19.7.13

44 -a lula e a baleia












A minha família é constituida por  intelectuais em diferentes fases de desenvolvimento. O meu pai é um escritor que já teve sucesso e vendeu muitos livros,  mas no presente não tem quem lhe publique os livros. Goza no entanto de algum prestígio ainda, pelo depois do divórcio  não tardou a envolver-se com uma aluna que, curiosamente, era a parceira nao oficial do Luther. Luther... Aquele polícia inglês que tem o grande mérito de fazer séries com temporadas pequenas, tão pequenas que nem sequer chegamos a estranhar que ele não mude de roupa. Voltando meu pai e voltando ao divórcio, ele está a gerir esse processo claramente, ao ponto de ter entrado num esquema claro de compensação emocional, comprando uma vivenda igual à que tinhamos enquanto ainda eramos uma família.. Mas como o dinheiro dele é curto, a casa é decrépita, sem móveis e quase assombrada. O que faz que o meu irmão a deteste (à casa) enquanto que eu, em pleno rebentamento da testosterona mas ainda com um componente infantil muito saudável, a considero fixíssima. A minha mãe é uma escritora em fase de ascensão, ainda na fase de pré-publicar extractos no new York times. Tem um ar calmo, super controlado, é bonita e tem super jeito na relação connosco. Mas ninguém é perfeito e ela, sendo-o agora no presente, não o foi no passado, tendo-se fartado de trair o marido e, consequentemente, a família. Recorrendo, ainda por cima, ao cliché do pinar com o professor de ténis, um gajo super simpático de quem até eu gosto. O que me faz parar um bocadinho para pensar na posição do meu pai e na maneria como ele sente esta separação: a seres trocado, toda a gente diz que quer ser trocado por alguém melhor, para não sentir o vazio provocado por a nossa mulher já estar tão farta de nós que qualquer cliché serve. Eu, pessoalmente, prefiro esse vazio ào estado de raiva que sentiria todos os dias ao sentir que fui trocado e que, mesmo objectivamente, isso fez todo o sentido, porque fui trocado por alguém melhor. Meu Deus. Que pesadelo. Depois ainda há o meu irmão, interpretado pelo Mark Zukenberg três ou quatro anos antes de ter ido para a faculdade e ter roubado a idéia do Facebook a dois colegas pouco agressivos. O meu irmão, dizia eu,   que se move entre o nosso pai e a nossa mãe, apoiando o declínio do pai e criticando a ascensão da mãe. Move-se também entre duas namoradas, a dele, loira, bonita, honesta e cândida e a do pai, bonita, retorcida e interesseira, escolhendo, obviamente, mal. Ou seja, a morena, que por coincidência é aquela que o nosso pai anda a pinar para que a sensação de ser patético que lhe não descola da pele seja auto-justificada pelo sexo com uma adolescente e não pela falta de amor da mulher de quem efectivamente gosta. Por fim, resto eu, que me assumo desassombradamente como filisteu, tenho 12 anos, bebo, praguejo, jogo ténis com o namorado da minha mãe e preparo uma vida de rebeldia inconsequente. Mas chorei quando os meus pais nos disseram que se iam separar… Temos assim a chamada família disfuncional, que  atrai os incautos u enganar, que pensam que se pode tratar de outra ser outra família à beira de um ataque de nervos. Não é a mesma coisa...  É muito menos fixe. Resta ainda a lula e a baleia que, tal como eu tinha desconfiado a certa altura, eram as que estão penduradas no tecto do museu de  história natural de nova Iorque. Sendo um nome que não tem nada a ver com o filme, no fundo até acaba por o explicar. Quando vi a lula e a baleia original, penduradas no tecto do dito museu, pensei cá para mim que sendo uma luta bonita a que eles estavam a travar, era também completamente inútil, pois nem a baleia quer comer a lula, nem a lua quer comer a baleia. É como no filme, em que todos se magoam uns aos outros por defeito, sem nexo nem necessidade nenhuma, até porque toda a gente ainda gosta de toda a gente. E embora seja uma frase que pode ter algum impacto, quer por ser curta, quer pela fonética conferida pela repetição da primeira letra, traduz um conceito que eu não gosto. Disfuncionalidade por defeito. É... Não gosto mesmo.
a lula e a baleia

43-ruby sparks












Se tivesse que me apresentar devidamente, tipo dizendo qual a minha profissão e o que fiz e faço na vida, penso que me apresentaria como um escritor precoce. Escrevi um mega-sucesso aos dezassete anos e nunca mais fiz nada de jeito. Nem de jeito nem sem ser de jeito porque a verdade é que não fiz nada de nada. Estou preso naquilo que é o terror dos escritores que conseguem ultrapassar o terror daqueles que querem ser escritores e não conseguem. Ou seja, consegui ultrapassar o trauma da folha em branco e estou agora preso no trauma do segundo livro. Passo assim os dias a pensar se vou ser um one-hit case ou se ainda sairá mais alguma coisa de jeito dentro de mim. Passo os dias a tentar sonhar acordado,mas é à noite que tenho os sonhos que vale a pena, principalmente acerca daquela rapariga que tem qualquer coisa que mexe imenso comigo, mas que quando estou quase a descobrir o que é… acordo. Sorte que tenho um psicanalista inteligente, que me disse aquilo que eu deveria ter pensado logo, isto se fosse um escritor decente, e não um falhado completo que só escreveu um grande livro nos seus 15 anos de vida após ter aprendido a escrever. Escreve sobre essa rapariga, Zé… Foi o que ele disse. Vai daí, comecei a escrever. E então, de repente, um dia de manhã fui à cozinha e ela estava lá, a fazer-me ao mesmo tempo o pequeno almoço e um sorriso encantador. E olhava para mim como se vivesse comigo há temporões. Como nunca me preocupei com a lógica fundamental das coisas, com o sentido da vida e esse tipo de tretas, e como sempre fui consciente de que a boa sorte deve ser aproveitada, até porque é rara, decidi aproveitar. Se ela me conhecia tão bem, então eu também a conheceria a ela. E foi aí que a situação se tornou mesmo interessante, inquietantee até mesmo importante. É que ela conhecia-me meeeesmo bem.  Falava sempre dos assuntos que me estavam na cabeça, dizia as piadas que eu estava a pensar, fazia sexo de maneira a cumprir todas as minhas fantasias sem que eu tivesse que as verbalizar, ostentava um conjunto de tiques e maneirismos que eu achava lindíssimos, usava umas meias às riscas brutais… Graças a ela recuperei a minha segurança social e recomecei a escrever e escrevia cada vez mais. Sobre ela, principalmente. E quanto mais eu escrevia sobre o que esperava dela, o que sentia por ela, o que queria que ela fizesse, mais ela correspondia integralmente às minhas expectativas. Estava a tornar-se perfeito. E se há uma coisa que eu sempre soube é que a perfeição não existe porque se existisse já não era a perfeição. A perfeição, por definição, é intangível. E no entanto, ela estava ali; á minha frente. E mal eu percebi isto, começou lentamente a desmoronar-se. De repente ela começou a ficar errática, confusa, contraditória, implicativa. Tanto me queria obsessivamente como nem sequer suportava a minha presença. Cada manhã nunca sabia o que esperar dela. Parecia que ela ia à caixa de correio buscar as instruções diárias que iria seguir no seu comportamento. Inevitavelmente, os humores dela começaram a reflectir-se na inha escrita, que era onde eu vertia todas estas angústias. E quanto mais eu escrevia sobre o pior que ela se estava a tornar, pior ela se tornava. Havia ali uma espécie de coerência doentia. Quanto mais eu escrevia coisas boas sobre ela melhor ela se portava e quanto mais eu escrevia coisas más pior ela ficava. Então finalmente percebi. Eu não estava a escrever sobre ela, sobre a sua personalidade e o seu comportamento. Eu estava a escrevê-la a ela. À sua personalidade. Ao seu comportamento. Eu tinha-a inventado e ela era a projecção sem dúvida real de tudo o que eu tinha de bom e de mau dentro de mim. Ela fazia tudo o que eu escrevia. Cantava, dançava, falava francês, fazia sexo, ria, chorava, tinha saudades de mim, ladrava… Tudo o que eu queria. Tudo o que eu escrevia. E embora tenha chegado a abusar um bocadinho disto, cheguei à conclusão que tinha que libertá-la. E, assim sendo, escrevi-lhe uma nova memória e escrevi-lhe a capacidade de decidir por lívre arbítrio. E embora sinta muito a falta dela, sei que se algum dia nos tornarmos a encontrar, tudo vai correr melhor…

