23.4.11

27 - os mágicos



Lev Grossman
Começa bem, com um adolescente sobredotado chamado Quentin, super sorumbático, alto e magro, mas com os ombros descaídos, como se se estivesse sempre a abraçar para se proteger de um qualquer golpe vindo dos céus e que, logicamente, atingiria primeira as pessoas mais altas. Quentin tem como amigos outros dois adolescentes sobredotados, um rapaz e uma rapariga. Como em qualquer outro triângulo, também neste as arestas estavam todas ligadas de alguma forma, com Quentin apaixonado por Júlia, que por sua vez namorava com James, Mesmo entre os sobredotados, o panorama das emoções é surpreendentemente previsível. Quentin divide a sua vida entre dois mundos. O real, onde se move embaraçado sentido-se um figurante de segunda linha e um outro, mágico, tirado de uma série de livros que leu na infância, um mundo chamado Fillory mas que é chapadinho (ao ponto do plágio, digo eu) de Narnia. Estes livros contam a história de cinco crianças inglesas que se refugiam no campo para fugir da primeira guerra mundial, onde está o seu pai. Dirão os puristas que logo aqui há diferenças consideráveis, visto que em Narnia são apenas quatro crianças inglesas que se refugiam no campo para fugir da Segunda guerra mundial, onde está o seu pai. E, enquanto a Narnia se acedia por um roupeiro, a Fillory é por um relógio, daqueles tipo Big Ben, mas em miniatura...Super diferente. Percebe-se no entanto facilmente o encanto que Fillory suscita em Quentin. Em Fillory, existe um eclipse todos os dias ao meio dia (que é quando os eclipses se vêem melhor) e as estações, principalmente a Primavera, podem durar mais de cem anos. Em Fillory, mares de um verde pálido acabam em praias pequenas feitas de conchas partidas e as árvores secas não têm vergonha de se recortar contra o céu, arranhando-o Em Fillory, as coisas contam de uma maneira que não acontece no mundo real, e consegue sentir-se as emoções adequadas ao que quer que seja que nos está a acontecer. A felicidade é uma condição concreta a alcançável e vem quando é chamada. Melhor ainda, nunca sequer te chega a deixar. Fillory é brutal. Mas chega de Fillory. Detesto sítios felizes.

Quentin tem dezassete anos e está em vias de entrar para a faculdade, Princeton, mais concretamente, mas um dia desorienta-se e dá por si em Brakebills, a Faculdade dos Mágicos, onde depois de Ter sido examinado (e este exame é muito fixe, porque os examinandos tem que descrever um sítio que não conhecem e que não existe numa língua inventada por eles naquele momento, que no entanto tem que ser suficientemente madura para lhes permitir criar ali mesmo o sistema judicial do tal lugar inventado) poderão seguir uma carreira de mágicos. Quentin, a quem a sua vida quotidiana parecia um papel secundária de um filme de má qualidade, perante a oferta de uma vida como mágico, fez o que qualquer um de nós faria: aceitou. Brakebills não é Hogwarths, embora as semelhanças sejam mais que muitas, não tão plagiantes, desta vez.. Digamos que Brakebills está para Hogwarths como a Faculdade está para o liceu. Em Brakebills fuma-se, bebe-se, segrega-se os outros, anda-se à pancada e faz-se sexo, nem sempre de uma forma heterossexual. Quentin lá se integra e de alguma forma perde o entusiasmo e a inocência com que aceitou a vida de mágico provavelmente, digo eu, porque emparelhou com Elliot, o Oscar Wilde lá da zona e também porque todas as noites se alcoolizava com alguma intensidade. Ainda não falei de Alice, uma espécie de Hermione (lá estou eu), mas, como direi... papável... Várias coisas interessantes acontecem em Brakebills, e esta á a parte mais fixe do livro. Um dia, durante uma aula interminável, um ser de outro mundo toma conta da aula e prolonga-a por mais de dois dias, fazendo que toda a gente desmaie de caimbras quando finalmente se vai embora, depois de comer a única estudante que o tentou parar. Outro dia, todos os alunos finalistas tiveram que subir para o telhado e despir-se, deixando que o sol do fim da tarde lhes brilhasse na pele. Para, logo a seguir, serem transformados em gansos e voarem até ao pólo sul, onde existe uma filial de Brakebills onde eles iriam receber a parte mais difícil da sua educação enquanto mágicos. Ou o facto de, numa tentativa de prolongar a Primavera e o Verão, os responsáveis do colégio terem baralhado o calendário de tal maneira que, em Brakebills, o tempo andar sempre dois ou três meses atrasado. Ou o exame final, em que cada aluno pode escolher o tema, em que Alice decidiu aprisionar um fotão e Quentin decidiu ir à lua, quase o conseguindo. Ou, depois da festa de formação, quando o director levou os finalistas para o único sítio da escola onde os feitiços protectores não funcionavam e, depois de os embebedar, lhes meteu um demónio dentro das costas, para as guardar e depois lhes tatuou uma estrela em cima. Enfim... tudo o que é bom acaba e Quentin, Alice e os outros passam instantaneamente a viver em Manhatan, onde se dedicam ao mais completo hedonismo sem sentido, com excepção de Alice, que continua a estudar. Quentin, entretanto, cede aos encantos de um trio, com Janet e com o Oscar Wilde, sendo apanhado por Alice, com quem namorava, logo a seguir ao trissexo. Alice, tal como eu e mais alguém, não gostava de trios, e reagiu muito mal a esta traição, acabando depois por fazer sexo com um punk de crista verde que também era mágico. Como se pode ver, o período pós Brakebills foi uma autentica estupidez literária, por isso o autor resolveu fugir para a frente e, depois de terem descoberto um botão mágico, eis que vão todos para Fillory, que afinal existe. E é aqui que começam os disparates. De repente, vindos do nada e sem sentido nenhum, aparecem coelhos gigantes e furões a tentar matá-los a todos, árvores com relógios, fontes e praças e edifícios esquisitos dos quais não percebi a descrição, o papel e a lógica, mais animais assassinos, centauros que pinam com cavalos, viagens de barco, um cavalo que satisfaz os desejos... E Quentin e Alice e os outros lá no meio, numa missão que não percebemos qual é mas que, em rigor da coerência, eles também não. Entre as várias vezes que fui adormecendo e acordando nesta parte (e poderá ser um bocadinho por isso que a coisa não resultou lá muito lógica para mim) fixei apenas o seguinte: o mau era Martin Chatwin, o mais velho dos cinco irmãos. A boa era Jane Chatwin, que tentava combater o irmão. O objectivo dos dois era ficar em Fillory. E, no que a mim me diz respeito, palavra que não percebo porquê.


17.9.10

26 - o nome da rosa


Umberto Eco.
Guilherme era um frade franciscano com especial tendência para resolver mistérios e contrariar a inquisição, isto numa altura em que esta queimava até mais não. Essa tendência para contrariar a ortodoxia dominante surgiu-lhe quando, curiosamente, era membro dela própria, ou seja, quando era um dos mais destacados inquisidores que existiam, conhecido mesmo pela justiça e acuidade das suas sentenças. Inevitavelmente a dissensão entre Guilherme e o seu empregador começou quando este viu os seus rácios serem analisados à luz de critérios, digamos assim, de produtividade. Guilherme não queimava pessoas suficientes. Depois de várias discussões, e quando já não estava muito longe de ser ele próprio enviado para a fogueira, Guilherme sabiamente desistiu e foi, literalmente, pregar para outra freguesia. Regressou às profundezas da sua ordem e alheou-se da interpretação terrena dada à justiça divina. O problema é que Guilherme constituía a reserva intelectual da ordem Franciscana, e não tardou a ser chamado para outras situações delicadas e espinhosas, situações essas em que, alguém mais atento, facilmente veria o fumo das fogueiras lá ao fundo e sentiria ainda mais facilmente o cheiro a queimado. Ou, melhor dizendo, a esturro… Guilherme foi assim chamado para constituir uma equipa de representação da Ordem Franciscana numa questão que muita tinta iria fazer correr (este pormenor da tinta iria revelar-se bastante importante). A questão era bastante actual na altura e continuou a sê-lo sazonalmente ao longo da História e era sobre a legitimidade de a igreja católica possuir riqueza ou não. De um lado, os franciscanos diziam que Cristo era pobre e que, quanto mais não fosse por coerência, a igreja por ele fundada também o devia ser. Assim sendo, e dado que a igreja era presentemente (naquela altura) rica, deveria despojar-se dessas riquezas e voltar às suas origens e valores primordiais até porque estes estavam bastante longe das preocupações actuais da igreja. Diga-se em abono da verdade que esta ideia era partilhada por uma infinidade de seitas cristãs, umas mais violentas que outras, das quais a mais famosa foram os Cátaros. Bem, sobre estes ainda mais tinta iria correr, e não nos esqueçamos de quanto a tinta vai ser importante nesta história…Do outro lado da contenda, estavam os dominicanos, ricos e bem instalados na hierarquia religiosa, provavelmente bastante próximos do papa. Os dominicanos acreditavam que sendo Cristo filho de Deus, a única maneira de o honrar é honrando a sua igreja, e honrar a sua igreja significa, não só o culto e a fé, mas também o tributo e o dízimo. Quem senão o representante de Cristo e de Deus na terra tem legitimidade para Ter poder ? E riqueza ? Já que terá sempre que haver riqueza e sua posse, então que esta esteja na igreja, onde se encontram os mais justos de entre os homens. Enfim... Discutível... Isto era também o que achava Guilherme, que para além de franciscano, ou se calhar apesar de franciscano, não era curto nem na inteligência nem naquela qualidade tantas vezes mais importante que a inteligência pura, e que se chama bom senso.
O encontro entre franciscanos e dominicanos teve lugar numa abadia perdida nos Alpes italianos (confirmar isto), no cimo de uma montanha no sopé da qual existiam meia dúzia de aldeias em que a miséria humana não seria exactamente extrema mas que não andaria assim tão longe. Tipo, os aldeões comiam os restos que a Santa Igreja mandava pelo precipício abaixo. Um dia, o que foi pelo precipício abaixo foi um dos frades, e o Frade Superior (é muito mais fixe Madre Superiora) pediu a Guilherme que descobrisse como diabo (no verdadeiro sentido da palavra) ele lá foi parar. Guilherme adorou o desafio e, acompanhado de Adso, desatou a abrir os armários de todos os monges da Abadia. Inevitavelmente, teria que sair um de lá de dentro. Berengário, bué de paneleiro, que tinha pelo menos o hábito de parecer bué de paneleiro e de se comportar paneleirimamente o que quer dizer que não seria por causa do pecado da falsidade que iria para o inferno. Iria, provavelmente, por causa do pecado da sodomia, mas isso se calhar nem pecado é, já. Nos armários dos outros monges só havia esqueletos, pelo que podemos considerar não haver pecados carnais envolvidos, dado que os esqueletos não costumam ter lá muita. Carne. Bem, mas do outros pecados não havia falta. Cobiça, ganância, avareza, pá… parecia o seven. Inevitavelmente, com tantos pecados, a justiça divina havia de se abater sobre aquele pessoal e vai daí, passaram a morrer, numa espécie de padrão apocalíptico que seguia a ordem das trombetas. Um afogado na banheira, outro virado ao contrário no meio de uma bacia de sangue de porco, outro com um castiçal encastrado nos cornos e todos com a língua preta, mesmo Berengário, que à priori a poderia ter branca. No meio disto tudo, e enquanto a inquisição não chegava, Adso comeu uma pobre que andava a ser comida pelo mestre despenseiro em troca de comida (triste, mais um pecado) e Guilherme descobriu que havia uma biblioteca secreta dentro da biblioteca normal, cheia de livros raros e proibidos pelo Índex. Como se perdeu lá dentro, não pode evitar que a inquisição entretanto chegasse e queimasse dois ou três por terem sido considerados bodes, não em termos de representação satânica, mas sim em termos de expiadores doa assassínios ocorridos. Já não me lembro bem, mas terá sido daí que saltaram umas fagulhas que incendiaram a biblioteca toda, qual Alexandria parte dois. E, sem biblioteca, Guilherme foi-se embora triste. E quem matou a malta? Pá, foi um livro de Aristóteles chamado comédia (fui verificar, nunca existiu), que Jorge, o bibliotecário cego de Babel (isto é uma piada minha, só para mim, para já) envenenou e que a malta, ao desfolhar lambendo o dedo, ia ingerindo o dito. O veneno. Vai daí, alucinava e cada um deles morria da maneira mais original de que se conseguia lembrar. E, pior do que isso, ficava com a língua preta, mesmo Berengário que … enfim, já falamos disto… O livro acaba, ou devia acabar (já o li para aí há vinte anos) com Guilherme e Adsoa caminharem monte a num fade-out Oliveiriano, discutindo a vacuidade do género humano . Vamos considerar que foi assim que acabou.

