28.8.26
117 - o cão de Tróia
27.8.26
116 - o instante decisivo
24.8.26
115 - my lovely head
Era uma vez uma cidade que queria
ficar para a história. Destituídos de qualquer motivação política, não tendo
nenhuma agenda que não fosse criar uma referencia incontornável para a terra
onde nasceram, onde viviam e que amavam, resolveram adoptar uma visão clássica
e construir uma estátua que toda a gente conhecesse e que fosse sinónimo de
tudo. Um colosso. Tipo o de Rodes. Escolheram um modelo e fecharam-no num
quarto e destruíram todas as suas fotografias para que o efeito surpresa
aquando da inauguração fosse total. Começaram então a construção. A estátua ia
ter 85 metros de altura, uma vez que essa era a altura acima do metro que toda
a gente tem que era considerada a ideal. Começaram por fazer a cabeça, porque
intuíram acertadamente que ia ser um processo muito demorado e, como tal, havia
que aproveitar a beleza actual do modelo. Dispenso a relato dos pormenores
técnicos... Materiais, localização, cor, tamanho do cabelo, a orientação para
que estaria virada, a roupa que teria vestida… Tudo isso foi discutido a
exaustão. E tudo contribuiu para que o processo se fosse arrastando pelos anos.
Inevitavelmente, o entusiasmo foi diminuindo e a cidade foi esquecendo o seu
objectivo. Um dia, quando essa noticia já não espantava nem indignava ninguém,
foi finalmente anunciado o cancelamento da obra. Tinham feito apenas a
cabeça... Mas, inesperadamente, quando retiraram os andaimes e os tapumes,
descobriram que aquela cabeça de 15 metros de altura, com umas feições
perfeitas e que espreitava entre os prédios que a rodeavam, era uma referencia
incontornável para toda a gente que por perto passava. Era como se se tivesse a
cidade a olhar para si. Valia a pena ir de propósito olhar a cara da cidade nos
olhos, e era mesmo bonita. As pessoas passaram a ir olhar a cara da cidade
todos os dias, as pessoas queriam casar-se com a cidade por testemunha, todos
os fotógrafos usavam a cara da cidade como modelo para tudo... A cidade ficou
mundialmente conhecida como a cidade que tinha uma cara. E quando todo este
sucesso permitiu que houvesse dinheiro para acabar a estátua, a população em
peso foi unânime em dizer que não queriam que se construísse o resto do corpo.
Cidades com estátuas havia muitas. Cidade com cabeça, havia apenas uma. E uma
bonita cabeça. A cabeça ainda existe e está exposta na praça principal da
cidade. Está cansada e, por isso, deitou-se.
114 - o campeonato da tristeza
Na Polónia existe um campeonato de tristeza. Durante o ano ocorrem por todo o lado shows de stand-up tragedy em que os concorrentes fazem o seu melhor para conseguir o pior, ou seja, para contarem a história mais triste que conseguirem. Podem ser histórias de vida reais ou simplesmente inventadas, e existem todo um conjunto de regras que não tenho de cor nem são o que interessa neste momento. A competição vai evoluindo em eliminatórias regionais, que passam a finais nacionais e por fim desembocam numa finalíssima. O critério é sempre o mesmo. Ganham que conseguir obter mais lágrimas do público. A forma de contabilização das lágrimas é complexa e foi concebida por um engenheiro hidráulico que, devido a esta invenção, ganhou uma reserva para o prémio Nobel da hidráulica, quando ese for finalmente e muito merecidamente instituído. Passa pela uso por parte dos espectadores de um fato própri muito parecido com os fatos destiladores dos Fremen do livro Dune. O prémio para o vencedor da competição é a impressão da sua cara em fontes colocadas nas principais cidades, que funciona initerruptamente recriando o choro que concorrente vencedor provocou. A água é a mesma que o público chorou em direto nas diversas eliminatórias e que foi cuidadosamente recolhida e repartida nos vários reservatórios que funcionam como tanque de compensação para cada uma das fontes. A água não carece de nenhum tipo de tratamento porque o sistema funciona em modo de recirculação e as perdas são mínimas. As bombas de recirculação são alimentadas através de painéis fotovoltaicos, embora confesse que não os consegui ver. Caso, por algum motivo, as perdas / evaporação ultrapassarem os 10%, o campeão em título é convocado para uma sessão extraordinária de choro de manutenção. O concurso é certificado ambientalmente.
113 - O que podemos saber
21.8.26
112 - Metro
20.8.26
111 - Koutobia
Num cenário imaginário, teria abordado este homem e perguntado se a dimensão da tarefa não seria demasiado esmagadora face à exiguidade dos meios disponíveis e ele ter-me-ia respondido que estava ali não para limpar o lixo físico mas sim para expurgar o local de toda a vacuidade que os turistas para ali traziam, não apenas por irem lá fisicamente, mas principalmente por terem transformado um determinado ângulo da mesquita numa obrigatoriedade dos instagrams de viagens. A santidade deste local não poderia ser suplantada pelo efêmero dos 10 minutos em fila para depois conseguir tirar a selfie a apanhar apanhá-los apenas a eles, expurgando a multidão que ou ainda esperava, ou já debandava, sempre visível. Cabia-lhe assim a ele varrer as pessoas dali, de maneira a manter a dignidade da Koutobia, que já tinha sido comprometida logo no ano da sua construção, no século XXIII, quando a implantaram desalinhada com Meca, o que implicou que tivessem que a demolir e construir de novo. Quanto a isso ele não podia fazer nada, mas varrer a estupidez dos turistas era como limpar uma praia no inverno, imaginava ele, uma vez que nunca o tinha feito. Era recompensador. Num cenário imaginário esta conversa tinha ocorrido exatamente assim e eu tinha-me ido embora com alguma vergonha, pensando nos 10 minutos que esperei para tira a fotografia que, ao menos isso, não era uma selfie mas sim uma fotografia do edifício em si. Na vida real, fui na mesma embora mas a pensar noutra coisa qualquer que já não me lembro.
110 - Koulchi Zine
14.8.26
109 - Nostalgia
108 - O colibri
107 - o mago do kremlin