3.7.13

42-mr nobody


Jaco Van Dormael
Se eu fosse sensacionalista e se estivesse a tentar arranjar o nome para um filme, apresentar-me-ia como sendo Ninguém e a partir daí armaria tamanha confusão existencial que rapidamente me esqueceria do que vim aqui dizer. Pragmático como acho que sou, direi apenas que me chamo Nemo e não, embora a minha vida tenha dado um filme, não sou um peixe. Chamo-me Nemo Ninguém e começo pelo fim, que é o facto de ter 146 anos e ainda não ter morrido. Sou o último ser  humano a quem foi permitido viver a totalidade da sua vida natural, sendo que nesta altura todos os meus colegas de espécie tem a sua morte ainda melhor programada do que tiveram a sua vida. Também não me vou perder a discutir as vantagens e desvantagens da mortalidade programada. Os puristas dizem que a surpresa é boa, mas não é a morte uma surpresa má? Por outro lado, obedecer à ordem de ter que morrer amanhã, ou depois de amanhã, é uma coisa bastante castrante. Digo eu. Sei lá. Enfim, não é problema que eu tenha, porque a mim vão-me deixar morrer naturalmente. Sem me chatearem. Até porque já me chateiam o suficiente a querer sabes coisas da minha vida. Tipo duas vezes por semana tenho que contar a minha vida toda a um tipo careca com a cara e a cabeça completamente tatuada, num padrão maori mas a fugir para o fino. Tipo, não é nada bonito, mas ficaria bem num filme, que é o que isto é. Presumo que eles, os do futuro, queiram de alguma forma registar para a posteridade a história da vida do último homem livre, mas eu troco-lhes as voltas porque se há coisa que aprendi nestes anos todos é que a vida é demasiado rica para ser vivida apenas de uma maneira e o facto de tomarmos determinadas decisões e de seguirmos determinados caminhos não é definitivo.De facto não possamos fazer tudo aquilo que queremos, até porque, seja qual for o nosso grau de egoísmo, acabamos sempre por magoar alguém ao fazermos com que esse alguém viva o papel que lhe destinamos na nossa vida e não o papel que tem direito na vida dela. isso não seria justo... nem correcto... O que eu constato hoje é que se os sentimentos que nos orientaram durante a vida foram suficientemente fortes, então chegamos a esta altura e é como se tivéssemos vivido as vidas todas que quisemos. Olhando para trás, chega-se à conclusão que certas pessoas te acompanharam toda a vida, estiveram sempre na tua cabeça e isso, constato agora sem a mínima dúvida, é viver. Tipo neste momento, eu tive três vidas e todas tiveram a mesma intensidade de sentimentos. Em cada uma delas fui feliz e infeliz, mas em todas elas eu vivi, sendo que à beira da morte isso é sem dúvida o mais importante. Dizem que existem momentos chave nas nossas vidas, em que tomamos decisões que nos vão condicionar para sempre, que nessas decisões escolhemos umas coisas em detrimento das outras, e que o que não escolhemos é para sempre afastado das nossas vidas. A verdade é que isso não é verdade. As escolhas que se fazem são momentâneas e condicionam de facto a maneira como vivemos naquele instante, mas visto de longe, e desde que os sentimentos permaneçam fortes, a importância do que não viveste é igual à importância do que viveste. No limite, a única coisa que interessa é o quanto as coisas ainda significam para ti, porque é isso que te fica a acompanhar na eternidade, e não propriamente os momentos passageiros. o momento chave foi quando tive que decidir se ia no comboio com a minha mãe ou se ficava na plataforma da estação com o meu pai. 
Se tivesse ido no comboio com a minha mãe, ela ia acabar por arranjar um marido que iria ter uma filha chamada Ana mais ou menos da minha idade e  iríamos apaixonarmo-nos terrível e fisicamente, até que os nossos pais iam perceber e, usando isso como pretexto, separar-se-iam e separar-nos-iam... e eu depois ia passar o resto da vida à procura e à espera de a encontrar, até que finalmente isso ia acontecer em plena Grand Central Station, para logo a seguir a perder por causa de uma chuvada repentina que iria borratar o número de telefona que ela escreveu imprudentemente num lenço de papel com tinta que devia ser permanente mas claramente não o foi...
Se tivesse ficado na plataforma com o meu pai, iria tratar dele ao longo da sua doença, tipo fazendo-lhe a barba, lembrando-lhe quem ele é, tomando banho sentado com ele na banheira enquanto o chuveiro nos pinga copiosamente aos dois e eu já não sei se estamos a falar de gotas de água ou gotas de lágrimas, até que lhes provo o sabor, só para confirmar aquilo de que já desconfiava. E um dia ia encontrar uma rapariga chamada Elisa, pela qual me iria apaixonar bastante e a qual me disse logo quando a conheci que nunca se iria esquecer de um ex-namorado qualquer, e muitos anos depois, casado com ela e com três filhas lindas, iria ter que viver com o seu estado paranóico e mesmo assim ia dizer-lhe que nunca a deixaria, nunca nem por nada enquanto ela berrava em plenos pulmões no meio da rua; à chuva, com as nossas filhas a assistirem envergonhadas e tristes por dentro da janela...
E no fim deste filme que vocês viram, no fim deste filme que foi não só a minha vida mas todas as minhas vidas, a conclusão a que eu chego é que se não é facil tomar as decisões correctas porque não se conhece o futuro, então conhecendo-o, torna-se ainda mais difícil saber se as decisões que se tomaram foram mesmo as mais correctas...
mr. nobody

alargamento de horizontes

nas prateleiras também se arrumam filmes...