9.9.10

25 - the stupidest angel


Christopher Moore.
Raziel, o anjo menos inteligente do paraíso, volta à terra encarregue de realizar um milagre de Natal a uma criança. A criança é Josh (Raziel ? Josh ? Isto lembra-me algo), e ia a caminho de casa preocupado com o que lhe iria acontecer por ser tão tarde e ele ter ficado a tarde toda a jogar playstation com o amigo judeu e, consequentemente, ir chegar a casa tão tarde. Não bastava já essa preocupação, eis que no meio de um pinhal, ele vê a cabeça do Pai Natal a ser cortada por uma pá que estava na mão de Lena, ex-mulher do Pai Natal em causa, que mais não era que o empreiteiro bué de mau da cidade, convenientemente vestido e que se reparava para a matar (a Lena) porela estar a roubar os seus pinheiros. Josh fica aterrorizado e pensa que isto é um castigo divino por estar a ir tarde para casa e aqui começa a confusão teológica. Josh acha que Deus está a castigá-lo por estar a chegar tarde a casa e, por isso, faz com que o Pai Natal seja morto só para ele não ter presentes. Quando Raziel chega à sua beira e se apresenta como um anjo e lhe pergunta qual o desejo que quer ver ser satisfeito, Josh não hesita e pede-lhe para ressuscitar o Pai Natal que tinha acabado de ser assassinado. Raziel torce o nariz, pois não lhe agrada muito ressuscitar um símbolo pagão que rouba todos os loiros do Natal ao Menino Jesus. E ele, Raziel, era loiro, mais um motivo para ficar chateado e mais ainda para esta associação tão estúpida que acabei de fazer e que nem todos entenderão. Vai daí, e também por ser algo preguiçoso, não se deu ao trabalho de localizar o sítio onde o Pai Natal estava enterrado, por isso limitou-se a fazer uma ressurreição a uma escala maior, lançando o, chamemos-lhe assim, feitiço, ao longo de uma área bastante considerável que, azar e falta de observação, apanhava o cemitério da cidade…Vai daí, ressuscitou não só o Pai Natal falso mas também um monte de outros mortos que, em diferentes estados de decomposição, se levantaram a gritar que queriam comer os cérebros dos vivos e, a seguir, ir ao Ikea. A sério. Não estava cheio de sono quando li isto, não é um delírio meu. Os zombies queriam mesmo ir ao Ikea. Vai daí, dirigiram-se à capela onde estava a decorrer a festa de Natal da cidade. Dentro da capela estava Lena, ainda algo em choque por ter morto o Pai Natal, perdão, o ex-marido e Tuck, um piloto de helicóptero cujo trabalho era descobrir plantações de marijuana a partir do ar e que, porque a queria seduzir, muito amavelmente ajudou Lena a enterrar o ex-marido e a livrar-se de todas as provas. Isto logo a seguir a tê-la apanhado em flagrante pós-assassínio. Tuck, além deste pragmatismo despreocupado tinha ainda como característica ter como animal de estimação e melhor amigo Roberto, um morcego gigante que usava óculos Ray Ban de aviador e falava com sotaque espanhol. Vá… Filipino. A profissão de Tuck interferia com a de Theo que era o único polícia da cidade. Isto deixa de parecer contraditório quando nos apercebemos que Theo tem um campo de marijuana, daqueles que podem ser detectados se algum helicóptero lhes passar por cima. A razão de Theo ter um campo de marijuana é para ter dinheiro para comprar a prenda de Natal para a mulher. A prenda é uma daquelas espadas japonesas tipo Kill Bill, com o aço dobrado e martelado 500 vezes. A mulher é Molly, antiga actriz de cinema que protagonizou uma série de filmes da Kendra, uma espécie de Xena, a princesa Guerreira. A Molly é muito fixe.. Como vive nos limites da paranóia / esquizofrenia (confundo sempre estes dois) tem que andar sempre medicada. Mas como precisava de dinheiro para comprar a prenda para o marido, deixou de tomar a medicação. A prenda era um cachimbo de água esquisitíssimo, em cristal, para ele dar as suas passas feliz. O marido é Theo, o polícia. Já falamos dele há bocadinho. E quando Molly deixa de tomar a medicação, começa a sobrepor os mundos, o de Kendra, onde há mutantes, piratas assassinos e afins, e a realidade, passando esta a ser, digamos assim, algo irreal. Além disso, passa também a ouvir vozes. Mas como é uma mulher inteligente, ouve apenas uma voz, a que chama, o Narrador, e com quem passa a discutir todas as suas decisões quotidianas. Último pormenor relativamente aos efeitos que a não medicação causa em Molly. Esquece-se de se vestir…
Então os zombies, dizia eu, resolveram atacar a igreja. A luta não teve muito que se lhe diga. Depois de um cerco não muito prolongado, Molly despachou os zombies todos com a sua espada nova. Todos não. Theo tomou para si o privilégio de rematar o Pai Natal, levando Raziel ao desespero por pensar que tinha que fazer tudo outra vez. Não tinha. Enfim… Não é grande história, mas os personagens são todos muito fixes. Se não chega os que já descrevi, temos ainda o puto judaico amigo de Josh, com a sua apologia da Hannukah, temos Gabe, o biólogo que, desiludido por ter sido deixado pela mulher, passa a andar com eléctrodos nos testículos que lhe dão electrochoques nos momentos de excitação sexual, tentando com esta prática obter uma reacção anti-sexual pavloviana, temos Skinner, o cão de Gabe, cuja única preocupação é que a vida do seu dono, a quem chama Food Guy, corra bem para que os seus hábitos alimentares não sejam interrompidos e que fica mesmo muito triste quando lhe chamam cãozinho mau, temos Mavis a dona do café da zona, tarada sexual com dificuldades em consumar a sua tara (não temos nós todos ?) que meteu drogas no bolo de frutas do Natal, a ver se animava um bocadinho aquilo, temos Ben, o corredor dos 100 metros com musculatura e forma física perfeita e testículos minúsculos, provocados por uma vida de esteróides, que transformou a corrida da sua vida na corrida da sua morte…. Enfim. Não sendo nenhuma obra prima, é sem dúvida uma boa prima do mestre de obras.

9.5.10

24 - the graveyard book


Neil Gaiman.
Estou dividido. Se tivesse que me decidir sobre escrever ou não um resumo para este livro, tinha algumas dificuldades. Embora possa não parecer porque este texto está aqui. Mas tenho dúvidas. Para mim um livro tem que ser uma coisa completa, uma experiência total. Tenho que o ler, perceber e depois gostar. Ou não. Neste caso, começamos por ter uma ideia genial, que é um bebé que consegue fugir ao destino de toda a sua família, que é o de ser assassinado por um assassino bué de cool, e foge para o cemitério, onde é apadrinhado pelos mortos que lá vivem. Mas, e como o cemitério tinha sido considerado reserva natural, desde há já muito tempo que não enterravam lá ninguém, pelo que os mortos que acolheram o bebé eram, chamemos-lhe assim, velhos. Antigos. É nos pormenores que se vêem as diferenças... Os pormenores geniais continuam. Como os mortos não sabem o nome do bebé, decidem baptizá-lo (até porque estão em solo sagrado) e decidem chamar-lhe Bod, diminutivo de Nobody, tradução de Ninguém, ironia grande, uma vez que o bebé era o único que era Alguém no meio de todos aqueles mortos. Começa bem, dizia eu, mas rapidamente Bod cai numa vida sem grande sentido, limitando-se a ser um vivo a assombrar os mortos, que neste caso até são seus amigos. Poder-se-ia dizer várias coisas. Que o vivo assombrar morto é uma contradição propositada.. Que a vida do vivo no meio dos mortos é forçosamente falha de sentido. E muitas alegorias mais... Mas o que é facto é que, neste ponto, o livro se torna algo aborrecido. As aventuras de Bod parecem um bocadinho forçadas, descontextualizadas e sem nenhum tipo de objectivo final que não o mostrar o que pode um rapaz vivo no meio dos mortos fazer. Embora seja seguindo estes momentos que nós o vamos conhecendo, a ele, ao seu tutor, Silas, à sua tutora substituta, Miss Lupescu, à sua amiga humana Scarlett, e aos mortos do cemitério, cada um deles com a sua particularidade, todos interessantes, sendo que a minha preferida é Liza, uma bruxa de olhos cinzentos, enterrada sem lápide, que é o maior castigo que se pode dar a um morto, ficar no anonimato para toda a vida. Bod, sensível para lá do humanamente possível, rapidamente se apercebeu disto e fez a sua primeira incursão no mundo real apenas para lhe arranjar a lápide. O que criou mais uma, como diria Heisenberg, impossibilidade quântica, porque por causa disto Liza apaixonou-se por Bod, o que a fez, novamente, morrer de amor. Isto é uma interpretação pessoal. E a vida continuou e a morte também. Bod visita as tumbas secretas do cemitério, encontra uns seres super esquisitos chamados ghouls, necrófagos que adoptam o nome do primeiro morto que comeram e vivem numa cidade só deles. Curiosos os nomes, que vão desde o arcebispo da Cantuária, do trigésimo terceiro presidente dos Estados Unidos, o duque de Westmisnster e o famoso escritor Victor Hugo. Quando estava quase a ser comido, é salvo pelo cão de Deus, um lobisomem enorme tipo new moon com a particularidade de ser antes uma lobimulher, mais concretamente, a Miss Lupescu, sua tutora substituta. Enfim, aventuras algo pueris, que me fizeram adormecer várias vezes, se calhar porque devo andar a atravessar uma fase muito adulta. Até que, um dia, Bod sentiu um ambiente diferente em todo o cemitério. Os mortos andavam mais ... vivos que habitualmente. Era o dia da Danse Macabre, que ao contrário do que o nome indica e embora seja efectivamente uma dança, não é puto macabra, antes é muito bonita. Nesse dia, os mortos acordam cedinho, vestem as suas melhores roupas e saem em cortejo do cemitério, até à cidade. Aí chegados, cada morto pega respeitosamente na mão de um vivo e convida-o para dançar, convite esse que é aceite e que dá origem a um festival de dança entre mortos e vivos, uma espécie de confirmação que somos todos iguais, com a diferença de os mortos já terem sido o que foram e não sofrerem mudanças durante a sua morte, enquanto que os vivos ainda não foram tudo aquilo que podem ser, indo passar o resto da sua vida a mudar, até morrer. A dança é sempre a mesma, a única coisa que muda é de que lado se estás. Mas a dança, em si, é incontornável. Não falei ainda de Silas, o guardião de Bod e, para mim, a personagem mais interessante do livro. Não falei eu nem falou o autor, que se limita a mostrá-lo impassível, vestido de preto , sempre de noite e a dizer coisas sempre acertadas. É pena. Gostaríamos de o conhecer melhor. Não falei ainda de Jack, o assassino. Que não era só um, eram de facto uma sociedade secreta de Jacks que tentavam contrariar uma profecia de que um rapaz haveria de nascer que seria capaz de andar na fronteira entre os mortos e os vivos. E, pelo vistos, isso poria em causa a tal sociedade secreta dos Jacks, embora não se perceba bem porquê. Provavelmente não será importante. Existem os maus, e eles são os Jacks. Existem os bons, que se chamam a Guarda de Honra e que destruíram os Jacks desde há muito tempo para cá, e da qual fazem parte Silas, Miss Lupescu e uma múmia com asas, se é que não me enganei na tradução. Se calhar enganei-me mesmo. Nunca vi em lado nenhum uma múmia com asas. Mas por acaso até acho original. E muito fixe.
Enfim. Algumas conclusões: As ideias de base são óptimas e o livro está cheio daqueles pormenores que eu gosto muito. É um livro aberto, que nos permite pensar e inventar coisas novas com base nesta base tão boa que ele nos dá. Mas também me parece um livro apressado, em que se vislumbram esboços de ideias e de sentimentos que não conseguimos agarrar bem, por serem tão ... rápidos. Tão leves. Identificamo-nos e gostamos muito de Bod, das suas angústias e dos seus problemas, mas quando o queremos ajudar e dar-lhe conforto parece que ele não nos dá confiança para tal e nos quer manter a uma certa distância. Mais uma vez porque as coisas não estão suficientemente desenvolvidas. É um livro à pressa, que quando nos esticamos para o agarrar (e porque ele merece sem dúvida ser agarrado) ele nos foge, entre os dedos, seja porque é demasiado fino, seja porque é pouco denso. O que são sinónimos, mas não deixam de ser verdades. E, digo eu, Silas deve ser um vampiro. Parece-me...

