Philip Pulmann foi responsável por um dos melhores livros que eu já li. Cruzava fantasia com aventura, todos à volta de uma carga filosófica muito intensa e, acima de tudo, coerente. Metia também ursos blindados, que sempre tinha sido mas eu nunca me tinha apercebido, o meu animal favorito. Todas as pessoas tinham um génio que tomava a forma de um animal, e penso que nunca nada me comoveu tanto como a descrição que ele fez da operação que tinha como objectivo separar uma criança do seu génio. O livro, ainda por cima, eram três e eram os três muito bons, cada um deles no seu registo, ambiente e personalidade própria. O livro chamava-se os reinos do norte e nunca até hoje percebi qual dos três gostei mais. Sempre achei estranho um escritor deste quilate não ter publicado mais nada, mas como nunca consegui deixar de sentir uma sensação de incredulidade relativamente aos reinos do norte, como se fosse demasiado bom para ser verdade a sua própria existência, confesso que senti medo de investigar o resto da sua obra e fui andando, acreditando que mais à frente nos cruzaríamos novamente. E assim aconteceu, embora tenha que confessar que fiz batota. Depois de meses e meses a ler policiais bons mas sempre no mesmo registo, depois de vários meses sem ler quase nada, procurei deliberadamente um escritor em que confiasse e encontrei um livro que, antes de se poder considerar bom ou mau, é decididamente um livro diferente. Então era assim. Há mais ou menos dois mil anos, uma mulher chamada Maria teve dois filhos gémeos. A um chamou Jesus e a outro chamou Cristo. Jesus era extrovertido, simpático, forte, afirmativo, sempre a procurar situações de desafio... Cristo era uma espécie de antónimo positivo do irmão; positivo porque era igualmente um rapaz bom. Antónimo porque era introvertido, reservado, meditativo, fraco fisicamente e muito avesso a confusões. Os dois viveram em conjunto durante os trinta anos de que a bíblia não fala, como se fossem uma única pessoa, mas a partir de certa altura os seus caminhos divergiram. Embora com o mesmo objectivo final, cada um deles via a vida e o mundo e todo o resto de uma forma diferente. Jesus começou a pregar a palavra de Deus e a realizar milagres Galiléia adentro. Cristo tornou-se o seu cronista e registava tudo aquilo que o irmão fazia e dizia, mas sem que este o soubesse. Jesus queria criar um novo mundo; Cristo também, mas de uma forma ligeiramente diferente. Cristo achava que toda a obra do irmão só faria sentido se desse origem a uma organização que fundamentasse a religião que Jesus estava a criar e que sem esta organização esta obra não perduraria e não teria qualquer impacto no mundo. Essa organização ajudaria a humanidade a suportar todos os mistérios, injustiças e compromissos que a vida inevitavelmente acarreta. Essa organização educaria as crianças numa perspectiva correcta, cuidaria dos doentes, alimentaria os necessitados, administraria a justiça e a benevolência, inspiraria a arte e a música, enfim, tornaria bom o mundo mau. Cristo estava assim apanhado entre dois fogos. Por um lado sabia que o irmão era puro e estava certo naquilo que desejava para a humanidade. Por outro lado sabia que seria necessário algum calculismo e mesmo algum trabalho sujo para que o Reino pudesse efectivamente chegar. Jesus, por sua vez, sendo um idealista puro, não lhe faltava a inteligência para ver o rumos que as coisas estavam a tomar. Sabia que a melhor maneira de o diabo entrar nos homens é pela porta que fica aberta quando estes acreditam que estão a trabalhar em nome de Deus. Em pouco tempo surgirão listas de castigos para todo o tipo de actividades inofensivas, surgirão pessoas a ser apedrejadas, açoitadas e chicoteadas pr causa do que comem, do que vestem, do que lêem e do que pinam. Em pouco tempo as pessoas que julgam que estão a fazer o trabalho de Deus constroem palácios e templos, fazendo com que tudo isso seja pago pelos pobres, em impostos em nome de Deus. E quanto mais poder estas pessoas angariarem, mais medo vão ter de o perder, e vão construir tribunais para queimar aqueles que acham que são pagãos e heréticos. E vão inventar guerras santas, e cruzadas, e a guerra perpetuar-se-á. Angustiado por tudo isto, Jesus questiona o pai, pedindo orientação e que Este lhe indique o caminho certo. tal, como todos sabemos, não acontece. A partir daí acontece a História. Os poderes religiosos instituídos acham que Jesus foi longe demais e resolvem condená-lo. Roma lava tranquilamente as mão, pensando que está a elimiar um terrorista e jesus acaba na cruz, depois de ter sido denunciado não pelo beijo de Judas, mas sim pelo beijo do irmão. De cristo. Que depois, arrependido, vai tirar Jesus da tumba e apresenta-se ele próprio aos apóstolos, criando assim o mito da resurreição. E fazendo com que os apóstolos espalhassem a palavra, o que deu no que deu...
