Ele comprou a bicicleta por catálogo, com guiador em carbono, quadro em titânio, mudanças ultra-leves, selim anatómico cheio de gel, pedais de plataforma em alumínio, tudo tão leve que apenas os seus bastantes quilos a mais impediam que levantasse voo quando pedalava ao longo da marginal, vestido com camisolas de lycra e calções almofadados no rabo, e de óculos de sol com lentes estranhamente amarelas e grandes.
Ela tinha uma bicicleta enorme, antiga, tradicional e pesada, mais pesada ainda porque nela montada tinha a cadeirinha onde transportava os filhos, alternadamente, avenida acima avenida abaixo, nos levas e trazes de colégios e afins, tudo tão pesado tão pesado que apenas a sua força física incrível, tão bem disfarçada no corpo magro e até mesmo algo franzino, conseguia fazer com que o conjunto se movesse a uma velocidade considerável, que nem sempre parava nos vermelhos.
Cada um à sua maneira podiam ser considerados maluquinhos das bicicletas, o "mamarracho tecnológico" de lycra obcecado pelo peso grama a grama versus a força bruta da rotina diária de um tanque com cadeirinha de bebé e quilos de compras. Quando se encontravam todos os dias na mercearia biológica, faziam jus à sua condição, e em vez de encherem chouriços em conversas de elevador ou de frente de máquina de café, falavam de trivialidades. Trivialidades ciclísticas. As conversas deram frutos e saiu delas uma combinação para andarem juntos, que foi evidentemente uma ideia péssima, porque o interesse em bicicletas não implica necessariamente afinidades nos outros aspetos menos importantes da vida. Mal chegaram ao local de encontro ambos cederam à sua natureza ciclística. Ele saiu disparado pela ciclovia fora (só consegui apanhar a pontinha da roda, na fotografia) e ela ficou a falar com uma conhecida do colégio dos filhos, que passava de bicicleta por lá.. Ele não voltou para trás e ela não parou de falar.... Nunca mais se viram.
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