O Porto tem um triângulo por onde, 2 a 3 noites por semana, passam cerca de 400 pessoas. O fenómeno dura há cerca de 10 anos e terão passado por este triângulo durante este período cerca de 1.000.000 de pessoas, maioritariamente cidadãos do porto de todos os escalões etários e mais posicionados no quadrante superior em termos culturais e socioeconômicos. Chegou-me aos ouvidos recentemente que este triângulo é um portal de abdução / teleportação concebido por alguém para roubar ao Porto a sua elite cultural e transferi-la para outro local, onde estas pessoas são triadas e avaliadas. Os apenas ricos são liminarmente rejeitados e imediatamente devolvidos, com a memória algo apagada e um pouco atrasados. Aparecem a pedir um táxi para a Foz ou para Matosinhos, com uma ligeira amnésia e uma necessidade inexplicável de comprar arte contemporânea que não compreendem, compensando o vazio da rejeição. Dizem que voltam mais confusos mas este facto não tem tido grandes consequências porque aos ricos tudo se perdoa. As pessoas mais cultas ou com mais talento são instaladas à força nesse novo local através de aliciamento económico (todos gostamos de dinheiro), atribuição de habitação de alugueres controlados em zonas nobres do novo destino (os artistas / intelectuais não conseguem resistir a isto), nomeação para cargos públicos atrativos (adjuntos de secretários de estado, diretores de teatros públicos, adidos culturais, etc) e chantagens várias (todos temos esqueletos no armário), entre outras maneiras mais ou menos complicadas. A verdade é que esta aculturação forçada acaba por resultar e as pessoas raptadas acabam por não voltar ao Porto e transformam-se em vegetais, habitantes da sua nova cidade. Os vegetais chamam-se alfaces. A cidade chama-se Lisboa.

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