4.2.14
58 - o clube dos anjos
10 amigos de infância fazem um jantar por mês, em que um deles é o anfitrião e o cozinheiro. Os amigos são todos bastante diferentes entre si, mas compartilham do gosto pela gastronomia refinada, celebrando esta assim em forma de metáfora das suas amizades e das suas vidas. Tipo, não somos, nem nós nem as nossas vidas, grande coisa, mas teremos sempre estes jantares, teremos sempre a nossa amizade e ternos-emos sempre uns aos outros.bum dia, um deles encontra um desconhecido que lhe faz uma omeleta perfeita e convida esse desconhecido para passar a ser o cozinheiro dos jantares do Clube do Picadinho. Era o nome do clube deles... Lucídio, que agora que sabemos o nome deixa de ser um desconhecido, cozinha divinalmente, tendo no entanto um pequeno problema a ele associado: mata sempre um dos convidados mo fim de cada jantar. Descobrimos depois que esta era apenas uma forma de se vingar de um dos dois homossexuais que integrava o grupo, Samuel. Samuel era, por sua vez, integrado por Ramos, o mentor espiritual e segundo homossexual. Lucídio nunca perdoou a Samuel ter sido comido por Ramos e assim, numa lógica perversa, resolveu vingar-se deste dando-lhe de comer. Comida... Como ovos sem os quais a omelete da vingança não pode ser confeccionada, jantar após jantar vai morrendo um comensal, geralmente o organizador do mesmo. Lucídio partiu do princípio que Samuel sofreria com a morte dos amigos. Não fiquei completamente convencido disto, e Samuel também não. A vida continua e a morte também. Como eles eram apenas 10 e Ramos já tinha morrido antes, os jantares duraram cerca de 8 meses, porque começou a faltar matéria prima viva e a sobrar matéria morta. O livro acaba com o único que sobrou a fazer uma agência de fornecimento de mortes paliativas. Chateiam-me os livros que conseguem quase até ao fim escapar à estupidez e que se esparramam nela nas últimas duas páginas. É uma pena. E, assim sendo, temo-la.
57 - ted
Um dia, um daqueles meninos com quem ninguém brinca recebeu um urso de pelucho no Natal, tendo imediatamente desejado que o urso ganhasse vida de maneira a poder vir a ser o seu melhor amigo para sempre. Tal aconteceu e o menino, em vez de esconder o urso no armário, tipo Elliot fez muito injustamente ao ET, resolveu assumi-lo, aterrorizando a família, ue viu em Ted uma reencarnação de Chucky. Depois dos seus 15 minutos de fama a nível nacional, rapidamente toda a sociedade americana se adaptou a Ted, sendo justo dizer que este também se adaptou à sociedade americana. E assim, os melhores amigos continuaram melhores amigos, a fazer aquilo que os melhores amigos fazem, tipo beber, fumar ganza e, digamos assim, interagir com mulheres. digo interagir porque não sei classificar. Relação entre um urso de peluche e várias prostitutas. Mas a vida de solteiro tem sempre um fim. E um dia, o rapaz apaixonou-se e começou a namorar a sério com ima namorada a sério. Ted, sendo urso, tinha pouco deste animal. De facto, poder-se-á dizer que Ted era muito humano. Que é a mesma coisa que dizer que era bués de ciumento. Ao ver o melhor amigo a consagrar o seu tempo a outro tipo de peluche ,retaliou ferozmente de muitas maneiras, sendo muito cansativo enumerá-las a todas. Bastará no entanto dizer que acabou com duas prostitutas a fazer cócó sólido no tapete da casa. Obviamente que a namorada o colocou instantaneamente em condição OEOE. Tipo, oeizou-o. Todos sabemos o que é oeizar. É uma das duas reacções instintivas que as mulheres tem quando as coisas não correm como querem. Ou oeizam (Ou Ele(a) OU Eu ou entram em regime de enxaqueca, que todos os homens sabem que é sinónimo de naoháqueca (NHQ). O que não faz sentido nenhum, porque diz quem sabe que o melhor remédio para a enxaqueca é um afluxo de sangue ao longo do corpo, mais conhecido como orgasmo. Que é também, obviamente,ma solução para a condição de NHQ . Voltando ao filme, o urso foi preterido pela namorada e perdeu-se depois numa vida boémia com montes de álcool, drogas e mulheres. E aqui não posso deixar de dizer que o filme falhou redondamente. Pardeu-se uma oportunidade de ouro de se ver no cinema um urso de peluche a pinar. O que ia ser óptimo para a humanidade. As mulheres iam ver quão fofinho o sexo é e passariam a querer fazê-lo mais. Os homens, fazendo-o mais, tornar-se-iam muito mais boas pessoas. Isso quer dizer que o sexo resolve tudo ? Não sei. Sei, no entanto, duas coisas: que o sexo com quem se gosta resolve mesmo muita coisa e que a negação de sexo não resolve coisa nenhuma. E que tem isso a ver com urso de peluche que ganha vida e passa-a a beber, comer, arrotar, fumar charros e etc? Não tem muito, mas também não há nada que tenha...
