficam os dois abraçados a ver as estrelas. E o pai sabe que é a última noite em que pode apertar com força o filho contra o peito e olha para os olhos do filho e vê a inocência estampada e sente que o está a trair, a abandonar, a ir embora sem saber o que o filho vai passar e naquilo que se vai tornar. E nesse momento, decide que preferia não ter vivido para nunca ter que passar por esta situação, de ter que abandonar a melhor parte de si. E, também nesse momento, eu assino por baixo, porque também preferia não ter vivido do que ter que passar por isso. E constato que este é um livro que não se partilha com ninguém, porque é demasiado devastador e não deixa nada de pé cá por dentro. A sério que não.

29.12.08

20 - O afinador de pianos


David Mason
Era uma vez um afinador de pianos que morava em Londres. Super talentoso mas pouco sociável, talvez mesmo um pouco infantil. Foi o que me pareceu a avaliar pela mulher, loira autoritária e por pequenos pormenores da sua rotina, tipo enganar-se no caminho para casa, ou atrasar-se duas horas para chegar a casa e depois mentir à mulher dando desculpas pueris diferentes das coisas pueris que esteve a fazer. Claramente um artesão dotado mas meio aparvalhado, vindo mesmo a calhar o facto de ser inglês. Um dia, recebe uma carta do exército a convocá-lo para uma reunião com um coronel que rápida e eficazmente lhe diz o que a Rainha dele pretende. Na Birmânia existe um Major Médico com umas ideias muito sui generis sobre como efectuar a colonização, ideias que por muito que horrorizem o exército, apresentam resultados muito bons, conseguindo que o império vá crescendo sem ter que se disparar muitos tiros. Um exemplo do tipo de pessoa que o Major Médico era: um dia comandava um pelotão de reconhecimento pelo meio da selva birmanesa quando este começou a ser atacado. Impassível, enquanto os seus soldados se atiravam para o chão, o Major Médico tirou uma espécie de flauta do bolso e começou a tocar umas notas esquisitíssimas. Os tiros continuaram a cair à sua volta e ele continuou a tocar até que os tiros diminuíram e pararam. Desta vez contra o silêncio, o médico continuou a tocar até que se começou a ouvir, vindo do meio das árvores, uma flauta a tocar as mesmas notas…. A expedição prosseguiu até ao seu destino sem mais problemas e ainda com música extra… O Major tinha pedido ao exército um piano de cauda Erard para o forte que tinha construído no meio das montanhas birmanesas e esse piano, de entrega difícil e contrariada, se calhar por essa razão, desafinara. Sendo o major um inglês de gema (apesar de por esta altura já andar vestido com sais birmanesas), recusava-se obviamente a tocar num piano desafinado. Vai daí, tratou de exigir um afinador de Erards, sendo essa a razão pela qual Edgar (o afinador) acabou por ter aquela conversa com o coronel e lhe disse, com um simples aceno de cabeça, que sim, que ia até à Birmânia afinar o Erard. E foi, numa daquelas viagens que toda a gente sabe que mudam a vida de quem a faz. Não imaginava ele é que ia mudar a sua definição. De vida. Vou parar com a descrição da história. A ideia destes textos não é fazer resumos, mas sim falar sobre ideias interessantes que os livros apresentam, ou então sobre sentimentos que suscitam ou então sobre qualquer coisa que valha a pena que não seja contar o fim de história em meia dúzia de palavras. Mas é aí que se me depara um problema. Não me lembro de grandes sentimentos nem pensamentos nem nada do género que o livro me tenha provocado. Lá ao longe, ainda ví as névoas de umas paisagens distantse no meio do montanhas inacessíveis que escondiam algo de diferente e de único, mas essas imagens rapidamente desapareceram e, para dizer a verdade, penso que as tirei retirado de um outro livro, chamado Horizonte Perdido, de um escritor chamado James Hilton que nele descreveu Shangri-La, o paraíso perdido… Assim sendo, acabei por não perceber como é que um livro com uma ideia tão boa e original acabou por me deixar meio morno e sem grandes emoções. Após pensar um bocadinho, penso que sei porquê. Porque é um livro super inglês, metódico, conciso, rigoroso, competente e bom. Apenas não acende grandes chamas em nós. Talvez na lareira,,, Não. Até porque o livro é bom e, curiosamente, tem aquilo a que se chama boa imprensa. Toda a gente diz que gostou muito. E gostei. Muito é que não.

9.12.08

19 - A sombra do vento



Carlos Ruiz Zafon.
Comecei a ler porque andava desde há algum tempo à procura de um romance de grande fôlego, em que se contasse verdadeiramente uma história com princípio meio e fim. Em que houvessem personagens, emoções, acontecimentos marcantes, em que se passassem coisas. Paralelamente, várias pessoas me disseram que era um bom livro, por isso, na busca de uma espécie de reencontro com os romances de 500 páginas, lá fui eu, e comecei a ler um best-sellers. Não que isso me chateie por aí além... Muitos dos livros que eu mais gostei de ler, note-se que não disse os melhores livros que li, eram best-sellers. Gostei de ler os livros de Michael Crichton, do Dan Brown,do Harry Potter, do James Bond, do Saramago, do Sherlock Holmes, e por aí fora... Vai daí pensei que estaria a começar um livro que teria, ao mesmo tempo a leveza e o interesse de um best-seller e qualquer coisa mais, cujo cheiro eu sentia de uma forma muito ténue. Até porque o meu nariz costuma acertar nestas coisas... E logo ao princípio constatei isso... O livro começa com um pai e um filho viúvos que ainda mantém o hábito de falar com a mãe morta no meio da sua tristeza profunda. Mas é uma tristeza com uma coisa boa, é uma tristeza compartilhada, vivida a dois pelos dois. Ambos sabem o que perderam, do quanto gostam de quem perderam e que só se têm um ao outro, por isso não vale a pena negarem-se nem complicarem. Um dia, o pai leva o filho a um sítio chamado o cemitério dos livros perdidos, onde cada pessoa pode, entre um labirinto tipo biblioteca secreta do nome da rosa, escolher o livro que definirá o resto da sua vida. Para mim já não era preciso mais nada. O livro estava ganho logo ali nas primeiras páginas, o que me provocou logo uma desilusão resignada. Quando uma boa ideia desse calibre aparece logo nas primeiras páginas, é certinho que o resto do livro é sempre a descer. E foi o caso. Mas, mesmo assim, foi bom na mesma...Continuando e sistematizando, podia-se dizer que é um livro sobre um livro, sobre o livro da vida do filho de um livreiro, uma vez que tudo o que se passa na história (até o titulo desta) é motivado por um livro, mas não estaríamos a ser muito factuais. Porque o que move o personagem principal (Daniel) não é o livro em si, mas sim o escritor que o escreveu. Será então um livro sobre um escritor (Julian)? Também não, porque o escritor desapareceu, e embora a sua busca por parte de Daniel seja de facto o que o livro conta, no fundo o que nos é principalmente contado é a história das pessoas que viviam à sua volta. E é ao lermos sobre a vida de todas estas pessoas que nos é dado um vislumbre da Espanha pré guerra civil, do estado repressivo, das confusões ideológicas, da inconstância do poder. Por isso, por serem apenas vislumbres, também não podemos chamar a este livro um romance de época nem muito menos um romance histórico. Assim sendo, a única coisa que podemos dizer é que é um livro sobre pessoas e, pensando bem, essa é a definição de romance por definição (a repetição de definição foi intencional; não me enrolei no raciocínio). E que pessoas? De Daniel, rapaz sem nenhuma característica especial que se limita a perseguir o livro da sua vida, do pai de Daniel, livreiro simultaneamente amargurado com a vida mas doce com o filho e com o mundo, de Clara, rapariga cega que adora ler (que lhe leiam), que foi a primeira fixação de Daniel e cujo desempenho sexual perturbador ainda hoje consigo vislumbrar, do tio de Clara, que só falava com palavras esdrúxulas, do inspector da polícia de cujo nome no quiero acordar-me J , de Fermin, homeless recuperado, viril como um miúra mas saco de pancada da polícia, cujos diálogos, erudição e sensatez sentimental valem só por si o livro, de Miquel de Moliner, discípulo precoce de Freud, analista implacável e infalível do género humano (ele, não Freud), poço de sentimentos puros e meu personagem preferido do livro e de Julian, o escritor. Julian Carax, que escrevia livros que não se conseguia parar de ler mas que ninguém comprava, que toda a gente à sua volta adorava e não conseguia deixar de adorar, mas que nunca gostou de si próprio. Que todas as mulheres (a mãe, Nuria, Penélope) amavam mas que nenhuma conseguiu ser feliz com o seu amor. E que, acima de tudo, escreveu um livro que provocou uma confusão tão grande no romance que nem mesmo leitores esclarecidos como eu, conseguem depois dizer coisa com coisa quando o tentam resumir. Duas certezas. Uma: gostei muito. Duas: não é uma comédia...

10.10.08

18 - Gog



Giovanni Papini

Sempre achei que o mais dificil quando se escreve um livro á ter a idéia. Acho a idéia tão importante que acho que deveria passar a chamar-lhe "A Idéia". Não é dificil escrever bem. Quer dizer, se calhar até é dificil, mas há muita gente que sabe escrever bem, e a maioria das pessoas que não sabe é por pura preguiça. Não é transcendente saber alinhavar umas palavras pela ordem correcta ao longo de uma frase, até porque não está escrito em lado nenhum que escrever bem implica complicar muito. Pelo contrário. Eu, adepto confesso da frase curta, acho que na simplicidade está muito do mérito de uma boa escrita. De qualquer forma, e no que diz respeito aos livros, a boa escrita pouco ou nada interessa. Os franceses do século 19 escreviam super bem e não saiu um livro de jeito de toda a sua produção (pelo menos do Balzac, Baudelaire,Proust, Flaubert, Stendhal e Victor Hugo). O Kafka era competente a escrever mas o que é facto é que não se aproveita nenhum dos seus livros, que são, convenhamos, uma seca. Bem, poderão não ser todos, se calhar é pretensão minha generalizar, uma vez que não os li a todos. Só li O Processo, O Covil, A metamorfose, A grande Muralha da China e O castelo. O Milan Kundera escreve bem e até conseguimos de facto retirar algum prazer da sua leitura, mas todos os seus livros são iguais e hoje, alguns anos depois de os ter lido, confundo-os todos e não me lembro de nenhum. Convém mais uma vez não generalizar, uma vez que só li A brincadeira, A insustentável leveza do ser, O livro dos amores risíveis, A valsa do adeus, A vida não é aqui e A imortalidade. O António Lobo Antunes escreve tão bem que parece, quando lemos os seus livros, que estamos a ouvir uma voz tão doce que pertence a uma pessoa que expira rebuçados, mas depois de os ler, ou ainda a meio da leitura, já não nos lembramos de nada do que está para trás. Mas não quero generalizar: só li o Auto dos danados, A ordem natural das coisas, os Cus de Judas, o Tratado das paixões da alma, A morte de Carlos Gardel, a Memória de elefante. Enfim. poderia continuar com os russos, mas esquece lá isso. Ou então com os americanos, aquele tridente adormecedor completamente desprovido de idéias interessantes, constituido por William Faulkner, John Steinbeck e Ernest Hemingway, curiosamente, todos prémio Nobel, penso eu. É chato e culturalmente incorrecto dizer mal do Hemingway, principalmente porque não li os livros dele todos. Só li o Paris é uma festa, o Velho e o mar, Por quem os sinos dobram, As neves do kilimanjaro, O adeus às armas e o Jardim do Éden . Mas não. A idéia é falar deste livro espantoso, cheio de boas idéais chamado Gog. Então é assim. Gog é um milionário aborrecido que tem um iman interno que atrai excêntricos e, quando esse iman não funciona, então é ele próprio que se propõe fazer as coisas mais incríveis. Enumeremos então o que o livro nos conta, de memória e sem ordem.