26.5.13

41 - ender's game













Orson Scott Card.
Começando por uma declaração de intenções, e para afastar desde já possíveis interessados potencialmente desiludíveis, isto é um livro de ficção científica. Pior. Um livro de ficção científica escrito em 1984, numa altura em que os livros não eram apenas a fase anterior do filme, filme esse que é o elemento absorvente da cultura nos últimos vinte anos. Ou mais. Mas o que é bom acaba sempre por emergir e este livro ganhou o Prémio Nébula, assim como a sua continuação também ganhou o Prémio Nébula. O terceiro livro da série, já não me lembro se ganhou um prémio ou não, mas foi o primeiro texto deste blog, publicado aqui a 28 de fevereiro de 2007. E escrito ainda antes, se bem me lembro. A história não é simples. Uma raça insectóide tentou já por duas vezes invadir a Terra e dominar a humanidade. Nesta altura não sabemos ainda se para a extinguir, se para a escravizar. Não sabemos pormenor nenhum a não ser que das duas vezes nos safamos por pouco e conseguimos mandar os insectos de volta para o planeta deles. Mas deu para percebermos o quão mais avançados que nós eles eram em termos tecnológicos, pelo que seria uma questão de tempo até virem experimentar o conceito terrestre que às 3 é de vez. A única alternativa que resta à humanidade é ir-se organizando e preparando para o futuro. futuro esse, dado a grande distância do planeta insectoide, algo distante também ele. Cria-se assim na Terra a Frota International, uma aliança entre todas os países a que todos os países tem que obedecer. Em rigor, esta organização foi criada ainda antes das invasões, para impedir que a Humanidade se explodisse a si própria. tal esteve tão perto de acontecer que ainda hoje a Frota Internacional destruirá imediatamente qualquer país que desenvolve armas nucleares. E seria uma destruição vinda dos c’eus, uma vez que a frota está sempre em voo. Mais talhados para jogar em casa do adversário, onde se pode estragar tudo sem grandes problemas de consciência, os almirantes da Frota Internacional reuniram uma armada gigantesca e enviaram-na para o planeta mãe dos insectóides, para o destruir e acabar de vez com a a invasão, sendo que as naves humanas levavam a tripulação toda a dormir, para os soldados não envelhecerem os 30 ou 50 anos que demorava a viagem. O problema é que faltava um líder para a frota, pois também tinha ficado bem claro nas duas primeiras invasões a profunda eficiência e inteligência da frota insectoide, provavelmente decorrente de ser comanda apenas a uma voz, pela rainha, sendo que cada indivíduo insectoide era a negação em si próprio de si mesmo, ou seja, da individualidade. Era apenas mais uma peça da engrenagem, que não provocava atrito porque não pensava. Criou-se assim na Terra a Escola de Batalha, para onde passaram a ir as crianças mais inteligentes da humanidade. O principal potencial fornecedor de crianças para a Escola de Batalha era um casal que, só tinha filhos inteligentes e que eram monitorizados pela Frota Internacional praticamente desde que nascia, a ver se serviam. o primeiro, Peter, servia em termos de inteligência e afins mas era um bocadinho mau, pelo que se achou que se calhar não era boa idéia. A segunda, Valentine, servia em termos de inteligência mas era demasiado boa, pelo que também se achou que se calhar não era muito boa ideia. Contrariando a lei vigente dos dois filhos por casal, foi pedido aos pais que tentassem mais uma vez, o que deu origem a Ender, que iria viver a sua vida a ser ostracizado, estigmatizado e, acima de tudo, separado do resto da humanidade. Avançando, Ender vai de facto para a Escola de Batalha onde, ao contrário do que acontece na maior parte dos filmes americanos que abordam processos de recruta, lhe passam a vida a gritar na cara, não que não presta, mas que é o maior génio que a humanidade alguma vez criou e que convinha que isso se notasse nas suas acções. compreensivelmente, embora não para mim, isso faz com que Ender seja razoavelmente odiado pela malta à sua volta, o que lhe irá causar uma solidão extrema nos processos de decisão interna e também algumas situações que lhe fazem vir à tona aquilo que provavelmente mais o distingue dos outros. É tipo uma espécie de pragmatismo resignado em que, confrontado com a inevitabilidade do que está a acontecer e do que tem que fazer, então mais vale arrumar logo com o assunto para não se passar o resto da vida a sofrer as consequências de o ter deixado a meio. Resumindo, se é para bater, então bate-se de uma maneira tal que quem te quer bater fique de tal maneira convencido que não é bom voltar a tentar bater-te que desampara a loja de vez. Sim, mas assim arriscas-te a magoar alguém... ou a matar, mesmo. Pois... Isso é verdade, mas não é essa a finalidade das lutas ? Ender é assim constantemente pressionado e encurralado que a única direcção para fugir é para a frente. ganha um batalha de manhã e marcam-lhe uma para a tarde. Ganha a da tarde e marcam-lhe uma para a noite cintra dois exércitos ao mesmo tempo. Consegue ganhar essa e de madrufgada, sem ter tempo para descansar, marcam-lhe uma contra três em que ele tem que ir sem armas. Ender ganha sempre mas há, obviamente, efeitos secundários. Um deles é despertar uma adoração religiosa nos seus seguidores. Outro é aprender se calhar uma das lições mais importantes em relações humanas e que é que quem tem o poder não se coibe de estar sempre a mudar as regras a seu favor. E isto fez com que Ender desconfiasse sempre e para sempre do poder instituído e tenha crescido uma pessoa completamente devotado à liberdade de todos. Porque nos povos pode-se sempre confiar porque não têm poder para mudar as regras. Ao contrário do que acontece com os governos. Entretanto, o treino vai evoluindo e Ender é transferido junto com os melhores amigos para a Escola de Comando, onde é submetido a simulações de batalhas dificilimas, em que as naves dos insectoides são cada vez mais, cada vez mais rápidas, mais poderosas e mesmo assim Ender vai vencendo sempre o computador. Um dia, é confrontado com um exercício diabólico, passado nas imediações do planeta mãe dos insectoides, em que as naves inimigas são aos milhões, movem-se à velocidade da luz e tem armas e escudos poderosíssimos. Ender está exausto e à sua volta os seus comandantes e amigos desabam todos (excepto um, chamado Bean, que merece um texto próprio). Reflectindo durante os microssegundos que a batalha lhe deixa livre, Ender chega à conclusão que mais uma vez a única maneira de acabar com a tortura é bater forte e de vez. Assim, através de uma manobra estratégica mais ou menos impossível, rebenta com o planeta mãe dos insectoides acabando assim de vez com o raio da batalha infinita, assumindo que a ficção imitará com sucesso a realidade. Saiu-lhe ao contrário e foi a realidade que imitou mais uma vez a ficção porque esta batalha, assim como todas as que Ender lutou contra o computador, era real e estava efectivamente a ser travada contra as naves insectoides, junto ao planeta mãe insectoide, pela frota que tinha partido da terra 50 anos antes. Assim, sem saber o que estava a fazer, Ender aniquilou completamente a única raça inteligente extraterrestre conhecida, situação de tal enormidade cujas consequências dificilmente seriam apreensíveis por si antes que passasse muito tempo e que não cabem neste já não muito pequeno texto. Embora muitas delas estejam já contadas no texto com que arranquei este blog, há muitos anos atrás. Entre esse livro e este, há ainda mais um, tão bom como qualquer um dos outros dois. Um dia falarei dele, quanto mais não seja antes de os americanos fazerem dele um filme, que é o que vai acontecer a este no próximo mês de Novembro. Ficam estas notas para o caso de o filme não prestar, para memória futura de um livro que não é lá muito bom. É óptimo.