5.1.14
2013
livros (1 por mês)
o clube de paris - steve berry
a mão do diabo - josé rodrigues dos santos
o mercador de livros malditos - marcelo simoni
o gabinete das curiosidades - douglas preston e lincoln child
o prisioneiro do céu - carlos ruiz zafon
still life with crows - douglas preston e lincoln child
prodigal son - dean kontz
o cemitério de praga - umberto eco
as esganadas - jo soares
ender in exile - orson scott card
inferno - dan brown
brimstone - douglas preston e lincoln child
a livraria do sr. penumbra - robin sloan
feios - scott westerfeld
barroco tropical - josé eduardo agualusa
a casa atreides - brian herbert e kevin anderson
world war z - max brooks
madrugada suja - miguel sousa tavares
superman: red son
planetary - warren ellis
injustice_gods among us
dance of death - douglas preston e lincoln child
the good man jesus and the scoundrel christ - philip pulmann
filmes (1 por semana)
brave
skyfall
to rome with love
170 hz
the hobbit
ted
seven psychopaths
goon
the ides of march
wreck it ralph
ele não está assim tão interessado
the perks of being a wallflower
crazy stupid love trailer
hansel and grettel witch hunters
moneyball
the boondocks saints
ruby sparks
robot and frank
cloud atlas
django unchained
mr. nobody
my awkward sexual adventure
rushmore
wristcutters
the station agent
good will hunting
entre les murs
oblivion
cosmopolis
a idade do gelo 3
world war z
homem de ferro 3
before sunrise
the east
now you see me, now you don't
man of steel
star trek - in to the darkness
malena
pacific rim
warm bodies
o bom pastor
ink
oz
zero dark thirty
detachment
a gaiola dourada
blue jasmine
wolverine
o grande gatsby
elysium
séries (uma por dia)
grimm - t1
fringe - t4
alphas - t2
true blood - t4
spartacus - t4
perception - t1
era uma vez - t2
game of thrones - t3
da vinci's demons - t1
falling skies - t2
grimm - t2
hannibal - t1
sherlock - t2
falling skies - t3
haven - t3
elementary - t1
música
uma hora de música 1
uma hora de música 2
uma hora de música 3
uma hora de música 4
uma hora de música 5
uma hora de música 6
uma hora de música 7
uma hora de musica 8
uma hora de música 9
uma hora de música 10
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uma hora de música # 21
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uma hora de música # 23
uma hora de música # 24
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Junho
Julho
Agosto
Setembro
avecar
Novinco
nãoseionome
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14.12.13
56 - oblivion
Jack e a namorada são os dos últimos únicos humanos no planeta. A terra foi invadida e, embora a humanidade tivesse ganho a guerra, foram obrigados a usar bombas atómicas e deram cabo do planeta, tendo assim que emigrar para Titã, lua de Saturno (ou de Júpiter?). Jack e a namorada moram numa casa branquinha e tom tem uma nave branquinha e uma mota branquinha. Sendo ele branquinho também, de repente pareceu-me que estava a ver o Wall-E. Continuei a ver o filme, mas já não me consegui abstrair desta ideia e, inconscientemente, comecei a fazer comparações. Jack tem, efectivamente, muito mais vocabulário que Wall-e, mas apenas cerca de um décimo do carisma. Wall-E tinha como missão limpar o lixo que a humanidade tinha deixado ficar na Terra para, um dia no futuro, a terra estar novamente habitável. Jack andava a reparar os robots que, por sua vez, tomavam conta das torres que extraiam água do mar dos nossos oceanos e a mandavam para Titã, para essa água fornecer energia à humanidade lá exilada. wall-E era, assim, um reciclador enquanto Jack era um, sei lá, saqueador. Tom usa e abusa dos seus gadgets futuristas, tipo a nave, a mota, a arma, os óculos escuros enquanto que Wall-E alimenta a alma com as relíquas do passado que recolhe no meio do lixo. Confesso que aqui estou a ser injusto, porque também Jack é saudosista e tem uma cabana junto a um lago com um cesto de basquete e discos maus. Tom diverte-se (como qualquer homem se divertiria, aliás) com um dia-a-dia de condução / utilização de máquinas potentes, tiros no inimigo e sexo na namorada. Wall-E, enquanto isto, continua a arrumar... Dizia então eu que a humanidade estava toda em Titã e que os seus governantes estavam numa estação espacial chamada Tet, de onde davam ordens a Jack para manter a maquinaria a funcionar. Um dia, uma nave despenha-se e Jack descobre nos seus destroços cinco cápsulas com sobreviventes humanos no seu interior, sendo no entanto reduzidas a apenas um sobrevivente porque os drones arrumam logo com os outros quatro. o sobrevivente era uma. E, sendo bem bonita, Jack, animado pela fantasia latente em todos os membros do sexo masculino, leva-a para a sua casa branquinha e apresenta-a à sua namorada branquinha. Esta, por sus vez, age como as mulheres sempre agiram quando confrontadas com esta perspectiva e passa automaticamente a odiar a nova companhia. Jack, entretanto, já não me lembro se antes se depois, é capturado pelos últimos extra-terrestres que sobraram da invasão, e imediatamente estes lhe revelam que não são puto extra-terrestres, mas sim os verdadeiros e últimos humanos que existem. E os que estão em Titã ? Não existem humanos em Titã, Zé, quero dizer, Jack. É tudo tanga dos verdadeiros extra-terrestres, que estão em Tet e que só querem a nossa água salgada, por causa do hidrogénio para dele obterem energia ? Mas... mas.. então e eu e a... a...como é que ela se chama... a minha namorada... quem somos nós ? São clones, Zé, quero dizer Jack, do verdadeiro Jack e da verdadeira... ah... como é que ela se chama... da tua namorada. Clones ? Sim, parece que há sessenta anos, tu e ela foram enviados numa missão para explorar uma espécie de ovni, e entraram nesse ovni (tipo o Dave no 2001, que entrou no monólito) e foram automaticamente clonados. Mas para quê que me clonaram ? Para vos pôr a tratar das torres de extracção de água . Nos pôr ? Sim, porque eles criaram milhares de clones vossos, porque o mar é muito grande e há muitas torres de extracção. Volta à terceira pessoa para dizer que jack ficou assombradíssimo com estas notícias todas e, como consequência, escolheu a morena em detrimento da... da... namorada. E escolheu, pouco logicamente, acreditar em tipos mutip estranhos que tinha acabado de conhecer em detrimento de acreditar em todas as referências de toda a sua vida. Virou assim rapidamente a casaca e passou para o lado dos humanos e, com algum engenho, explodiu com o Tet, livrando assim a terra dos seus colonizadores extra-terrestres, podendo assim os não extra-terrestres, ficar com a sua água salgada e com o seu hidrogénio. não sei bem vindo de onde, aparece uma filha de Jack e da rapariga que veio na cápsula, prontamente adoptada por Jack 52... Chatice... esqueci-me de dizer que o Jack de que estive a falar era o Jack 49, e que o Jack 52, que com ele compartilhava as memórias foi quem encontrou a rapariga e a filha para perfilhar. E o Jack 48 ? e o 47 ? e o 46 ? o que lhes aconteceu. Não sei, e o filme também não. E a namorada do 48 ? e a do 47 ? e a do 46 ? O que lhes aconteceu. Também não sei, e o filme também também não (nota rápida - a repetição do também foi intencional). mas então é uma confusão. podes crer que sim. Mas então o filme deixa de ser bom ? Não, é até mesmo muito fixe. Mas o Wall-e era muito , muito melhor...