Para começar, há todo o conjunto de conversas com Henry Ford, Ghandi, Einstein, Freud, H G Wells, George Bernard Shaw, Edison, o Conde de Saint Germain, Lénine e alguns outros. Não serão propriamente conversas, uma vez que Gog, super inteligente, se limita a deixá-los discorrer sobre o que lhes vai na alma e no corpo. Não são também entrevistas, porque Gog não se dá ao trabalho de lhes fazer perguntas. Ele sabe que com os génios, a única maneira de interagir é deixá-los falar livremente, não correndo o risco, nem de se lhes fazer perguntas idiotas e insuficientes sobre a matéria que eles dominam, nem fazendo perguntas idiotas sobre coisas que a eles não lhes interessam nada e que, consequentemente, nada de importante teriam a dizer. E depois há a própria atitude de Gog perante os génios. Ele espera genuinamente que os outros tenham alguma coisa para lhe ensinar, mas mantém uma atitude cáptica e desapaixonada, prevendo à priori que nada de muito novo vai sair dali. Ás vezes engana-se, mas às vezes não.

Outra vez, fala-nos da colecção de sábios que fez, sábios multi disciplinares, multi rácicos e multi, chamemos-lhe assim, religiosos. Obviamente que constata que, ao dar-lhes uns minutos de atenção para que façam as suas habilidades, eles não são nem muito hábeis nem lá muito honestos. Constata aquilo que eu lhe poderia ter dito. Os sábios, feiticeiros, sacerdotes e etc das tribos são apenas aqueles que inventaram um pretexto para não terem, nem que caçar, nem arrumar a caverna.

Noutra ocasião, descreve-nos a ilha em que estava estipulado pela lei que a população nunca poderia ultrapassar os 770 habitantes, número que ultrapassado poria em causa o equilíbrio ecológico. Assim sendo, todos os anos num determinado dia, se fazia o balanço e se matava os que excediam esse número, sendo os excedentes escolhidos por critérios que não se poderia considerar isentos de lógica.

Entre os inúmeros excêntricos (ou não) que recebia, podia-se contar o historiador que escrevia a história do presente para o passado, pois só analisando as consequências que os actos tiveram no presente se poderia julgar correctamente da sua pertinência quando foram cometidos no passado.

Ou o médium que convocava, não os mortos, por considerar que estes não poderiam trazer nada de novo ao presente, mas os vivos, pois esses é que poderiam contribuir com algo de útil. Um aparte. Este médium fez Gog tomar consciência da sua profunda solidão, dado que não havia ninguém entre os vivos que ele quisesse invocar. Assim, mesmo sendo o médium competente e aparentemente honesto, não tinha nenhuma serventia para Gog, que o mandou imediatamente embora e, penso eu, que sem dinheiro para o táxi.

Ou o representante da FOM, friends of mankind, que advogava que o aumento contínuo da humanidade na terra é contrário à própria humanidade. A solução passaria por, segundo a FOM,eliminar aqueles que não faziam falta, tais como os inúteis, os criminosos e os velhos, que já viveram bastante.

Voltando às colecções, Gog coleccionava anões, gigantes, sósias, gémeos, todos "objectos" que tinham uma qualquer qualidade intrínseca que os tornasse diferentes e originais no meio da humanidade. Embora seja evidente que faria muito mais sentido uma colecção de super modelas, não consigo deixar de achar piada a uma colecção de gigantes, metidos numa qualquer sala de pé direito triplo ou mesmo quádruplo. E, na sala seguinte, de pé direito zer virgula cinco, a colecção de anões, que não consigo imaginar de outra maneira que não resmungões. Mas isto sou eu... Gos não fazia juízos de valor...

E depois o capítulo das convicções pessoais que Gog tinha. Que as pessoas deveriam todas usar máscaras, e que havia quatro razões para isto. A razão higiénica (confesso que não apanhei bem esta), a razão estética (esta será evidente), a razão moral e a razão educativa. Não vou comentar...

Ou então a convicção de que um dos piores vícios da humanidade era comer em sociedade. Sendo a alimentação um instinto perfeitamente individual (são raros os exemplos em que espécies se alimentam em conjunto, tirando talvez os leões e as hienas, que são dois maus exemplos) Gog sugeria que todas as casa tivessem micro compartimentos onde as pessoas poderiam tomar as refeições educadamente sozinhas. Tipo casas de banho. E embora os mais sensíveis se possam repugnar com esta comparação, ela é perfeitamente lógica. Ambas as acções envolvem troca de alimentos entre o interior e o exterior do corpo humano, mudando apenas a extremidade em que a acção se passa e o sentido em que a acção decorre. Não quero ser fundamentalista, mas pelo menos no que diz respeito à fruta, assino por baixo tudo o que ele diz...

Enfim, dado serem inúmeros es exemplos de idéias, chamemos-lhe assim, originais, fico-me por aqui. Agora digo e repito. Num único livro, Giovanni Papini desfila mais idéias (e mais originais) que todos os prémios Nobel juntos.

2.9.08

17 - Fever pitch


Nick Hornby.
Finalmente, um livro para homens. Eh pá; isto começou mal. Outra maneira de começar mal seria: ena… um livro de futebol. Até que enfim. Bem… Isto está a começar mesmo mal, mas os opostos atraem-se, toda a gente sabe disso menos eu, que em tal não acredito… Adiante. Este livro tem 3 características que, quer vistas apenas superficialmente, quer analisadas com profundidade excessiva, me atraem irremediavelmente.

A primeira é que é um livro que fala sobre futebol sob o ponto de vista sentimental, que é, a par do campo, o sítio onde o futebol se joga. Á flor da relva e junto ao peito. Sem intelectualizações idiotas sobre coisas que são sentidas e apreendidas directamente com os sentidos. Mas conferindo ao assunto a importância que ele realmente tem, pois o maior erro dos intelectuais das praças é acharem um futebol uma coisa primária, esquecendo-se que é de 3 cores primárias que todas as outras são feitas. É bom ter uma paixão. É bom sofrer incondicionalmente por algo que não é justificável de forma alguma. É bom sentir em conjunto com mais milhares de pessoas as mesmas emoções no mesmo instante. Quão diferente isso é de Fátima? Ou de ouvir o hafsol num concerto dos Sigur Rós? É bom termos a certeza de que nunca estaremos sozinhos, que aos domingos à noite, de inverno, quando todas as famílias gozam juntos os últimos momentos do fim de semana, nós também não estaremos sozinhos, porque haverá sempre alguém que terá algo para nos dizer, alguém de gravata e bom aspecto que se dá ao trabalho de falar de um assunto que gostamos e que percebemos, alguém cujo nome será qualqer coisa como domingo desportivo. É bom saber que há coisas em que somos efectivamente inteligentes, em que somos mesmo mais inteligentes que todos os outros que mandam em nós no resto do tempo, porque o futebol é como o sexo, quanto mais baixo estás na hierarquia material mais e melhor o fazes. E melhor o comentas… O futebol poderia perfeitamente ser aproveitado como linguagem oficial dos povos, aquilo que o esperanto nunca foi e que o inglês também não quer ser. Os diplomatas seriam ex-internacionais das respectivas selecções, conjugando simultaneamente conhecimento técnico da matéria do qual são embaixadores e esperiência profissional. Nunca mais haveria um almoço político aborrecido, com um protocolo intragável. Os representantes de cada país já se conheceriam, já teriam jgado uns contra os outros, já saberiam quais as manhas de cada um. Seria também bastante mais justo, uma vez que são sempre os países mais pobres que têm os melhores jogadores. Alguém imagina numa negociação de dívidas externas qualquer ex-jogador americano ou suíço levar a melhor sobre o Zico ou sobre o Sócrates?

A segunda caracteristica é uma espécie de melancolia masculino-juvenil que ele consegue transmitir na maneira como escreve. Antes que prolifere o mal entendido, explico-me. Ao ler os pensamentos dele sobre o dia a dia, sobre a maneira como, sábado ou domingo depois de almoço, a chover, se punha a caminho para ir ver os jogos, recordo-me invariavelmente…de mim. E sinto saudades, porque as sensações de ser filho único, de ter como principal interlocutor a mim próprio, de passar tardes sozinhos no estádio, de preferir os jogos “pequenos”, em que tinha quase a certeza que o porto ia ganhar, de sentir medo dos gunas, de sofrer sozinho (nunca fui muito de exteriozar emoções), enfim, todas essas coisas que o livro descreve metodicamente, entram-me directamente no sangue, sem passar pelo cérebro. Há diferenças, evidentemente… Eu nunca virei as costas quando a minha equipa ia marcar um penalti. A minha cor é o azul, e nunca, nunca o vermelho. Por outro lado, também não me consigo lembrar dos resultados de uns anos para os outros. Por favor... eu tenho vida para além do jogo, mas sei o que este jogo pode representar para a vida.