25.4.10

23 - cordeiro



Christopher Moore.
Outro livro de capa branca. Outro livro brutal. A teoria confirma-se. Comecei algo equivocado, pois com esta mania de ler as coisas só até meio ( e isto aplica-se também aos títulos dos livros), pensava que o livro era escrito por uma ovelha que fazia parte do rebanho de Jesus. O que até fazia sentido, porque o meu cérebro logo me convenceu que Jesus tinha sido pastor. Não tinha. Embora ninguém saiba bem, o mais provável é que tenha sido carpinteiro. Bem, não foi a ovelha que escreveu o livro. Ovelha era ele, Jesus, mais concretamente, cordeiro. De Deus. E eu sabia disso; foram muitos anos de catequese. Quem escreveu o livro foi Levi, o melhor amigo de Jesus, que o acompanhou na sua infância. Mas, antes de se avançar mais, temos que esclarecer a questão dos nomes, que para mim é fundamental e uma das melhores coisas do livro. O Levi chama-se Biff, Jesus, que era Joshua em hebreu, é Josh e Maria Madalena, a melhor amiga dos dois é Maggie. Para mim esta questão dos nomes é importantíssima. Vou confessar um segredo meu que será provavelmente uma blasfémia. Não gosto do nome Jesus. Nunca gostei. Desde novo que sempre me senti desconfortável ao ouvi-lo e o facto é que todos os Jesus que conheço, são maus, sendo o exemplo fácil de verificar olhando para o momento actual do futebol português. O único Jesus bom era o Cristo mas, com ambos os nomes maus, sempre tive dificuldade de me identificar completamente com ele. Vai daí, pensar nele como Josh foi como ter experimentado uma espécie de ressurgimento litúrgico, foi uma verdadeira experiência religiosa, pois consegui finalmente encará-lo como aquilo que ele foi, ou seja, um dos melhores gajos que já apareceu na Terra. E com um nome super fixe. Temos então que Jesus achou que a sua história estava mal contada e mandou Raziel, um anjo loiro, lindíssimo e burríssimo (provavelmente a origem do mito da falta da inteligência das loiras), ressuscitar Biff cerca de dois mil anos depois de este ter morrido, o que dá, grosso modo, ontem ou anteontem. Deus terá pensado, e bem digo eu, que o biografo mais fiável que o seu filho poderia ter era o melhor amigo de infância, e esta dupla adjectivação não foi despropositada. Haverá alguém coisa que ter, no mesmo substantivo, os dois adjectivos juntos? Melhor – Amigo – De Infância. O que se pode desejar mais ? Eu, por exemplo, tenho um melhor amigo (que é uma amiga) e adorava que ela fosse minha amiga de infância (o que não é muito simples, porque ela é algo mais nova do que eu). A parte da infância resulta bem porque ela é um bocadinho infantil. Voltando ao livro, e porque estes textos não são apenas uma forma de escrever entrelinhas, vamos lá escrever algumas linhas. Josh e Biff têm uma infância normal, que se passou entre o acordar da consciência religiosa de Josh, despertada durante as brincadeiras bíblicas em que Josh era sempre algum dos patriarcas israelitas, Biff o opressor e os irmão mais novos de ambos a carne para canhão dos milagres que iam sendo tentados. Foi nesta altura que Josh foi treinando as suas capacidades, quer ressuscitando lagartos mastigados, quer imprimindo a sua cara no pão religioso que os judeus comem na Páscoa, circuncidando a estátua de Apolo, da qual saiu cerca de 90 cm de prepúcio ou ressuscitando algumas pessoas, situação que não corria lá muito bem porque Josh não tinha ainda os poderes bem treinados e as pessoas morriam logo a seguir, algo convenhamos, aum bocadinho anticlimático. Foi também nesta altura que ambos conheceram Maggie e que o amor triangular nasceu. Biff adorava Maggie. Maggie adorava Josh. Josh adorava os dois e também o resto do mundo. Um dia, todos estes amores se tornaram insuportáveis e Josh resolveu viajar pelo mundo para tentar descobrir se ele era ou não efectivamente o Messias, e o que deveria fazer caso efectivamente o fosse. Decidiu assim procurar uns homens que o foram visitar quando ele nasceu e que o anunciaram ao mundo como o seu salvador. Do mundo. Eram três reis. Magos. Vai daí, Josh e Biff decidem ir procurá-los, sendo que Josh não teve coragem de se despedir de Maggie, e Biff não teve coragem para dizer a Maggie que era ele e foi mais uma vez a mulher que teve a serenidade e a sabedoria de saber o que fazer, com quem fazer e o que dizer para que todos ficassem felizes numa situação de infelicidade, que é o que acontece quando pessoas que gostam umas das outras têm que se separar. Foram assim, Josh e Biff, em busca do primeiro rei mago, Baltazar, penso eu, e que era um mago imortal que tinha feito um pacto com um demónio e que vivia num castelo com oito concubinas, todas chinesas, com nomes intermináveis e bastante ... sexuais. Na viagem, Josh quis aprender o que era o sexo, pelo que Biff teve que o fazer com várias prostitutas para depois contar a Josh como era. Parece que não se conseguiu explicar bem à primeira. Nem à Segunda. Nem à terceira. Nem à Quarta. Foi, por isso tentando e continuando a tentar com as oito concubinas chinesas de cujo nome só me consigo recordar de duas. Joy e Su. Diminutivo de Susana, obviamente. Baltazar não tinha nada que ensinar. Era apenas um velho devasso, daqueles que fazem festinhas nas costas, e que descobriu o amor apenas antes de morrer, o que é, na minha opinião, uma forma algo hipócrita de redenção. O amor era por Josh. Ao menos isso. Da China, seguiram para a índia, em busca de Gaspar (acho eu) que era um monge budista num mosteiro tibetano, completamente ascético. No caminho para o mosteiro, Josh bateu com a cabeça numa tabuleta de uma estalagem e sangrou, tendo que fazer uma ligadura com o manto que trazia. A suas feições passaram para o pano, tendo assim sido criado o santo sudário, que Josh deu a um comerciante romano da Ligúria. No mosteiro, Josh conseguiu ser completamente zen, conseguiu a iluminação, o nirvana e, quanto a mim, foi nesse momento que assumiu verdadeiramente o seu messianismo. Pois ao atingir a iluminação, a paz interior, de tudo isso abdicou por forma a dedicar-se à humanidade. Foi um momento importante. E bonito. Tipo o objectivo final do budismo tibetano encontrou e conjugou-se em total harmonia com a pedra basilar do cristianismo. Dá que pensar... Outra coisa que Josh e Biff encontraram foi o Iéti, o abominável homem das neves ou, nas palavras de Biff, “o que acontece quando um homem pina uma ovelha”. O iéti, embora bonito e poético, morreu, lançando uma grande tristeza no coração de Josh e fazendo com que ele chegasse à conclusão de que o seu tempo como monge tibetano tinha acabado. Vai daí, segue ainda mais para a India e descobre Belchior (acho eu), o irmão gémeo de Gaspar (acho eu). Aqui dá a sensação que o autor já estava farto de reis magos e resolveu despachar o último dizendo que era igual ao outro. Está bem. Sigamos. Para Israel, novamente, onde Josh assume o seu papel de Messias, se entende com o primo João e faz todas as coisas que nós já sabíamos e que o faz acabar crucificado. Aqui penso que há alguma desonestidade intelectual do autor. O Josh que fomos conhecendo ao longo de 500 páginas, um Josh bondoso, inteligente, lúcido, crítico e, acima de tudo, profundamente humano, não se iria deixar crucificar apenas para que a religião católica pudesse chantagear os seus seguidores para todo o sempre. O Josh que nós conhecemos nunca permitiria que, em seu nome, se instituísse uma religião baseada na culpa. Tipo: ele fez tudo por vós e vocês crucificaram-no, p or isso, agora e para todo o sempre, bora lá enriquecer o Vaticano. O Josh que nós conhecemos ao longo das quinhentas páginas iria mandar às urtigas esta história da culpa e iria viver feliz para sempre ao lado da mulher que sempre amou, Maggie, eventualmente permitindo que Biff a ... compartilhasse de vez em quando, porque a felicidade pode ser a mais do que dois. O Josh que nós conhecemos neste livro iria Ter muitos filhinhos, e eventualmente até lembrar-se das suas experiências orientais e adoptar uma chinesinha de tranças. Não se deixaria matar. Por isso, e como toda a gente sabe o resto da história, avanço rapidamente para o fim. Depois da crucificação, Biff mata Judas e mata-se depois, porque não conseguia viver sem Josh. É ressuscitado dois mil anos depois e escreve o evangelho mais bonito de todos. Que é este livro. E que é bom. Muito bom. Daqueles que ainda sabe melhor se a leitura for partilhada. E simultânea.