12.12.13
55 - ironman
Pá... Que seca. E então a idéia peregrina de se conseguir fazer uma armadura ainda mais forte a partir de destroços. E porque raio tem os americanos aquela necessidade doentia de bipolarização. Se já tinham os maus da fita, porque é que tinham que diabolizar o exército, ou as corporações, ou lá quem era, metendo-o na armadura de sucata de maneira a poder ser vencida pelo cavaleiro da armadura cintilante ? E será que o facto de o "bom" ter vencido apenas por um pormenor (umatechnicality, como diriam os americanos) foi ao menos uma metáfora para nos fazer ver quão ténue é o nosso domínio sobre tudo isto e quão próximos podemos estar do abismo? Espero que sim.
54 - charlie wilson´s war
Um desbarato de grandes talentos dos quais nunca gostei muito de nenhum. Ou a eterna obsessão dos americanos por contarem todos os pormenores aborrecidos da sua história… Peço desculpa aos mujhaedin por não me ter entusiasmado nadinha com o filme da sua história, mas lembro-lhes que não devem ficar desapontados com os bocejos que este filme provoca nas pessoas normais. Não devem esquecer que as pessoas que valem a pena já os conheciam antes deste filme. E mesmo entre os americanos, há muita gente que também já os conhecia há bastante tempo. Desde o Rambo 3…
53 - finding neverland
Há filmes que valem a pena que se espere por eles. Seja porque não estamos preparados, seja porque não os queremos desperdiçar ou porque os queremos guardar para um momento melhor… Seja porque o queremos compartilhar com alguém ou porque não o queremos compartilhar com ninguém… Seja pelo que seja, geralmente vale a pena esperar, porque esses filmes carregam em si uma magia, um sentimento tal que, saindo nós a rir ou a chorar, calados ou a cantar, sozinhos ou acompanhados, sabemos sempre que acabamos de assistir a uma experiência de arrebatar o fôlego. E vai daí eu pergunto: Porque raio é que esses filmes são todos com o Johnny Depp ? Dúvidas? Três exemplos em três segundos: Charlie e a fábrica de chocolate, Eduardo Mãos de Tesoura e este… Finding Neverland. Ou então não… não a encontres…. Guarda-a para sempre…
52 - vicky cristina barcelona
A primeira sensação que me fica é que o Woody Allen preocupa-se mais com o chique que é duas americanas cultas e bonitas estarem a jantar e a beber vinho num restaurante queque de Barcelona, do que a arranjar-lhes algo de interessante para dizer. Para mim, isto é pretensiosimo e eu não gosto de pretensiosismo. Condiciona-me a crítica. Faz com que olha para o filme e veja apenas um conjunto de clichés, a turista conservadora com o noivo americano pateta, a colegial deslumbrada que só pensa em ser diferente, o macho latino-torturado-misterioso que só sabe falar mau inglês, a fêmea latina sempre prestes a saltar para a faca e alguidar e para os pulsos semi-cortados e o vinho, que pelos vistos é a única coisa que lhes interessa realmente...Apesar das condições perfeitas de visionamento, o filme não é bom.
51 - the kids are all right
Duas lésbicas mostram quão normais as pessoas normais são e resolvem constituir família, não avisando disso o homem a quem retiraram (de forma tradicional) o esperma.Vinte anos depois, talvez dezoito, os filhos das mães vêm a descobrir que o pai é um gajo fixe, calmo, que anda de mota e que pratica agricultura biológica, sendo o principal fornecedor do seu próprio restaurante.Biológico, claro. Tantas qualidades não poderiam deixar de ser reconhecidas, quer pela empregada do restaurante, uma negra com um penteado afro que com ele tem uma cena de sexo... inspiradora, quer por uma das mães, mais propriamente, a Juliane Moore. Com quem ele tem também uma cena de sexo... realista, com corpos não maquilhados, mamas um bocadinho lapisáveis, alguma falta de jeito e de uma duração que não traumatiza instantaneamente os espectadores. Quando a filha mais velha vai para a faculdade, as duas mães choram e, surpresa: o pai também, Um bom exemplo de família disfuncional.
