22.9.26

125 - data center

 


Existe uma empresa registada em Portugal mas com origem desconhecida cujo core business é aquilo a que se pode chamar data center, uma vez que armazena informação numa localização centralizada. Ou, mais concretamente, a empresa endia espaço de armazenamento físico com interface de visualização aumentada, tendo usado a expressão mais comum de data center para melhor percepção por parte dos clientes. Foi fundada em meados do século 21 e foi comprando edifícios abandonados pelo país fora, edifícios esses que foram ligeiramente melhorados e que depois eram alugados a quem assim o quisesse fazer. A particularidade desses edifícios era que, através de uma tecnologia específica ( com base num qualquer software ), permitia aos seus locatários ver na perfeição aquilo que estava neles armazenado. As vantagens eram óbvias. Para além de um controlo direto (bastava visitar o sítio para ver o que lá estava dentro) permitia ao proprietário ter acesso sentimental direto às suas coleções. Era extremamente recompensador passar anonimamente por um armazém cheio de coisas nossas e ver diretamente o que lá estava dentro. Um dia aconteceu uma inevitabilidade informática que foi serem hackeados e ficarem com o seu software à mercê dos piratas.O pirata que crackou o software, no entanto, era uma pessoa original, no sentido em que tinha uma certa sensibilidade estética que se sobrepunha ao jeito para o negócio ( vender o que hackeava à concorrência direta do hackeado). Tinha também uma filosofia visual explícita, que acreditava que a opacidade é uma ilusão capitalista e o segredo uma forma de acumulação egoísta.  Resolveu fazer um assim criar um virus que fizesse com que o conteúdo dos edifícios ficasse visível para toda a gente que para ele olhasse. E que ficasse visível para sempre. Chamou-lhe vitrina e também não o comercializou. Os resultados foram bastante diversificados, mas a verdade é que muitos dos proprietários também gostaram da idéia e deixaram que os edifícios permanecessem com o seu conteúdo. No caso da foto, era um famoso colecionador extraterrestre que colecionava gigantes ultra românticos, provenientes do seu planeta. O impacto nas cidades foi grande, embora não generalizado. Muita gente preferiu esvaziar os seus edifícios para não partilhar os seus conteúdos. Os que ficaram deram origem a uma nova forma de arte, chamada grafitti.

18.9.26

124 - dtf st. louis

 

Esta série, como é que posso dizer isto de uma forma honesta, incomodou-me. As personagens incomodaram-me. Olhava para elas e não gostava de que elas estavam a fazer, a sentir, a dizer, a transmitir. Não por falta de qualidade da série propriamente dita, mas exatamente por causa das personagens, das quais não gostei enquanto... pessoas. E logo aí a série consegue uma coisa que já não sentia há muito tempo, que foi esquecer que é uma série e ficar verdadeiramente ligado às pessoas que estavam a viver aquelas vidas na minha televisão. O princípio mais importante do telespectador, ou do assistente é a suspensão da descrença. Seja qual for o enredo, sabemos que é uma história e não sentimos as coisas que se estão a passar organicamente porque sabemos que não existem. Estes trocaram-me as voltas e conseguiram que me irritasse com o que estava a ver, com as personalidades das personagens. Detestei-os a quase todos, embora com o passar dos episódios alguns se fossem redimindo ligeiramente. A mulher quase autista que não dizia uma frase consequente e só se preocupava com pormenores domésticos insignificantes mas que ainda assim tinha um qualquer encanto no olhar que fazia com que fizesse sentido a tenção que lhe devotavam. O filho também semi autista (mas este provavelmente a sério) que atirava pedras à casa e usava um colete verde irritante e que não fazia mais nada a série toda. O apresentador do tempo, inútil por definição (como ele próprio admitia) que era aquela americano insuportável que fala aos arranques, que só diz coisas óbvias, que seduz a mulher do amigo com quem faz amizade, que anda de bicicleta horizontal e de t-shirt cor de rosa, que tem um corpo escanzelado e que está sempre a sorrir numa cara cheia de rugas com um cabelo bastante ridículo. A polícia negra que é positivista pornográfica, ou seja, que usa a pornografia na sua vida sexual, que nos diz isso, e passa o resto dos episódios a dizer meias frases que em nada contribuem para a realização do seu trabalho, que seria a resolução do crime. E a personagem pricipal, vinda do starnger things, grande e gordo, sempre desconfortável, sempre à procura de algo que o justifique, que não paga os impostos, abandona uma carreira em troca de ser  um tradutor gestual coreográfico, com uma bonomia insuportável perante todas as asneiras que diz e as coisas que não faz. Que se realiza no affaire que a mulher tem com o metereologista a quem apoia e incentiva  no exercício da infidelidade, sempre sorrindo estupidamente como se isso fosse mesmo  bom. Que acha natural que lhe façam um seguro de vida e lhe paguem as propinas do filho que afinal não é seu. E sempre com um sorriso insuportável de vaca estúpida, como se fosse tudo normal e nós é que não. Porra, a mediocridade do personagem era tanta que conseguiu mexer comigo. E lá está o mérito... porque era real, porque há gente assim e porque eu não tive que suspender a descrença para absorver aquela mediocridade toda... Porra... irritou-me mesmo... nunca detestei tanto uma série tão boa... preferia mesmo não ter visto.