18.4.09

22 - jpod



Douglas Coupland.
Tenho uma teoria que um livro com capa preta é sempre bom, ou pelo menos se não estiver saturado com imagens, fotografias ou letras pouco discretas. Não me tenho dado mal com esta teoria. A partir de agora vou estendê-la aos livros de capa branca. Também resulta, seja com aqueles policiais da colecção Noites Brancas, seja com o que me apareceu agora à frente, chamado jpod, escrito por um escritor chamado Douglas Coupland. Que me provoca uma sensação bastante confusa. Porque tenho muita dificuldade em confessar-me abertamente adepto (não gosto de fãs) de um escritor de anti-heróis, de personagens que fazem tudo o que podem para sair dos cânones sociais existentes. É confuso: existe um escritor que passa a vida a escrever sobre personagens claramente não alinhadas com a sociedade, mas que depois lhes banaliza a vida e quer demarcar-se ainda mais dessa sociedade dizendo: ei… ok que vocês não são lá muito normais, mas eu sou mais anormal ainda, porque consigo escrever livros inteiros sobre a seca que a vossa vida é. Tipo: caricatura gajos meios lixados da cabeça que por sua vez caricaturam a sociedade e os seus tipo normais. Até me parece bem, malhar nos geeks, nerds, artistas, intelectuais e afins, porque no fundo até sabemos que eles têm o que nós, normais, não temos. Nósnormais. Gosto. Vou passar a utilizar este termo… Concretizemos. Jpod é um escritório de programadores de jogos de consola em que o único requisito é fazer o que se quer ao mesmo tempo que se trabalha. Tipo um Google só com dementes. Existem 4 ou 5 pessoas cujo principal objectivo é terem nomes esquisitos com motivo para o ser e serem capazes de diálogos geniais. Detesto fazer resumos propriamente ditos dos livros, mas não resisto a uma enumeração barra citação:
Ethan, nome normal, pai eterno figurante de papéis sem falas em filmes obscuros, campeão de danças de salão e que ultimamente anda a fazer sexo com uma antiga colega de liceu dele. Mãe plantadora barra dealer de marijuana, com contactos a vários elementos do submundo, que hora seduz, ora cobra ora mata. Irmão promotor imobiliário com ligações ao submundo, nomeadamente à importação ilegal. De chineses. Ethan está sempre disponível para a família, fazendo sempre um ar de enfado enquanto esconde a namorada do pai, enterra o namorado da mãe ou esconde e depois dá banho a 20 imigrantes ilegais chineses do irmão. É o maior lançador de desafios inverosímeis aos colegas de trabalhos, tipo escreverem uma carta ao Ronald MacDonald a convencerem-no a pinar com eles…
Mark Mau, Bree e Caithlin. Nomes normais para pessoas menos normais. Na mesma onda…
Cowboy do Cancro. Não sei porque se chama assim. É viciado em sexo anónimo. Isto não tem nada a ver com o nome. Nem com o resto.
Fulano de Tal. É o meu preferido. Fulano nasceu no meio de uma comunidade lesbo-hippie, sendo a sua mãe a principal orientadora barra fundadora da dita comunidade. Cresceu almejando a normalidade, bebeu coca-cola aos 15 anos e comeu carne pela primeira vez à volta desta altura, também. Foi tamanho o trauma que fulano só sonhava ser uma pessoa normal. Ao atingir a maioridade, mudou o nome para Fulano de Tal e passou a só fazer as coisas que a maioria das pessoas fazem. Todos os seus actos e gostos são escolhidos estatisticamente de maneira a serem iguais ao que a maioria das pessoas faz e gosta.
Todos juntos, envolvendo-se saudavelmente com a sociedade envolvente, vão interagindo com naturalidade com, entre outros, Kam Fom, gangster chinês omnipresente, com ideias super claras e um raciocínio extremamente bem articulado, igualmente fanático por danças de salão, e cujo principal defeito é não ter sentido de humor. Nenhum. Este tipo de escrita confunde-me, pois não é preciso ser muito esperto para ver quão vazia ela é em termos de conteúdo. Mas diverte-me, porque é certeira na caracterização das situações que descreve. O problema é que as situações descritas não são importantes, nem sérias, nem produtivas, nem nada que se pareça. Mas são divertidas e fazem puxar pela cabeça e são tremendamente originais. Dá a sensação que o Douglas Coupland é uma reflex digital super rápida e com uma resolução monstruosa, que disseca na perfeição tudo aquilo m que põe a objectiva, conseguindo fotografias bonitas e super nítidas. Mas nunca aponta a máquina para nada de sério, limitando-se a fazer fotos instantâneas e puramente hedonistas. Ele escreve sobre nada para se divertir o que, tenhamos paciência, não é lá muito bom. Mas consegue também divertir-nos a nós, que o lemos e isso, tenhamos paciência, é bastante bom. A mim, faz-me sentir que sou das poucas pessoas do mundo que consigo perceber as suas imagens, que consigo compreender as suas descrições e faz-me sentir que compartilho a sua linguagem, ironia e inteligência. Faz-me sentir, enfim, inteligente. Quem não gosta de se sentir assim ? Melhor só sentires-te apaixonado...

19.1.09

21 - A rapariga das laranjas



Jostein Gaarder.
Li este livro por tua causa, porque as preferências partilham-se ainda que dificilmente coincidam. Custou-me muito começar. Um pai que descobriu uma doença terminal quando o único filho tinha quatro anos e que usou as últimas semanas de vida para escrever uma carta a esse mesmo filho. Uma carta em que se sentia na obrigação de lhe contar tudo aquilo que sentiu e que iria sentir nos anos que o filho viveu e nos que iria viver. Já imaginaste teres, neste momento, que dizer à pessoa de quem mais gostas no mundo, e o primeiro filho é sempre essa pessoa, tudo aquilo que algum dia sentirás por ele. Aqui há uns tempos tinha decidido abrir uma conta de mail para o João, em que lhe escreveria coisas ao longo do tempo e que lhe daria quando ele tivesse, sei lá, dezoito anos. Seria a minha maneira de fazer com que ele me conhecesse intimamente durante os anos em que eu mais dele gostei e que, curiosamente, são os anos em que eles não se apercebem disso. São nesses primeiros anos em que nós deitamos amor pelos olhos e eles quase não olham para nós. Curiosamente também, desde o dia em que soube da história deste livro, nunca mais lá escrevi nada. A angústia do pai acertou-me tão em cheio que senti um arrepio gelado de que nunca mais me esquecerei. Ainda assim, num fim de semana de maior carência, resolvi começar a ler o livro e fiquei imediatamente surpreendido pelo tom com que o pai escrevia, leve, saudável e divertido. Contava ao filho como tinha encontrada as primeiras vezes uma rapariga que andava sempre carregada com um saco de laranjas, facto para o qual ele arranjava novas teorias todos os dias. Desde ela ser a brigada anti-escorbuto de uma expedição polar até ser a nutricionista responsável por um colégio de criancinhas. E contava ainda todas as tentativas que fez para a encontrar, e como a encontrou, e como ela novamente estava carregada com um saco de laranjas, e como ele novamente não conseguiu dizer nada que não fossem disparates, e como ele novamente o surpreendia com respostas encantadoras de tão incompreensíveis. E como ela lhe disse que se esperasse por ela seis meses poderiam ver-se todos os dias nos seis meses a seguir, e como ele aceitou, e como ela lhe escreveu um postal, e como ele quebrou o acordo e foi atrás dela para Sevilha, onde passaram dois dias juntos, dois dias esses que lhe foram depois descontados nos seis meses seguintes. E contou finalmente o que todos nós já tínhamos percebido, que a rapariga das laranjas era a mãe dele, do filho, mulher do pai que lhe estava a escrever a carta. E o filho, já bastante abalado por estar a conhecer intimamente um pai que não conhecia e não teria mais oportunidade de conhecer, alegrou-se porque estava também a conhecer intimamente a mãe que já conhecia e que teria ainda muitas oportunidades para melhor conhecer. E o livro já tinha passado de metade e eu ainda estava sentimentalmente intacto, mas não tinha grandes dúvidas de que isso iria acabar. E acabou, acabou quando o pai dizia ao filho que amanhã o iria levar ao infantário e que seria a última vez que isso iria acontecer, porque a seguir iria para o hospital ser internado. E piorou ainda mais quando o pai não conseguia dormir à noite e ia para a varanda olhar para as estrelas por não ter coragem de olhar para o filho e de repente o filho aparece na varanda e ficam os dois abraçados a ver as estrelas. E o pai sabe que é a última noite em que pode apertar com força o filho contra o peito e olha para os olhos do filho e vê a inocência estampada e sente que o está a trair, a abandonar, a ir embora sem saber o que o filho vai passar e naquilo que se vai tornar. E nesse momento, decide que preferia não ter vivido para nunca ter que passar por esta situação, de ter que abandonar a melhor parte de si. E, também nesse momento, eu assino por baixo, porque também preferia não ter vivido do que ter que passar por isso. E constato que este é um livro que não se partilha com ninguém, porque é demasiado devastador e não deixa nada de pé cá por dentro. A sério que não.

29.12.08

20 - O afinador de pianos


David Mason
Era uma vez um afinador de pianos que morava em Londres. Super talentoso mas pouco sociável, talvez mesmo um pouco infantil. Foi o que me pareceu a avaliar pela mulher, loira autoritária e por pequenos pormenores da sua rotina, tipo enganar-se no caminho para casa, ou atrasar-se duas horas para chegar a casa e depois mentir à mulher dando desculpas pueris diferentes das coisas pueris que esteve a fazer. Claramente um artesão dotado mas meio aparvalhado, vindo mesmo a calhar o facto de ser inglês. Um dia, recebe uma carta do exército a convocá-lo para uma reunião com um coronel que rápida e eficazmente lhe diz o que a Rainha dele pretende. Na Birmânia existe um Major Médico com umas ideias muito sui generis sobre como efectuar a colonização, ideias que por muito que horrorizem o exército, apresentam resultados muito bons, conseguindo que o império vá crescendo sem ter que se disparar muitos tiros. Um exemplo do tipo de pessoa que o Major Médico era: um dia comandava um pelotão de reconhecimento pelo meio da selva birmanesa quando este começou a ser atacado. Impassível, enquanto os seus soldados se atiravam para o chão, o Major Médico tirou uma espécie de flauta do bolso e começou a tocar umas notas esquisitíssimas. Os tiros continuaram a cair à sua volta e ele continuou a tocar até que os tiros diminuíram e pararam. Desta vez contra o silêncio, o médico continuou a tocar até que se começou a ouvir, vindo do meio das árvores, uma flauta a tocar as mesmas notas…. A expedição prosseguiu até ao seu destino sem mais problemas e ainda com música extra… O Major tinha pedido ao exército um piano de cauda Erard para o forte que tinha construído no meio das montanhas birmanesas e esse piano, de entrega difícil e contrariada, se calhar por essa razão, desafinara. Sendo o major um inglês de gema (apesar de por esta altura já andar vestido com sais birmanesas), recusava-se obviamente a tocar num piano desafinado. Vai daí, tratou de exigir um afinador de Erards, sendo essa a razão pela qual Edgar (o afinador) acabou por ter aquela conversa com o coronel e lhe disse, com um simples aceno de cabeça, que sim, que ia até à Birmânia afinar o Erard. E foi, numa daquelas viagens que toda a gente sabe que mudam a vida de quem a faz. Não imaginava ele é que ia mudar a sua definição. De vida. Vou parar com a descrição da história. A ideia destes textos não é fazer resumos, mas sim falar sobre ideias interessantes que os livros apresentam, ou então sobre sentimentos que suscitam ou então sobre qualquer coisa que valha a pena que não seja contar o fim de história em meia dúzia de palavras. Mas é aí que se me depara um problema. Não me lembro de grandes sentimentos nem pensamentos nem nada do género que o livro me tenha provocado. Lá ao longe, ainda ví as névoas de umas paisagens distantse no meio do montanhas inacessíveis que escondiam algo de diferente e de único, mas essas imagens rapidamente desapareceram e, para dizer a verdade, penso que as tirei retirado de um outro livro, chamado Horizonte Perdido, de um escritor chamado James Hilton que nele descreveu Shangri-La, o paraíso perdido… Assim sendo, acabei por não perceber como é que um livro com uma ideia tão boa e original acabou por me deixar meio morno e sem grandes emoções. Após pensar um bocadinho, penso que sei porquê. Porque é um livro super inglês, metódico, conciso, rigoroso, competente e bom. Apenas não acende grandes chamas em nós. Talvez na lareira,,, Não. Até porque o livro é bom e, curiosamente, tem aquilo a que se chama boa imprensa. Toda a gente diz que gostou muito. E gostei. Muito é que não.

