Algures no futuro, a terra inundou consideravelmente via subida do nível das águas do mar, sendo que esta subida terá sido causada pelas alterações climáticas e teve um impacto muito grande nas ilhas britânicas. Um professor universitário desse futuro (2140) leva a cabo uma investigação profunda sobre o maior poeta inglês que viveu entre os séculos 20 e 21 e que escreveu o melhor poema de sempre, sob a forma de coroa. A coroa é um formato impossível em que tem que se fazer uns malabarismos inacreditáveis e no fim o poema ainda tem que fazer sentido. Manuscreveu-o num pedaço de couro e deu-o à mulher após ter feito a respetiva declamação num jantar com os amigos ingleses snobs, que no entanto estavam todos semi-bebâdos e ninguém, fixou nadinha do conteúdo, embora o tenham aplaudido efusivamente.. A mulher ficou com o dito rolo, leu-o e nunca mais o mostrou a ninguém nem nunca mais falou dele. o que implico que o melhor poema do mundo se tenha perdido e ninguém saiba muito bem o que lá dizia. Sabemos isto todo através do professor universitário que nos narra tudo isto e pouco mais a partir do futuro e baseado nos arquivos do poeta e da mulher e de mais uma infinidade de material académico que foi criado sobre a vida e obra do poeta. Chegamos assim ao meio do livro e sabemos tudo do que pouco interessa, quase nada sobre o mundo inundado e percebemos que o poema não existe. Much a do about nothing, diria outro poeta inglês também bastante conhecido. Começo assim a ler a parte dois, que é exatamente a mesma história contada na primeira pessoa pela mulher do poeta, que tinha enterrado um baú que o investigador, sem grande mérito, desenterra e, mais uma vez, lê até à exaustão. Aqui confesso que fiquei com algumas esperanças que a história fosse diferente e que este contraste entre a versão pessoal e oficial enriquecesse o livro, mas a verdade é que a história era quase igual. Quase. Como bem sabemos, o diabo está nos detalhes, e essa pequena diferença, de cerca de 5% da história toda, vira-nos completamente do avesso por causa dos efeitos que tem e naquilo que nos faz sentir quando lemos. Esses 5% desencadeiam um conjunto de pensamentos, reflexões, confidências, consequências e etc, que dada a mestria com que estão escritos, nos derretem completamente. Chegamos assim a mais um daqueles casos típicos neste escritor em que somos convidados a deglutir 95% de palha bem escrita mas sem grande assunto (ou sem que o assunto seja devidamente desenvolvido), e, já exaustos, sem posição e com o rabo a doer (havia razões para isso), ficamos completamente agarrados e sem folego até acabar o livro com aquela sensação de que participamos em algo épico. Essa sensação de participação, naturalmente, também advém das descrições infernalmente pormenorizadas da primeira parte do livro, que nos criaram uma familiaridade próxima com todos os aspetos da história. Não vou falar dos 5%. Isto não é um resumo. Também não vou falar do poema. Não gosto muito de poesia... Quanto ao livro, e juro que não sei porque vou dizer isto, é muito muito bom.
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