A terceira é a parte técnica propriamente dita, que é aquela menos verbalizada e comentada. Faz-me muita confusão como é que se pode viver e discutir um assunto até à exaustão e não se falar das coisas que realmente ineressam, tais como a forma de passar, de chutar, de cabecear, de desmarcar e, também importante, de marcar. golos. Como é que se consegue falar tanto de futebol em Portugal e não se falar nestes aspectos fundamentais. Este livro deveria ser de leitura, análise e plágio obrigatório por todos os jornalistas desportivos que escrevem sobre futebol. Pergunta pertinente: o jornalismo desportivo é passível de curso superior? Gostei muito da parte em que se descreve o mais importante golo da carreira de um qualquer ponta de lança ineficaz em todo o resto da sua carreira. Por muito ineficaz que tenha sido, por muito mal que jogasse, por poucos golos que marcasse, conseguiu marcar a vida de um jovem (e se calhar de quantos mais) de tal forma que hoje a sua história é contada em livro. Reflectindo: quantos de nós já conseguiram marcar de forma tão expressiva a vida de tanta gente ? Quantos de nós estão ou estarão imortalizados em livro ? Eu, não sei bem porquê, confesso que não estou. É esta a magia do futebol, se entendermos como magia os fenómenos inexplicáveis que, de alguma forma, nos encantam. É esta a magia deste livro, que nos faz apreender tão facilmente todas as emoções relacionadas com este fenómeno. Mas não a todos... Só aos desportivamente esclarecidos.
Acabo com uma citação. A tradução é livre e é minha, mas reflecte tudo:
"Não quero morrer depois de um jogo. Parece-me excessivo, como se o futebol fosse o único contexto possível para a morte de um adepto. Não quero ser lembrado com um abanar de cabeça e um sorriso vago confirmatório de que esta seria efectivamente a maneira que eu teria escolhido de morrer. Deêm-me gravidade em vez de coerência barata".

13.6.08

16 - A morte melancólica do rapaz ostra


Tim Burton.
Era uma vez um palito que se apaixonou por uma fósfora. Tinham tudo em comum, digo eu. Eram os dois altos, magros, bonitos e sentiam um grande prazer em gostar de alguém. Tanto gostaram um do outro que a situação ficou, chamemos-lhe assim, fogosa. Tão fogosa que incendiaram. Os dois. Arderam num instante. Era uma vez uma rapariga esbugalhada. Esbugalhada? Sim, sempre a olhar esbugalhada para toda a gente. Olhava para o céu, olhava para o chão, e se tivesses sorte, olhava para ti até mais não. Era tão boa a esbugalhar que resolveu entrar num concurso que facilmente venceu. Mas nesse dia cansou-se, tirou os olhos fora e pô-los a descansar. Onde? Junto ao mar. Era uma vez uma rapariga que tinha muitos olhos. Quase dez. O seu maior medo era Ter de usar óculos, pelas razões evidentes. Era bonita, ela, mas tinha um senão. Quando começava a chorar, molhava até mais não. Era uma vez um rapaz chamado nódoa e era um super herói. Não voava. Não saltava. Apenas sujava. E por tanto sujar, bastante sofria. Por causa da conta da lavandaria. Era uma vez um casal que se casou junto ao mar e pouco depois, estavam a pinar. Nasceu-lhes um filho com cabeça de ostra. Que em todo o lado, estava sempre à mostra. Um dia o pai, para se sentir paradisíaco, usou-o como afrodisíaco. Comeu-lhe a cabeça, após hesitar. O resto do corpo, enterrou junto ao mar. Chorando jurou, nunca o esquecer, mas bastou a maré alta, para tudo varrer. Era uma vez uma rapariga, a rapariga vudu, que tinha alfinetes coloridos espetados "par-tout". Era muito carinhosa, estava sempre a amar, mas quanto mais amava, mais os alfinetes, se acabavam por enterrar. Era uma vez uma rapariga que tinha os cabelos fofos como penas, uma pele suave como flanela e um corpo branco como algodão. Transformou-se num edredão. Era uma vez um rapaz que era super tóxico. Respirava escapes, chaminés e afins. Um dia respirou ar puro e pararam-lhe os rins. Morreu e foi para o céu, chegou lá em nono. Mas no caminho para cima, fez um buraco no ozono. Era uma vez um rapaz, com cabeça de queijo, e por causa disso, nunca teve um beijo. Mas como era pragmático, nunca sofria. Pior seria, se em vez do queijo todo, tivesse apenas uma fatia. Era uma vez uma rapariga, que gostava de cheirar cola. Cheirava, cheirava e nunca parava. O chato era que ficava, com o lenço colado na cara, sempre que se assoava. Mente perversa? Eu? Há pior... Para ler muito. Duas vezes não chega...

11.5.08

15 - A história de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar


Luis Sepulveda.
Era uma vez um gato chamado Zorbas. Um dia, quando ele estava na varanda, apareceu uma gaivota muito doente. A gaivota pediu para ela tomar conta do ovo dela e para ensinar a gaivotinha a voar. Quando a gaivotinha nasceu, o Zorbas pediu ajuda a três amigos: o Colonello, o Sabetudo e o Secretário. Com a ajuda dos três gatos amigos, ele cumpriu as três promessas e ensisinou a gaivotinha ditosa a voar.
(Resumo escrito pelo João)

4.5.08

14 - A rapariga que roubava livros


Markus Zusak.
Logo ao princípio tive mensagens contraditórias. A capa era lindíssima, mas era uma história passada em pleno nazismo/2ª guerra mundial, período histórico que eu evito com todas as minhas forças, uma vez que ando já há muito tempo a jogar à defesa no que diz respeito a deixar que algo que eu leia me provoque tristeza. Ando um bocado maricas, emocionando-me facilmente ainda que sempre com razão. Não se trata de estar com as lágrimas em saldo, ou mesmo de já não saber onde as aplicar. Sei. Sei sempre o que vale a pena ser chorado mas, por e simplesmente, não me apetece sentir-me triste com indignidades históricas. Prefiro acreditar que já passaram e que não se vão repetir. Esta história das emoções é cíclica. Quando era miúdo, os meus bons sentimentos faziam com que me emocionasse com tudo que era desgraça e injustiça. Mais tarde, por achar que isso me deixava demasiado exposto, investi numa couraça sentimental que me fazia enfrentar qualquer coisa sem sequer piscar. Depois de alternar várias vezes entre a fraqueza e a força, fixei-me finalmente num estado de espírito constante, que é o de Ter que evitar pensar/ver/ler coisas tristes para não desatar a chorar tipo maria madalena em versão pré-código Da Vinci. Curiosamente, esta fase maricas instalou-se definitivamente há cerca de uns seis anos. Porque terá sido ? Comecei a ler, no metro, a caminho do concerto dos portishead, aquele em que toda a gente chorou, se emocionou, reencontrou as suas almas gémeas, ressuscitou para o mundo sentimental e essas coisas todas que a seguiram foram contar aos jornalistas do Público. Enfim... Comecei a ler no metro e li que:
era uma história contada pela morte.
a morte era totalmente centrada nas cores.
A morte falava dos humanos com um desdém de superioridade resignado...
Endireitei-ma na cadeira, li com mais força (eu consigo ler com diversas intensidades) e pensei: Joana... Deste-me um daqueles livros que faz a diferença! Super direito na cadeira, continuei a ler, e logo a seguir um miúdo de seis anos morre. Porra. Fechei o livro, com vontade de atirá-lo pela janela fora (as janelas do metro do porto não abrem, por isso é que digo isto). Como é possível ter caído na armadilha? Caramba... Eu já não tinha decidido que nunca mais iria ler algo em que morressem crianças de seis anos? Era tarde, e o mal já estava feito. E então, o livro começou. Liesel viajava num comboio, com a mão que a ia entregar a ela e ao irmão a uma família adoptiva, porque não tinha dinheiro para os sustentar. Não querendo passar por isso, o irmão decidiu morrer no comboio, de tristeza, digo eu. Liesel foi então entregue à família adoptiva, constituída por uma mãe chamada Rosa e por um pai chamado Hans. A mãe estava sempre a praguejar e a chamar-lhe saumensh e o pai tinha uns olhos cinzentos que faziam com que tudo o que fizesse tivesse simultaneamente a adequação da sabedoria e a placidez do sentimento bem aplicado. Esta definição é minha, e não está má. Liesel tinha pesadelos, mas o pai ia para a beira dela e ensinava-a a ler. A ler o quê? Esqueci-me de dizer que, após a morte do irmão, Liesel roubou o primeiro livro: O manual do coveiro. Quando Liesel chegou a casa dos hubbermans, Rosa, a mãe, perguntou-lhe: Como chamavas à tua mãe? Mãe, disse Liesel. Muito bem, disse Rosa. A mim podes chamar-me Mãe também. Liesel foi-se integrando na vida da rua, ao lado de Rudy, um miúdo ariano loiro de olhos azuis que, um dia, se encarvoou todo pintando-se de preto e foi para o estádio correr fingindo que era o Jesse Owens... Como é possível não gostar de Rudy? Foi o que a morte disse, quando o levou: " Mexe comigo, aquele rapaz... Sempre. Ele parte-me o coração. Ele faz-me chorar..." Como é possível não chorar quando Rudy morreu? Choraste, quando o Rudy morreu? É a pergunta que se faz a quem leu este livro. Não é? Eu, que estava num avião a caminho da Lapónia, tive que respirar um bocadinho fundo Entretanto, as coisas iam acontecendo... A morte ia levando cada vez mais almas, sentindo-se exausta e super amargurada com o trabalho que os humanos lhe davam. Rosa chamava saumensh e saukerl a toda a gente. Hans limitava-se a ser o melhor pai do mundo e Liesel e Rudy amavam-se a sério, como as pessoas se deveriam amar. Esta conclusão é minha, e está certa. Max, um judeu refugiado na cave de Liesel, escrevia as histórias mais lindas do últimos tempos e as bombas começaram a cair sobre Munich Street. Era o nome da rua em que eles moravam. E Liesel continuava a roubar livros, e Rudy sempre ao seu lado, desejando aquele beijo que, embora só tenha acontecido no fim, tem sempre que acontecer, sempre, para que as pessoas sejam felizes. E eu, eu não digo mais nada, porque estou a ficar triste e não quero chegar à conclusão que o livro mais bonito que li nos últimos dez anos é um livro triste.
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31.8.07

