23.9.26

127 - ativismo x idealismo

Ativismo vs. Idealismo

Considero o ativismo uma atividade de valor moral neutro, que é apenas tão boa quão boa for a causa que processa. O ativismo não é uma filosofia, não é uma moral nem sequer uma forma específica de afirmação humana. Trata-se apenas de uma ferramenta posta ao serviço de uma causa, dependendo da validade desta para obter legitimidade moral. O ativismo é uma pressão geralmente ensurdecedora para que o indivíduo seja levado a seguir um determinado caminho, indo assim ao  encontro de interesses de terceiros. O ativista é alguém com tempo e energia para defender uma causa, mas apenas isso. Não é o ser ativista que faz dele uma boa ou ou má pessoa, mas sim as causas que ele defende. Existem, no entanto, algumas características próprias que se podem atribuir ao ativista em si, e não ao ser humano que defende a causa. O ativista costuma ser dotado de uma certa energia honesta, que lhe permite avançar sem grandes reservas nos seus objetivos. Não se costuma pôr em causa por que acredita efetivamente naquilo que defende ou que lhe dizem para defender. Não é um ser analítico nem relativiza as situações, avançando sempre a direito em direção ao seu objetivo. Embora muita vezes seja considerado um idealista, a verdade é que não o é. Se fosso idealista acreditava que as ideias acabam por se impor por si e que as pessoas acabam, mais tarde ou mais cedo, por ver a razão. É pessimista. Sabe que sem a sua ação as coisas não vão acontecer. Não confia praticamente em ninguém, quer individualmente quer institucionalmente. É, geralmente, uma pessoa revoltada ou privilegiada. Daquelas que já não tem nada a perder ou que então não se interessam em ganhar.

O idealista não funciona bem assim. É uma pessoa introspetiva, habituada a refletir e a pensar bastante nas coisas.  O materialismo passa-lhe um bocado ao lado, pois valoriza apenas o mundo das ideias e geralmente não consegue perceber que o materialismo pode e deve ser a recompensa de uma ideologia do bem. Os idealistas são e sempre foram os grandes motores da humanidade, porque se preocupam efetivamente com o caminho que esta está a seguir.  A sua agenda é global, são magneticamente atraídos para a generalização dos conceitos, querendo sempre ir mais e mais longe no estabelecimento dos princípios pelos quais acham que a humanidade se deve guiar. O idealista está sempre do lado da moralidade porque de facto acredita que está a fazer o melhor pelo mundo e acresce a essa ação o facto de se preocupar o suficiente pela humanidade para se dar ao trabalho de a tentar catequizar. Não há idealistas maus, porque de facto todos acham que estão a fazer o bem e falta-lhes a humildade para sair do seu umbigo e dar-se ao trabalho de perceber os efeitos da sua ideologia, se adotada, no comum mortal. São moralmente neutros porque a única pessoa a quem respeitam para além deles próprios é a Platão.  Gosto de idealistas e não gosto de ativistas. Mas quem eu prefiro mesmo são aquelas pessoas que, mercê das suas escolhas individuais, fazem o correto e tornam o mundo num sítio melhor sem chatear a cabeça aos outros, seja com livros seja com manifestações. Chamo a essas pessoas, normais. Sei que só podem existir porque antes apareceu o idealista para desenhar o horizonte e o ativista para arrombar a porta, mas vou ficar com a ilusão que, a partir deste presente, a normalidade (na qual incluo o bem, obviamente) das escolhas individuais será suficiente para um mundo melhor em 90% dos casos.


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