28.4.13

40 - prodigal son












Dean Koontz
Não restam muitas dúvidas que a agenda cultural de quase todo o mundo ocidental é regido por Hollywood. E se acrescentarmos um B, podemos contabilizar mais uns 1500 milhões de pessoas. Ou seja, o interesse das pessoas sobre qualquer tema é potenciado quando Hollywood faz um filme sobre esse tema, desencadeando depois desse interesse um fenómeno cultural que seria para mim interessante se não tivesse como principal origem a intenção de os estúdios fazerem dinheiro em merchandising. Não me chateia nada que as massas passem a usar t-shirts do Batman, mas confesso que me chateio um bocadinho quando as massas comecem a usar t-shirts do Batman. É uma daquelas contradições internas que não consigo resolver. Sei que as pessoas têm de respirar, mas chateia-me que respirem o meu ar e  perto de mim. Enfim, isto tudo para dizer que existe um personagem da literature que só mereceu aí uns 10 minutos de atenção dos estúdios e que por essa razão ainda se encontra em terreno relativamente pouco explorado, permitindo assim que se inventem coisas interessantes sobre si. Esta conversa sobre os estúdios não é totalmente gratuita, da minha parte. É que, ao querer conhecer um bocadinho melhor o autor, li o prefácio do livro (coisa que não costume fazer) e descobri que este livro tinha sido contratado por um estúdio para fazer uma série mas que o autor se desentendeu com eles e resolveu fazer o livro com a sua própria lógica. Passemos assim a ver se a lógica artística tem mais valor acrescentado do que a comercial. Uma pergunta assim tão complexa deveria ser difícil de responder. Mas é fácil. A resposta é: tem. Ora vejamos:
 Frankenstein (que foi interpretado por Robert de Niro naquela que foi a sua pior interpretação das muitas e todas más que fez) torna-se assim num manancial de idéias para quem as quiser explorar, até porque a maioria das pessoas ainda pensa que o Frankenstein é um monstro verde com parafusos a sairem pelas temporas, tipo uma espécie de cornos versão tecno-industrial. Não é. Frankenstein não era um monstro verde com parafusos nos cornos mas sim um cientista louco que construiu um ser com componentes retirados de ladrões e assassinos mortos, sendo que nem sempre respeitava as questõees de simetria estética, ou pelo menos não as respeitava escrupulosamente. Tipo, dava-se ao cuidado de pôr braços nos locais dos braços, mas não se preocupava muito em que os braços pertencessem ao mesmo cadaver. Tipo podia ser orangotango do lado direito e galinha do lado esquerdo... A escritora que criou Frankenstein chama-se Mary e o nome que ela escolheu para o Frankenstein foi Victor. Logo por aí se via que estava a começar mal. No livro original, lembro-me de poucas coisas, mas arrisco a dizer que me lembro das mais importantes. Se estivessemos a escrever um resumo, eu diria que Victor Frankenstein criou um ser que pretendia que fosse humano e ligou a ele o pára-raios do castelo, de maneira que mais tarde ou mais cedo um relâmpago acabou por lhe acertar e por o trazer à vida. Depois, terei adormecido, confesso, e só me lembro dde a criatura (o FrankenSon) fugir do pai (Victor) saltando de pedra em pedra no meio de um pântano tipo, pantanoso…
E é a partir daqui que este livro arranca. Victor, mercê do seu talento inquestionável enquanto cientista torna-se tipo o maior especialista no planeta em engenharia genetica e torna-se também praticamente imortal e podre de rico. E, durante 200 anos, continuous as suas pesquisas pelo que hoje, no presente, criou uma nova raça de homens e mulheres cujo principal objectivo é obedecer-lhe e com os quais pretende dominar o mundo, ou seja, substituir a Raça Velha pela Nova Raça. Obviamente que esta substituição não será completa, uma vez que lhe falta tempo para criar 7500 milhões de pessoas novas, mas também que interesse é que isso teria se é sabido que todo o planeta é controlado por umas 1000 pessoas ? Assim sabendo, Victor infiltra os seus filhos nas posições chave para que, quando chegar a hora, eles possam iniciar a revolta e tomar o controle. Tipo, números à parte, a traição dos clones contra os cavaleiros Jedi. Os filhos de Victor são diferentes, tanto fisica como psicologicamente. São superiores fisicamente porque são mais rápidos, mais fortes, mais bonitos, etc. Tem dois corações e diversos outros melhoramentos físicos, mas estão muito condicionados psicologicamente, porque estão impedidos de processar os seus sentimentos de forma que contrarie o pai, ou seja, sentem bastante (até porque têm dois corações) mas não podem canalizar todo esse sentimento de forma natural. O que, está bom de ver, lhes cria loops internos de dificil resolução, tipo o HAL no 2001 e, em ultimo caso, os leva à mais profunda paranoia, tipo o Padre que não consegue lidar com a presença simultânea de Deus e do Pai (Pai Victor e não Deus Pai), ou tipo Erika, mulher de Victor, que não consegue articular a beleza que encontra na arte com as coisas que Victor lhe faz e obriga a fazer (na cama, entre outros sítios) ou ainda o polícia que acha que os membros da Raça Velha devem ter uma qualquer glândula que segrega a felicidade e começa a dissecar pessoas para encontrar a dita glândula…
Obviamente que não foi apenas Victor que sobreviveu estes 200 anos. A sua criação também. Chama-se Deucalião e, cumprindo o cliché, tornou-se monge budista num mosteiro no Butão depois de ,previsivelmente, ter feito muita asneirinha… Deucalião tem aí uns dois metros e meio e metade da cara toda tatuada, para tapar as cicatrizes que Victor lhe fez quando ele fugiu. Também previsivelmente, começa a sua carreira num daqueles Freak Shows ou Feiras Populares tipo Carnivale, ou a do Big Fish em que, passo a citar-me do texto anterior, “…em que havia mulheres com barba, anões pintados e gigantes desengonçados, halterofilistas carecas de bigode retorcido para cima e vestidos com peles de leopardo que lhes deixava invariavelmente um ombro à mostra, adivinhadoras do futuro cegas, bonecos que deitavam pela boca bilhetinhos com o que te ia acontecer no futuro e onde havia sempre, mas mesmo sempre ao fundo uma roda gigante com ar de que se ia desfazer a qualquer momento mas que nunca se desfazia. Era a altura em que toda a gente parecia uma fotografia da Diane Arbus”. Mas não era bem por aí que eu queria ir. Desviei-me porque ando cada vez mais atraído por esse universo, mas ainda não chegou a altura de escrever sobre ele. Do que se passou entre a feira Popular e omosteiro Tibetano, não sabemos, mas eis que Deucalião é avisado por um amigo que Victor está vivo e de boa saúde em Nova Orleães, por isso corre para lá onde se instala num cinema praticamente abandonado na companhia de um outro refugiado de um freak show qualquer. A partir daqui o livro torna-se num policial banal, em que a única coisa digna de registo é que o assassino em série da praxe, desta vez, tinha começado a carreira a matar pessoas feias, mas como eram muitas, desistiu e passou a matar pessoas bonitas, para lhes retirar as partes mais bonitas e com elas fazer o ser perfeito. Isto lembra-me alguma coisa. Alguéem que, com várias partes quer fazer um ser perfeito ? Como é que se chamava esse livro ? Frankenstein…