13 - A bruxa de Oz


Gregory Macguire
Sempre gostei de livros de cfapa preta. Parece que há uma espécie de pacto só para entendidos que nos diz que se o livro não mostra nada na capa então é porque vale a pena. Costuma valer e, neste caso. Valeu. A bruxa de Oz (gosto mais do título em inglês, wicked) conta a história da bruxa de Oz e só aí temos logo a grande qualidade de não estarmos a ser enganados. Para os mais esquecidos, quando Dorothy, essa Alice alternativa e bastante mais controversa, aterrou em Oz, cavalgando um tornado vindo do Kansas, aterrou em cima da bruxa do leste, esmagando-a, matando-a e ficando-lhe com os sapatos. Aparte: sapatos de rubi, vermelhos... Será que só eu é que vislumbro o fetiche? Porque eram, e sempre serão, claramente fetichistas, o raio dos sapatos, sendo um símbolo algo visível da profunda, chamemos-he assim, originalidade, do criador do mundo de Oz. Enfim, adiante. O feiticeiro de Oz é um daqueles filmes de que sempre tive a impressão de que tinham qualquer coisa para esclarecer quando fosse grande. Ainda não esclareci, mas ficaram-me algumas imagens fortes na cabeça e a sensação de que devia haver algo que valia a pena nesta história toda. Assim, quando comecei a ler o livro, além da capa preta não tinha mais nada a que me agarrar. Este estado de espírito durou 2 páginas. Ao fim delas, deparei-me com toda a gente a fazer análises profundas ao caracter da bruxa. Da bruxa do oeste, irmã da esmagada. Nasceu hermafrodita, dizia o leão medroso; não, é lésbica, dizia o homem de lata; tem carências sentimentais profundas, dizia o espantalho; não percebo nada, dizia Dorothy. E tudo isto a bruxa ouvia em cima de uma árvore, incrédula, enquanto tentava ver os olhos de Dorothy. Mas afinal quem era a bruxa?
A bruxa era Elphaba, gostei logo do nome, filha de um pastor da religião dominante em Oz e da herdeira de um dos principais cargos políticos do superpolitizado reino de Oz. Elphaba nasceu verde e com uns dentes bastante afiados, situação que causava sérios problemas à sua envolvente humana. Era ainda super-sisuda e detestava +água. . A vida por aqueles lados não era lá muito animada, tanto qe quando lá chegou um soprador de vidro tornou-se logo pai da irmã de Elphaba, Nessarose, a bruxa do leste, dona dos sapatos... Nessarose, Nessie, tinha toda a beleza da Vénus de Milo. Tanto nas feições como na ausência de braços. Infância à frente, ei-las que vão para a faculdade, onde emparelham com diversos extractos sociais de Oz, supostamente original. Não é lá muito. Estão lá os tipos tradicionais, se procurarmos bem, o homossexual, a fútil, a rebelde, o rico e o trabalhador. Também aqui, o homossexual é o que é representado como sendo o mais interessante humanamente. Mais um ponto par o lobby gay. A terra doe Oz tinha algumas particularidades interessantes das quais nunca me tinha apercebido e que decerto encerram metáforas poderosíssimas, das quais apenas arranhei a superfície. Uma delas são os Animais, com letra grande, inteligentes, conscientes, humanos em tudo menos no não quererem dominar os restantes seres vivos. Não percebi, no entanto, qual a sua posição no que diz respeito aos animais, sem maiúscula. O maior exemplo dos Animais é o professor Dillimond, um bode irascível e professor universitário que nunca se calava até que um dia morto pelo robot da directora da faculdade. O meu Animal preferido era uma Vaca que era claramente socrática, ou seja, só sabia que acabaria por acabar na mesa de alguém. Outro aspecto interessante em Oz é o governo, bastante complicado, com princesas mártires caídas em desgraça e à espera de redenção e um feiticeiro regente que desceu de um balão. A parte religiosa é também interessante e com pano para mangas embora na minha opinião criar novas religiões pode ser muito doevrtido, mas é igualmente pouco produtivo. Enfim... Este livro deixa-me bastante dividido. Por um lado, tem sem dúvida todo um conjunto de idéias e situações bastante originais. Por outo lado, parece que todas essas ideias estão um pouco desligadas entre si e não são suficientemente enquadrados no ambiente geral, que é o que deveria criar a textura contínua do livro. Este pode ser um daqueles casos raros em que a sequela que inevitavelmente virá complete o livro, em vez de o estragar. De qualquer forma, gostei. Bastante.

9.5.07

12. o psicopata americano


Brett Easton Ellis
Factos recentes fizeram-me vir à memória livros passados. Além disso, precisava de mudar o registo, deixar-me de conspirações mitico-históricas e universos alternativos fantásticos. Senti que precisava de uma injecção de realidade, vai daí lembrei-me de um livro que, felizmente, de real não tem nada. Como não estava com o computador à frente (graças a Deus ainda se vai tendo alguns momentos desses) resolvi tirar umas notas num caderno, como fazem os escritores. A vaidade daquele momento com certeza que iria compensar a humilhação de quando o escritor virasse dactilógrafa e tivesse que dactilografar tudo outra vez. Justiça poética. Para não passar essa humilhação, perdi a folha onde tinha as notas. Além de lá estar todas as boas ideias que resultaram da leitura do livro, ainda tem a agravante de alguém poder achar a folha e lê-la, coisa que não estava nos planos. Porque aqui, como é óbvio, ninguém lê... Brett Easton Ellis é um daqueles escritores que esteve na moda, porque tinha livros dificeis onde transparecia alguma inteligência, porque era uma pessoa dificil e peculiar e porque era um gajo in. E tanto mais na moda estava quanto piores eram os seus livros. Acho que os fui lendo todos, ou quase todos, também não eram muitos e como tinham algum sexo, ia-se lendo... Menos que zero, as regras de atracção, e Glamorama (acho que este foi depois)... Todos maus. Muito maus. Mas, quanto a mim, ele tinha uma qualidade. Escrevia sobre nada mas, dava a sensação de que tinha algo a dizer, que talvez nos dissesse na próxima página ou que, caso não nos dissesse, era porque não éramos suficientemente in ou cool para o saber.
Um dia, na altura quando ainda havia tempo para visitar e namorar pormenorizadamente a feira do livro no palácio, após namorar indefinidamente o livro, decidi comprá-lo. Dois contos. E a chamar-me interiormente estúpido por estar a comprar uma coisa que tinha quase a certeza que não prestava. Enganei-me. Prestava, e bastante. O psicopata americano contava a história de um yuppie, raça felizmente agora extinta, que navegava por Manhatan a fazer todas as coisas estúpidas que os yuppies na altura faziam, a saber, ganhar dinheiro fazendo quase nada, comprar roupa e mobiliário minimalista finlandês, ir a festas e trocar os nomes de todas as pessoas que conhecia. E falar sobre roupa. Meu Deus. Como ele falava sobre roupa. Não se calava. Que seca, pensava eu. Mas ao mesmo tempo, intencionalmente ou não, Patrick Bateman, o psicopata, reflectia na perfeição o vazio que toda aquela gente e aquele meio representavam. Era banal, oco e vazio, e e suscitava uma profunda antipatia. Nada de interesse, portanto. Até que se começa a revelar. Maltrata mendigos, aluga prostitutas, que depois de sexo espanca metodicamente, droga-se, bebe e começa a matar. E é aqui que me comecei a preocupar, ao constatar que lia com interesse o relato dos seus actos, que me apercebia da sua profunda indiferença acerca dos actos que cometia, da violência que praticava. Enquanto que, objectivamente, todos os meus instintos berravam contra o chorrilho de atrocidades que ele praticava, não conseguia deixar de constatar que toda aquela violência me causava de facto algum interesse. Embora me chocasse tudo o que estava a ler, lia cada vez mais depressa e horrorizava-me com o interesse doentio que tudo aquilo suscitava em mim. Seria só a mim, interrogava-me? Achei que não deixava de ser uma pessoa normal, de Ter os sentimentos direccionados na direcção certa. Mas cheguei à conclusão que a violência exerce de facto um fascínio muito especial em toda a gente. Aquela indiferença gélida perante a morte e a tortura, a meticulosidade posta em cada um dos seus actos, a facilidade com que voltava à sua vida normal depois de cada acesso de loucura dava que pensar. Parecia quase normal, que depois das atrocidades, tudo voltasse a ser como dantes. Felizmente o livro acabou por acabar, e depois de analisar friamente todos os sentimentos que por mim passaram, apenas cheguei à conclusão que a violência, se cuidadosamente servida, acaba por ser aceite como normal. Era só um livro, mas algo estava decididamente mal se o tínhamos conseguido ler até ao fim sem o deitar fora a meio. Acho que o problema acaba por ser esse. A incapacidade que se sente em rejeitar à priori coisas profundamente más. Tolerar a violência sem dizer logo instantaneamente que este livro é uma porcaria que só transmite coisas más. E enquanto as pessoas normais conseguem atravessar experiências desse tipo sem se deixar influenciar, não resulta muito difícil compreender que, para outro tipo de pessoas, toda esta violência pode chegar a tornar-se uma coisa normal. E que percam a noção das fronteiras, que confundam aquilo que deveria ser apenas um livro ou um filme com a vida real. Como os soldados americanos quasi adolescentes que, na guerra do golfo, saiam dos tanques com a música dos seus fones no máximo e desatavam a matar qualquer iraquiano que lhes aparecesse à frente. Era como se fosse um jogo de computador. Game over e siga o baile. Era apenas normal. O problema, é que não é normal. O problema é que eles já não conseguem ver que não é normal. E depois as desgraças acontecem, no meio daquilo que todos nós entendemos como civilização. E o livro? É bom ou mau? Não sei...

