
Viagem através da vida de um oftalmologista italiano que vai navegando uma cronologia desordenada enquanto nos conta o que considera ter sido interessante na sua vida. Verdade seja dita que o faz muito bem, quer porque a escrita é ótima, quer porque a dose de sentimento e os seus pensamentos e ações são intensos e bons. Ficamos a saber, não propriamente por esta ordem da sua amizade com um jogador inveterado que no futuro se vai transformar num azarador profissional, na salvação in extremis quando ambos são expulsos de um avião que depois se despenha, do seu casamento com uma hospedeira búlgara (?), da história do casamento da sua mãe arquiteta esteta com o seu pai engenheiro pragmático, do seu irmão a quem manda cartas para os estados unidos, das maquetes incríveis que o seu pai fazia e da coleção de revista de ficção científica que tinha, da sua filha que tinha um fio preso nas costas que se enredava nas outras pessoas, da eutanásia que praticou primeiro ao seu pai e depois a si próprio e, talvez a parte mais plena de significado, a maneira como criou a sua neta, que apesar de ser uma mulher, foi anunciada como o homem do futuro. Chagado aqui, ia escrever que mesmo apesar de todas estas histórias bastante bem contadas, o livro não tem uma história propriamente dita, mas confesso que acabei de me aperceber da estupidez que é ter acabado de escrever isto. A história são as histórias e o que delas tiramos, que neste caso serão sempre melhores que um qualquer enredo específico sobre qualquer coisa específica. O que me baralha, porque geralmente não acredito nisto. Prefiro ter uma história a que me agarrar do que estar a espremer sensações do pedaços de histórias avulso. Mas a verdade é que neste caso penso que este foi o formato certo e que o livro resulta muito bem assim.