8.3.13

39 - the cabinet of curiosities












Douglas Preston e Lincoln Child
Houve uma altura, talvez no fim do século dezanove ou no princípio do século vinte, em que os museus não tinham ainda atingido a plenitude do seu desenvolvimento, e que o conhecimento estava distribuído bastante democraticamente por muitas pessoas diferentes. Era a altura retratada no Carnivale e no Big Fish, em que havia mulheres com barba, anões pintados e gigantes desengonçados, halterofilistas carecas de bigode retorcido para cima e vestidos com peles de leopardo que lhes deixava invariavelmente um ombro à mostra, adivinhadoras do futuro cegas, bonecos que deitavam pela boca bilhetinhos com o que te ia acontecer no futuro e onde havia sempre, mas mesmo sempre ao fundo uma roda gigante com ar de que se ia desfazer a qualquer momento mas que nunca se desfazia. Era a altura em que toda a gente parecia uma fotografia da Diane Arbus, mas não era bem por aí que eu queria ir. Desviei-me porque ando cada vez mais atraído por esse universo, mas ainda não chegou a altura de escrever sobre ele. Mas mais ou menos nessa altura, dizia eu, os museus eram ainda pouco pujantes e os depositários do conhecimento não teórico eram os chamados Gabinetes de Curiosidades, que eram mini feiras populares, pertencentes geralmente a exploradores ou a cientistas, e que continham tudo e mais alguma coisa relacionada com a história natural. Tinha várias vantagens sobre os museus da actualidade, uma vez que havia vários gabinetes, sendo que cada um lutava por ser o mais original, ganhado com isso o público. Tinham também uma criatividade sem limites e um conceito de honestidade  algo relativo, o que permitia ao comum mortal ver coisas que hoje em dia são impossíveis, tais como ver o Bigfoot, o Missing Link, o Iéti, o monstro da lagoa negra, o homemssauro (cruzamento óbvio mas não necessariamente gay entre um homem e um dinossauro), várias sereias, dezenas de tigres dentro de sabre, pássaros dódós, vários parentes da Nessie, enfim, quase tudo o que toda a gente queria ver. Só faltavam os extraterrestres, mas ainda não tinham sido inventados pelo Steven Spielberg. Mas então em que é que estes gabinetes eram importantes para o livro ? Calma... Começando a falar do livro, temos então que um promotor imobiliário que quer fazer um arranha céus em Nova Iorque, desenterra um compartimento com vinte e seis cadáveres todos sentados com as costas apoiadas na parede, mãos atadas atrás das costas e umas cicatrizes junto do fundo destas... Mortos, obviamente. Rapidamente se chega à conclusão que o serviço foi da responsabilidade do primeiro assassino em série americano, e a partir daí, e sabendo nós como os americanos são loucos por serial killers, já não houve mais sossego para ninguém. Os personagens são Nora Kelly, velha conhecida minha da cidade sagrada, em que perseguia uma teoria maluca de ligaçoes entre os anasazi (índios) e os astecas, um jornalista chamado Smithback, cujo principal atributo é ter uma cowlick ( língua de vaca) no cabelo, um polícia irlandês algures no limbo entre a honestidade e a corrupção e um agente do FBI que confesso que me conseguiu surpreender... Lá chegaremos... Então depois de descobrirem os 26 cadáveres, descobrem que um deles era de um rapariga que escreveu um bilhete com o seu próprio sangue e o escondeu no forro do seu vestido muito pobre mas que tinha sido feito por ela a imitar o que já na altura se usava. E o que ela escreveu no bilhete foi o seu nome a sua morada para que a sua morte não fosse a continuação da sua vida, anónima e desprovida de importância. Não foi porque foi por se ter comovido com ela que Aloysius Pendergast se resolveu a investigar o assassínio. Entretanto, alguém começa a matar pessoas em Nova Iorque fazendo a mesma coisa que tinha sido feita aos 26 e que, para simplificar, podemos apenas dizer que lhes abriram as costas e lhes retiraram a "cauda equina"' . Abro aqui uma pequena janela interlúdico-técnica, apenas para dizer que a cauda equina é um nervo que, suficientemente ralado, pode ser bebido, com efeitos surpreendentes na saúde, pincipalmente no que diz respeito à longevidade. Lá chegaremos. Não vamos por o cavalo à frente dos bois, que para isso já chegam os talhos dasbgrandes superfícies. Rapidamente se cria uma dinâmica de investigação conjunta entre Nora, o polícia irlandês, o jornalista e Pendergast, sendo que este é o único personagem que dá alguma mais valia à história. É aquilo que eu gosto de chamar acrescentador de interesse, mas que para o comum mortal é apenas o burro que puxa a carroça. Mas falemos então mais um bocadinho de Pendergast. Não se percebe se é novo se é velho, se é alto se é baixo, se é gordo se é magro. Sabe-se apenas que tem o cabelo tão loiro que parece branco e os olhos tão azuis claros que também parecem brancos. Tem um Rolls Rouce antigo, onde é conduzido por um motorista misterioso chamado Proctor e vive no Dakota, que eu poderia dizer mentindo que é aquele edifício super carismático de que me lembro perfeitamente e que visitei demoradamente quando estive em Nova Iorque. Não me lembro, não vi e não visitei, mas valha-nos a Wikipédia como supressor instantâneo de omissões culturais significativas, parece que é o edifício onde morava e à porta do qual mataram o John Lennon. Pendergast, mestre do aforismo, do understatememt e, qualidade que eu tanto aprecio e que tanto não tenho) do dizer muitp com pouco, é o último descendente de uma família muito rica e muito antiga e de antigos mágicos. Tem um pormenor muito fixe que é uma necrópole privada na cave do palacete de família, onde são enterrados os Pendergasts todos, morram onde morrerem. Começa-se a perceber que o personagem tem mais piada que a história, o que me levou a pensar que se calhar faria sentido haver mais livros com ele. E há, porque os escritores americanos não andam a dormir, principalmente se são dois... Voltando à história, os nossos investigadores rapidamente percebem qual o móbil das mortes do século anterior e qual o motivo de as mortes do presente se terem dado da mesma maneira, relembrando, com remoção da cauda. É que o assassino era o mesmo, sendo que conseguiu prolongar a vida e viver duzentos anos graças aos sumos das caudas equinas. De surpresa em surpresa, com algum sono pelo meio, confesso, lá se vai descobrindo que o assassino imortal afinal também é um Pendergast, tipo tetravô do nosso. E quando Pendergast lhe invadiu o covil, descobre com alguma surpresa que o tetravô imortal está morto há mais de seis meses. Morto e embalsamado. Vai daí, afinal o assassino era outro. Ou melhor. O tetravô de Pendergast matou de facto os 26, para lhes tirar as caudas equinas e fazer com elas uma poção da imortalidade. A partir do momento em que começaram a haver no mercado químicos que permitiram substituir com sucesso as caudas equinas, o tetravô deixou de matar, porque no fundo ele não era intrinsecamente mau. Até que um dia, alguém descobriu o segredo e  torturou o tetravô para lhe sacar a fórmula mas o velhinho, que era super torcido, preferiu morrer. Vai daí o assassino moderno teve que fazer a poção da forma tradicional, e toca a remover mais caudas. Simplificando, o assassino era o promotor imobiliário, que afinal tinha feito o prédio ali de propósito porque sabia que era ali que tinha sido o laboratório antigo. Resta saber porque é que tudo isto aconteceu. Porque o tetaravô Pendergast tinha escolhido como missão destruir a Humanidade, tendo para isso inventando uns venenos lixados. No entanto, lá para meados dos anos 40, quando foram detonadas as primeiras bombas nucleares, deixou de se preocupar porque sabia que seria apenas uma questão de tempo até que a humanidade se auto-destruísse, auto-explodindo-se. Vai daí reformou-se. Lá como cá, a reforma deixou de ser um fenómenos consensual e previsível...

9.2.13

38 - o clube de Dante












Mathew Pearl
Os princípios eram bons. Quatro poetas famosos americanos do pós-guerra civil resolvem traduzir a divina comédia, num ambiente puramente harvardiano. Convencido e arrogante como sou, imaginei logo que os quatro poetas famosos eram aqueles que eu conheço e admiro e que seriam a escolha lógica de qualquer escritor com bom senso. E que são, obviamente, Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft, Mark Twain e  Henry David Thoreau. Ah, esses não são poetas, são apenas escritores, dirão os puristas mas eu, para além de querer que os puristas se lixem, acho que qualquer bom escritor é um bom poeta, sendo que o inverso não é obrigatoriamente verdade. Claramente que o autor do livro era um purista, pois os quatro poetas americanos famosos que ele escolheu foram Henry Wadsworth Longfellow, Oliver Wendell Holmes,  James Russell Lowell e George Washington Greene. Destes todos, apenas conhecia vagamente um, não o George Washington, como toda a gente que nunca lerá este texto poderia estar a pensar, mas sim o Longfellow, conhecido mesmo entre as pessoas menos cultas como eu pelo seu famosíssimo bigode de morsa. Voltando ao livro, os poetas (des)conhecidos reuniam-se todas as quartas feiras para traduzir um canto da Divina Comédia, naquilo a que chamam o Clube Dante. Não resisto a mais um pequeno aparte. Os cultos falam sempre na Divina Comédia, insinuando assim que leram os três livros, mas na verdade, acabam sempre por só falar no Inferno, que foi o que qualquer comum mortal como eu leu e nada percebeu. Faz lembrar aquela anedota em que alguém dizia acerca da Barbie que " she is dating  Kenny but actually, she's fucking Action Man". Bem, de repente começam a acontecer crimes em Boston iguais aos suplícios que Dante descrevia no Inferno, com a particular coincidência de acontecerem precisamente a seguir à reunião do clube. Ou seja, eles traduziam o castigo dos tíbios e alguém matava um tíbio da maneira que eles traduziam. Confesso que foi um exemplo algo infeliz, porque não fazia a mínima ideia do que era um tíbio e pelos vistos trata-se de uma pessoa que, podendo e devendo decidir, podendo e devendo agir, assim não o faz. Bolas, e eu que tenho um desses sempre à minha volta, a zumbir. E, digo eu, se isso é razão para ir para o Inferno e ainda por cima ser intensamente torturado então estávamos lixados. Íamos todos para lá. Pois é. Tinha tudo, o nosso escritor,  para fazer um grande livro, que foi precisamente aquilo que não fez. Os poetas, que deviam ter o dom da palavra, tem diálogos muito pobres, quer entre si quer com o mundo. Passam a vida a chamar meu querido uns aos outros, o que não sendo directamente creditado na coluna da homossexualidade, me irrita porque é demasiado queque e eu detesto. O autor perde-se bastante nos pormenores da vida de Dante, mas numa perspectiva muito académica e algo mesquinha, com que ele depois faz o paralelo como mesmo ambiente académico e mesquinho da universidade. Depois existe o personagem do primeiro polícia negro de Boston, que também não diz duas palavras seguidas de jeito. Será que é de propósito? A ser, seria um golpe muito baixo. A única coisa fixe é a descrição da vida do assassino ao longo da guerra civil, que mostra como a sua humanidade se transformou em desumanidade e que, pelo menos a mim, me mostrou aspectos da guerra civil americana nos quais eu nunca tinha pensado. Aqui sim, conseguimos ter acesso ao interior de um dos personagens e quando damos por estamos a compreendê-lo perfeitamente e tudo o que ele diz nos parece fazer todo o sentido, e começamos a compreender o que ele fez. E, de repente, assustá-mo-nos, porque nós somos bons, e os bons não se identificam com os maus. Respiramos fundo e aliviamos a nossa consciência constatando que se trata apenas de um livro, e nem sequer é muito bom. Embora nos fique qualquer coisa a remoer o subconsciente e a dizer que se calhar não somos tão bons quanto isso. Nem nós nem o livro. Enfim,  muito esforço meu (para me manter acordado a ler), um bom esforço do escritor (que claramente se aplicou e teve o mais difícil, que é uma grande ideia) mas um não muito bom livro. Nem pouco bom. Nem nada bom. Como diria o Shakespeare, mucha do about nothing. Como diria o João da Ega, uma seca.