50 - black swan
És pequenina, bonita, tímida e perturbada. Danças ballet, tens os pés todos lixados mas aguentas o sofrimento porque gostas mesmo de dançar. Sentes que tens qualquer coisa de especial mas não consegues convencer o mundo disso. à tua volta todas parecem melhor que tu porque o mundo considera que a tua obsessão pela perfeição, quer tu julgas ser a tua maior qualidade, não passe de falta de autenticidade. Não vêem quão humana tens que ser para submeteres a tua humanidade à tua individualidade. E os clichés desfilam à tua frente, se, se cansarem um bocadinho, sequer. E, quando já estavas à espera de ser outra vez preterida, ganhas protagonismo e pensas que isso vai resolver todos os teus problemas interiores, e verificas que não aguentas a pressão e que se calhar não és tão única como pensas. Mas como és teimosa, continuas a foder os pés, esticando-te ao limite no verdadeiro sentido da palavra, até à perfeição. E quando estás quase quase a alcançá-la, olhas para o lado e vês alguém melhor do que tu, mais bonita, mais ousada, mais humana e com umas asas pretas monumentais e lindíssimas tatuadas nas costas. E, ainda por cima, gostas da cabra, que se aproveita disso, primeiro para te comer e depois para roubar o sonho da tua vida, substituindo-te naquela que deveria ser a tua apoteose. Isso não podes permitir e, chamando o mais fundo da tua obsessão mudas de variável, como os matemáticos fazem quando já não sabem mais o que fazer. És má e matas a cabra. És boa e matas o resto do mundo. Do coração, por verem a tua actuação. E depois... morres!
49 - 500 days of summer
Os sinais exteriores eram bons, mas o facto é que se trata apenas de mais um filme de adolescentes, sendo que é relativamente bem filmado e a rapariga não é assim tão adolescente como isso. Ele, arquitecto ainda não tentado, trabalha como escrevedor de postais numa qualquer empresa do ramos. Faça-se justiça a algum do seu talento, bem espelhado na frase: eu amo-nos, que eu subscrevo e que acho que faz sentido escrito num postal. Para além disso, resta a cronologia do filme, que alterna aleatoriamente entre o dia 1 e o dia 500, sempre a fazer sentido. Resta ainda uma boa interpretação de píxies no karaoke, e o mais velho cliché do mundo, que é a rapariga, com um ar entre o Cândido e o insosso, já ter pinado com 30 ou 40 homens, enquanto que o rapaz, saudavelmente tarado, estar praticamente a sair da virgindade. E, estúpido como é, deixa que o sexo que ela tem antes de o conhecer lhe interfira com o estômago e o cérebro. Fazia mais sentido, digo eu, sei lá porquê, preocupar-se com o sexo que ela vai ter, inevitavelmente, depois de o deixar. Enfim... Clichés. Não gostei.
48 - sunshine cleaning
Uma mulher que trabalhava em limpezas começa, por sugestão do polícia casado que a anda a comer duas vezes por semana num hotel médio e que tinha sido seu namorado no liceu, a fazer a limpeza de cenas de crimes e de suicídios. Ajudada (e às vezes não ) pela irmã disfuncional que lhe dá guloseimas ao filho nas suas costas até ao dia em que esta incendeia a casa de um cliente morto, o negócio vai prosperando. Existe ainda um filho algo traumatizado, um pai (dela, avô do filho) verdadeiramente esquisito e um empregado de uma loja de produtos químicos só com um braço. Acaba por se tornar um negócio de família, que esteve quase à beira de um ataque de nervos. Gostei.
47 - prometheus
Um homem muito grande e muito branco bebe umas cenas e dissolve-se para dentro de uma queda de água, derretendo assim nesta o seu adn. Isto ter-se-á passado na Terá, embora o homem muito grande e muito branco, como o próprio nome indica, seja claramente extra-terrestre. Assim começou a vida na Terra e, 2080 anos depois, um casal de cientistas descobre de que planeta o homem MGMB (muito grande e muito branco) veio. Vão todos para lá, o casal de cientistas, os figurantes do costume (destaco o Luther e a Charlize Teron, o génio maluco e o andróide), numa grandessíssima nave e descobrem que o planeta mais não é que uma espécie de fábrica de armas biológicas dos tipos MGMBs. Tendo criado a humanidade por dissolvência, não mos podemos deixar de surpreender pelo facto de eles quererem encher a Terra de armas de destruição política ? Será uma piada política do Ridley Scott? As armas são uma espécie de latas com umas cenas muito maradas dentro. Tipo casulos…Previsivelmente, morrem todos a impedir que os homens MGMB consigam trazer para a Terra as canas maradas. Menos os sobreviventes do costume, a rapariga em cuecas e o andróide decapitado (caramba, já vi isto em qualquer lado), que se metem numa das muitas naves que pelos vistos havia no planeta e decidem, ir ao planeta de origem dos homens MGMB para lhes perguntar de viva voz por que caraças é que me queres destruir ? Portei-me mal, foi ? O filme acaba com uma das latas a abrir e a sair de lá de dentro… Não. Não foi assim. A cena não saiu da lata mas sim da barriga do homem MGMB, que antes tinha sido comido por uma criatura que foi criada por uma das que saíram de uma das latas.Confuso ? Sim, de facto. Mas o que interessa foi o que, chamemos-lhe assim, eruptiu da barriga do homem MGMB. E o que foi ? Vá… nesta altura já toda a gente sabe.