16.9.26

123 - Zona Industrial



Na zona industrial do Porto existe uma fábrica que nunca o foi. Aliás, fábrica é palavra que já ali não se conjuga: o tecido produtivo de outrora deu lugar a uma paisagem monótona de campos de padel, stands de automóveis reluzentes e armazéns de bugigangas. Mas aquele edifício em particular sempre pertenceu a outra categoria. Era, na verdade, a tampa de um gigantesco complexo subterrâneo e o portal de entrada para uma conquista silenciosa que os chineses queriam fazer sobre o Porto. Todas as noites, o telhado recortado acendia-se em padrões geométricos impecáveis. A partir do céu, a grelha de luz servia de farol para vagas de para-quedistas chineses que desciam em grupos de cinquenta. Traziam os seus chapéus cónicos característicos — que do chão pareciam pequenas chaminés alinhadas na escuridão — e aterravam com precisão milimétrica antes de se esgueirarem para as galerias subterrâneas. O plano era de uma ambição imperial: colonizar comercialmente o Porto, desmantelar o tecido industrial clássico, convertê-lo em retalhos sintéticos de qualidade média-baixa e, a partir dessa praia de desembarque na Zona Industrial, alastrar social e economicamente até à Foz e à Ribeira. O que os estrategistas de Pequim não previram foi a geopolítica de bairro. Quando as populações de Ramalde, do Viso e de Francos perceberam o movimento, não pegaram em armas; usaram táticas de desgaste social. Invadiram os estabelecimentos em massa. Compravam tudo o que havia nas prateleiras e, quando não compravam, instalavam-se. Passavam lá as tardes em amena cavaqueira, entre o cheiro a plástico novo e o som dos canais de notícias. Enquanto os comandantes tentavam traçar mapas táticos nas catacumbas do edifício, a D. Lurdes do Viso aparecia à superfície, retendo a vanguarda das forças de invasão durante três horas seguidas. Perguntava o preço de cada novelo de lã, pedia desconto em dois conjuntos de recipientes herméticos e explicava, com detalhe obsessivo, o segredo das suas rabanadas de vinho tinto. A estocada final não veio da diplomacia, mas do parque de estacionamento. No dia em que os primeiros arrumadores de carros tomaram posições à porta do complexo, exigindo moedas com uma autoridade ancestral, a estrutura de comando ruiu. Exaustos, privados de silêncio e incapazes de combater a hospitalidade sufocante do Norte, os invasores cederam à aculturação.Hoje, a fábrica continua lá, com o seu telhado escuro e as suas chaminés imóveis contra o céu noturno. Já ninguém salta de paraquedas. Mas a operação deixou uma herança irrepetível: deu origem a uma comunidade única no planeta, perfeitamente adaptada ao ecossistema Invicta. O gunês.

