Ter um elefante no meio da sala é o que acontece quando num qualquer momento, contexto, ambiente, envolvente, existe algo impossível de ignorar, algo que grita em plenos pulmões quando o que se quer é silêncio ou conversa baixa, algo que geralmente não é agradável a algumas das partes envolvidas que, por essa razão, tentam ignorar aquilo que não pode ser ignorado. Ter um elefante na sala e fingir que ele não está lá pode ser muitas coisas e ter muitas justificações, mas nunca deixará de ser estúpido. Estúpido por estúpido, é muito melhor ir ter com ele directamente e enfrentá-lo, olhos na tromba. Inevitavelmente, e apesar de todos os meus esforços para recuperar a forma, o elefante dá sempre cabo de mim e eu acabo todo partido. Teimoso, no entanto, não paro de os confrontar, porque há uma certa beleza poética no tipo que passa a vida a levar nos cornos no recreio da escola e, ainda assim, não tem medo e não desiste. Insisto portanto em desafiar a besta, que me torna a partir todo. Mas isso era dantes... e vida traz idade e a idade traz a experiência. Descobri que mesmo o elefante mais terrível não faz mal a ninguém se não lhe fizerem mal a ele. O problema do elefante no meio da sala somos nós, e nao ele. Somos nós que não sabemos lidar com ele e com o que ele evoca. Se o deixarmos sossegados, ele não nos fará mal nenhum. Assim sendo, passei a usar a ideia do Maurizio Cattelan, que vi numa exposição que ele fez em Serralves. Cobre-se o elefante com um lençol, eliminando assim o desconforto que ele pode transmitir quando descoberto. Temos é que deixar buracos para os olhos porque um elefante cego torna-se desgovernado e, quando assim, desata a fugir e leva os problemas todos da sala para o meio do mundo.Não se pode deixar de tomar muito cuidado, quando estamos a lidar com elefantes....
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