46 - estômago
Foi fixe enquanto vi, se calhar por causa da dose quadrupla de auto comiseração. Hoje, pensando com mais frieza, não consigo encontrar nada de especial para escrever aqui. E a historia de um caipira com jeito para a cozinha, cujos méritos provocam uma ascensão que nos é habilmente e simultaneamente mostrada, quer na lanchonete, quer na prisão. Passa da lanchonete para o restaurante italiano ao mesmo tempo que passa do chão sem colchão para o primeiro dos beliches da cela. Conhece uma prostituta que pina enquanto esta come a sua comida e começa a cozinhar para os companheiros de cela. A ascensão na prisão era fácil de prever e de seguir, restando apenas alguma curiosidade em saber porque é que lá foi parar. No fim percebe-se. Apanhou a prostituta a pinar com o dono do restaurante italiano e matou-os aos dois, na cama, com uma faca. E foi com essa mesma faca que cortou, como e que hei-de dizer isto? cortou um hambúrguer do rabo da prostituta. Cozinhou-o e comeu-o. Vamos abster-nos de trocadilhos óbvios e concentrarmo-nos na prisão, o entretanto o argumento destrambelhou e ele matou o ladrão mor apenas para ficar a dormir no beliche de cima. Envenenou-lhe a feijoada, coisa que eu considero um pleonasmo. Enfim... O filme é competente e a parte que eu gostei mais foi a resposta ao monólogo do queijo gorgonzola. Tipo, podes dizer o que quiseres, mas o queijo aqui dentro não fica. E não ficou…
45 - os 3 mosqueteiros
Outra vez? Outra vez! E diga-se desde já que deve ser a melhor versão que já vi, contando já com o Dartacão. Extremamente bem filmado, tipo 300, boa fotografia, boas sequências de acção. Superpreponderância para Buckingham que deixa de ser o amante pastelão da Rainha Ana e passa a ser o verdadeiro desequilibrador daquele tabuleiro de xadrez, enfrentando com sucesso e montes de estilo Richelieu, o corvo vermelho. Depois de inevitavelmente derrotado pelo argumento do filme, escrito por Alexandre Dumas (o mundo nem sempre é justo, para não dizer que quase nunca é), Buckingham passa-se e decide invadir a França, utilizando para isso duas esquadras completamente portuguesas: uma esquadra de caravelas e uma esquadra de passarolas. Sim. As do Bartolomeu de Gusmão. Confesso que sempre me fez alguma espécie nunca ninguém ter massificado a produção de passarolas, que além de armas de guerra terríveis, eram lindas de morrer. Muito fixe, este filme…
19.7.13
44 -a lula e a baleia
A minha
família é constituida por intelectuais
em diferentes fases de desenvolvimento. O meu pai é um escritor que já teve
sucesso e vendeu muitos livros, mas no
presente não tem quem lhe publique os livros. Goza no entanto de algum
prestígio ainda, pelo depois do divórcio não tardou a envolver-se com uma aluna que,
curiosamente, era a parceira nao oficial do Luther. Luther... Aquele polícia
inglês que tem o grande mérito de fazer séries com temporadas pequenas, tão
pequenas que nem sequer chegamos a estranhar que ele não mude de roupa.
Voltando meu pai e voltando ao divórcio, ele está a gerir esse processo
claramente, ao ponto de ter entrado num esquema claro de compensação emocional,
comprando uma vivenda igual à que tinhamos enquanto ainda eramos uma família..
Mas como o dinheiro dele é curto, a casa é decrépita, sem móveis e quase
assombrada. O que faz que o meu irmão a deteste (à casa) enquanto que eu, em
pleno rebentamento da testosterona mas ainda com um componente infantil muito
saudável, a considero fixíssima. A minha mãe é uma escritora em fase de
ascensão, ainda na fase de pré-publicar extractos no new York times. Tem um ar
calmo, super controlado, é bonita e tem super jeito na relação connosco. Mas
ninguém é perfeito e ela, sendo-o agora no presente, não o foi no passado,
tendo-se fartado de trair o marido e, consequentemente, a família. Recorrendo,
ainda por cima, ao cliché do pinar com o professor de ténis, um gajo super simpático
de quem até eu gosto. O que me faz parar um bocadinho para pensar na posição do
meu pai e na maneria como ele sente esta separação: a seres trocado, toda a
gente diz que quer ser trocado por alguém melhor, para não sentir o vazio
provocado por a nossa mulher já estar tão farta de nós que qualquer cliché
serve. Eu, pessoalmente, prefiro esse vazio ào estado de raiva que sentiria
todos os dias ao sentir que fui trocado e que, mesmo objectivamente, isso fez
todo o sentido, porque fui trocado por alguém melhor. Meu Deus. Que pesadelo.
Depois ainda há o meu irmão, interpretado pelo Mark Zukenberg três ou quatro
anos antes de ter ido para a faculdade e ter roubado a idéia do Facebook a dois
colegas pouco agressivos. O meu irmão, dizia eu, que se move entre o nosso pai e a nossa mãe,
apoiando o declínio do pai e criticando a ascensão da mãe. Move-se também entre
duas namoradas, a dele, loira, bonita, honesta e cândida e a do pai, bonita,
retorcida e interesseira, escolhendo, obviamente, mal. Ou seja, a morena, que
por coincidência é aquela que o nosso pai anda a pinar para que a sensação de
ser patético que lhe não descola da pele seja auto-justificada pelo sexo com
uma adolescente e não pela falta de amor da mulher de quem efectivamente gosta.
