Nunca sei de devo abordar o filme pelo conteúdo da história ou pela significância dos pormenores. Irrita-me que a maioria das vezes os realizadores não se deem ao trabalho de conjugar as duas coisas contando-nos uma história constituída por pormenores, e não pormenores (com maior ou menos relevância) que poderão ou não vir a contar a dita história. Também não subscrevo que a história deve ser construida pelo espectador, porque isso cria uma cacofonia gritante e não haverá duas histórias iguais para o mesmo filme. A principal actividade que deveria orientar o cinema enquanto arte não deveria ser a capacidade de desmitificar os fantasmas do realizador, mas sim a compreensão da história que ele tem para nos contar. É interessante como esta fragmentação de histórias em pormenores, sensações, apontamentos e etc, que agora constitui a nossa realidade via redes sociais, já existe há muito tempo antes destas. A colagem dos pastiches uns em cima dos outros já existe há muito, a diferença é que agora está separado em stories, posts, etc, o que até me parece mais honesto do que pretender agrupá-las num todo coerente ( o filme) que acaba por não ser coerente. Parece preguiça... É legítimo que um artista apresente meia dúzia de borrões ou traços, mas tem que saber pintar. Dito tudo isto, continuo indeciso. Vou pela capacidade de auto-depreciação abnegada e resignada do Cillian Murphy pré Picket Blinders, ou pelo facto de dizer quatro frases no filme todo? Vou pela textura social irlandesa ou pela estupidez de todos os personagens? O filme tenta vender a ingenuidade da Kitten como uma armadura poética e surrealista contra a violência do conflito sectário e do preconceito da época. Mas há um limite ténue entre "resiliência sonhadora" e simples alheamento irritante. A textura social irlandesa dos anos 70 está lá, mas serve apenas de pano de fundo estático para uma sucessão de cenários por onde a personagem passa sem realmente ser transformada por eles. Vou pela apreciação da androgenia e sua preponderância inevitável sobre a personalidade ou vou pela sensação de que ninguém sabe o que está a fazer rno filme? A atuação do Cillian Murphy é indiscutivelmente o motor elétrico de um carro que não sai do sítio. Ele segura o filme quase por pura força de presença e linguagem corporal — Mas a performance existe para servir uma história ou serve apenas para nos distrair do facto de que a história é um desfile de episódios sem grande consequência? Vou pelos 7,2 no IMDB ou vou pelo sono que senti a ver o filme? Continuo a pensar nisto ou vou trabalhar?
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