9.12.08

19 - A sombra do vento



Carlos Ruiz Zafon.
Comecei a ler porque andava desde há algum tempo à procura de um romance de grande fôlego, em que se contasse verdadeiramente uma história com princípio meio e fim. Em que houvessem personagens, emoções, acontecimentos marcantes, em que se passassem coisas. Paralelamente, várias pessoas me disseram que era um bom livro, por isso, na busca de uma espécie de reencontro com os romances de 500 páginas, lá fui eu, e comecei a ler um best-sellers. Não que isso me chateie por aí além... Muitos dos livros que eu mais gostei de ler, note-se que não disse os melhores livros que li, eram best-sellers. Gostei de ler os livros de Michael Crichton, do Dan Brown,do Harry Potter, do James Bond, do Saramago, do Sherlock Holmes, e por aí fora... Vai daí pensei que estaria a começar um livro que teria, ao mesmo tempo a leveza e o interesse de um best-seller e qualquer coisa mais, cujo cheiro eu sentia de uma forma muito ténue. Até porque o meu nariz costuma acertar nestas coisas... E logo ao princípio constatei isso... O livro começa com um pai e um filho viúvos que ainda mantém o hábito de falar com a mãe morta no meio da sua tristeza profunda. Mas é uma tristeza com uma coisa boa, é uma tristeza compartilhada, vivida a dois pelos dois. Ambos sabem o que perderam, do quanto gostam de quem perderam e que só se têm um ao outro, por isso não vale a pena negarem-se nem complicarem. Um dia, o pai leva o filho a um sítio chamado o cemitério dos livros perdidos, onde cada pessoa pode, entre um labirinto tipo biblioteca secreta do nome da rosa, escolher o livro que definirá o resto da sua vida. Para mim já não era preciso mais nada. O livro estava ganho logo ali nas primeiras páginas, o que me provocou logo uma desilusão resignada. Quando uma boa ideia desse calibre aparece logo nas primeiras páginas, é certinho que o resto do livro é sempre a descer. E foi o caso. Mas, mesmo assim, foi bom na mesma...Continuando e sistematizando, podia-se dizer que é um livro sobre um livro, sobre o livro da vida do filho de um livreiro, uma vez que tudo o que se passa na história (até o titulo desta) é motivado por um livro, mas não estaríamos a ser muito factuais. Porque o que move o personagem principal (Daniel) não é o livro em si, mas sim o escritor que o escreveu. Será então um livro sobre um escritor (Julian)? Também não, porque o escritor desapareceu, e embora a sua busca por parte de Daniel seja de facto o que o livro conta, no fundo o que nos é principalmente contado é a história das pessoas que viviam à sua volta. E é ao lermos sobre a vida de todas estas pessoas que nos é dado um vislumbre da Espanha pré guerra civil, do estado repressivo, das confusões ideológicas, da inconstância do poder. Por isso, por serem apenas vislumbres, também não podemos chamar a este livro um romance de época nem muito menos um romance histórico. Assim sendo, a única coisa que podemos dizer é que é um livro sobre pessoas e, pensando bem, essa é a definição de romance por definição (a repetição de definição foi intencional; não me enrolei no raciocínio). E que pessoas? De Daniel, rapaz sem nenhuma característica especial que se limita a perseguir o livro da sua vida, do pai de Daniel, livreiro simultaneamente amargurado com a vida mas doce com o filho e com o mundo, de Clara, rapariga cega que adora ler (que lhe leiam), que foi a primeira fixação de Daniel e cujo desempenho sexual perturbador ainda hoje consigo vislumbrar, do tio de Clara, que só falava com palavras esdrúxulas, do inspector da polícia de cujo nome no quiero acordar-me J , de Fermin, homeless recuperado, viril como um miúra mas saco de pancada da polícia, cujos diálogos, erudição e sensatez sentimental valem só por si o livro, de Miquel de Moliner, discípulo precoce de Freud, analista implacável e infalível do género humano (ele, não Freud), poço de sentimentos puros e meu personagem preferido do livro e de Julian, o escritor. Julian Carax, que escrevia livros que não se conseguia parar de ler mas que ninguém comprava, que toda a gente à sua volta adorava e não conseguia deixar de adorar, mas que nunca gostou de si próprio. Que todas as mulheres (a mãe, Nuria, Penélope) amavam mas que nenhuma conseguiu ser feliz com o seu amor. E que, acima de tudo, escreveu um livro que provocou uma confusão tão grande no romance que nem mesmo leitores esclarecidos como eu, conseguem depois dizer coisa com coisa quando o tentam resumir. Duas certezas. Uma: gostei muito. Duas: não é uma comédia...

10.10.08

18 - Gog



Giovanni Papini

Sempre achei que o mais dificil quando se escreve um livro á ter a idéia. Acho a idéia tão importante que acho que deveria passar a chamar-lhe "A Idéia". Não é dificil escrever bem. Quer dizer, se calhar até é dificil, mas há muita gente que sabe escrever bem, e a maioria das pessoas que não sabe é por pura preguiça. Não é transcendente saber alinhavar umas palavras pela ordem correcta ao longo de uma frase, até porque não está escrito em lado nenhum que escrever bem implica complicar muito. Pelo contrário. Eu, adepto confesso da frase curta, acho que na simplicidade está muito do mérito de uma boa escrita. De qualquer forma, e no que diz respeito aos livros, a boa escrita pouco ou nada interessa. Os franceses do século 19 escreviam super bem e não saiu um livro de jeito de toda a sua produção (pelo menos do Balzac, Baudelaire,Proust, Flaubert, Stendhal e Victor Hugo). O Kafka era competente a escrever mas o que é facto é que não se aproveita nenhum dos seus livros, que são, convenhamos, uma seca. Bem, poderão não ser todos, se calhar é pretensão minha generalizar, uma vez que não os li a todos. Só li O Processo, O Covil, A metamorfose, A grande Muralha da China e O castelo. O Milan Kundera escreve bem e até conseguimos de facto retirar algum prazer da sua leitura, mas todos os seus livros são iguais e hoje, alguns anos depois de os ter lido, confundo-os todos e não me lembro de nenhum. Convém mais uma vez não generalizar, uma vez que só li A brincadeira, A insustentável leveza do ser, O livro dos amores risíveis, A valsa do adeus, A vida não é aqui e A imortalidade. O António Lobo Antunes escreve tão bem que parece, quando lemos os seus livros, que estamos a ouvir uma voz tão doce que pertence a uma pessoa que expira rebuçados, mas depois de os ler, ou ainda a meio da leitura, já não nos lembramos de nada do que está para trás. Mas não quero generalizar: só li o Auto dos danados, A ordem natural das coisas, os Cus de Judas, o Tratado das paixões da alma, A morte de Carlos Gardel, a Memória de elefante. Enfim. poderia continuar com os russos, mas esquece lá isso. Ou então com os americanos, aquele tridente adormecedor completamente desprovido de idéias interessantes, constituido por William Faulkner, John Steinbeck e Ernest Hemingway, curiosamente, todos prémio Nobel, penso eu. É chato e culturalmente incorrecto dizer mal do Hemingway, principalmente porque não li os livros dele todos. Só li o Paris é uma festa, o Velho e o mar, Por quem os sinos dobram, As neves do kilimanjaro, O adeus às armas e o Jardim do Éden . Mas não. A idéia é falar deste livro espantoso, cheio de boas idéais chamado Gog. Então é assim. Gog é um milionário aborrecido que tem um iman interno que atrai excêntricos e, quando esse iman não funciona, então é ele próprio que se propõe fazer as coisas mais incríveis. Enumeremos então o que o livro nos conta, de memória e sem ordem.

Para começar, há todo o conjunto de conversas com Henry Ford, Ghandi, Einstein, Freud, H G Wells, George Bernard Shaw, Edison, o Conde de Saint Germain, Lénine e alguns outros. Não serão propriamente conversas, uma vez que Gog, super inteligente, se limita a deixá-los discorrer sobre o que lhes vai na alma e no corpo. Não são também entrevistas, porque Gog não se dá ao trabalho de lhes fazer perguntas. Ele sabe que com os génios, a única maneira de interagir é deixá-los falar livremente, não correndo o risco, nem de se lhes fazer perguntas idiotas e insuficientes sobre a matéria que eles dominam, nem fazendo perguntas idiotas sobre coisas que a eles não lhes interessam nada e que, consequentemente, nada de importante teriam a dizer. E depois há a própria atitude de Gog perante os génios. Ele espera genuinamente que os outros tenham alguma coisa para lhe ensinar, mas mantém uma atitude cáptica e desapaixonada, prevendo à priori que nada de muito novo vai sair dali. Ás vezes engana-se, mas às vezes não.

Outra vez, fala-nos da colecção de sábios que fez, sábios multi disciplinares, multi rácicos e multi, chamemos-lhe assim, religiosos. Obviamente que constata que, ao dar-lhes uns minutos de atenção para que façam as suas habilidades, eles não são nem muito hábeis nem lá muito honestos. Constata aquilo que eu lhe poderia ter dito. Os sábios, feiticeiros, sacerdotes e etc das tribos são apenas aqueles que inventaram um pretexto para não terem, nem que caçar, nem arrumar a caverna.

Noutra ocasião, descreve-nos a ilha em que estava estipulado pela lei que a população nunca poderia ultrapassar os 770 habitantes, número que ultrapassado poria em causa o equilíbrio ecológico. Assim sendo, todos os anos num determinado dia, se fazia o balanço e se matava os que excediam esse número, sendo os excedentes escolhidos por critérios que não se poderia considerar isentos de lógica.

Entre os inúmeros excêntricos (ou não) que recebia, podia-se contar o historiador que escrevia a história do presente para o passado, pois só analisando as consequências que os actos tiveram no presente se poderia julgar correctamente da sua pertinência quando foram cometidos no passado.

Ou o médium que convocava, não os mortos, por considerar que estes não poderiam trazer nada de novo ao presente, mas os vivos, pois esses é que poderiam contribuir com algo de útil. Um aparte. Este médium fez Gog tomar consciência da sua profunda solidão, dado que não havia ninguém entre os vivos que ele quisesse invocar. Assim, mesmo sendo o médium competente e aparentemente honesto, não tinha nenhuma serventia para Gog, que o mandou imediatamente embora e, penso eu, que sem dinheiro para o táxi.