28.3.07

11. a morte de rimbaud



Leandro Konder.
Rimbaud é, para mim, uma boa lembrança da juventude. O meu professor de filosofia do 11º ano, louco, que dava livros aos alunos que tiravam a melhor nota em cada um dos testes, ofereceu o único poema que Rimbaud escreveu a um dos meus colegas da altura. Que, embora inteligente e razoavelmente abstracto, não teve o melhor teste, que era invariavelmente o meu. Também tive os meus livros de prémio, mas nenhum como o que o meu amigo recebeu. Chamava-se, em tradução livre, "uma cerveja no inferno" de Rimbaud e eu não descansei enquanto ele não me veio parar à mão. Ainda o tenho. O exemplar do meu amigo. E hoje, muito tempo depois, mesmo sabendo que aquelas frases tipo "dancei nas margens da loucura e ri-me na sua cara" e "sepulto os mortos na barriga" não querem dizer nada e nem sequer alucinações genuínas de um poeta bêbado eram, ainda me arrepia o estômago da emoção que senti ao lê-las, e relê-las à exaustão. Cruzes. Pareço um amigo meu que agora anda com a mania de descrever o que sentia quando, há bastantes mais anos do que ele gosta de admitir, ouvia os seus cd’s, alguns de gosto duvidoso. Quando se tem 17 anos e se está a começar a ganhar o sentido do abstracto, a sensação de ler um livro daqueles é completamente única, e deixa lembranças positivas nos 19 anos seguintes. Vai daí, quando estou no supermercado (que horror, ele não compra os livros nas livrarias queques) e dou de caras com algo que diz "a morte de rimbaud" superentusiasmo-me instantaneamente e pumba. Comprei o livro mesmo sem ler o resumo ridículo da contra-capa. Mais calmo, em casa, apercebi-me imediatamente que era uma qualquer apropriação do nome do poeta, para um qualquer escritor duvidoso tentar vender uns livritos. Depois de investigar, soube que o dito escritor só tinha escrito dois livros, o que me fez ganhar logo bastante respeito por ele. Admiro pessoas pragmáticas, que escrevem aquilo que têm dentro e depois param, sem nos estar a entupir com livros fracos de 2 em 2 anos. Vai daí... li. E, surpresa, o gajo era brasileiro. Logo na 17ª linha aparece o primeiro palavrão impronunciável que os brasileiros usam constantemente no seu vocabulário. Guariroba. Previ o pior. Aconteceu o melhor. Era uma vez um detective chamado Sdruws (gosto de sentidos de humor surrealistas) que chegou a um hotel e foi recebido por um gerente chamado Saint-Ex, que trabalha para um milionário chamado Bergotte (estamos no Brasil. Semanticamente, tudo é possível). Bergotte é um milionário que comprou 5 escritores contemporâneos, pagou-lhes um salário mensal, batizou-os de Rimbaud, Rousseau, Malraux, Aragon (confesso que este não conheço) e Claudel e pô-los a escrever, penso eu de que, um livro. Rimbaud, de seu nome Severino Cavlcante, membro fanático de uma academia de musculação onde era conhecido como Rambo (estamos no Brasil. Rambo passa a Rimbaud, desde que quem ponha a altura seja um literato, Rimbaud, dizia eu, morre, caido de uma varanda. Sduws Investiga e os suspeitos são os outros 4 escritores. A partir daqui, passamos à história em discurso indirecto, em que cada um dos personagens conta a conversa que acabou de Ter com Sdruws, cada um à sua maneira, mas todos num brasileiro que, quando bem escrito e no tom certo, se torna a língua mais coloquial e engraçada das poucas que eu consigo ler no original. Mas não me cheira que o sueco ou o malaio sejam mais engraçadas. Sou um defensor da nossa língua, do português. Acho que para transmitir sentimentos e para esvrever com seriedade é a língua mais bonita do mundo. Mas, aceito que um país que tem 200 ou 300 milhões de habitantes queira Ter a sua língua. Por isso, deixem-nos escrever como quiserem, desde que não tenhamos que gramar com as suas manias. E. além disso, o brasileiro, neste registo semi-humorístico e informal, é imbatível e de chorar a rir, que foi o que eu fiz quando ninguém esta a olhar. No meio de citações de Kafka, Borges, Marx e Fernando Pessoa, o gajo consegue descrever-nos cada pormenor tortuoso da mente de cada um dos personagens, sempre de uma maneira super engraçada. Gostei do Rousseau, tão arrogante que nos faz sorrir. Ao convidar Sdruws para un jantar no restaurante japonês, ao perceber que Sdruws não sabia como se comportar e o observava e imitava em tudo o que fazia, pegou no jarro do leite e derramou um pouco no pires. Sdruws imitou-o. Rousseau pegou então no pires e pô-lo no chão, dando o leite ao gato... E logo a seguir pregou-lhe um sermão sobre o erro de deixarmos que as culturas ibéricas no sinfluenciam demasiadamente em detrimento das eslavas...

20.3.07

10. eleanor rigby



Douglas Coupland.
Este é um daqueles livros sobre os quais não vale a pena escrever nada. Não tem história. Não tem grandes descrições. Não tem ideias. Não tem figuras de estilo. Não é em verso. O que é que sobra para se poder falar? Nada. Pois… Não é assim. Este livro transmite sensações. E boas. De calma, tranquilidade, resignação, tristeza e de alguma beleza, embora não consiga localizar nenhuma destas coisas em nenhuma daquelas páginas. A história inexistente é mais ou menos assim; uma turma de finalistas de liceu americanos vem à Europa, onde uma das raparigas conhece um austríaco numa festa e depois dele engravida, voltando depois para casa para ocultar a gravidez aos pais. É uma rapariga algo estranha, cujo hobby é visitar a casa das pessoas quando elas não lá estão, sem mexer em nada, só para sentir outros ambientes. Parêntesis. Também me imagino a fazer isso. Essa rapariga ficou bastante traumatizada porque um dia descobriu um corpo de homem vestido de mulher e cortado ao meio, na linha de comboio. Estava morto. Mas marcou-a. Como dizia o William Burroughs, no naked lunch, "wouldn´t you?". A criança nasce e é imediatamente entregue para adopção. E, por muito dilacerante que tenha sido, a vida continuou e ei-la que se tornou, 20 anos depois, numa analista informática de sucesso, emancipada, com casa própria mas sem mais ninguém lá dentro. Só os filmes do blokbuster. Um dia, um rapaz encantador surge-lhe ao caminho e diz-lhe: " Olá, Sou teu filho. Tenho pouco tempo de vida e gostaria de o passar contigo. Sem culpas. Sem remorso. Pode ser? Pôde ser. E durante esses meses, transformados em 30m páginas do mais terrivelmente triste e bonito que já li, a relação entre mãe e filho estabelece-se com uma intensidade tal que não me parece que alguma vez tenha coragem para a ler outra vez. Ando um bocado sensível. E depois, o filho morre. Depois de contar a vida difícil que teve, de casa de acolhimento em casa de acolhimento, depois de trabalhar numa loja de camas, depois de , em meses, estabelecer daqueles laços que demoram anos a criar e vidas a desatar, depois de nos cativar tanto que até dói, o filho morre. E então, eu deixo de ler o livro. Não quero ler mais. Apenas mais alguns pormenores. Ainda antes de morrer, ao contar a sua vida durante a sua juventude, deixou escapar uma frase que me fez fazer o que sempre detestei nos textos sobre livros: citá-la.
""… its after midnight and there´s nothing on tv, so you´re in your room wishing there was a song able to describe your life on the radio, and you´re cursing the aurora borealis for interfeering with the radio waves."
Provavelmente esta frase não tem nada de especial. É natural que não provoque nenhuma sensação em mais nenhuma pessoa. A mim, acertou-me em cheio, de tão bonita que a achei. Apenas mais um pormenor. Eleanor Rigby não era o nome da rapariga. Era o nome de uma canção dos Beatles. E o endereço electrónico dela. Gosto de sentidos de humor sinuosos.

19.3.07

9. jonathan strange e o sr. norrel




Susanna Clarke.
Estamos em inglaterra, onde existe uma sociedade mágica de magos não praticantes, ou seja, teóricos, que discutem, parametrizam e legislam sobre algo que não fazem, tradição que começou nessa altura e se prolonga até aos nossos dias no que diz respeito às actuais elites. Um dia, um homem pequenos e que já passou a meia didade há algum tempo é convencido a mostrar a sua magia à dita sociedade, coisa que se mostra relutante em fazer. Só o faz com uma condição: se conseguir provar a sua magia, a sociedade mágica tem que dissolver... Blurp... foi um instantinho. O homem chamava-se Sr. Norrel. Paralelamente, havia um outro homem, este jovem, que era também um estudioso de magia. Mas não se considerava um mágico. Talvez por isso, o Sr. Norrel aceitou recebê-lo e ensiná-lo. Juntos, trabalhando para o governo, haveriam de fazer com que a Inglaterra voltasse a ser um país mágico novamente. Porque já o havia sido: entre 1100 e 1400, a Inglaterra (ou o norte desta) havia sido governada por John Uskglass, um homem, mágico evidentemente, que havia sido raptado pelos elfos enquanto criança e por eles criado até se tornar adulto e se libertar. John Uskglass era também conhecido pelo Rei Corvo, e a sua história daria (e cheira-me que dará) outro livro. Não se deixem enganar... Não é mais uma história em que os elfos são criaturas belas, loiras, inatingiveis, perfeitas e imortais. A estes, entre muitas outras coisas, falta-lhes o t. São imorais. Era mais ou menos lógico que alguém se iria fartar dos elfos serem sempre as criaturas perfeitas e boas. Foi aqui... São maus, frios, egoístas, não muito bonitos e respiram decadência em tudo o que fazem. Vivem numa espécie de mundo paralelo e quando de lá saem ou quando alguém lá entra é certinho que dará asneira. Voltemos então aos nossos dois mágicos, incumbidos pelo governo de se tornaram os primeiros zero-zeros do país. Estamos em plena guerras napoleónicas,e, como sempre, têm que ser os ingleses a tentar impedir que um qualquer indivíduo "vertically chalenged" tome conta da europa. Jonathan Strange e o sr Norrel trabalham arduamente para que a inglaterra ganhe a guerra, fazendo coisas super engenhosas. Um dia construiram uma frota inteira de navos com neblina e vapor d eágua, colocando essa frota a cercar uma qualquer cidade durante vários dias, até que veoio vento e a desfez. Mas durante esse tempo a frota verdadeira teve tempo de chegar. Outra vez, depois de se Ter capturado um navio inimigo, enfeitiçaram a sereia de madeira que estava na proa (tipo o mini infante D. Henrique na proa do Sagres) de maneira que ela falasse. Depois, foi só passá-la aos militares, que a obrigaram a confessar sobre todos os portos, enseadas e rotas marítimas que os inimigos usava,«m. Entre muitos palavrões, pois a sereia era super mal-educada. Enfim... Jonathan strange foi o verdadeiro braço direito de Lord Wellington, por muitos considerado um dos grandes responsáveis pela manutenção das nacionalidades protuguesa e espanhola. Expliquemo-nos: Lord Wellington foi o principal responsável pala expulsão dos exércitos napoleónicos da península ibérica, derrotando o general Soult. Voltando ao livro, foi uma verdadeira lufada de ar fresco de novidade, originslidade, rigor e inteligência. Mas 700 páginas são 700 páginas, e o único que consegue manter o ritmo em 700 páginas é o Tolkien e o Umberto Eco. Vai daí, masi para o fim do livro começam as confusões, porque Jonathan Strange ressuscita uma mulher que estava semi-prisioneira dos elfos e blá blá blá elfos isto, elfos aquilo e, o que tinha sido a melhor qualidade do livro, o tratar a magia e os mágicos de uma forma normal, desaparece. Voltamos aos misticismos e aos esoterismos, para os quais a paciência já não é muita. Mesmo assim, trata-de um livro muitíssimo bom, escrito com inteligência pura e completamente diferente de tudo o que tinha lido até o ler. Foi um reencontro com um verdadeiro romance, que na minha definição, quer dizer boa história bem contada.