10.9.26

122 - Compactacao

 


A compactação é uma operação essencial à humanidade mas a qual não se da a devida importância. O que quer que seja que se queira construir necessita de uma base de assentamento estável e resistente, ou seja, compactada. Tendemos a valorizar o edifício, a ponte , o que se constrói acima do dolo, mas a verdade e que sem um bom solo de fundação nada se mantem de pé. Nem todos os solos são iguais. Os solos coesivos, tipo argilas e siltes colocam alguns desafios a sua compactação devido à reduzida permeabilidade, plasticidade e forte retenção de água. Como a água custa a sair dos poros da argila, a aplicação rápida de cargas gera pressões neutras (pressão da água nos poros) elevadas. Se o solo for compactado demasiado depressa com excesso de água, pode ocorrer rutura por corte em vez de adensamento. Por outro lado, as ações mecânicas sobre a argila tendem a fazer com que esta se desagregue torrões grandes e rijos. Se o equipamento de compactação não quebrar estes blocos durante a passagem, criam-se vazios internos permanentes no aterro. Argilas com elevado índice de plasticidade  tendem a absorver água e expandir no inverno, e a secar e retrair  no verão, abrindo fendas Se a compactação não for feita com a energia e humidade adequadas, a estrutura final ficará instável perante ciclos climáticos. A compactação a grande escala faz-se recorrendo a cilindros compactadores, mas não é assim tão simples. A utilização de cilindros de piso liso, mais tradicionais, pode selar ou polir a superfície da camada compactada, criando uma película impermeável e lisa que  impede a aderência e a ligação estrutural com a camada seguinte de aterro. provocando planos de fraqueza. Para resolver este problema, deverão ser utilizados os chamados cilindros pé-de-carneiro, em que o tambor aço possui dezenas de saliências metálicas (patas ou "pés") distribuídas uniformemente, cujo formato se assemelha  aos cascos de carneiro. Atuam por pressão localizada e amassamento (kneading action). Os pé penetram na camada de solo, compactando o aterro de baixo para cima. Ao penetrar no solo, ajuda a quebrar socos/mottes de terra e a homogeneizar a humidade da camada terraplenada. É comum que nos países em vias de desenvolvimento, geralmente economicamente mais carenciados, se use uma solução variante, mantendo os pés de carneiro mas esquecendo todo o equipamento e tecnologia restante. Tal foi o caso nesta autoestrada na Argélia, feita por chineses. O resultado, embora claramente muito mais sustentável, não costuma ser o desejado...



3.9.26

120 - o arquiteto

 

Era uma vez um arquiteto cansado por uma longa carreira de projetos que nunca tinham saído do papel onde eles os desenhara. Como todos os  arquitetos era vaidoso e não conseguia dissociar o seu bem estar pessoal com o sucesso profissional ou, neste caso, a falta dele. Dedicou muito tempo a tentar perceber porque o seus projetos não eram nunca escolhidos e chegou à conclusão que a culpa não era sua. O sucesso dos projetos eram inevitavelmente ditado pelas opiniões de pessoas cujo principal objetivo era dizer mal, e tentar manter o seu status quo, evitando a ascensão de outros, ainda que talentosos. Depois de muito pensar concluiu que o sucesso estava à distância da aniquilação da sua individualidade. Concebeu assim um edifício que de seu nada tinha que não fosse a ideia. Ideia que era fazer com que cada pessoa que contemplasse o edifício visse aquilo de que mais gostava no mundo, ou seja, que se visse a si próprio. Ao longe, o edifício era invisível. De perto, devolvia a imagem de quem o contemplava, suscitando imediatamente aprovação e admiração. E assim aconteceu. O arquiteto finalmente teve sucesso, mostrando ao mundo aquilo que o mundo queria ver. Foi uma ideia arrojada que, no entanto, apenas pode ser usada uma vez. O que lançou o arquiteto numa depressão ainda mais profunda porque pior que nunca ter tido sucesso é ter uma vez e nunca mais lhe sentir o sabor. A anulação do "eu" em favor do agrado imediato do público trouxe uma satisfação efémera. Ao conceber a obra definitiva baseada nesse truque conceptual, o arquiteto esgotou a sua fórmula e fiquei exposto à dor de ter alcançado o aplauso sem ter revelado nada da sua verdadeira essência. Ainda hoje pensa se valeu ou não a pena. Vaidoso como é, sabe que não...