Ou o representante da FOM, friends of mankind, que advogava que o aumento contínuo da humanidade na terra é contrário à própria humanidade. A solução passaria por, segundo a FOM,eliminar aqueles que não faziam falta, tais como os inúteis, os criminosos e os velhos, que já viveram bastante.

Voltando às colecções, Gog coleccionava anões, gigantes, sósias, gémeos, todos "objectos" que tinham uma qualquer qualidade intrínseca que os tornasse diferentes e originais no meio da humanidade. Embora seja evidente que faria muito mais sentido uma colecção de super modelas, não consigo deixar de achar piada a uma colecção de gigantes, metidos numa qualquer sala de pé direito triplo ou mesmo quádruplo. E, na sala seguinte, de pé direito zer virgula cinco, a colecção de anões, que não consigo imaginar de outra maneira que não resmungões. Mas isto sou eu... Gos não fazia juízos de valor...

E depois o capítulo das convicções pessoais que Gog tinha. Que as pessoas deveriam todas usar máscaras, e que havia quatro razões para isto. A razão higiénica (confesso que não apanhei bem esta), a razão estética (esta será evidente), a razão moral e a razão educativa. Não vou comentar...

Ou então a convicção de que um dos piores vícios da humanidade era comer em sociedade. Sendo a alimentação um instinto perfeitamente individual (são raros os exemplos em que espécies se alimentam em conjunto, tirando talvez os leões e as hienas, que são dois maus exemplos) Gog sugeria que todas as casa tivessem micro compartimentos onde as pessoas poderiam tomar as refeições educadamente sozinhas. Tipo casas de banho. E embora os mais sensíveis se possam repugnar com esta comparação, ela é perfeitamente lógica. Ambas as acções envolvem troca de alimentos entre o interior e o exterior do corpo humano, mudando apenas a extremidade em que a acção se passa e o sentido em que a acção decorre. Não quero ser fundamentalista, mas pelo menos no que diz respeito à fruta, assino por baixo tudo o que ele diz...

Enfim, dado serem inúmeros es exemplos de idéias, chamemos-lhe assim, originais, fico-me por aqui. Agora digo e repito. Num único livro, Giovanni Papini desfila mais idéias (e mais originais) que todos os prémios Nobel juntos.

2.9.08

17 - Fever pitch


Nick Hornby.
Finalmente, um livro para homens. Eh pá; isto começou mal. Outra maneira de começar mal seria: ena… um livro de futebol. Até que enfim. Bem… Isto está a começar mesmo mal, mas os opostos atraem-se, toda a gente sabe disso menos eu, que em tal não acredito… Adiante. Este livro tem 3 características que, quer vistas apenas superficialmente, quer analisadas com profundidade excessiva, me atraem irremediavelmente.

A primeira é que é um livro que fala sobre futebol sob o ponto de vista sentimental, que é, a par do campo, o sítio onde o futebol se joga. Á flor da relva e junto ao peito. Sem intelectualizações idiotas sobre coisas que são sentidas e apreendidas directamente com os sentidos. Mas conferindo ao assunto a importância que ele realmente tem, pois o maior erro dos intelectuais das praças é acharem um futebol uma coisa primária, esquecendo-se que é de 3 cores primárias que todas as outras são feitas. É bom ter uma paixão. É bom sofrer incondicionalmente por algo que não é justificável de forma alguma. É bom sentir em conjunto com mais milhares de pessoas as mesmas emoções no mesmo instante. Quão diferente isso é de Fátima? Ou de ouvir o hafsol num concerto dos Sigur Rós? É bom termos a certeza de que nunca estaremos sozinhos, que aos domingos à noite, de inverno, quando todas as famílias gozam juntos os últimos momentos do fim de semana, nós também não estaremos sozinhos, porque haverá sempre alguém que terá algo para nos dizer, alguém de gravata e bom aspecto que se dá ao trabalho de falar de um assunto que gostamos e que percebemos, alguém cujo nome será qualqer coisa como domingo desportivo. É bom saber que há coisas em que somos efectivamente inteligentes, em que somos mesmo mais inteligentes que todos os outros que mandam em nós no resto do tempo, porque o futebol é como o sexo, quanto mais baixo estás na hierarquia material mais e melhor o fazes. E melhor o comentas… O futebol poderia perfeitamente ser aproveitado como linguagem oficial dos povos, aquilo que o esperanto nunca foi e que o inglês também não quer ser. Os diplomatas seriam ex-internacionais das respectivas selecções, conjugando simultaneamente conhecimento técnico da matéria do qual são embaixadores e esperiência profissional. Nunca mais haveria um almoço político aborrecido, com um protocolo intragável. Os representantes de cada país já se conheceriam, já teriam jgado uns contra os outros, já saberiam quais as manhas de cada um. Seria também bastante mais justo, uma vez que são sempre os países mais pobres que têm os melhores jogadores. Alguém imagina numa negociação de dívidas externas qualquer ex-jogador americano ou suíço levar a melhor sobre o Zico ou sobre o Sócrates?

A segunda caracteristica é uma espécie de melancolia masculino-juvenil que ele consegue transmitir na maneira como escreve. Antes que prolifere o mal entendido, explico-me. Ao ler os pensamentos dele sobre o dia a dia, sobre a maneira como, sábado ou domingo depois de almoço, a chover, se punha a caminho para ir ver os jogos, recordo-me invariavelmente…de mim. E sinto saudades, porque as sensações de ser filho único, de ter como principal interlocutor a mim próprio, de passar tardes sozinhos no estádio, de preferir os jogos “pequenos”, em que tinha quase a certeza que o porto ia ganhar, de sentir medo dos gunas, de sofrer sozinho (nunca fui muito de exteriozar emoções), enfim, todas essas coisas que o livro descreve metodicamente, entram-me directamente no sangue, sem passar pelo cérebro. Há diferenças, evidentemente… Eu nunca virei as costas quando a minha equipa ia marcar um penalti. A minha cor é o azul, e nunca, nunca o vermelho. Por outro lado, também não me consigo lembrar dos resultados de uns anos para os outros. Por favor... eu tenho vida para além do jogo, mas sei o que este jogo pode representar para a vida.

A terceira é a parte técnica propriamente dita, que é aquela menos verbalizada e comentada. Faz-me muita confusão como é que se pode viver e discutir um assunto até à exaustão e não se falar das coisas que realmente ineressam, tais como a forma de passar, de chutar, de cabecear, de desmarcar e, também importante, de marcar. golos. Como é que se consegue falar tanto de futebol em Portugal e não se falar nestes aspectos fundamentais. Este livro deveria ser de leitura, análise e plágio obrigatório por todos os jornalistas desportivos que escrevem sobre futebol. Pergunta pertinente: o jornalismo desportivo é passível de curso superior? Gostei muito da parte em que se descreve o mais importante golo da carreira de um qualquer ponta de lança ineficaz em todo o resto da sua carreira. Por muito ineficaz que tenha sido, por muito mal que jogasse, por poucos golos que marcasse, conseguiu marcar a vida de um jovem (e se calhar de quantos mais) de tal forma que hoje a sua história é contada em livro. Reflectindo: quantos de nós já conseguiram marcar de forma tão expressiva a vida de tanta gente ? Quantos de nós estão ou estarão imortalizados em livro ? Eu, não sei bem porquê, confesso que não estou. É esta a magia do futebol, se entendermos como magia os fenómenos inexplicáveis que, de alguma forma, nos encantam. É esta a magia deste livro, que nos faz apreender tão facilmente todas as emoções relacionadas com este fenómeno. Mas não a todos... Só aos desportivamente esclarecidos.
Acabo com uma citação. A tradução é livre e é minha, mas reflecte tudo:
"Não quero morrer depois de um jogo. Parece-me excessivo, como se o futebol fosse o único contexto possível para a morte de um adepto. Não quero ser lembrado com um abanar de cabeça e um sorriso vago confirmatório de que esta seria efectivamente a maneira que eu teria escolhido de morrer. Deêm-me gravidade em vez de coerência barata".

13.6.08

16 - A morte melancólica do rapaz ostra


Tim Burton.
Era uma vez um palito que se apaixonou por uma fósfora. Tinham tudo em comum, digo eu. Eram os dois altos, magros, bonitos e sentiam um grande prazer em gostar de alguém. Tanto gostaram um do outro que a situação ficou, chamemos-lhe assim, fogosa. Tão fogosa que incendiaram. Os dois. Arderam num instante. Era uma vez uma rapariga esbugalhada. Esbugalhada? Sim, sempre a olhar esbugalhada para toda a gente. Olhava para o céu, olhava para o chão, e se tivesses sorte, olhava para ti até mais não. Era tão boa a esbugalhar que resolveu entrar num concurso que facilmente venceu. Mas nesse dia cansou-se, tirou os olhos fora e pô-los a descansar. Onde? Junto ao mar. Era uma vez uma rapariga que tinha muitos olhos. Quase dez. O seu maior medo era Ter de usar óculos, pelas razões evidentes. Era bonita, ela, mas tinha um senão. Quando começava a chorar, molhava até mais não. Era uma vez um rapaz chamado nódoa e era um super herói. Não voava. Não saltava. Apenas sujava. E por tanto sujar, bastante sofria. Por causa da conta da lavandaria. Era uma vez um casal que se casou junto ao mar e pouco depois, estavam a pinar. Nasceu-lhes um filho com cabeça de ostra. Que em todo o lado, estava sempre à mostra. Um dia o pai, para se sentir paradisíaco, usou-o como afrodisíaco. Comeu-lhe a cabeça, após hesitar. O resto do corpo, enterrou junto ao mar. Chorando jurou, nunca o esquecer, mas bastou a maré alta, para tudo varrer. Era uma vez uma rapariga, a rapariga vudu, que tinha alfinetes coloridos espetados "par-tout". Era muito carinhosa, estava sempre a amar, mas quanto mais amava, mais os alfinetes, se acabavam por enterrar. Era uma vez uma rapariga que tinha os cabelos fofos como penas, uma pele suave como flanela e um corpo branco como algodão. Transformou-se num edredão. Era uma vez um rapaz que era super tóxico. Respirava escapes, chaminés e afins. Um dia respirou ar puro e pararam-lhe os rins. Morreu e foi para o céu, chegou lá em nono. Mas no caminho para cima, fez um buraco no ozono. Era uma vez um rapaz, com cabeça de queijo, e por causa disso, nunca teve um beijo. Mas como era pragmático, nunca sofria. Pior seria, se em vez do queijo todo, tivesse apenas uma fatia. Era uma vez uma rapariga, que gostava de cheirar cola. Cheirava, cheirava e nunca parava. O chato era que ficava, com o lenço colado na cara, sempre que se assoava. Mente perversa? Eu? Há pior... Para ler muito. Duas vezes não chega...