8.3.07

8. o caminho para marte


Eric Idle
Carlton é um andróide, modelo Bowie 4.5, que vive no futuro e que, talvez por trabalhar para dois comediantes, elegeu como objectivo da sua vida a escrita de um tratado sobre a comédia, senão mesmo sobre o riso, qual Henry Bergson, cujo livro nunca li mas cujo fantasma me assombrou, ano após ano nos escaparates da feira do livro, naquele sítio dos livros baratos que te sentes sempre tentado a comprar para depois nunca mais leres. Mas não é uma imitação daquela máquina andrógina, robot que parodia pessoa que parodia robot, chamada Ziggy Stardust, que tinha tanto de assustador que escreveu uma das músicas mais assustadoramente belas de todos os tempos, chamada space oddity e que parece que estava cheia de significados ocultos homossexuais (não sei quê, não sei quê, major Tom. pois...). Não, trata-se mesmo do "deus jovem branco e de cabelos de ouro, um dandi trágico, um cruzamento entre uma pívia e um sonho húmido". Carlton trabalha para dois comediantes, Alex e Lewis ou, se preferirmos, Muscroft e Ashby. Estes comediantes são perfeitamente catalogados no livro como o cara branca e o nariz encarnado, imagem muito feliz com que o autor nos consegue fazer entender instantaneamente as personalidades dos dois. Se calhar é porque não é uma imagem mas sim uma descrição factual do que os dois são. Mesmo assim, recapitulemos: O cara branca é o palhaço austero, alto e magro, que faz sempre a papel de sério e que tenta fazer o seu número, invariavelmente destruído pelo nariz encarnado, baixo, gordo, anárquico, que humilha sempre o outro enquanto lhe baixa as calças. Enfim, o gajo das tartes. Se calhar fazia-se aqui um paralelo interessante com a vida real. Ou melhor, um exercício de imaginação: quem são os gajos das tartes das nossas vidas? Aqueles que subvertem constantemente tudo o que os outros fazem, mascarando com humor um mega ressabiamento contra todos aqueles que, modestamente ou não, vão fazendo pela vida? Alex e Lewis são autores de vaudeville cómico, comediantes de serviço de um paquete de super luxo chamado Pincess Di que faz a ronda pela galáxia, ronda essa chamada o caminho para Marte. Depois disto, bem, é a confusão total, ou não tivesse este livro saído da cabeça de alguém que passou os anos 70, sim, 70, não foi engano, a derreter o cérebro com ácido. E por grande que seja a tentação de descrever a história do livro, sei perfeitamente que o indescritível não se descreve. Lê-se, apenas. Penso que agora, perto do fim, poderia dizer que o autor foi um dos Monthy Python. (...pausa para prestar o culto devoto dos culturalmente correctos...), mas isso para mim não tem significado, uma vez que não me encontro entre os seguidoras dessa religião. Apenas gosto deles, mas não escrevo tratados de devoção infinita ao seu talento. Por uma razão simples. Era tudo das drogas. Ninguém reparou que a partir do momento em que deixaram de se drogar acabou a criatividade. Ninguém acha estranho que em todas as profissões o apogeu venha com a experiência e que no mundo do espectáculo o apogeu venha no princípio? É a droga, é... Pois é. Acabo apenas com o verdadeiro herói deste livro, Carlton, sobre o qual estou eu a escrever o meu. E com o seu tratado: De Rerum Comoedia, um discurso sobro o humor. A comédia pode ser apreendida ou é um exclusivo do ser humano. Este é um livro muito bom e ainda por cima desconhecido.

6.3.07

7. o código da vinci


Dan Brown
Era inevitável termos que escrever umas palavras sobre o código da vinci, agora que o filme estreou e agora que já se começam a ouvir as primeiras críticas. Como sempre, tenho alguma legitimidade para falar. Li os filhos do Graal há 10 anos, o sangue de cristo e o santo graal há 8, o mistério dos templários há 6 e, a origem de tudo, o pêndulo de foucault há mais de 15. Isto não abona muito a favor da minha idade. Enfim… Para ser sincero, para mim, toda esta história do graal e do priorado do sião é apenas um subproduto do que verdadeiramente interessa, do que é verdadeiramente importante e historicamente provado: os cavaleiros templários. Mas aceito que para a maioria das pessoas o interesse principal seja outro. Assim sendo, recapitulemos: Jesus Cristo e Maria Madalena eram casados e tiveram filhos. Esses filhos constituíram uma linhagem de descendentes de Cristo e perpetuadores do sangue do rei David. O sangue dessa dinastia é o sangue real, que se escrevia sang real e que passou a santo graal. O priorado do Sião foi uma organização constituída para proteger esse sangue real. O braço armado do priorado do Sião eram os cavaleiros templários. O grão-mestre do priorado do Sião detinha o segredo do Graal, bem como o baú dos documentos com as provas todas. Entre outros, uma dos grão-mestres do priorado de Sião foi Leonardo da Vinci, que, espírito irrequieto que era, espalhou indícios sobre a existência do segredo em toda a sua obra. Que não foi pequena. No livro, o que acontece é que o último grão mestre do priorado é assassinado por um elemento incolor da Opus Dei. Nos últimos minutos antes de morrer, o grão-mestre moribundo lembra-se que ainda não transmitiu o segredo a ninguém, e por isso monta um enigma cuja solução é o objectivo do livro. Organizemo-nos, por ordem de importância. A trama do livro, ainda que eficaz e bem montada, não é importante. Não foi o escritor que a inventou e não acrescenta nada de novo nem nada que já não se soubesse (eu já sabia). A questão que se poderá por é que o escritor romanceou e democratizou essas idéias ditas heréticas. Não tenho nada contra. A democracia é o menos mau de todos os sistemas políticos. Um segundo nível de questões que o livro levanta são as questões religiosas propriamente ditas, e essas tem alguma relevância. É impossível que as pessoas não se sintam atraídas pela lado humano da maior figura da humanidade, passe o pleonasmo. Não é a mesma coisa que Jesus Cristo tenha tido família ou não. Não é indiferente que Jesus Cristo tenha amado alguma pessoa em particular ou não. Seria interessante saber que características particulares genéticas poderia ter uma linhagem proveniente de Jesus Cristo e de Maria Madalena. Além disso, todas estas questões foram convenientemente revestidas de mistério e de teoria da conspiração, tornando-as assim mais apelativas. É portanto legítimo que se mostre interesse por essas questões mais, chamemos-lhe assim, humanas. De qualquer forma, a parte mais importante do livro, quanto a mim, é aquela que não há dúvida nenhuma que é verdade. Expliquemo-nos: é evidente que ninguém pode saber se Jesus Cristo teve filhos ou não, ou se existiu mesmo o priorado de Sião, ou se Leonardo da Vinci, provavelmente o ser humano mais inteligente de todos os tempos, teriam tempo e paciência para brincar aos mistérios. O que não há dúvida nenhuma é que a história que hoje tomamos como verdadeira foi a que a ortodoxia da altura achou por bem. Ou seja, aquela parte em que o imperador romano Constantino negociou com os altos dignatários da igreja católica aquilo que viria a ser o catolicismo institucional, é quase de certeza verdade. Assim como de certeza que é verdade que foram os altos cargos da igreja católica de então que condicionaram o caminho que a esta religião iria tomar. Foram eles que seleccionaram os evangelhos "correctos" e as histórias que deveriam ser transcritas para a bíblia. E esta selecção não teve por base critérios de fé nem de salvação de almas. Estes critérios foram "técnico-económicos", e foram tais que permitiram que, desde então, grande parte da humanidade viva naquilo a que Michael Crichton tão bem definiu como estado de medo. Não é razoável que tanta gente acredite que está a professar uma religião de amor e que, simultaneamente, esteja sempre com medo de ir para o inferno. A igreja católica de então, aquela que traçou o rumo da cristandade pós Jesus Cristo era um negócio, uma empresa. E essa empresa eliminava os concorrentes que a punham em causa, tais como os Cátaros, os Templários, o Islão, etc e tal... Lembram-se das cruzadas? E da Inquisição? Não quer isto dizer que as coisas ainda sejam assim, e eu sinceramente não acho que sejam. Mas uma coisa é certa Se é provavelmente verdade que tudo isto que vem no Código da Vinci são histórias, não nos podemos conhecer que a versão da igreja católica também é apenas uma história. A diferença é que foi a história que venceu... E é disto que a igreja católica tem medo, de que as pessoas percebam que eles não sabem a verdade. Que todas as riquezas, todo o poder, todos os privilégios que ainda hoje têm, não traduzem nenhum conhecimento da verdadeira verdade do que o Cristianismo foi. Eles não sabem mais que nós...