8.2.13

37 - feed












Mira Grant
Feed, segundo a wikipédia, é "...é um formato de dados usado em formas de comunicação com conteúdo atualizado frequentemente, como sites de notícias ou blogs. " Segundo os inglese, trata-se do verbo que traduz o acto de alimentar. Neste livro, que usa essa palavra como título, é um trocadilho feliz.
Um vírus infectou a humanidade, um vírus que entrou em toda a gente  mas que fica latente até ser activado por um fluido vindo de um zombie. Todos os mamíferos da terra contraíram o vírus. Nenhum réptil. Nenhum insecto. Nenhum molusco. Mas apenas os mamíferos com mais de 20 kg reanimam em zombies, se infectados. Aqui surgem algumas ideias interessantes. Cavalos zombies. Girafas zombies. Elefantes zombies. Baleias zombies. Tudo o que é engraçado  se torna potencialmente zombie. As pessoas deixam de comer carne, por receio de ingerirem ainda mais vírus e, dessa maneira, aumentarem as suas probabilidades de infecção. Consequentemente, e logicamente, a disposição das massas desce abruptamente. O peixe e os vegetais não puxam carroça, e os cavalos zombies também não. Isto são eufemismos para dizer que, de facto, a vida piorou. Depois de se ser infectado, podem acontecer duas coisas. Ou se é morto imediatamente depois da infecção, pelos zombies e depois reanima-se, ou a transformação dá-se tipo online Algumas cidades foram completamente perdidas para os zombies, uma vez que os governos decidiram deixar de mandar para lá tropas. Porque os zombies, ou as comiam, que ainda seria o mal menor porque oa manteria ocupados, ou as infectavam, criando assim zombies especialmente treinados na arte de lutar. Poder-se-ia argumentar que não há grandes diferenças entre soldados e zombies, mas eu não concordo, porque nunca nenhum soldado me tentou comer. Atribuo isso à minha fraca capacidade de impressionar favoravelmente a comunidade homossexual. Eles gostam de homens a sério... O vírus foi causado pelo lançamento na atmosfera da cura para a constipação, que se misturou com o vírus da cura para o cancro, com o qual parte da população tinha sido inoculado. A história mais detalhada gira à volta de  Georgia, Shawn e Buffy (sim, que retirou o nome da loira caçadora de vampiros), que  são bloggers e que são destacados para cobrir a campanha presidencial americana, tipo west wing em que os eleitores são os que não são ainda zombies. Poder-se-ia argumentar que não há grandes diferenças entre os eleitores e os zombies, mas eu não concordo, porque nunca nenhum eleitor me tentou ... adiante. Os blogs passaram a ser considerados imprensa séria a partir do momento em que a imprensa séria deixou de o ser. Aquando do levantamento, palavra usada para descrever o inicio da infecção, a imprensa séria mentiu, a mando dos políticos, enganando a população no sentido de as fazer crer que os zombies não existiam de facto. E as pessoas foram mortas e infectadas aos magotes porque não tomaram as devidas precauções. Foi nos blogues que a verdade foi contada. Não só a verdade, como todas as técnicas de sobrevivência e de combate aos zombies.  Tipo Max Brooks, no seu manual de sobrevivência. O que me faz lembrar que ainda não percebi se o Worl War Z, cujas filmagens eu vi quando estive em Glasgow, já estreou ou não. Tivesse eu gasto mais 120 euros e posto 3G no meu ipad, e poderia verificar isso agora, mesmo fechado neste comboio a caminho de casa e vindo de Lisboa. Voltando ao livro, foi curiosamente devido aos muitos filmes que George Romero fez de zombies, que se conseguiu mobilizar uma resistência mais ou menos efectiva, uma vez que este tinha previsto nos seus filmes como é que os zombies se iriam comportar. George Romero passou assim a ser um herói da humanidade. Em termos de historia do livro, temos que os dois irmãos bloggers são seleccionados para cobrir a campanha de um senador a presidência dos estados unidos. Esse senador tem uma ideia bastante interessante  que devia ter sido melhor desenvolvida e  explorada no livro, e que era conseguir uma sociedade em que zombies e humanos conseguissem coabitar. Obviamente que teriam que ser os humanos a dirigi-la, mas numa perspectiva de integração dos zombies, e não apenas de passar a vida a fugir deles. Ou seja, partir para a ofensiva, controlar os zombies, pô-los a trabalhar. Assim de repente, pode parecer escravatura, e neste caso, como quase sempre, o que parece é, ou mais concretamente, seria. Mas os zombies não tem consciência  logo para eles seria exactamente a mesma coisa estarem ali a arrastar-se de braços esticados ou, sei lá, partir pedra. Um exercício interessante seria pensar se o espírito humano iria conseguir escravizar uma raça inferior ou se, mesmo considerando que o único objectivo dessa raça é comer-nos vivos, ainda assim os ideais de democracia e de moralidade se manteriam. Porque nós, humanos, somos capazes dos dois extremos: proteger, em nome de fazer o que consideramos correcto, aqueles que não merecem a nossa protecção para, logo a seguir, lixarmos completamente o nosso semelhante, explorando-o sem contemplações, aliviando a nossa consciência com o facto de existir um papel qualquer que isso legitima. Portanto, digo eu e não o livro, que o problema era apenas fazer com que os zombies assinassem um qualquer contrato de trabalho. O que, convenhamos, não seria muito fácil, com aquelas mãos todas encarquilhadas.
A ideia de usar impressões digitais também não resultaria uma vez que os zombies, quando privados do seu vício principal de trincar carne humana, tem tendência a roer as unhas. Possuidores de um sistema nervoso central completamente lixado, o resultado desse vício é, obviamente, a decapitação digital. Podia ser com uma assinatura de adn, tipo saliva, mas assim infectavam toda a gente. Também não dava... A partir daqui pouco mais há a dizer acerca do livro, que em vez de seguir as ideias originais que aponta (imagino as delícias que se poderia fazer com a ideia das girafas zombies, espécime do qual conheço um exemplar ocasional) , se perde com uma trama que deambula entre a politica fraquinha e a acção um bocadinho inconsequente. Acabamos por não perceber qual era o objectivo do mau da fita, um senador qualquer e apenas tornamos a sentir um bocadinho de emoção com as mortes de Buffy e de Georgia, sendo que apenas Shawn escapou. O melhor são mesmos os extractos dos blogs de Georgia e Shawn, que aparecem a encabeçar alguns dos capítulos. E que tem uns nomes muito fixes. O de Georgia chama-se "As imagens podem ferir a tua sensibilidade" e o de Shawn chama-se "viva o Rei".  Tivesse eu um blog e gostaria de ter tido imaginação para ter escolhido um nome assim.