2.9.26

119 - O século dos imbecis

 

Nunca li nada do Valter Hugo Mãe. Ouvi-o falar a vivo duas vezes e na televisão outras duas. Gostei muito. Coloquei-o numa prateleira com  o Gonçalo M. Tavares e com o Afonso Cruz- Uma prateleira de escritores que produziam livros muito bons e eram discretos e que de alguma forma se tinham afastado dos temas tradicionais portugueses, que não consigo sistematizar exatamente quais são mas sinto a nuvem e o clima de depressão e tragédia que eles projetam. Estava assim com grandes expectativas relativamente a este livro, principalmente depois de o ouvir na televisão a abordar com a jornalista dos olhos assustadores questões relativas ao excesso de informação vs. falta de conhecimento, da desumanização que isto provoca, da falta de um substrato de cultura que todos deveríamos ter e quase nenhum de nós tem. Expectativas que aumentaram ainda mais quando o livro me chegou às mãos embalado em plástico. Certo que é anti-ecológico, mas dava a sensação que o livro iria era tão bom que não se podia correr o risco de as boas ideias caírem do livro aquando do seu manuseio. Embalado de um otimismo pouco característico no início de um calhamaço de 500 páginas, mergulhei sem reservas na leitura, não demorando muito para as reservas que não tinha aparecerem à desfilada.. Não vou resumir o livro, não só porque não é este o objetivo como também corria o risco de o resumir em 5 linhas. Mas confesso que fiquei muito desiludido. O livro é uma espécie de Cidade e as Serras mas sem nenhum do sentido de humor que o Eça tinha.. Fala da vida de um barão, dentro de um solar em que, literalmente, nada se passava. Nada mesmo. Depois chega a baronesa, já casada, e nada acontece. Nada. Nem mesmo sexo. Mergulhamos à exaustão no interior das cabeças dos personagens secundários mas isso não traz grande interesse, pois por serem secundárias nada acrescentam à história que as suas disfuncionalidades rurais. E se calhar o problema é esse, o de estarmos à espera de uma história, que como já disse acima é praticamente inexistente e resumível em 5 linhas. Passo a demonstrar:

  • Agiulfo, o barão, fica mais inteligente quando a cota altimétrica a que se encontra aumenta e mais estúpido quando diminui;
  • Um dia casa-se a não faz nada com a mulher, que disputa territorialmente esse nada com uma criada que se considera a verdadeira dona de tudo;
  • Um dia Agiulfo desce demais e morre. Deixa um cofre fechado que a baronesa, cujo nome não sabemos, não consegue abrir e assim aceder às riquezas supostamente existente.
  • A criada carece de sexo, existe uma revolucionária lésbica, uma mulher com algo entre as pernas, dois gémeos assassinos e mais alguns personagens ainda mais secundários.
  • A criada salva tudo mediante uma espécie de coletivização da propriedade e venda do seu imobilizado. Algures é violada e não desgosta.
Estou consciente de que o resumo é fraco, mas provavelmente porque o livro também é. Não ponho em causa a qualidade da escrita, embora navegue numa linguagem ruralizada de que não gosto muito. O  que me custa é a ausência de história. Porque para mim, um livro é a necessidade de alguém contar uma história que tem na cabeça. O resto vem por acréscimo. É por isso que não escrevo livros, porque não etnho histórias para contar. É por isso que escoo a minha necessidade de escrever aqui, onde ninguém lê porque ninguém sabe que existe. Agora se és um escritor com provas dadas, com talento e ainda por cima com as ideias no sítio, tens que fazer melhor do que isto. Não vou  desistir do Valter Hugo, mas fiquei com a sensação que comecei com o pé errado.

1.9.26

118 - Dorian Gray

 

Em Nápoles, no bairro espanhol, existe a parede Gray, não por ser cinzenta mas porque tinha as mesmas características que o quadro de Dorian. Hoje, já não tem nada...