11.5.08

15 - A história de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar


Luis Sepulveda.
Era uma vez um gato chamado Zorbas. Um dia, quando ele estava na varanda, apareceu uma gaivota muito doente. A gaivota pediu para ela tomar conta do ovo dela e para ensinar a gaivotinha a voar. Quando a gaivotinha nasceu, o Zorbas pediu ajuda a três amigos: o Colonello, o Sabetudo e o Secretário. Com a ajuda dos três gatos amigos, ele cumpriu as três promessas e ensisinou a gaivotinha ditosa a voar.
(Resumo escrito pelo João)

4.5.08

14 - A rapariga que roubava livros


Markus Zusak.
Logo ao princípio tive mensagens contraditórias. A capa era lindíssima, mas era uma história passada em pleno nazismo/2ª guerra mundial, período histórico que eu evito com todas as minhas forças, uma vez que ando já há muito tempo a jogar à defesa no que diz respeito a deixar que algo que eu leia me provoque tristeza. Ando um bocado maricas, emocionando-me facilmente ainda que sempre com razão. Não se trata de estar com as lágrimas em saldo, ou mesmo de já não saber onde as aplicar. Sei. Sei sempre o que vale a pena ser chorado mas, por e simplesmente, não me apetece sentir-me triste com indignidades históricas. Prefiro acreditar que já passaram e que não se vão repetir. Esta história das emoções é cíclica. Quando era miúdo, os meus bons sentimentos faziam com que me emocionasse com tudo que era desgraça e injustiça. Mais tarde, por achar que isso me deixava demasiado exposto, investi numa couraça sentimental que me fazia enfrentar qualquer coisa sem sequer piscar. Depois de alternar várias vezes entre a fraqueza e a força, fixei-me finalmente num estado de espírito constante, que é o de Ter que evitar pensar/ver/ler coisas tristes para não desatar a chorar tipo maria madalena em versão pré-código Da Vinci. Curiosamente, esta fase maricas instalou-se definitivamente há cerca de uns seis anos. Porque terá sido ? Comecei a ler, no metro, a caminho do concerto dos portishead, aquele em que toda a gente chorou, se emocionou, reencontrou as suas almas gémeas, ressuscitou para o mundo sentimental e essas coisas todas que a seguiram foram contar aos jornalistas do Público. Enfim... Comecei a ler no metro e li que:
era uma história contada pela morte.
a morte era totalmente centrada nas cores.
A morte falava dos humanos com um desdém de superioridade resignado...
Endireitei-ma na cadeira, li com mais força (eu consigo ler com diversas intensidades) e pensei: Joana... Deste-me um daqueles livros que faz a diferença! Super direito na cadeira, continuei a ler, e logo a seguir um miúdo de seis anos morre. Porra. Fechei o livro, com vontade de atirá-lo pela janela fora (as janelas do metro do porto não abrem, por isso é que digo isto). Como é possível ter caído na armadilha? Caramba... Eu já não tinha decidido que nunca mais iria ler algo em que morressem crianças de seis anos? Era tarde, e o mal já estava feito. E então, o livro começou. Liesel viajava num comboio, com a mão que a ia entregar a ela e ao irmão a uma família adoptiva, porque não tinha dinheiro para os sustentar. Não querendo passar por isso, o irmão decidiu morrer no comboio, de tristeza, digo eu. Liesel foi então entregue à família adoptiva, constituída por uma mãe chamada Rosa e por um pai chamado Hans. A mãe estava sempre a praguejar e a chamar-lhe saumensh e o pai tinha uns olhos cinzentos que faziam com que tudo o que fizesse tivesse simultaneamente a adequação da sabedoria e a placidez do sentimento bem aplicado. Esta definição é minha, e não está má. Liesel tinha pesadelos, mas o pai ia para a beira dela e ensinava-a a ler. A ler o quê? Esqueci-me de dizer que, após a morte do irmão, Liesel roubou o primeiro livro: O manual do coveiro. Quando Liesel chegou a casa dos hubbermans, Rosa, a mãe, perguntou-lhe: Como chamavas à tua mãe? Mãe, disse Liesel. Muito bem, disse Rosa. A mim podes chamar-me Mãe também. Liesel foi-se integrando na vida da rua, ao lado de Rudy, um miúdo ariano loiro de olhos azuis que, um dia, se encarvoou todo pintando-se de preto e foi para o estádio correr fingindo que era o Jesse Owens... Como é possível não gostar de Rudy? Foi o que a morte disse, quando o levou: " Mexe comigo, aquele rapaz... Sempre. Ele parte-me o coração. Ele faz-me chorar..." Como é possível não chorar quando Rudy morreu? Choraste, quando o Rudy morreu? É a pergunta que se faz a quem leu este livro. Não é? Eu, que estava num avião a caminho da Lapónia, tive que respirar um bocadinho fundo Entretanto, as coisas iam acontecendo... A morte ia levando cada vez mais almas, sentindo-se exausta e super amargurada com o trabalho que os humanos lhe davam. Rosa chamava saumensh e saukerl a toda a gente. Hans limitava-se a ser o melhor pai do mundo e Liesel e Rudy amavam-se a sério, como as pessoas se deveriam amar. Esta conclusão é minha, e está certa. Max, um judeu refugiado na cave de Liesel, escrevia as histórias mais lindas do últimos tempos e as bombas começaram a cair sobre Munich Street. Era o nome da rua em que eles moravam. E Liesel continuava a roubar livros, e Rudy sempre ao seu lado, desejando aquele beijo que, embora só tenha acontecido no fim, tem sempre que acontecer, sempre, para que as pessoas sejam felizes. E eu, eu não digo mais nada, porque estou a ficar triste e não quero chegar à conclusão que o livro mais bonito que li nos últimos dez anos é um livro triste.
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31.8.07

13 - A bruxa de Oz


Gregory Macguire
Sempre gostei de livros de cfapa preta. Parece que há uma espécie de pacto só para entendidos que nos diz que se o livro não mostra nada na capa então é porque vale a pena. Costuma valer e, neste caso. Valeu. A bruxa de Oz (gosto mais do título em inglês, wicked) conta a história da bruxa de Oz e só aí temos logo a grande qualidade de não estarmos a ser enganados. Para os mais esquecidos, quando Dorothy, essa Alice alternativa e bastante mais controversa, aterrou em Oz, cavalgando um tornado vindo do Kansas, aterrou em cima da bruxa do leste, esmagando-a, matando-a e ficando-lhe com os sapatos. Aparte: sapatos de rubi, vermelhos... Será que só eu é que vislumbro o fetiche? Porque eram, e sempre serão, claramente fetichistas, o raio dos sapatos, sendo um símbolo algo visível da profunda, chamemos-he assim, originalidade, do criador do mundo de Oz. Enfim, adiante. O feiticeiro de Oz é um daqueles filmes de que sempre tive a impressão de que tinham qualquer coisa para esclarecer quando fosse grande. Ainda não esclareci, mas ficaram-me algumas imagens fortes na cabeça e a sensação de que devia haver algo que valia a pena nesta história toda. Assim, quando comecei a ler o livro, além da capa preta não tinha mais nada a que me agarrar. Este estado de espírito durou 2 páginas. Ao fim delas, deparei-me com toda a gente a fazer análises profundas ao caracter da bruxa. Da bruxa do oeste, irmã da esmagada. Nasceu hermafrodita, dizia o leão medroso; não, é lésbica, dizia o homem de lata; tem carências sentimentais profundas, dizia o espantalho; não percebo nada, dizia Dorothy. E tudo isto a bruxa ouvia em cima de uma árvore, incrédula, enquanto tentava ver os olhos de Dorothy. Mas afinal quem era a bruxa?
A bruxa era Elphaba, gostei logo do nome, filha de um pastor da religião dominante em Oz e da herdeira de um dos principais cargos políticos do superpolitizado reino de Oz. Elphaba nasceu verde e com uns dentes bastante afiados, situação que causava sérios problemas à sua envolvente humana. Era ainda super-sisuda e detestava +água. . A vida por aqueles lados não era lá muito animada, tanto qe quando lá chegou um soprador de vidro tornou-se logo pai da irmã de Elphaba, Nessarose, a bruxa do leste, dona dos sapatos... Nessarose, Nessie, tinha toda a beleza da Vénus de Milo. Tanto nas feições como na ausência de braços. Infância à frente, ei-las que vão para a faculdade, onde emparelham com diversos extractos sociais de Oz, supostamente original. Não é lá muito. Estão lá os tipos tradicionais, se procurarmos bem, o homossexual, a fútil, a rebelde, o rico e o trabalhador. Também aqui, o homossexual é o que é representado como sendo o mais interessante humanamente. Mais um ponto par o lobby gay. A terra doe Oz tinha algumas particularidades interessantes das quais nunca me tinha apercebido e que decerto encerram metáforas poderosíssimas, das quais apenas arranhei a superfície. Uma delas são os Animais, com letra grande, inteligentes, conscientes, humanos em tudo menos no não quererem dominar os restantes seres vivos. Não percebi, no entanto, qual a sua posição no que diz respeito aos animais, sem maiúscula. O maior exemplo dos Animais é o professor Dillimond, um bode irascível e professor universitário que nunca se calava até que um dia morto pelo robot da directora da faculdade. O meu Animal preferido era uma Vaca que era claramente socrática, ou seja, só sabia que acabaria por acabar na mesa de alguém. Outro aspecto interessante em Oz é o governo, bastante complicado, com princesas mártires caídas em desgraça e à espera de redenção e um feiticeiro regente que desceu de um balão. A parte religiosa é também interessante e com pano para mangas embora na minha opinião criar novas religiões pode ser muito doevrtido, mas é igualmente pouco produtivo. Enfim... Este livro deixa-me bastante dividido. Por um lado, tem sem dúvida todo um conjunto de idéias e situações bastante originais. Por outo lado, parece que todas essas ideias estão um pouco desligadas entre si e não são suficientemente enquadrados no ambiente geral, que é o que deveria criar a textura contínua do livro. Este pode ser um daqueles casos raros em que a sequela que inevitavelmente virá complete o livro, em vez de o estragar. De qualquer forma, gostei. Bastante.