19.10.12

36 - daytripper











Gabriel Bá e Fábio Moon.
Era o dia dos seus anos, e tudo o que Brás queria era a vida que não conseguia ter. Se, por um lado, era de facto um jornalista, por outro lado trabalhava na secção dos obituários. Sempre quisera escrever sobre a vida, mas apenas escrevia sobre a morte. Brás era como todos nós, mas um bocadinho mais a frente no sentido em que estava efectivamente a escrever um livro, e não se limitava apenas a sonhar escreve-lo. Livro esse, que no entanto, não parecia satisfazê-lo tanto como a ideia de escrever um livro me satisfaz em mim. E a velha história da potência e do acto, sendo que todos somos potentes em potência e nem todos, de nós, é efectivamente potente no acto. Dos obituários que Brás tinha para escrever nesse dia, destacava-se o de um pintor que tinha morrido com quase noventa anos e que se tinha apaixonado por 184 mulheres, tendo pintado de cada uma delas um retrato lindíssimo. Nunca se tendo casado, tinha ainda assim perfilhado 7 filhos, dos quais tinham resultado não sei quantos netos. O único problema que esse pintor tinha, digo eu, era dar sempre o mesmo nome aos 184 quadros das mulheres que amou. Alguém mais retorcido poderia pensar que amou apenas uma, a do nome, e que se calhar as outras eram apenas uma tentativa para tapar o buraco, não apenas literalmente. Brás não conseguia deixar de avaliar a sua própria vida sempre que tinha que escrever um obituário. Achava-se um escritor diminuído, ate porque grande parte do seu trabalho não via a luz do dia, uma vez que nem sempre as pessoas morriam, embora ele tivesse que ir adiantando os obituários sempre que alguém famoso adoecia, para que o morto não o apanhasse depois de surpresa. Nesse dia, Brás estava especialmente deprimido. O pai, escritor famoso, ia ser homenageado nessa noite no Teatro Municipal. E tudo girava, nesse dia, a volta disso. A mãe que lhe ligou para lhe lembrar o evento, a namorada, Ana, que lhe ligou de propósito a dizer que não ia estar presente e mesmo o melhor amigo, Jorge, que insistia na sua ida porque não queria ser o único negro na festa. Ao que Brás respondeu que essa era uma não questão, uma vez que ele, Brás era branco, e não negro e que, para além disso, o ministro da cultura também era negro. E vai, perguntou Jorge desorbitando os olhos ??? Claro que não, disse Brás revirando os olhos. Toda a gente pensava no evento e Brás não conseguia evitar o desconforto de ver quão pouco importante e quão pouco sucesso ele tinha. Pediu um maço de cigarros no balcão do bar onde tinha entretanto entrado, já de smoking, a porta do teatro. Só os cigarros, perguntou Genarinho, o barman que ele ainda não conhecia e cujo pai, Genaro, tinha fundado o estabelecimento. E uma cerveja, respondeu Brás, filosofando que este fenómeno antropofágico pai filho ao menos não era de exclusividade sua. Igualmente irónico foi aquilo que se passou a seguir. Como estávamos no Brasil, entrou um capitão da areia qualquer, assaltou o bar e matou-os aos dois. Se não tivesse morrido, Brás não poderia deixar de pensar na ironia de que, na face da morte, todos os outros problemas são profundamente relativizáveis.


Brás estava na Bahia, a fazer aquela viagem da sua vida que apenas nós, os portugueses, nunca fazemos. Aquela viagem em que se pode fazer tudo o que se queira, sem compromissos, sem responsabilidades, talvez a única altura na vida em que somos verdadeiramente livres porque ninguém nos conhece e nos não conhecemos ninguém. Aquela viagem que eu não fiz e que Brás resolveu compartilhar com Jorge, o seu melhor amigo. Na Bahia, dizia eu, onde Brás, que era branco passava a vida a ser confundido com um gringo, não tardando a ser envolvido em tirinhas do Senhor do Bonfim e em colares típicos. Jorge, algo mais escuro, passava mais por indígena e podia assim dedicar-se a tirar fotografias à vontade. A respeito de Jorge como fotógrafo, dois pormenores que dele só dizem bem: recusou-se a tirar fotos ao nascer do sol, dizendo que nenhuma foto era suficientemente grande para captar aquela beleza; e tirou uns closes a umas garrafas cheias de especiarias que me parece que teriam ficado mesmo bem, se isto fosse real. Bom nadador, Brás resolve fazer isso mesmo e nada até uns barcos que estavam ao largo da praia, provavelmente para ficar um bocadinho só, a bronzear-se e a bahificar-se. Dentro do barco estava, no entanto, uma loira de pele morena, escultural, de biquíni, que em meia dúzia de frases o desarmou completamente e o fez não descansar enquanto não saísse com ela. A loira era uma fiel devota de Iemanjá, e convidou Brás para a cerimónia que iria haver nessa mesma noite, à qual Brás foi para morrer novamente, desta vez afogado. Se não tivesse morrido, Brás não conseguiria deixar de pensar na ironia de ter encontrado a morte na viagem da sua vida.


Brás estava no seu apartamento e na varanda estava a rapariga loira que tinha conhecido na Bahia, e com a qual já vivia junto há sete anos. Ela, chorando, virou-se para ele e disse-lhe que o odiava e que nunca mais o queria ver. Embora exista sempre a tentação de achar que estas separações definitivas são mais fáceis de materializar e aceitar para se poder continuar em frente, tal não e verdade, porque nada poderá ser pior que a certeza absoluta que a pessoa de quem se gosta nunca mais vai estar connosco. Brás, se não sabia disso, passou a senti-lo na própria pele, pois não conseguia deixar de a ver e de a querer sentir em todos os aspectos da sua vida. Um aspecto particularmente doloroso foi ver as cuecas dela penduradas no estendal, a secar e a secá-lo, por dentro, completamente. Cada canto do apartamento fazia com que Brás pensasse nela e o seu maior terror era que o cheiro dela saísse de todos os objectos que a pele dela tinha tocado. Por essa razão, Brás dormia no sofá, para que os lençóis nunca deixassem de cheirar a ela, mas nada disto resultou e a humidade do clima de São Paulo levou-lhe o cheiro dela de todo o lado menos de um pequeno cobertor a que ela se agarrava e embrulhava sempre que os dois viam filmes. Profundamente deprimido, Brás lembrou-se daquele dia em que Jorge lhe tirou uma fotografia na redacção do jornal e a colocou na parede com uma legenda a dizer que Brás tinha morrido, mas que ninguém lhe tinha dito isso e, por essa razão, ele apareceu para trabalhar. E daquela frase que o pai lhe disse ao jantar, evocando o dia em que tinha conhecido a sua mãe. O pai de Brás disse à mãe que queria ser escritor, e que tinha a certeza que havia um grande romance à espera de ser escrito por ele. A mãe respondeu-lhe dizendo que esperava que houvesse um grande romance à espera de ser vivido por ele. Para onde quer que se virasse, Brás apenas via a rapariga que veio da Bahia e um dia, no supermercado, olhou para o lado e viu uma coisa diferente. Uma rapariga de cabelo preto e olhos verdes, que olhou para ele simpaticamente enquanto comia um gelado. Brás, aturdido, pagou as suas compras e caminhou ao longo da rua, sentindo que toda aquela dor começava a ceder caminho a outra coisa que ele ainda não percebia bem o que era. Voltou para trás a correr, para falar com a rapariga do gelado e foi atropelado por uma carrinha, morrendo logo ali. Se não tivesse morrido, Brás não deixaria de constatar a ironia que era a ter sido a morte que lhe impediu de superar o amor da sua vida.