3.3.07

6. os filhos do graal


Peter Berling.
Agora que vai voltar a estar na moda falar do Graal via código Da Vinci, que vai estrear daqui a uns dias, parece-me uma boa altura para lançar alguma erudição no assunto. Para que aqueles que queiram procurar as origens da história saibam uma dos sítios a que poderão ir. E esse sítio é um livro, escrito por um alemão que, surpresa, pelo menos para mim, era também actor e participou no Nome da Rosa. Um pequeno aparte, antes de começar: o livro é enorme e tem tantas páginas como as palavras de que eu disponho para o contar. Vai ser, por isso, uma versão bastante reduzida. Até porque, que se saiba, a história não tem fim. Tudo começa em Montségur, castelo e último reduto cátaro, situado na mais alta e inexpugnável montanha do Languedoc. Está cercada há já 10 meses porque o papa de então, Inocêncio 3, tinha lançado uma cruzada dentro da europa, uma cruzada contra a heresia cátara. Uma cruzada que tinha dois objectivos. Eliminar uma voz incomoda que denunciava as corrupções da igreja católica de então e ainda garantir para o reino da França vastos e férteis territórios que eram, até então, autónomos. Montségur estava então cercado pelas tropas papais e pelas do rei de França, as primeiras apenas empenhadas em que se queimassem todos os heréticos e os segundos, ainda que mais moderados, igualmente empenhados em que a heresia chegasse ao fim. Há já 10 meses que se encontravam naquele cerco, longe das suas casas e dos seus campos. A acompanhar o cerco encontravam-so os cavaleiros templários, que no entanto não tomavam partido nem participavam em acções de ataque ao castelo. O nosso cronista no meio deste cenário é um franciscano gordito que se chama Guilherme e que, no princípio da trama se preocupa mais com a mesa do que com a fé, que considera forte. Isso mudará. Na véspera da rendição dos cátaros, entretanto acordada contra a vontade do representante do papa, algo se muito estranho se vai passar. Num bosque na base da escarpa mais inacessível do castelo de Montségur, acontece uma cerimónia. A grand maitrésse do priorado do Sião, escoltada pelo braço armado deste, os cavaleiros templários, preparam-se para o resgate do tesouro mais precioso que existia em Montségur. Roç e Ieza, um rapaz e uma rapariga, primos entre si e em cujas veias corre o sangue real descendente de Jesus Cristo e de Maria Madalena. Eles são o Santo Graal, o énvólucro do sangue real, o produto final de várias gerações da evolução do sangue de Cristo. Os escolhidos para ir buscar as duas crianças ao castelo são Siegfred, comendador dos cavaleiros teutónicos e Constâncio, que poderemos definir como o supremo representante dos interesses do Islão. Trapalhão e intrometido, Guilherme consegue arranjar maneira de ser apanhado pela confusão e passa de monge alinhado com Roma a ama seca quasi herética e quasi imperial dos dois miudos, irritantemente tratados por infantes o livro todo. Incansável, contrariando assim a sua natureza monástica, Guilherme descobre então o Grande Plano, que é o que interessa, nesta história. E o grande plano é fazer com que os descendentes dos dois grandes profetas da antiguidade, Jesus cRisto e Maomé, cruzem o seu sangue, de maneira a criar uma linhagem pura, que governe o ocidente e o oriente unidos em paz, como é o seu destino. Do lado do ocidente, o sangue real é assegurado pelos dois infantes, que são o produto final do cruzamento entre o sangue de Jesus Cristo e uma certa nobreza do antigo Languedoc. Do lado do oriente, parece que a linhagem de maomé está também convenientemente preservada, e guardado pelos assassinos ismaelitas, os do velho da montanha, que reinava na inacessível fortaleza de Alamut. Para od distraídos, note-se o extraordinário paralelismo entre os Assassinos e os Cavaleiros Templários. Para os mais que distraídos, indica-se o óbvio. São as duas faces da mesma moeda. Não é à tua que se davam tão bem. Este grande plano tem inimigos, evidentemente. O maior, o monstro, a besta demoníaca, o pior de todos, o anticristo é, pasme-se, a própria igreja católica, que oi a primeira a renegar o verdaeiro Jesus Cristo e a criar uma versão alternativa que favorecia a ortodoxia do aparelho. E quem era o representante da igreja católica? O papa, tratado aqui do pior , inimigo do Homem, de Deus e do Imperador do Sacro Império Romano do Ocidente, Frederico II, o Staufer. Curiosidade: Quem havia de dizer, hoje o papa é alemão e João Paulo, seu aantecessor, era polaco.Roma já então, não era o que era dantes.

5. o amuleto de samarcanda


Jonathan Stroud
Nathaniel é um aprendiz de mago. Os magos apoderaram-se do governo da humanidade aproveitando-se dos seus conhecimentos para ascenderem aos cargos de poder, substituindo nessa posição os políticos. O negócio parecia ser bom para a humanidade em geral. Antes: quem mandava era uma classe inculta, desonesta, incompetente e sem qualquer formação específica ou conhecimento acrescentado que não estes enumerados. No presente, ou melhor, aquando da tomada do poder pelos magos: a humanidade passou a ser comandada por seres culturalmente superiores, com conhecimentos avançados de magia que poderiam ser usados para o bem e, acima de tudo, pessoas tendencialmente honestas. O que se poderia querer mais? O que poderia correr mal? Apenas uma coisa. Os magos tornaram-se políticos. Mas não é essa a história. A história são duas, diferentes e com dois pontos de vista. Diferentes. De um lado temos Nathaniel, aprendiz de mago cujo mestre é um mago não muito importante e não muito poderoso. Mas que não trata Nathaniel lá muito bem, e Nathaniel ressente-se disso, daí que tenha decidido aprender por conta própria, acabando por invocar um djini, espírito medianamente poderoso chamado Bartimaeus. Do outro lado temos então Bartimaeus, Djini com 3000 anos, que aconselhou Ptolomeu. Bartimaeus tem um sentido de humor fabuloso que se torna ainda mais fabuloso dado o facto de as suas narrativas serem executadas na primeira pessoa. Passemos agora a uma pequena explicação do mundo que os rodeia. Aquando da invocação, Nathaniel encontra-se na capital do império, que é Londres, pelo menos desde que Gladstone, o mago mais importante de todos os tempos, possuidor de terríveis poderes, cercou Praga (o outro polo de magia da Europa) e a destruiu. Bartimaeus estava lá, do lado dos checos. Desde essa altura, Londres é a capital do império. A américa é ainda uma colónia problemática e dos outros continentes não sabemos nada. O mundo em que vivemos está dividido em sete planos, os quais só estão todos acessíveis aos magos mais poderosos. Nesses planos vivem todas as criaturas mágicas. No primeiro planos, vivem apenas os humanos e os humanos só podem ver no 1º planos. No 2º, vivem já algumas criaturas mágicas menores, tais como diabretes ou foliots. Estes, no primeiro plano, ou são invisíveis (para os humanos) ou então têm formas absolutamente inocentes. O truque dos magos, a fonte do seu poder, não é serem mágicos. Nenhum humano é mágico. A fonte do seu poder é terem conseguido aperceber-se da existência das criaturas mágicas e terem conseguido obrigá-las a servi-los. Voltando aos planos, ao 7º e último só têm acesso os espíritos verdadeiramente poderosos. Todas as criaturas mágicas são metamorfas, querendo isto dizer que podem assumir a forma que quiserem. A razão pela qual os diabretes apenas se transformam em pombos não é por não terem poder para mais. É apenas porque não têm imaginação. A hierarquia é a seguinte, de baixo para cima: diabrete, foliot, djinn, afrits e marids. Bartmaeus é um djinn, super vaidoso e inteligente, cujo maior poder é as notas de rodapé que escreve. A sua forma preferida é a de Ptolomeu, de quem foi conselheiro e amigo. Passemos então à intriga, que é o que menos interessa. Nathaniel invoca Barthimaeus para que este roube um amuleto super mágico a um mago chamado Simon Lovelace, que o humilhou dois anos atrás. Nathaniel quer assim vingar-se, mas embora se tnha sído bem na invocação de Bartimaeus, obrigando este a obedecer-lhe, deixou que este descobrisso o seu nome, igualando assim o jogo de poder. Bartimaeus não tem escrúpulos em aproveitar a vantagem, arreliando Nathaniel até à exaustão, mas este é determinado e não liberta Bartimaeus do seu poder e da sua obrigação. Passa-se assim o livro todo num equilíbrio tão instável quanto engraçado. Bartimaeus rouba o amuleto e Simon Lovelace acaba por recuperá-lo, arrasando tudo à sua volta. Mas Nathaniel escapa e jura vingança, desta vez a sério. Parte, com Bartimaeus (contrariado) a seu lado e vai descobrir qual o plano de Simon Lovelace. Que é, como não poderia deixar de ser, matar o primeiro ministro e tomar o seu lugar. Seca. Não me estou a lembar do nome do 1º ministro. Era importante. Deveraux. Qalquer coisa Deveraux. Durante a investigação, Nathaniel e Bartimaeus tornam-se amigos, mas seguindo a velha tradição britânica, nenhum deles diz isso ao outro, até porque não sabe que isso aconteceu. Temos tempo. É suposto que isto seja uma triologia, não se vai desperdiçar o melodrama logo a abrir. Assim sendo, lá descobriram eles que Gladstone vai dar uma festa para todo o governo na sua inevitável propriedade vitoriana no campo, qualquercoisashire, cheia de criados e mordomos. Durante a cerimónia, Gladstone utiliza o amuleto de Samarcanda para fazer um círculo mágico (os circulos mágicos são importantes, neste livro) e aprisionar dentre dela todos os membros do governo. De nada serviu a estes os seus guarda-costas mágicos. Todas as criaturas mágicas ficaram de fora do circulo. Execpto uma. Bartimaeus. Duas. Contando com o super marid que Gladstone invocou para limpar os membros do governo todos e assumir assim o poder. Quase o conseguiu. Quase. Porque Nathaniel e Bartimaeus... O livro, para cumprir a tradição, é muito bom. Melhor ainda. É super engraçado. E é um mau investimento. Lê-se em 2 dias.