Por fim, resto eu, que me assumo desassombradamente como filisteu, tenho 12
anos, bebo, praguejo, jogo ténis com o namorado da minha mãe e preparo uma vida
de rebeldia inconsequente. Mas chorei quando os meus pais nos disseram que se
iam separar… Temos assim a chamada família disfuncional, que atrai os incautos u enganar, que pensam que se
pode tratar de outra ser outra família à beira de um ataque de nervos. Não é a
mesma coisa... É muito menos fixe. Resta
ainda a lula e a baleia que, tal como eu tinha desconfiado a certa altura, eram
as que estão penduradas no tecto do museu de história natural de nova
Iorque. Sendo um nome que não tem nada a ver com o filme, no fundo até acaba
por o explicar. Quando vi a lula e a baleia original, penduradas no tecto do
dito museu, pensei cá para mim que sendo uma luta bonita a que eles estavam a
travar, era também completamente inútil, pois nem a baleia quer comer a lula,
nem a lua quer comer a baleia. É como no filme, em que todos se magoam uns aos
outros por defeito, sem nexo nem necessidade nenhuma, até porque toda a gente
ainda gosta de toda a gente. E embora seja uma frase que pode ter algum
impacto, quer por ser curta, quer pela fonética conferida pela repetição da
primeira letra, traduz um conceito que eu não gosto. Disfuncionalidade por
defeito. É... Não gosto mesmo.
a lula e a baleia
a lula e a baleia
43-ruby sparks
Se
tivesse que me apresentar devidamente, tipo dizendo qual a minha profissão e o
que fiz e faço na vida, penso que me apresentaria como um escritor precoce.
Escrevi um mega-sucesso aos dezassete anos e nunca mais fiz nada de jeito. Nem
de jeito nem sem ser de jeito porque a verdade é que não fiz nada de nada.
Estou preso naquilo que é o terror dos escritores que conseguem ultrapassar o
terror daqueles que querem ser escritores e não conseguem. Ou seja, consegui
ultrapassar o trauma da folha em branco e estou agora preso no trauma do
segundo livro. Passo assim os dias a pensar se vou ser um one-hit case ou se
ainda sairá mais alguma coisa de jeito dentro de mim. Passo os dias a tentar
sonhar acordado,mas é à noite que tenho os sonhos que vale a pena,
principalmente acerca daquela rapariga que tem qualquer coisa que mexe imenso
comigo, mas que quando estou quase a descobrir o que é… acordo. Sorte que tenho
um psicanalista inteligente, que me disse aquilo que eu deveria ter pensado
logo, isto se fosse um escritor decente, e não um falhado completo que só escreveu
um grande livro nos seus 15 anos de vida após ter aprendido a escrever. Escreve
sobre essa rapariga, Zé… Foi o que ele disse. Vai daí, comecei a escrever. E
então, de repente, um dia de manhã fui à cozinha e ela estava lá, a fazer-me ao
mesmo tempo o pequeno almoço e um sorriso encantador. E olhava para mim como se
vivesse comigo há temporões. Como nunca me preocupei com a lógica fundamental
das coisas, com o sentido da vida e esse tipo de tretas, e como sempre fui
consciente de que a boa sorte deve ser aproveitada, até porque é rara, decidi
aproveitar. Se ela me conhecia tão bem, então eu também a conheceria a ela. E
foi aí que a situação se tornou mesmo interessante, inquietantee até mesmo
importante. É que ela conhecia-me meeeesmo bem.
Falava sempre dos assuntos que me estavam na cabeça, dizia as piadas que
eu estava a pensar, fazia sexo de maneira a cumprir todas as minhas fantasias
sem que eu tivesse que as verbalizar, ostentava um conjunto de tiques e
maneirismos que eu achava lindíssimos, usava umas meias às riscas brutais…
Graças a ela recuperei a minha segurança social e recomecei a escrever e
escrevia cada vez mais. Sobre ela, principalmente. E quanto mais eu escrevia
sobre o que esperava dela, o que sentia por ela, o que queria que ela fizesse,
mais ela correspondia integralmente às minhas expectativas. Estava a tornar-se
perfeito. E se há uma coisa que eu sempre soube é que a perfeição não existe
porque se existisse já não era a perfeição. A perfeição, por definição, é
intangível. E no entanto, ela estava ali; á minha frente. E mal eu percebi
isto, começou lentamente a desmoronar-se. De repente ela começou a ficar
errática, confusa, contraditória, implicativa. Tanto me queria obsessivamente
como nem sequer suportava a minha presença. Cada manhã nunca sabia o que
esperar dela. Parecia que ela ia à caixa de correio buscar as instruções
diárias que iria seguir no seu comportamento. Inevitavelmente, os humores dela
começaram a reflectir-se na inha escrita, que era onde eu vertia todas estas
angústias. E quanto mais eu escrevia sobre o pior que ela se estava a tornar,
pior ela se tornava. Havia ali uma espécie de coerência doentia. Quanto mais eu
escrevia coisas boas sobre ela melhor ela se portava e quanto mais eu escrevia
coisas más pior ela ficava. Então finalmente percebi. Eu não estava a escrever
sobre ela, sobre a sua personalidade e o seu comportamento. Eu estava a
escrevê-la a ela. À sua personalidade. Ao
seu comportamento. Eu tinha-a inventado e ela era a projecção sem dúvida real
de tudo o que eu tinha de bom e de mau dentro de mim. Ela fazia tudo o que eu
escrevia. Cantava, dançava, falava francês, fazia sexo, ria, chorava, tinha
saudades de mim, ladrava… Tudo o que eu queria. Tudo o que eu escrevia. E
embora tenha chegado a abusar um bocadinho disto, cheguei à conclusão que tinha
que libertá-la. E, assim sendo, escrevi-lhe uma nova memória e escrevi-lhe a
capacidade de decidir por lívre arbítrio. E embora sinta muito a falta dela,
sei que se algum dia nos tornarmos a encontrar, tudo vai correr melhor…