Brás encontrou a felicidade. Estava a caminho do hospital com a mulher, grávida no fim do tempo, aquela mulher que tinha conhecido num supermercado a comer um gelado, com a qual tinha casado, e com a qual se preparava agora para criar um ou mais filhos. Tinha também escrito o seu primeiro livro, um romance chamado olhos de seda, que estava a ser um sucesso. No entanto, e de repente, tudo desabou uma vez mais. O pai morreu e Brás descobriu que ele sempre tivera uma família paralela, tendo tido uma filha que, assim sendo, era sua meia-irmã. Para complicar ainda mais, a sua mãe insistiu que ele fosse a casa buscar o babygrow que tinha sido a sua primeira roupa, para que fosse também a primeira roupa do seu filho. Brás foi e parou frente à secretaria do pai, onde este tinha tido o ataque cardíaco que lhe tinha causado a morte. Coerentemente, Brás sentiu uma dor no peito e sofreu também um ataque cardíaco, morrendo. Se não tivesse morrido, Brás não teria deixado de constatar a ironia que foi ele, sempre tão independente e sempre a tentar descolar-se da imagem do pai, ter não só vivido a imagem deste, como também morrido da mesma forma.

Brás voltou a infância, à quinta dos avós, onde toda a família se encontrava aos fins de semana, onde ele e a irmã brincavam com os primos a todos as brincadeiras que às crianças são permitidas. À quinta onde corriam atrás de galinholas, que são diferentes das galinhas não só no nome mas também no facto de voarem quando alguém se chega muito perto. À quinta onde a avó dava um nome a cada um dos animais, porque não fazia sentido que houvesse membros da família sem nome e onde um dia, inevitavelmente, comeram Maria do Carmo ao almoço. Á quinta onde davam baratas aos sapos, para que estes as comessem enquanto eles gritavam olé touro. À quinta onde o pai de Brás adorava ir, embora não fosse da família, porque tinha todo o tempo do mundo para escrever o seu primeiro livro, debaixo de uma árvore com as raízes retorcidas todas de fora da terra. Árvore essa onde Brás deu o seu primeiro beijo na boca, à prima, loira e bonita que dizia que quando fosse grande havia de desfilar nua no carnaval, que era a altura em que toda a família passava a semana inteira na quinta. À quinta que era tão importante para Brás que ele já não se sentia triste da semana passada na cidade, porque o fim de semana haveria de chegar e eles todos voltariam para lá. Brás deveria ter, nessa altura, aí uns dez anos e um dia, na cidade, o papagaio com que brincava ficou preso nos fios de um poste de alta tensão. Brás morreu electrocutado, e desta vez nada de irónico havia a registar, porque as crianças com dez anos não sabem o que é a ironia.

Brás chegou a redacção do jornal onde as suas funções eram escrever os óbitos de quem morria, logo a seguir publicados e os que, estando às portas da morte, a ela escapavam, e que iam para a gaveta a espera que a morte deixasse de ter dúvidas. Porque, como já dizia Rudy, a morte afasta-se com um soco, quando vier. Não resultou, e toda a gente chorou quando Rudy morreu. Nesse dia, tinha caído um avião e todos os repórteres foram a correr para o aeroporto, fazer a cobertura do acidente. Brás ficou duplamente, perturbado, porque nunca na vida tinha tantos verdadeiros óbitos para escrever e, simultaneamente, Jorge tinha desaparecido e havia grandes probabilidades de ter estado naquele avião. Naqueles dias que se seguiram ao acidente, Brás foi o repórter mais importante do jornal, pois foram as suas palavras escritas que deram sentido a vida de todos os que morreram no desastre. E que trouxeram conforto a todos os seus familiares. Satisfeito, Brás ficou ainda mais depois de Jorge ter finalmente telefonado a dizer que por milagre tinha perdido o avião que caiu e que, transtornado por esse sinal divino, não regressaria mais do Rio de Janeiro, aonde tinha ido em mais uma viagem de sentido da vida. Brás decidiu ir buscá-lo e morreu quando, na auto-estrada, dois camiões resolveram abraçar-se à frente do seu carro. Se não tivesse morrido, Brás não teria deixado de constatar a ironia de ter instruído a morte de 93 pessoas sem nunca ter escrito nada que desse sentido à sua.

Brás tinha finalmente conseguido dar voz ao escritor que tinha dentro de si. Aquele desastre de avião que o tinha feito escrever 93 obituários seguidos, todos simples e cheios de sentido, tinham efectivamente posto à prova as suas capacidades de escrita, e o reconhecimento global que teve de todas as famílias das vítimas deram-lhe finalmente coragem para começar a escrever o livro quentinha dentro de si. Esse dia, em que nasceu o escritor, coincidiu com o dia em que Jorge, o seu melhor amigo, saiu da sua vida, desaparecendo para parte incerta. Há muitas coisas na vida difíceis de compreender, e mais difíceis ainda de pôr em palavras. A amizade é, sem sombra de duvida, uma dessas coisas. Cinco anos depois, Brás recebeu um postal de Jorge, a dizer apenas que "não consigo fazê-lo sem ti". Brás viajou através de metade do país apenas para ser brutalmente assassinado por Jorge, que nestes anos todos tinha enlouquecido e que se matou logo de seguida. Se não tivesse morrido, Brás não teria deixado de constatar a ironia dentre morrido porque acreditava na amizade do seu melhor amigo.

Brás não conseguia parar de sonhar. Sonhou com o dia em que morreu no bar de Genarinho, morto por um assaltante inconsequente. Tinha 32 anos. Sonhou com o dia em que encontrou Iemanjá no barco e que morreu de seguida afogado. Tinha 21 anos. E com o dia em que morreu atropelado por uma carrinha enquanto atravessava a rua para se ir declarar a Ana, o segundo e maior amor da sua vida. Tinha 28 anos. E com o dia em que o seu pai morreu e o seu filho nasceu e em que ele, atacado cardiacamente, morreu também. Tinha 41 anos. Sonhou com o dia em que corria com o papagaio e morreu electrocutado quando este ficou preso no poste de alta tensão. Tinha 10 anos. E com o dia em que is na estrada em busca de Jorge, depois de ter escrito 93 obituários e morreu esmagado pelo abraço de dois camiões. Tinha 33 anos. E com o dia e quem Jorge, já louco, o esfaqueou até à morte, na praia com o sol a olhar e a areia a assistir. Tinha 38 anos. E sonhou com o dia que contou ao filho a história da morte. A morte faz parte da vida. A vida é como um livro e cada livro tem o seu fim. Por mais que se goste do livro, chega-se à última página e ele acaba. Nenhum livro é completo sem o seu fim e apenas quando se lá chega é que se sabe se o livro foi bom ou não. Brás  acorda dos sonhos e senta-se em frente à máquina de escrever. Tinha encontrado o fim para o seu livro. Acabou-o e morreu. Não sei quantos anos tinha. Era velho…

Brás é finalmente velho. O médico diz que tem a cabeça cheia de tumores. Que as suas dores de cabeça vão aumentar e a sua memória vai desaparecer. Brás volta para casa, onde está Ana, também ela velha. E onde o filho, Miguel, o visita  e lhe entrega uma carta do pai de Brás, seu avô. Uma carta que o pai lhe escreveu no dia em que o seu filho nasceu e o seu pai morreu. E a carta dizia…

… que o filho que estava a nascer ia ser a unia razão da sua existência…
… que Brás lhe ia entregar o corpo, a alma e o coração…
… que Brás o ia educar para que este fosse forte e, um dia, não precisasse mais dele…
… e que nesse dia, Brás deixaria o seu filho partir…
… e que essa era a grande verdade…

Que apenas podemos partir no dia em que os nossos filhos já não precisarem de nós. Ao ler a carta,   Brás percebeu que foi o que o seu pai fez e que esse dia tinha chegado para si. E partiu. Morreu. Não sei quantos anos tinha. Desta vez, de vez.