9.5.07

12. o psicopata americano


Brett Easton Ellis
Factos recentes fizeram-me vir à memória livros passados. Além disso, precisava de mudar o registo, deixar-me de conspirações mitico-históricas e universos alternativos fantásticos. Senti que precisava de uma injecção de realidade, vai daí lembrei-me de um livro que, felizmente, de real não tem nada. Como não estava com o computador à frente (graças a Deus ainda se vai tendo alguns momentos desses) resolvi tirar umas notas num caderno, como fazem os escritores. A vaidade daquele momento com certeza que iria compensar a humilhação de quando o escritor virasse dactilógrafa e tivesse que dactilografar tudo outra vez. Justiça poética. Para não passar essa humilhação, perdi a folha onde tinha as notas. Além de lá estar todas as boas ideias que resultaram da leitura do livro, ainda tem a agravante de alguém poder achar a folha e lê-la, coisa que não estava nos planos. Porque aqui, como é óbvio, ninguém lê... Brett Easton Ellis é um daqueles escritores que esteve na moda, porque tinha livros dificeis onde transparecia alguma inteligência, porque era uma pessoa dificil e peculiar e porque era um gajo in. E tanto mais na moda estava quanto piores eram os seus livros. Acho que os fui lendo todos, ou quase todos, também não eram muitos e como tinham algum sexo, ia-se lendo... Menos que zero, as regras de atracção, e Glamorama (acho que este foi depois)... Todos maus. Muito maus. Mas, quanto a mim, ele tinha uma qualidade. Escrevia sobre nada mas, dava a sensação de que tinha algo a dizer, que talvez nos dissesse na próxima página ou que, caso não nos dissesse, era porque não éramos suficientemente in ou cool para o saber.
Um dia, na altura quando ainda havia tempo para visitar e namorar pormenorizadamente a feira do livro no palácio, após namorar indefinidamente o livro, decidi comprá-lo. Dois contos. E a chamar-me interiormente estúpido por estar a comprar uma coisa que tinha quase a certeza que não prestava. Enganei-me. Prestava, e bastante. O psicopata americano contava a história de um yuppie, raça felizmente agora extinta, que navegava por Manhatan a fazer todas as coisas estúpidas que os yuppies na altura faziam, a saber, ganhar dinheiro fazendo quase nada, comprar roupa e mobiliário minimalista finlandês, ir a festas e trocar os nomes de todas as pessoas que conhecia. E falar sobre roupa. Meu Deus. Como ele falava sobre roupa. Não se calava. Que seca, pensava eu. Mas ao mesmo tempo, intencionalmente ou não, Patrick Bateman, o psicopata, reflectia na perfeição o vazio que toda aquela gente e aquele meio representavam. Era banal, oco e vazio, e e suscitava uma profunda antipatia. Nada de interesse, portanto. Até que se começa a revelar. Maltrata mendigos, aluga prostitutas, que depois de sexo espanca metodicamente, droga-se, bebe e começa a matar. E é aqui que me comecei a preocupar, ao constatar que lia com interesse o relato dos seus actos, que me apercebia da sua profunda indiferença acerca dos actos que cometia, da violência que praticava. Enquanto que, objectivamente, todos os meus instintos berravam contra o chorrilho de atrocidades que ele praticava, não conseguia deixar de constatar que toda aquela violência me causava de facto algum interesse. Embora me chocasse tudo o que estava a ler, lia cada vez mais depressa e horrorizava-me com o interesse doentio que tudo aquilo suscitava em mim. Seria só a mim, interrogava-me? Achei que não deixava de ser uma pessoa normal, de Ter os sentimentos direccionados na direcção certa. Mas cheguei à conclusão que a violência exerce de facto um fascínio muito especial em toda a gente. Aquela indiferença gélida perante a morte e a tortura, a meticulosidade posta em cada um dos seus actos, a facilidade com que voltava à sua vida normal depois de cada acesso de loucura dava que pensar. Parecia quase normal, que depois das atrocidades, tudo voltasse a ser como dantes. Felizmente o livro acabou por acabar, e depois de analisar friamente todos os sentimentos que por mim passaram, apenas cheguei à conclusão que a violência, se cuidadosamente servida, acaba por ser aceite como normal. Era só um livro, mas algo estava decididamente mal se o tínhamos conseguido ler até ao fim sem o deitar fora a meio. Acho que o problema acaba por ser esse. A incapacidade que se sente em rejeitar à priori coisas profundamente más. Tolerar a violência sem dizer logo instantaneamente que este livro é uma porcaria que só transmite coisas más. E enquanto as pessoas normais conseguem atravessar experiências desse tipo sem se deixar influenciar, não resulta muito difícil compreender que, para outro tipo de pessoas, toda esta violência pode chegar a tornar-se uma coisa normal. E que percam a noção das fronteiras, que confundam aquilo que deveria ser apenas um livro ou um filme com a vida real. Como os soldados americanos quasi adolescentes que, na guerra do golfo, saiam dos tanques com a música dos seus fones no máximo e desatavam a matar qualquer iraquiano que lhes aparecesse à frente. Era como se fosse um jogo de computador. Game over e siga o baile. Era apenas normal. O problema, é que não é normal. O problema é que eles já não conseguem ver que não é normal. E depois as desgraças acontecem, no meio daquilo que todos nós entendemos como civilização. E o livro? É bom ou mau? Não sei...

28.3.07

11. a morte de rimbaud



Leandro Konder.
Rimbaud é, para mim, uma boa lembrança da juventude. O meu professor de filosofia do 11º ano, louco, que dava livros aos alunos que tiravam a melhor nota em cada um dos testes, ofereceu o único poema que Rimbaud escreveu a um dos meus colegas da altura. Que, embora inteligente e razoavelmente abstracto, não teve o melhor teste, que era invariavelmente o meu. Também tive os meus livros de prémio, mas nenhum como o que o meu amigo recebeu. Chamava-se, em tradução livre, "uma cerveja no inferno" de Rimbaud e eu não descansei enquanto ele não me veio parar à mão. Ainda o tenho. O exemplar do meu amigo. E hoje, muito tempo depois, mesmo sabendo que aquelas frases tipo "dancei nas margens da loucura e ri-me na sua cara" e "sepulto os mortos na barriga" não querem dizer nada e nem sequer alucinações genuínas de um poeta bêbado eram, ainda me arrepia o estômago da emoção que senti ao lê-las, e relê-las à exaustão. Cruzes. Pareço um amigo meu que agora anda com a mania de descrever o que sentia quando, há bastantes mais anos do que ele gosta de admitir, ouvia os seus cd’s, alguns de gosto duvidoso. Quando se tem 17 anos e se está a começar a ganhar o sentido do abstracto, a sensação de ler um livro daqueles é completamente única, e deixa lembranças positivas nos 19 anos seguintes. Vai daí, quando estou no supermercado (que horror, ele não compra os livros nas livrarias queques) e dou de caras com algo que diz "a morte de rimbaud" superentusiasmo-me instantaneamente e pumba. Comprei o livro mesmo sem ler o resumo ridículo da contra-capa. Mais calmo, em casa, apercebi-me imediatamente que era uma qualquer apropriação do nome do poeta, para um qualquer escritor duvidoso tentar vender uns livritos. Depois de investigar, soube que o dito escritor só tinha escrito dois livros, o que me fez ganhar logo bastante respeito por ele. Admiro pessoas pragmáticas, que escrevem aquilo que têm dentro e depois param, sem nos estar a entupir com livros fracos de 2 em 2 anos. Vai daí... li. E, surpresa, o gajo era brasileiro. Logo na 17ª linha aparece o primeiro palavrão impronunciável que os brasileiros usam constantemente no seu vocabulário. Guariroba. Previ o pior. Aconteceu o melhor. Era uma vez um detective chamado Sdruws (gosto de sentidos de humor surrealistas) que chegou a um hotel e foi recebido por um gerente chamado Saint-Ex, que trabalha para um milionário chamado Bergotte (estamos no Brasil. Semanticamente, tudo é possível). Bergotte é um milionário que comprou 5 escritores contemporâneos, pagou-lhes um salário mensal, batizou-os de Rimbaud, Rousseau, Malraux, Aragon (confesso que este não conheço) e Claudel e pô-los a escrever, penso eu de que, um livro. Rimbaud, de seu nome Severino Cavlcante, membro fanático de uma academia de musculação onde era conhecido como Rambo (estamos no Brasil. Rambo passa a Rimbaud, desde que quem ponha a altura seja um literato, Rimbaud, dizia eu, morre, caido de uma varanda. Sduws Investiga e os suspeitos são os outros 4 escritores. A partir daqui, passamos à história em discurso indirecto, em que cada um dos personagens conta a conversa que acabou de Ter com Sdruws, cada um à sua maneira, mas todos num brasileiro que, quando bem escrito e no tom certo, se torna a língua mais coloquial e engraçada das poucas que eu consigo ler no original. Mas não me cheira que o sueco ou o malaio sejam mais engraçadas. Sou um defensor da nossa língua, do português. Acho que para transmitir sentimentos e para esvrever com seriedade é a língua mais bonita do mundo. Mas, aceito que um país que tem 200 ou 300 milhões de habitantes queira Ter a sua língua. Por isso, deixem-nos escrever como quiserem, desde que não tenhamos que gramar com as suas manias. E. além disso, o brasileiro, neste registo semi-humorístico e informal, é imbatível e de chorar a rir, que foi o que eu fiz quando ninguém esta a olhar. No meio de citações de Kafka, Borges, Marx e Fernando Pessoa, o gajo consegue descrever-nos cada pormenor tortuoso da mente de cada um dos personagens, sempre de uma maneira super engraçada. Gostei do Rousseau, tão arrogante que nos faz sorrir. Ao convidar Sdruws para un jantar no restaurante japonês, ao perceber que Sdruws não sabia como se comportar e o observava e imitava em tudo o que fazia, pegou no jarro do leite e derramou um pouco no pires. Sdruws imitou-o. Rousseau pegou então no pires e pô-lo no chão, dando o leite ao gato... E logo a seguir pregou-lhe um sermão sobre o erro de deixarmos que as culturas ibéricas no sinfluenciam demasiadamente em detrimento das eslavas...

20.3.07

10. eleanor rigby



Douglas Coupland.
Este é um daqueles livros sobre os quais não vale a pena escrever nada. Não tem história. Não tem grandes descrições. Não tem ideias. Não tem figuras de estilo. Não é em verso. O que é que sobra para se poder falar? Nada. Pois… Não é assim. Este livro transmite sensações. E boas. De calma, tranquilidade, resignação, tristeza e de alguma beleza, embora não consiga localizar nenhuma destas coisas em nenhuma daquelas páginas. A história inexistente é mais ou menos assim; uma turma de finalistas de liceu americanos vem à Europa, onde uma das raparigas conhece um austríaco numa festa e depois dele engravida, voltando depois para casa para ocultar a gravidez aos pais. É uma rapariga algo estranha, cujo hobby é visitar a casa das pessoas quando elas não lá estão, sem mexer em nada, só para sentir outros ambientes. Parêntesis. Também me imagino a fazer isso. Essa rapariga ficou bastante traumatizada porque um dia descobriu um corpo de homem vestido de mulher e cortado ao meio, na linha de comboio. Estava morto. Mas marcou-a. Como dizia o William Burroughs, no naked lunch, "wouldn´t you?". A criança nasce e é imediatamente entregue para adopção. E, por muito dilacerante que tenha sido, a vida continuou e ei-la que se tornou, 20 anos depois, numa analista informática de sucesso, emancipada, com casa própria mas sem mais ninguém lá dentro. Só os filmes do blokbuster. Um dia, um rapaz encantador surge-lhe ao caminho e diz-lhe: " Olá, Sou teu filho. Tenho pouco tempo de vida e gostaria de o passar contigo. Sem culpas. Sem remorso. Pode ser? Pôde ser. E durante esses meses, transformados em 30m páginas do mais terrivelmente triste e bonito que já li, a relação entre mãe e filho estabelece-se com uma intensidade tal que não me parece que alguma vez tenha coragem para a ler outra vez. Ando um bocado sensível. E depois, o filho morre. Depois de contar a vida difícil que teve, de casa de acolhimento em casa de acolhimento, depois de trabalhar numa loja de camas, depois de , em meses, estabelecer daqueles laços que demoram anos a criar e vidas a desatar, depois de nos cativar tanto que até dói, o filho morre. E então, eu deixo de ler o livro. Não quero ler mais. Apenas mais alguns pormenores. Ainda antes de morrer, ao contar a sua vida durante a sua juventude, deixou escapar uma frase que me fez fazer o que sempre detestei nos textos sobre livros: citá-la.
""… its after midnight and there´s nothing on tv, so you´re in your room wishing there was a song able to describe your life on the radio, and you´re cursing the aurora borealis for interfeering with the radio waves."
Provavelmente esta frase não tem nada de especial. É natural que não provoque nenhuma sensação em mais nenhuma pessoa. A mim, acertou-me em cheio, de tão bonita que a achei. Apenas mais um pormenor. Eleanor Rigby não era o nome da rapariga. Era o nome de uma canção dos Beatles. E o endereço electrónico dela. Gosto de sentidos de humor sinuosos.