3.7.13
42-mr nobody
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Jaco Van Dormael
Se eu fosse sensacionalista e se estivesse a tentar arranjar o nome para um filme, apresentar-me-ia como sendo Ninguém e a partir daí armaria tamanha confusão existencial que rapidamente me esqueceria do que vim aqui dizer. Pragmático como acho que sou, direi apenas que me chamo Nemo e não, embora a minha vida tenha dado um filme, não sou um peixe. Chamo-me Nemo Ninguém e começo pelo fim, que é o facto de ter 146 anos e ainda não ter morrido. Sou o último ser humano a quem foi permitido viver a totalidade da sua vida natural, sendo que nesta altura todos os meus colegas de espécie tem a sua morte ainda melhor programada do que tiveram a sua vida. Também não me vou perder a discutir as vantagens e desvantagens da mortalidade programada. Os puristas dizem que a surpresa é boa, mas não é a morte uma surpresa má? Por outro lado, obedecer à ordem de ter que morrer amanhã, ou depois de amanhã, é uma coisa bastante castrante. Digo eu. Sei lá. Enfim, não é problema que eu tenha, porque a mim vão-me deixar morrer naturalmente. Sem me chatearem. Até porque já me chateiam o suficiente a querer sabes coisas da minha vida. Tipo duas vezes por semana tenho que contar a minha vida toda a um tipo careca com a cara e a cabeça completamente tatuada, num padrão maori mas a fugir para o fino. Tipo, não é nada bonito, mas ficaria bem num filme, que é o que isto é. Presumo que eles, os do futuro, queiram de alguma forma registar para a posteridade a história da vida do último homem livre, mas eu troco-lhes as voltas porque se há coisa que aprendi nestes anos todos é que a vida é demasiado rica para ser vivida apenas de uma maneira e o facto de tomarmos determinadas decisões e de seguirmos determinados caminhos não é definitivo.De facto não possamos fazer tudo aquilo que queremos, até porque, seja qual for o nosso grau de egoísmo, acabamos sempre por magoar alguém ao fazermos com que esse alguém viva o papel que lhe destinamos na nossa vida e não o papel que tem direito na vida dela. isso não seria justo... nem correcto... O que eu constato hoje é que se os sentimentos que nos orientaram durante a vida foram suficientemente fortes, então chegamos a esta altura e é como se tivéssemos vivido as vidas todas que quisemos. Olhando para trás, chega-se à conclusão que certas pessoas te acompanharam toda a vida, estiveram sempre na tua cabeça e isso, constato agora sem a mínima dúvida, é viver. Tipo neste momento, eu tive três vidas e todas tiveram a mesma intensidade de sentimentos. Em cada uma delas fui feliz e infeliz, mas em todas elas eu vivi, sendo que à beira da morte isso é sem dúvida o mais importante. Dizem que existem momentos chave nas nossas vidas, em que tomamos decisões que nos vão condicionar para sempre, que nessas decisões escolhemos umas coisas em detrimento das outras, e que o que não escolhemos é para sempre afastado das nossas vidas. A verdade é que isso não é verdade. As escolhas que se fazem são momentâneas e condicionam de facto a maneira como vivemos naquele instante, mas visto de longe, e desde que os sentimentos permaneçam fortes, a importância do que não viveste é igual à importância do que viveste. No limite, a única coisa que interessa é o quanto as coisas ainda significam para ti, porque é isso que te fica a acompanhar na eternidade, e não propriamente os momentos passageiros. o momento chave foi quando tive que decidir se ia no comboio com a minha mãe ou se ficava na plataforma da estação com o meu pai.
Se tivesse ido no comboio com a minha mãe, ela ia acabar por arranjar um marido que iria ter uma filha chamada Ana mais ou menos da minha idade e iríamos apaixonarmo-nos terrível e fisicamente, até que os nossos pais iam perceber e, usando isso como pretexto, separar-se-iam e separar-nos-iam... e eu depois ia passar o resto da vida à procura e à espera de a encontrar, até que finalmente isso ia acontecer em plena Grand Central Station, para logo a seguir a perder por causa de uma chuvada repentina que iria borratar o número de telefona que ela escreveu imprudentemente num lenço de papel com tinta que devia ser permanente mas claramente não o foi...
Se tivesse ficado na plataforma com o meu pai, iria tratar dele ao longo da sua doença, tipo fazendo-lhe a barba, lembrando-lhe quem ele é, tomando banho sentado com ele na banheira enquanto o chuveiro nos pinga copiosamente aos dois e eu já não sei se estamos a falar de gotas de água ou gotas de lágrimas, até que lhes provo o sabor, só para confirmar aquilo de que já desconfiava. E um dia ia encontrar uma rapariga chamada Elisa, pela qual me iria apaixonar bastante e a qual me disse logo quando a conheci que nunca se iria esquecer de um ex-namorado qualquer, e muitos anos depois, casado com ela e com três filhas lindas, iria ter que viver com o seu estado paranóico e mesmo assim ia dizer-lhe que nunca a deixaria, nunca nem por nada enquanto ela berrava em plenos pulmões no meio da rua; à chuva, com as nossas filhas a assistirem envergonhadas e tristes por dentro da janela...
E no fim deste filme que vocês viram, no fim deste filme que foi não só a minha vida mas todas as minhas vidas, a conclusão a que eu chego é que se não é facil tomar as decisões correctas porque não se conhece o futuro, então conhecendo-o, torna-se ainda mais difícil saber se as decisões que se tomaram foram mesmo as mais correctas...
mr. nobody
mr. nobody
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