1.3.07

4. freakonomics


Stephen D Levitt e Stephen J Dubner
No outro dia fui a Londres e entre as muitas coisas que vi ou que fui confrontado, a mais massacrante foi a publicidade a uma coisa qualquer esquisita chamada freakonomics, não sabendo eu na altura que raio é que aquilo era. Ainda por cima porque a publicidade era muita e bem feita, sendo basicamente constituída por aquilo que para mim é a verdadeira forma de arte nestes tempos tão, chamemos-lhe assim, rápidos que atravessamos: a frase curta. Descia eu uma escada rolante interminável e via escrito: sabes o que há de comum entre os professores primários e os lutadores de sumo? Divertido com a comparação, até porque um dos meus passatempos preferidos é imaginar as pessoas "vestidas" de lutadores de sumo, virava-me para trás na escada rolante para tentar ler a resposta, mas já não ia a tempo. Noutra escada rolante qualquer, havia outro cartaz a dizer: sabes porque é que os traficantes de droga vivem todos com a mãe? E, novamente, quando me virava para trás já não ia a tempo de ver a resposta… Já me estava a bulir com os nervos a situação, tanto que até poderá ter sido por isso que não achei piada nenhuma a uma exposição de cubos plásticos brancos empilhados uns sobre os outros na Tate Modern… Finalmente, pouco depois, se calhar ainda em Inglaterra, descobri que os cartazes só tinham a pergunta. Para saber a resposta tinha que se comprar um livro que se chamava, precisamente, freakonomics. Embora não goste de nada que acabe em "ics", gosto muito da palavra freak, por isso achei que poderia achar piada a ler o livro. Fui ais saldos do e-mule, peguei no papel de rascunho e pimba, arranjei que ler no metro durante 2 semanas. E o que descobri eu? Que o livro é uma colecção de crónicas dispersas, algumas pouco coerentes com as outras, mas em que as ditas perguntas "fracturantes" são o tema de cada uma das crónicas. Assim, das que tinham mais piada, temos:
O que é que os lutadores de sumo e os professores têm em comum?
Ambos fazem batota. Mesmo em ambientes em que supostamente a honra e a inocência são a imagem que mais transparece, se analisarmos a fundo os dados disponíveis, descobrimos inevitavelmente batotas. No caso dos professores, a batota era inflacionar as notas dos alunos e, consequentemente, a sua própria classificação. No caso dos gordinhos de fio dental, a idéia era que nunca ninguém perdesse em demasia, e maneira a manterem-se sempre mais ou menos os mesmos 200 lá na primeira divisão. Embora com algum sentido, isto trata-se do típico caso da publicidade enganosa. A resposta é muito menos interessante que a pergunta.
Porque é que os traficantes de droga vivem todos com as mães?Porque, por incrível que pareça, a maioria deles não tem dinheiro para casa própria. Abstraindo de considerações morais, o tráfico de droga é um negócio de estrutura piramidal como quialquer outro, em que apenas uma pequena percentagem das cúpulas é que ganham muito dinheiro. O grosso dos traficantes ganham pouquíssimo, de tal maneira que se considerarmos o risco inerente à profissão, faz-nos interrogar porque raio é que alguém se dispõe a traficar. E, quanto a mim, essa poderá ser a chave da luta contra a droga. Tipo: meu, para ganhares tão pouco mais vale fazeres outra merda qualquer em que não te habilites a levar uma bala nos cornos. Calão propositado.
O que tem em comum os vendedores imobiliários e a ku-klux-klan?São duas organizações que para funcionarem precisam de uma certa exclusividade em termos de informação e que foram praticamente desaturdias pela Internet. Concretizando: a partir do momento em que a Internet apareceu as pessoas começaram a circular informação em quantidades e com velocidades nunca antes vistas. Os compradores mandam mails aos vendedores, os vendedores postam fotos das casas evitando assim tantas visitas, enfim, a necessidade de intermediação diminuiu imenso. A razão de ser das imobiliárias passava pelo facto de serem os únicos que detinham toda a informação toda. Agora já não são. Relativamente à ku-klux-klan, a internet também quase que provocou o seu extermínio. Um belo dia, um jornalista conseguiu infiltrar-se e tornou mundialmente conhecidos várias situações que puseram completamente a ridícula a confraria dos lençóis. A saber, os nomes ridículos que chamavam uns aos outros, os apertos de mão secretos. A falta de coordenação entre as acções praticadas e, fundamentalmente, a falta de fundamento teórico ou de qualquer outro tipo para as parvoíces que faziam.
Para onde foram todos os criminosos?
Atendendo ao cenário do fim dos anos 70 e princípio dos anos 80, em que era só gangs juvenis e delinquência por todos os estados unidos, como raio é que, contrariando todas as previsões feitas pelos analistas e especialistas de então, a criminalidade desceu tipo 80%? Bem esta resposta é de longa a mais simples mas a mais polémica e provavelmente a mais certa de todo o livro. Esses criminosos, dizem eles, não nasceram. No início dos anos 80 foi liberalizado nos Estados Unidos o aborto, pelo que, evidentemente, milhares de mulheres que tinham gravidezes indesejadas passaram a abortar, podendo assim continuar com a sua vida curricular e aumentando muito as probabilidades de virem a ser alguém e de proporcionarem aos seus futuros filhos (desta vez desejados) educação e meios para uma vida honesta. Se tivessem levado até ao fim as primeiras gravidezes, essas crianças seriam monoparentais, pobres, sem escola, sem dinheiro e condenadas quase irremediavelmente a uma vida de privação ou de crime. E as gravidezes não ficariam por aí e as segundas e as terceiras sofreriam o mesmo destino. Enfim, esta deu que pensar.
O que podes fazer para ser um pai perfeito?
Nada. No momento em que te estás a fazer essa pergunta, já fizeste 80% de tudo o que poderias fazer pelos teus filhos. És branco, tens uma educação, cultura, um emprego, uma família estável, avós para os teus filhos, livros em casa, noção do bem e do mal, enfim, essas coisas todas. Posto isto, o resto é quase só ir gerindo, com base no bom senso. Geralmente, quando te interrogas sobre se hás-de ler determinado livro pedagógico, o momento certo para essa leitura era há um ano e meio atrás.
Ter um nome super afroamericano prejudica-te durante a tua vida?
Esta era tão fácil que nem li…

3. os reinos do norte


Philip Pullman
Lyra tem 11 anos e um génio. Não é um génio criativo, nem vem de uma lâmpada. É um génio vivo, que a acompamha sempre, que vai mudando de forma de acordo com as situações e que se chama Pantailamon. Logo aqui haveria muito que dizer. Não é só Lyra que tem um génio. Toda a gente tem. Toda a gente tem um ser vivo, consciente, que anda sempre ao seu lado, do qual não se consegue separar e com o qual tem comunicação directa ao coração. Tipo alma gêmea. Tipo alma. Lyra está escondida dentro de um armário com Pantailamon, na tentativa de ouvir a reunião que vai acontecer entre o conselho científico de uma daquelas universidades inglesas tipo Oxford e Lord Asrael seu tio, personagem aparentemente muito poderosa cujo génio é uma pantera branca com olhos verdes. Lord Asrael acabou de voltar de uma expedição dos reinos do norte, onde conseguiu uma fotografia do Pó, com letra grande. O Pó é, simplificando, a unidade fundamental do constituinte das almas. É o equivalente dos átomos do mundo físico. Ainda por cima é bonito. O pó é aquilo de que as auroras boreais são feitas. Portanto, a fotografia de Lord Asrael tem um impacto bastante grande, uma vez que pode ser a prova física da existência da alma. E também não cai bem nos meios mais conservadores. Estamos numa altura em que a ortodoxia impera. Desde que o papa Calvino mudara a sede do papado para Genebra e instituido o tribunal consistorial de disciplina, o poder da igreja sobre todos os aspectos da vida tornara-se absoluto. E a santa igreja ensinava que havia dois mundos, o mundo físico e o mundo espiritual, do céu e do inferno. Barnard e Strokes eram dois teólogos heeréticos que postulavam a existência de vários mundos semelhanets ao nosso, todos mundos materiais, perto de nós mas invisíveis e inalcançavéis. Mundos paralelos.
Fora deste ambiente académico e denso, temos na mesma um ambiente sério e denso. Ou não fosse esta história passada em Londres, onde o nevoeiro dá a densidade e o caracter taciturno dos ingleses dá a seriedade. Era portanto Londres, e estava nevoeiro. Uma Londres diferente, uma vez que era habitada e percorrida por pessoas e génios. Mas ainda assim, super dickensiana, cheia de becos escuros, casas degradadas e meninos pobres. Meninos pobres que, a partir de uma determinada altura, começaram a desaparecer, raptados por uma senhora muito bonita cujo génio era um macaco dourado com um olhar extremamente malicioso. Depois de raptados, os meninos são metidos numbarco e enviados para o norte, para onde entretanto Lord Asrael voltou e para onde tudo aponta, até as bussolas. Até que um dia, Roger, o melhor amigo de Lyra desaparece e ela é convocada para uma reunião no colégio, reunião em que aprece uma senhora muito bonita cujo génio é um macaco dourado. Lyra viaja com a Sra Coulter tornando-se sua assitente. Antes da viagem, o Mestre do colégio tinha-lhe dado um alteiómetro, uma espécie de astrolágbio que só diz a verdade, mas ao qual é muito dificil fazer as perguntas certas. Em poucos dias, Lyra apercebe-se da ligação entre a Sra Coulter e o desaparecimento das crianças. Lyra é esperta e põe-se a milhas. Foge com os ciganos, de barco, subindo o rio, rumo ao norte, numa expedição de salvamento das crianças perdidas. E também do seu tio Asrael, que entretanto tinha sido preso em Svalbard, terra dos ursos blindados, os meus personagens preferidos deste livro. Entre os ciganos, que mercem uma descrição mais pormenorizada noutra altura, noutro local, estava Farder Coram, um homem sábio que conta a Lyra muita coisa. Tipo que Lord Asrael é o seu pai e a Sra. Coulter a sua mãe. E que os dois estão envolvidas numa luta terrível de poder e não só.Dizia eu, que a expedição Lyra mais ciganos se dirigia ao norte. Mais especificamente, para a Lapónia. No cqaminho, param num porto qualquer, Bolvangar, onde Lyra recruta para a equipa Iorek Byrnison, rei deposto dos ursos blindados de Svalbard. Os ursos blindados são ursos polares, gigantes, com mais de 2 metros, inteligentes, orgulhosos, ferozes e que, como se não bastasse, ainda são especialistas na arte de trabalhar o metal. Vai daí, cada um deles está vestido com uma armadura quase invulnerável. Quase. Quase é uma palavra sem a qual o mundo não existia. Iorek tinha perdido a armadura. Lyra recupera-a ganhando assim a sua lealdade. E seguem viagem, sempre para norte. São atacados e quem vem em sua ajuda, não que os ciganos não se safassem sozinhos, principalmente com Iorek, mas enfim, vem em seu auxílio dizia eu, as feiticeiras. As feiticeiras vivem na fronteira (norte) entre o nosso mundo e sabe-se quais outros. Embora vivam centenas de anos, são jovens e lindissimas, principalmente a sua rainha, que se chama Serafina Pekkala. Voam em ramos de pinheiro e são muito independentes e algo imprevisivéis. Eventualmente, todos chegam ao destino e, entre muitas lutas com os tártaros, que são a guarda avançada do conselho da oblação, que é o braço armado da igreja, chegam ao confronto final. Lord Asrael, que entretanto lá se tinha instalado, constroi uma ponte entre mundos, com o objectivo de descobrir a origem do Pó. Lyra, filha do seu pai, atravessa-a. Este livro é muito, muito bom.